6. UV measurements and levels
6.1 UV measurements in 2013
Partindo dos conceitos de «campo literário» de Pierre Bourdieu e de «economia- mundo» de Fernand Braudel, que defendia que para dar conta da globalidade e da interdependência dos fenómenos devemos adoptar a escala mundial, Casanova desenvolveu a ideia de um «espaço mundial das letras» (e com isso estendeu a análise de Bourdieu, originalmente limitada ao caso francês), ou seja, do espaço literário como uma realidade global.195 Quer isso dizer que as literaturas nacionais devem ser pensadas tendo em atenção, não só as variáveis específicas a cada espaço literário, mas também a posição que ocupam na correspondente estrutura mundial, cujos efeitos se fazem sentir, naturalmente, nas literaturas nacionais e nos seus respectivos escritores.196 Só percebendo a natureza dessas posições é que as práticas e tradições adquirem verdadeiramente sentido. E isso é verdade, em particular, nos meios intelectuais, cujos actores são dos mais activos no intercâmbio cultural entre diferentes países. De facto, a actividade literária de uma nação não se define unicamente através da sua relação com a sociedade e cultura próprias, mas também, de uma maneira mais ampla, da sua relação com as características e os debates intelectuais das distintas culturas (daí a recorrência dos fenómenos de transferência e imitação). Os territórios que constituem cada espaço literário são independentes dos traçados políticos e as suas fronteiras não coincidem com as fronteiras nacionais. Assim se explica a incapacidade do critério da divisão nacional entre literaturas para apreender os diferentes recursos que circulam no espaço mundial, a sua distribuição desigual e, consequentemente, as relações internacionais de dominação e subordinação literária (que aliás podem existir sem que isso traduza qualquer opressão ou subjugação a nível político, o que ao mesmo tempo funciona como indicador da autonomia relativa da esfera literária). Esse espaço literário mundial define-se, segundo Casanova, como um complexo hierárquico global de literaturas nacionais, um espaço dividido pela competição entre literaturas nacionais, que visam conquistar o máximo possível de poder, e unificado pelos movimentos transnacionais e translinguísticos que essa competição engendra.
195 Pascale Casanova, La República mundial de las Letras, Barcelona, Anagrama, 2001 (edição original
de 1999, Paris, Éditions du Seuil, La République mondiale des Lettres).
196 É curioso constatar que Fernando Pessoa, já no início do século XX, defendia algo parecido. Depois de
ler o inquérito literário organizado pelo jornalista Boavida Portugal nas páginas do jornal República (Setembro-Dezembro de 1912), Pessoa reagiu à posição de Adolfo Coelho dizendo o seguinte: «num inquérito à nossa vida literária há a estudar: 1 – o meio social em que esse movimento literário se dá; 2 – o meio europeu literário com que esse movimento está em relação; 3 – o meio literário passado, nacional e estrangeiro, que serve de tradição ao movimento literário», em Fernando Pessoa, Correspondência
O estudo sociológico da literatura deverá pois incluir entre os seus instrumentos interpretativos ou os seus factores explicativos esta dimensão das relações de poder e de concorrência entre literaturas nacionais, desde logo porque ela tem, indubitavelmente, um impacto nas trajectórias dos escritores, na produção dos textos e nos mecanismos de consagração. Para se perceber plenamente as revoluções nacionais e literárias que se estenderam um pouco por toda a Europa do século XIX, é necessário adoptar uma perspectiva global como esta.
Remetendo-nos para esse período, tomamos consciência da dificuldade de discutir a literatura abstraindo-nos das suas condições nacionais de existência. Ao se distinguirem uns dos outros, isto é, ao afirmarem as suas diferenças mediante rivalidades e lutas – lutas, em grande medida, entre línguas e literaturas rivais, os grandes «marcadores» de diferença e os grandes instrumentos que permitiam às nações «explicar-se» e «justificar-se» –, os Estados europeus foram nascendo e integrando-se no campo político internacional. O nascimento da literatura como campo semi- autónomo decorreu, assim, de um processo paradoxal, que se inscreve na própria história política dos Estados; ou seja, a autonomização da literatura fez-se inicialmente com a autonomia política e não contra ela: a conquista da liberdade dos espaços literários nacionais obteve-se a partir da autonomia conquistada por cada âmbito político nacional (como aconteceu aliás nos processos de descolonização, o que questiona o fundamento da tese de Bourdieu sobre a autonomia em maus lençóis).197 Só depois a literatura se foi despolitizando e libertando da sua ligação original às instituições nacionais que tinham contribuído para a instituir e legitimar. Temos assim um triplo movimento: primeiro, o acesso de diversas partes do mundo à independência nacional, onde foi crucial a instrumentalização da literatura, e sua entrada no espaço mundial; segundo, emancipação literária face às imposições políticas; terceiro, criação de um campo literário internacional definido pela competição entre as diferentes literaturas nacionais. Ora, tendo em conta que as histórias nacionais não são apenas diferentes mas também desiguais (e rivais), os recursos literários, sempre marcados pelo selo da nação, são igualmente desiguais e repartem-se desigualmente entre os universos nacionais. Os efeitos desta estrutura pesam sobre as literaturas nacionais e, em particular, sobre os escritores, pelo que as práticas e as tradições, as formas e as
197 Veja-se, em particular, o texto de Denis Saint-Jacques sobre o Canadá em Alain Viala e Denis Saint-
Jacques, «A propos do champ littéraire, histoire, géographie, histoire littéraire», Annalles HSS, 49e année, nº 2, 1994, pp. 395-406.
estéticas vigentes numa determinada nação literária só conseguem adquirir o seu sentido genuíno à luz da posição que esse espaço literário nacional ocupa na estrutura mundial, ou seja, a configuração das literaturas nacionais não é independente das hierarquias do universo literário mundial.
Deste modo, toda a história do espaço literário mundial, tanto no seu conjunto como no interior de cada espaço nacional que o compõe, caracteriza-se por uma dependência inicial relativamente à política nacional, só depois sendo seguida por um processo de autonomização (que não anula completamente essa sua dependência original). De uma forma geral, as novas nações independentes, obedecendo aos mesmos mecanismos político-culturais, formularam reivindicações linguísticas, culturais e literárias, tornando as ideias de nação e de literatura inseparáveis. A Nação apropriou-se dos textos criativos – para através deles engendrar uma cultura e um sentido de unidade nacionais, ou seja, para construir uma identidade colectiva, por isso os institucionalizou nos programas de ensino e assim se formaram os cânones – e a literatura apropriou-se da Nação. Uma e outra reforçaram-se e consolidaram-se mutuamente.