3. Metode
3.6. Estimering
O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Como contaria ele o que lhe aconteceu, ou o que imagina, já que é sombra? Ele viu na vida algo muito grande, demasiado intolerável também, e a luta da vida com o que a ameaça [...] Trata-se sempre de liberar a vida lá onde ela é prisioneira, ou de tentar fazê- lo num combate incerto. (DELEUZE, 2007, p.222)
Perceber-se artista “é sempre meio um susto”, resume um dos entrevistados. Talvez se refira à dicotomia da excitação por se ver na berlinda, entre emprestar seu corpo para transformar-se em um “atleta bizarro de um atletismo do devir”, nas palavras de Deleuze (2007), e o temor pela “escolha de uma profissão tão incerta e disso ganhar a vida” (aspecto que exploro a seguir, no item 6.2).
Por terem visto na vida algo grande demais, “demais para qualquer um”, demais para eles, carregam a “marca discreta da morte”, como descreve Deleuze. Ao mesmo tempo, “esse algo é também a fonte ou o fôlego que os fazem viver através das doenças do vivido (o que Nietzsche chama de saúde)” (DELEUZE, 2007, 224, grifo meu).
[...] é sempre meio um susto, né. E eu comecei a fazer teatro com ele. E bem aquela coisa, morava com a pessoa, fazia baby sitter, tomava conta dos bebês enquanto eles tavam ensaiando e fui entrando, assim, nesse mundo de acompanhar. Era uma galera mais velha... Acompanhava os ensaios, meio de curtição. Ajudava na produção, mas não fazia nada em cena [...] Sei que a gente acabou ficando super amigos, e aí ele me chamou Comecei a trabalhar com ele, eu devia ter uns 17 ou 18 anos, nesse espetáculo que se chamava “Você tem uma caneta azul pra prova?” [...] Depois veio essa outra peça que chamava “Vidas Erradas”, escrevia texto, cenografia, dirigia... Nossa, era muito divertido, muito astral, muito inteligente, sabe? Eu acho que eu me vi artista já nesse espetáculo do Fernando Villar, já me senti artista [...]. (ICa, grifos meus)
O “pulo do gato” seria “em cena permitir o estado criativo”: uma pequena benção; um estado elevado da raça humana, “em comunhão com a vibração do
Universo”, quando se atinge um estado em que o “emocional fica mais inteligente”. Talvez seja essa a vidência que nos fala Deleuze (2007, p.222), no trecho citado acima, que tenta liberar a vida onde ela é prisioneira, quando se encontram
ritornelos existenciais e novos ritmos que podem abrir caminho (catalisar) para
novos territórios existenciais. O “emocional mais inteligente”, intuitivo, aberto a devires (alguém que se torna), poroso. A seguir, um belo trecho em que um dos artistas entrevistados nomeia, descreve e define esse “estado de benção”:
Porque o Contato te ensina isso: onde você ta com um ponto de contato, o seu peso vai escoar e você vai receber o apoio do planeta Terra. Mesmo essas palavras já são fortes, né, o “planeta Terra”, você já ta levando o teu conceito artístico par uma coisa “mística”... Quer dizer, por enquanto não é nem místico, a gente ainda ta falando de uma coisa de “pedrona de rocha” mesmo, na verdade. Mas é muito foda, você pode dizer “como é metido isso”, eu dançar com o planeta Terra. Mas, na verdade, você fala “que pena de quem não concebe o pensamento nessa dimensão grandiosa”, porque é isso mesmo, muito louco, aí que ta o tal “pulo do gato”, nesses pensamentos quânticos, da consciência cultural. Então, enfim, quando você ta fazendo um trabalho técnico e diz “gente, vamos fazer aquele carregamento”, você passa horas se divertindo, porque você sabe que, aparentemente é muito virtuoso, você ta entrando no campo do virtuoso, mas no fundo, a gente sabe que ta jogando com essa lei da física. É muito excitante: por que na verdade, o virtuoso é muito acessível, uma vez que você aceita esses novos conceitos. Mas também, você estar em cena e permitir um ESTADO DE CRIATIVO, e aí a gente ta falando de um estado muito elevado da raça humana, quando o ser humano se permite um estado criativo, não é comum [...] eu acho que um estado, e um ESTADO CRIATIVO, é uma Benção e uma pequena benção de você estar em comunhão com algo um pouco maior do que, mesmo, seu estado de 4 corpos. Eu acho que você entra em uma comunhão com a vibração do universo... Então a gente pode até falar disso, da vibração essencial... Então, de repente, eu entro na mesma vibração das moléculas da madeira, dessa cadeira... tudo bem isso pra mim também, super acredito e acho que isso é divino também. Mas então, tudo bem... acho também importante tentar explicar o que é um estado independente da palavra “Deus”. Acho que você dá uma ralada bem legal pra entrar em estado [...] [o Estado Criativo] pra mim, é quando você se sente mais amplo, você sente que você ta num bojo mais inchado, você ta com um emocional mais inteligente e tua alma – aí a gente ta falando de um corpo etéreo mesmo, que pode ser a leitura... Às vezes você sente uma onda de vibração no seu corpo e você pode dizer “sistema nervoso”. Sistema nervoso que ta gerando essa vibração, mas conforme você conhece mais da anatomia, você vai vendo que o sistema nervoso vibrar já é um efeito de uma vibração que você ta tendo. Tudo bem, você pode falar “emoção mais criação”... E esse estado, pra mim, já envolve uma coisa de alma mesmo, e, às vezes, eu gosto de considerar, acho importante, quero falar isso, a questão espiritual. (ICa, grifos meus)
Toda vez que eu to, é isso: espetáculos que, naquele dia, tudo contribuiu para não acontecer, e você com aquela fé: “nossa, vai ser o espetáculo que vai transformar”... E é. Transformar a sua vida, vindo de um velório, de uma grande alegria. O que for, dá um centramento. E pra mim, dá um sentido enorme de estar AQUI. Eu esqueço tudo. É uma sensação em que eu sinto muito plena, mesmo. (ICg, grifo meu)
Se o “estado criativo” é uma pequena benção, que pode libertar a vida onde ela é prisioneira, a escola de teatro, nas palavras de outro entrevistado, era um grande catalisador de energias. Ali, os “sedentos e famintos” vivem, alimentam-se e respiram de e para a arte.
Aí começou o que eu chamo o 2º estagio de formação – saí de todo esse movimento de teatro amador e entrei na EAD [...] foram 4 anos naquele processo e são 4 anos na EAD.E aí comecei a despirocar o cabeção, muito maravilhoso mesmo...só tenho boas lembranças e essa coisa...pra mim é muito forte essa coisa, eu morava mal pra caralho, república, vivia mudando [...] Pra mim, tinha essa coisa, tinha essa dificuldade, mas fazia uns bicos, produção de eventos, só que eu lembro dessa coisa, eu era muito envolvido com todo o ambiente da escola; minha turma era muito assim... Passava o dia todo lá, chegava às 2 da tarde, ficava lendo, fazendo cena, criando figurino, cenário... Então, pra mim, a EAD era muito uma coisa de CATALISADOR da energia... várias pessoas... porque no ano que eu entrei, tinham umas 800 pessoas prestando, e são 20 que entram; você dá uma peneirada boa. Então, independentemente de talento, são pessoas apaixonadas pelo teatro, dispostas, jovens, com energia e a gente passava nossos dias lá só fazendo isso, vivendo teatro, só vendo, pensando, respirando teatro. (ICc, grifos meus)