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6. Areal behandlet med plantevernmidler

6.10. Vårhvete

Dos sete “intérprete-criadores”, seis passaram, em algum ponto da vida pelo auto-questionamento: “Eu, bailarina/o?”. Uma ditadura de um corpo específico para dançar – mulher, fadinha, feminina, magrinha, meiga: uma “camiseta justinha”, em que muitos (a grande maioria) não cabem. Apesar do prazer pelo movimento, a dança não estava em questão como profissão ou caminho de vida.

E eu mesma também não me via como bailarina, eu era muito moleca. Tinha uma coisa assim, da própria dança... Então, pra mim sempre foi um lugar que parece que não combinava comigo. Porque como ela é dada, como ela é vista, ela sempre me criou essa (distância). Então eu movia meu corpo, pulava, tudo, mas eu não tinha ritmo [vozinha infantil, “feminina”, fina] Essa coisa, assim, de aprender coordenação. (ICg, grifos meus)

[...] dança era balé clássico e eu era muito mais agitada [...]; fui fazer ginástica olímpica, natação. (ICf, grifo meu)

[...] “caraca, é dança, vou ter que dançar”. Então fiz, eu tive que romper todos os padrões que eu tinha, porque a minha família é muito travada. (ICb, grifo meu)

Mas não me via como bailarina, porque era muito fora de normalidade [...] também era muito gordinha. (ICa, grifos meus)

Então, muito louco, eu demorei muito pra assumir que eu sou um bailarino. Muitos e muitos anos, na minha cabeça, eu não me inseria na dança, pra mim, internamente, a Companhia era meu grupo de teatro. (ICc, grifo meu)

Assim como os “bailarinos” pós-modernos dos anos 1960, revoltam-se contra a opressão do “corpo do bailarino”:

Só que como tinha uma ditadura desse corpo, nesse treinamento com a Luciana a gente malhava. Eu era meio gordinha, fazia mil regimes, parava de comer... aí engordava tudo de novo... Tinha uma pressão... rolava um físico de companhia [...] ela queria que ele tivesse um corpo do bailarino formado bailarino... ele começou a ficar louco, porque tudo que ele tinha de melhor não conseguia entrar e ele foi entrando naquela camisetinha justa que não cabia. (ICf, grifos meus)

Eu nunca me senti com corpo nem com personalidade pra balé de repertório [...] Eu não me sentia fadinha, eu não me sentia princesinha. E o corpo também, eu não me sentia leve. Não me sentia nesse mundo assim. O que me interessava era pé no chão, era outro tipo de expressão diferente, que falasse de outras coisas. (ICd, grifo meu)

Definem o mundo “tradicional da dança” como fechado, “opressor e preconceituoso”; muito mais do que o teatro. Relato de quem iniciou a carreira nos anos 1980 e continuava verdade para entrevistados que falavam da virada dos anos 1990 para 2000.

Com 16 anos, fazendo aula de DANÇA, porque eu comecei a capoeira com 14, mas acho que ai, aos 15, eu já comecei a fazer aula de dança contemporânea [...]. E fui fazendo tudo, até os 18 anos. Aula, porque com 17/18 anos, eu estreei no teatro mesmo. Porque a dança, ah, ela é mais preconceituosa mesmo... Então, apesar “deu” conhecer um monte de gente, ser amiga de um monte de gente que dançava um monte de gente muito legal [...] a galera era muito gente fina, como pessoa, todo mundo relax, livre sexualmente, ou aquela coisa de drogas [...], então era uma galera muito livre nesse sentido. Mas em termos conceituais de pensar a dança era uma coisa muito rígida tecnicamente... A técnica era pensada dentro do que era conhecido, que era o balé e a dança moderna e já tinha um pouco de noção de dança contemporânea, mas muito pouco ainda. (ICa, grifos meus)

A companhia terminou, porque a coreógrafa, a Denise, ela era contemporânea, mas tinha um pensamento clássico da coisa e acho que eles cansaram dessa rigidez. Eles fizeram uma reunião e TODOS os bailarinos saíram [...] Toda essa galera era da escola de opressão e de vida de bailarino que acabava com a pessoa, então você tinha que ter estômago pra lidar com a pessoa. Quem era um pouco mais esquentado, saiu logo, porque batia de frente (ICf, grifos meus)

Então, a descoberta do Contato Improvisação, em que “todos podem dançar”, acaba sendo um percurso emancipador, de sentir-se capaz de um tipo de expressão que lhes era tirado. Um exílio no mundo da dança – ou das danças. Terra do nunca, onde vivem Peter Pan e os meninos perdidos: território do tempo irreconciliável,

zona intensa de devires-criança. O “nunca” não como impossibilidade, mas como FORA; possibilidade da realização de ritornelos existenciais.

Quando eu encontrei com elas, mexeu de cara com esse lugar pra mim, que era um puta preconceito e tinha uma trava: EU, DANÇAR?!? E aí, foi lindo, porque elas me mostram essa possibilidade que “todo mundo pode dançar” com essa construção linda, maravilhosa e super sensível de você conhecer o seu corpo (ICg, grifo meu)

[...] é bem difícil pra mim a coisa da coreografia e o Contato me dava outra possibilidade de dança (ICb, grifo meu)

Aí eu vi eles se aquecendo e eu fiquei de BOCA ABERTA, assim, porque era uma coisa muito parecida com a capoeira e, ao mesmo tempo, muito diferente na intenção, não era luta, era suave, era cooperativo... aí depois eles dançaram no palco e eu lembro muito bem dessa performance, até hoje (o que é raro, eu sou ruim de memória) e lembro que eu A-do-rei...Era uma performance de Contato, com um requinte de pensamento de dança contemporânea, Aí eu olho pra isso e fiquei louca, comecei a chora, chorar Olhei e falei , “nossa, é isso que eu quero fazer”. (ICa, grifo meu)

Eu me considero assim, um pouco, a coisa do contato é a minha técnica, é o que me levou realmente; o Contato Improvisação foi a minha via de acesso, minha paixão, o que me levou... Foi o que me levou à dança, trabalho de consciência e de improvisação. (ICc, grifo meu)