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5. FOLKEMORDET I BOSNIA-HERZEGOVINA

5.3 Utviklingen i lys av politisk kulturteori

Para relatar fielmente a fauna e a flora das terras paraguayenses, Montoya utilizou o modelo de discurso elaborado por José de Acosta902, para ampliar o seu

897

“Carta de Antonio Ruiz de Montoya ao Provincial, onde relata a conversão de Guiravera”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias…, (Volume II), 1900, pp. 300-301.

898

“Carta a un jesuita”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias…, (Volume IV), 1900, p. 46.

899

“Carta ao Padre Diego de Boroa. Lima, 1651”, In: HERNANDEZ, Un jesuita misionario..., 1912, p. 75.

900

RUIZ DE MONTOYA, Sílex..., 1991, p. 126.

901

HARTOG, O espelho de Heródoto, 1999, p. 49.

902

Segundo Acosta em seu livro Historia Natvral y Moral de las Indias (1590), o demônio teria sido afugentado da Europa e estava refugiado na América, aproveitando-se da pureza da alma dos índios para ser adorado como Deus verdadeiro. A comprovação de que o diabo se escondia nas matas, eram os deuses da natureza. Esta seria a forma eficaz que o diabo havia encontrado para viver no

domínio argumentativo acerca da natureza que o cercava. As representações montoyanas estariam, desta maneira, inseridas dentro de uma conjuntura histórica onde “a natureza oscila entre o Éden e o inferno, ora ordenada por um Deus implacável, ora submetida às vaidades de um Diabo invejoso”903. Compreender que esta visão de mundo, pertencente ao modo de pensar dos europeus que chegaram ao solo americano, permeia o pensamento904 montoyano auxilia no entendimento das representações que estão ligadas a ele.

O testemunho de quem viu e, sobretudo, de quem ouviu é a principal forma de credibilidade ao que está sendo relatado. A constante presença sobrenatural nas terras americanas permeou o imaginário daqueles que ouviam as histórias sobre terras fantásticas, onde o diabo havia se escondido. Consequentemente, esta forma de perceber o mundo fazia com que surgissem representações, para quem está lendo o que é relatado, sobre este cenário, descrevendo-o de duas maneiras distintas: ou se tratava de um lugar endênico, onde homens bons e de alma pura precisavam ser salvos das tentações; ou era uma “terra maldita”, habitada pelo demônio e seus acólitos, dispostos a defendê-la a todo o custo905. A natureza seria, portanto, o cenário ideal para a luta entre o céu e o inferno. Esta luta estaria manifestada ou em representações sobre a natureza divina que se rebelava conta os pecadores, ou uma natureza constantemente manipulada pelo demônio, visando enfraquecer a fé dos neófitos e expulsar os missionários do seu território906.

Tal observação permaneceria e auxiliaria a construir o primeiro tipo de discurso montoyano, onde estes dois tipos de cenário (Éden e terra maldita) foram estabelecidos como forma de criar um panorama acerca dos indígenas, a respeito dos acidentes geográficos da Província do Paraguay e sobre os animais paraguayenses e limeños. Ruiz de Montoya relatava as dificuldades que deveriam ser transpostas para difundir o Evangelho e expulsar o diabo das terras selvagens907. As imagens descritas, ao longo de sua vida, passam a constituir e

paraíso sem ser reconhecido. Como invasor do novo Éden, o demônio estaria sempre disposto a trazer dificuldades e impedir os avanços religiosos nas terras americanas. Caberia ao missionário, livrar os índios do engano e enfrentar os perigos que o cercavam, para retomar a “divinidade” do solo selvagem (ACOSTA, Historia Natvral y Moral de las Indias..., 1590).

903

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 30.

904

LE GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 45.

905

HOLLANDA, Visões do Paraíso, 1969, p. 20.

906

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 36.

907

efetivar uma clara representação, relativa à região do Paraguay, na imaginação de quem as estava lendo ou ouvindo908.

O relato elaborado por Montoya tratava sobre os acidentes geográficos e os animais, que conjutamente formavam dois elementos narrativos importantes. Nos cenários, as dificuldades de travessia de serras, campos e montes foram enfatizadas como provações divinas impostas aos missionários. Montoya descreveu as terras paraguayenses como “montuofa, y agria”909, que, para atravessá-las, era necessário passar através de rios ou a pé.

Os rios, mesmo sendo considerados trajetos perigosos, eram vistos como o principal meio de transporte para trafegar pela região, formada por um abundante número de rotas fluviais910. Dentre os principais, destacavam-se os rios Paranapanema, Paraná, Ivaí, Pirapó, Piquirí, Tibagi e, o que servia para denominar a região: Paraguay que “quiere dezir, rio Paragua, Corona de plumas [...] rio Coronado”911. Era um rio descrito por Montoya como “caudalofo, y ancho”912. Atravessar as longas distâncias que separavam as reducciones era uma aventura. A opção pelo uso dos barcos era abandonada apenas nos casos de rios violentos ou de difícil travessia. Nestes casos, a opção encontrada era a de seguir a pé pela selva913.

O relevo planaltino subdividido nas regiões das nascentes dos rios Iguaçu, Tibagi e Ivaí, dava à região guayreña um aspecto serrano914. Toda a região era formada por terrenos ásperos e pedregosos, onde alguém poderia se perder e ficar perdido durante dias. Nas transposições destes longos trechos “por pantanos, y afperos caminhos”915 a pé era observado por Montoya que se tratava de um lugar muito perigoso comparável ao Limbo. Nestes caminhos, as reclamações sobre as dificuldades para respirar, conseguir água e pelas “cañas que corton como navajas”916 são recorrentes nas cartas montoyanas.

908

FERNANDES, Eunícia Barros. Fernão Cardim: a epistolografia jesuítica e a construção do outro.

Revista Tempo, v. 14, nº 27, 2009, p. 197. 909

RUIZ DE MONTOYA, Conqvista espiritval..., 1639, f. 6v [§ VI].

910

OLIVEIRA, Oséias de. Índios e jesuítas no Guairá: a redução como espaço de reinterpretação cultural (século XVII). Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista, Assis, 2003, p.50.

911

RUIZ DE MONTOYA, Conqvista espiritval..., 1639, f. 4r [§ III].

912

Idem.

913

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, pp. 41-42.

914

OLIVEIRA, Índios e jesuítas no Guairá, 2003, p.52.

915

“Carta Ânua do Padre Nicolau Durán...”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 229-230.

916

Ruiz de Montoya, apesar de todos os empecilhos, transparece qualquer tipo de medo ou abalo nos seus objetivos de apostolado. Pelo contrário, via nas chagas impostas pelo caminho ou nos perigos de morte como “la continua memoria [...] de Gesu Christo” 917. Seu relato demonstra que quanto mais hostis fossem os caminhos que deveriam ser transpostos918, maior seria a sua fé para lutar e vencer estas barreiras.

O segundo tipo de registro montoyano seria referente à fauna paraguayense e limeña. O relato ampliaria a distinção existente entre os animais perniciosos ou não, para elevá-los a categorias de divinização ou diabolização do ambiente919. O primeiro conjunto de animais observados por Ruiz de Montoya seriam os diabólicos. Estes animais estavam destinados e levar o homem à sua condenação eterna. Dentro deste grupo foram colocadas as cobras, as víboras, os veados e os tigres (que seriam as onças, também conhecidas como jaguares).

As cobras e víboras são criaturas descritas como monstruosas e possuidoras da pertinácia de enganar os homens, levando-os a se entregarem aos vícios e pecados. Sobre esta questão, Montoya criou uma metáfora sobre a capacidade humana de ser enganado pelos vícios, utilizando-se de uma cena presenciada por ele envolvendo cobras e peixes. As cobras (o pecado) seriam responsáveis pelo ataque a uma multidão de peixinhos (os homens). Os peixinhos indefesos, sendo facilmente ludibriados, seguiam “con gusto lo que ha de ser causa de su muerte”920. Assim como os homens se entregavam as tentações, matando a própria alma; os peixinhos, “aunque con temor huyeron del peligro, al instante les hizo olvidar de él el gustillo del venenoso licor, que la serpiente con astuta presteza les ministra”921.

Outros animais que possuíam má fama seriam os veados e os sapos, pois, simbolizariam a morte de quem os encontrasse. Ruiz de Montoya afirmava que a sua experiência atestava a maldade inerente a estes animais demoníacos que representavam os vícios e pecados mortais922. A comprovação, para Montoya,

917

“Carta Ânua do Padre Nicolau Durán...”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, p. 231.

918

FLECK, Eliane Deckmann; FANTIN, Odair José. “Para enumerar, glosar y dar testimonio de los actos de heróica virtude en los caminos”: um estudo sobre as rotas e os protagonistas das missões de evangelização (Província Jesuítica do Paraguai, século XVII). Revista Ultramares – Dossiê, nº 1, vol. 1, jan.-jul./2012, p. 59.

919

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 42.

920

RUIZ DE MONTOYA, Sílex..., 1991, p. 36.

921

Idem.

922

LEXICON, Herder. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Editora Pensamento – Cultrix Ltda., 1990, p. 179.

estava na observação de que os veados eram anunciadores de desgraças, enquanto os sapos eram animais envolvidos nas feitiçarias. O medo causado nos indígenas, por estes animais, era o principal meio pelo qual o diabo dominava a região paraguayense923.

Os tigres eram o símbolo da ferocidade, da ambivalência e da força daquelas terras da Província do Paraguay. Sua paradoxalidade era a representação de que aquela natureza foi habitada pelas forças divinas e demoníacas. Estes animais, segundo Montoya, sempre buscavam a pior carne924. Consequentemente, em alguns casos, a sua natureza se manifestaria para castigar a infidelidade dos índios. Ao mesmo tempo, os tigres por possuírem dentro de si a maldade, acabariam sendo comparados aos bandeirantes e aos indígenas comedores de carne humana. Porque significavam o perigo das forças incontroláveis da animalidade humana925.

De contrapartida, os animais bons causavam admiração em quem os visse926. Animais como os macacos, os pássaros e as abelhas, eram responsáveis pela edenização do continente americano, sobretudo, nas terras paraguayenses e limeñas.

Com uma metáfora acerca da vitória do lado divino sobre a animalidade humana, os macacos eram dotados de uma civilidade que os possibilitava fazer conjecturas sobre a criação divina e os seus mistérios. Nestas reuniões, conforme Montoya, macacos de diferentes espécies se aglomeravam em árvores para ouvir com respeito ao sermão diário feito por um macaco de tamanho maior.

O macaco catecista fazia o sermão durante uma hora, iniciando com um tom baixo para depois começar a elevar a voz, exaltando os mistérios da criação. O macaco evangelista, acompanhado por um macaquinho sacristão, quando começava a falar “en su lenguaje a los oyentes”, estes se mantinham “con admirable atención y silencio” respeitoso, “perdiendo por espacio de cuarto y medio o media hora la inquietud común de su naturaleza”927.

Normatizados e civilizados, os macacos montoyanos ouviam atentamente o sermão até o seu término. Após as considerações finais, retornavam aos seus hábitos costumeiros “saltando y brincando por las ramas acude cada cual a buscar

923

RUIZ DE MONTOYA, Conqvista espiritval..., 1639, f. 14r [§ X].

924

Idem, f. 4r [§ III].

925

LEXICON, Dicionário de Símbolos, 1990, p. 191.

926

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 42.

927

su natural sustento”928. Ruiz de Montoya, neste ponto do Sílex, afirma para Castillo que estes animais eram muito mais cristãos que determinados homens que optavam por uma vida obscurecida pelos pecados capitais (vaidade, luxúria e avareza)929.

As aves, de modo geral, eram a comprovação de que o solo americano era paradisíaco. A “generación volátil”930, criada por Deus, representava a personificação do imaterial, sobretudo a alma que seria salva931. Com penas coloridas e habilidades sonoras932, embelezavam os céus e causavam reflexão sobre a sabedoria empregada nos seres criados por Deus. Montoya descrevia, principalmente, os pássaros como animais dotados de uma sabedoria ímpar, evitando sempre contato com os seus inimigos. Eram percebidos como intermediadores entre o céu e a terra. Tal questão era enfatizada como um exemplo que deveria ser seguido pelos homens para o seu crescimento espiritual.

No entanto, nenhum animal causou tanta admiração em Ruiz de Montoya quando as abelhas. Símbolos da conduta límpia, da pureza e magnificente933, as abelhas representavam a virtude divina. Estes animais foram descritos por Montoya como detentores das mais diversas habilidades. Distantes da selvageria e de toda a imundície, pertencente à barbárie934, as abelhas empregavam o seu tempo em jornadas de trabalho. Perfeccionistas, fabricavam vasos, carregavam pesos com “un casi racional instinto”935 e produziam invólucros para descartarem os restos do seu trabalho e excrementos.

Organizadas, formavam grupos que trabalhavam com uniformidade, sendo comparadas com pequenos escultores ou pintores, que observavam atentamente as pequenas falhas da sua obra de arte para consertá-la com perfeição936. As artistas viviam em clausura e recolhimento, devendo ser observadas por esta característica. Sua casa era organizada e funcionava com horários estabelecidos "con racional juicio”937. As abelhas deveriam ser observadas e admiradas por viverem do seu próprio ofício. Eram descritas por Montoya como verdadeiros exemplos aos quais os

928

RUIZ DE MONTOYA, Sílex..., 1991, p. 36.

929

LEXICON, Dicionário de Símbolos, 1990, p. 131.

930

RUIZ DE MONTOYA, Sílex..., 1991, pp. 37-38.

931

LEXICON, Dicionário de Símbolos, 1990, p. 154.

932

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 42.

933

LEXICON, Dicionário de Símbolos, 1990, p. 9.

934

BAPTISTA, Jesuítas e Guarani na Pastoral do Medo, 2004, p. 51.

935

RUIZ DE MONTOYA, Sílex..., 1991, p. 32.

936

Idem.

937

homens deveriam se inspirar, por evitarem situações impuras e contemplarem a beleza da criação enquanto estavam trabalhando.

Toda esta fauna e flora, regida por Deus e invadida pelo diabo, era iluminada pelo sol, “que a la vista parece tan pequeño como um plato de oro” 938. Causando medo e contemplação a última das regiões da terra939 serviu como cenário para Montoya narrar a sua história.