• No results found

4. JUGOSLAVIAS VOLDELIGE SAMMENBRUDD

4.2 Sammenbruddets faktorer

O Sílex de el el diuino amor foi, durante muitos anos, considerado como um livro perdido e inédito, sendo apenas encontradas algumas referências sobre ele nas biografias de Francisco del Castillo e na do próprio Antonio Ruiz de Montoya1169. No final dos anos 1980 e início da década de 1990, este manuscrito foi encontrado por José Luis Rouillon Arróspide, no Archivo do Arzobispal de Lima, tendo a sua primeira edição impressa em 1991. Através da profunda experiência contemplativa da presença divina, Montoya descreveu um verdadeiro magistério espiritual para auxiliar Francisco del Castillo1170 nas práticas de oração, fervor da devoção e,

1166

Essa menção as cores verde e vermelha, está baseada em Certeau, quando ele trata sobre como as “imagens” transitam nos livros e a forma que o leitor percebe os selvagens relatados ao longo de qualquer narrativa histórica do período colonial (CERTEAU, A Escrita da história, 1982, p.230).

1167

“O sentido tradicional do têrmo decorre da sua etimologia grega (khronos = tempo): é o relato dos acontecimentos em ordem cronológica. [...] Foi o feitio que assumiu a historiografia particularmente na Idade Média e Renascimento, em tôdas as partes da Europa, a principio em latim e depois nas diversas línguas vulgares. [...] Foi êsse o sentido que prevaleceu nos vários idiomas europeus modernos, menos o português, até hoje. Em inglês, espanhol, francês, italiano, a palavra só tem êsse sentido: crônica é um gênero histórico” (COUTINHO, Afrânio. Antologia brasileira de literatura. Volume III. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editôra Letras e Artes Ltda, 1967, p. 95).

1168

RUIZ DE MONTOYA, Conqvista Espiritval..., 1639, 24v [§ XVIII].

1169

SOMMERVOGEL, Bibliothèque... (Tome VII), 1896, p. 322. De fato, Carlos Sommervogel tinha razão ao dizer que se tratava de um livro inédito, tanto que a edição publicada por José Luis Rouillon Arróspide se trata do “livro de borrão”, pois, a versão final do Sílex teria sido jogada no mar da Espanha. Existem outras duas versões manuscritas: uma se encontra na Lilly Library (Indiana University, United States of America) e outra que estava sob a posse da senhora Inés Urioste de Ceriani de Montevideo, que coincide com o manuscrito utilizado por Rouillon Arróspide (ROUILLON ARRÓSPIDE, Introdución, 1991, p. CXV). A única edição impressa do Sílex é a de 1991 que utilizamos na dissertação.

1170

“Pidióme esta persona Le diese unos ejercicios de oración y devoción para crecer en virtud. Díselos y dejélo bien instruído. Rogóme más, que ya que volvia á esa provincia, le dejase algunos saludables documentos para el mismo fin. Hallábame entonces en una chácara bien retirada, donde no taltaba que hacer en doctrinar á los indios y negros y en decir misa y sacramentar á los hermanos. Desde aqui se acudió, ni sin algún trabajo, á solicitar los negocios. Pensé escribir algún pliego de papel destos puntos; pero hallándome con la pluma en la mano y con el espíritu delante del Santísimo Sacramento de la iglesia del Callao, que dista de la chácara dos leguas, pirdiendo á Nuestro Señor luz para acertar, se me ofrecieron algunos opúsculos, enderezados á entablar su divina presencia, no ya fundada en fuerza de imaginación ó consideraciones, sino en un acto de viva fe. A este librito llamé Sílex del divino amor, dedicado á la incomprensible Majestad de Dios Trino y Uno, criador del

principalmente, no crescrimento das virtudes evangelicas1171. A faísca do fogo ardente, oriundo da presença contínua de Deus, luz viva que orientava a sua vida apostólica, lhe foi ensinada pelo índio Ignacio de Pirayci, da reducción de Nuestra Señora de Loreto, e pela senhora Luisa de Melgarejo, de quem foi confessor.

Ruiz de Montoya escreveu o Sílex em uma chácara perto do Porto de Callao, aproximadamente no ano de 1650, utilizando-se do método de diálogo entre mestre e discípulo. Podemos observar, neste debate espiritual, frases que enfatizam a meditação e a contemplação destes homens de fé1172. Desta forma, trilham juntos o árduo caminho em busca de Deus, que é a Primeira Causa e é o “divino y celestial Padre”1173. Para tanto, Montoya se utiliza de passagens autobiográficas, presentes também na Conqvista e nas cartas, onde demonstra todo o conhecimento teológico- filosófico adquirido enquanto estava em Madrid. Este amadurecimento pessoal e intelectual transparece quando o missionário trata sobre a presença de Deus através da filosofia tardo-medieval, embasando o seu argumento com a utilização de autores como: Juan Eusébio de Nieremberg; Diego Alvarez de Paz1174; Seudo-Dionísio Areopagita1175; Hugo de San Víctor1176; os místicos renano-flamencos; San Juan de la Cruz1177; Fray Luis de Granada1178; San Juan de Avila1179; Juan de Alloza1180;

Universo” (“Carta do Padre Antonio Ruiz de Montoya ao Padre Provincial”, In: JARQUE, Ruiz de

Montoya en Indias... (Volume IV), 1900, pp. 152-153). 1171

AGUILAR, Conquista Espiritual..., 2002, p. 404.

1172

ROUILLON ARRÓSPIDE, Introdución, 1991, p. LV.

1173

RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp. 6-7.

1174

Diego Alvarez de Paz nasceu em 1561, na cidade de Toledo (Espanha); morreu em 17 de janeiro de 1620, em Potosí (Bolívia). Ingressou na Companhia de Jesus, no dia 24 de janeiro de 1578, em Toledo; foi ordenado em 1585, em Lima (Perú), fez os últimos votos em 5 de junho de 1594, em Lima (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume I), 2001, p. 94).

1175

Foi convertido ao cristianismo por São Paulo e, de acordo com Dionísio de Corinto, ele foi bispo de Atenas (STIGLMAYR, Joseph. Dionysius the Pseudo-Areopagite, In: THE CATHOLIC

Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/05013a.htm. Acesso em 20 de

setembro de 2012).

1176

Hugo de San Victor nasceu no ano de 1096, em Hartingham (Saxônia); morreu em 11 de março de 1141. Foi filósofo medieval, teólogo e escritor (MYERS, Edward. Hugh of Saint Victor, In: THE

CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/07521c.htm. Acesso em

20 de setembro de 2012).

1177

San Juan de la Cruz nasceu em 24 de junho de 1542, em Hontoveros (Castela, Espanha); morreu em 14 de dezembro de 1591, em Ubeda (Andaluzia, Espanha). Místico fundador junto com Santa Teresa da Ordem dos Carmelitas Descalços ZIMMERMAN, Bento. Saint John of the Cross, In: THE

CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/08480a.htm. Acesso em

24 de setembro de 2012).

1178

Luis de Granada nasceu em 1505, em Granada (Espanha); morreu em 31 de dezembro de 1588, em Lisboa (Portugal). Ingressou na Ordo Prædicatorum (Ordem Dominicana), no convento de Santa Cruz (O’CONNOR. Venerable Louis of Granada, In: THE CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/09385b.htm. Acesso em 24 de setembro de 2012)

1179

Juan de Avila nasceu em 06 de janeiro de 1500, em Almodóvar del Campo (Toledo, Espanha); morreu em 10 de maio de 1569, em Montilla (Espanha), (SMITH, Ignatius. Bl. John of Avila, In: THE

Santa Teresa1181; Casiano1182; San Agustín1183; San Bernardo1184; Francisco de Osuna1185, Marina Escobar1186 e Luis de la Puente1187 (todos por influência de Nieremberg); Leonardo Lesio1188; Gregório López1189; Fray Juan de los Angeles1190;

CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/08469a. htm. Acesso

em 24 de setembro de 2012)

1180

Juan de Alloza nasceu em maio de 1597, na cidade de Lima (Perú); morreu em 6 de novembro de 1666, em Lima. Ingressou na Companhia de Jesus, no dia 15 de abril de 1618, em Lima; foi ordenado em 1626, na cidade de Trujillo (La Libertad, Perú), fez os últimos votos em 27 de setembro de 1636, em Ayacucho (Perú), (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume I), 2001, p. 79).

1181

Teresa Sanchez Cepeda Davila y Ahumada nasceu em 28 de março de 1515, em Ávila (Castela, Espanha); morreu em 4 de outubro de 1582, em Alba de Tormes (Espanha), (ZIMMERMAN, Benedict. Saint Teresa of Avila, In: THE CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www. newadvent.org/cathen/14515b.htm. Acesso em 24 de setembro de 2012)

1182

João Cassiano nasceu em 360 e morreu no ano de 435. Cassiano foi um dos teólogos católicos que iniciaram o monarquismo ocidental. Passou vários anos entre os monges do Egito, até seguir para a Itália, onde foi ordenado presbítero em Roma. Após a sua ordenação, Cassiano se mudou para a região da Marselha, em 415, onde permaneceu até a sua morte. Graças à sua atividade o monarquismo se difundiu na Gália e na Espanha (SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto.

Líderes Religiosos da Humandade. Tomo I. São Paulo: Edições Paulinas, 1986, p. 279). 1183

Aurelius Augustinus nasceu em 13 de novembro de 354, em Tagaste (Numídia); morreu em 29 de agosto de 430, em Hipona. Ao abandonar o maniqueísmo passou a viver uma vida monástica; foi ordenado sacerdote e, posteriormente, bispo de Hipona, no ano de 396 (SOUSA, Mauro Araujo. Perfil biográfico: Santo Agostinho (354-430), In: SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Martin Claret, 2008, pp. 411-425)

1184

Bernard de Clairvaux (ou de Fontaine) nasceu em 1090, na cidade de Fontaine-lès-Dijon (Borgonha, França); morreu em 20 de agosto de 1153, em Clairvaux (Aube, França). Foi monge cisterciense e abade de Claraval (GILDAS, Marie. Saint Bernard of Clairvaux, In: THE CATHOLIC

Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/02498d.htm. Acesso em 24 de

setembro de 2012)

1185

Francisco de Osuna foi religioso da Ordem dos Frades Menores. Este padre espanhol era especialista na escrita de obras com a temática ascético-mística (SCHLESINGER e PORTO, Líderes

Religiosos da Humandade, Tomo II, 1986, p. 1032). 1186

Marina Escobar nasceu em 8 de fevereiro de 1554, na cidade de Valladolid (Espanha); morreu em 9 de junho de 1633, em Valladolid. Foi mística e fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador (conhecida como Ordem de Santa Brígida), (GRAHAM, Edward. Venerable Marina de Escobar, In:

THE CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/055 34a.htm.

Acesso em 24 de setembro de 2012)

1187

Luis de la Puente nasceu em 11 novembro de 1534, na cidade de Valladolid (Espanha); morreu em 16 de fevereiro de 1624, em Valladolid. Ingressou na Companhia de Jesus, no dia 2 de dezembro de 1574, em Medina del Campo (Valladolid, Espanha); foi ordenado 19 de março de 1580, em Valladolid, fez os últimos votos em 24 de janeiro de 1593, em Medina del Campo (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume III), 2001, p. 2244).

1188

Leanert Leys (Leonardus Lessius ou Leonardo Lessio) nasceu em 1 de outubro de 1554, Brecht (Amberes, Bélgica); morreu em 15 de janeiro de 1623, em Lovaina (Brabante, Bélgica). Ingressou na Companhia de Jesus em 26 de junho de 1572, em Lovaina; ordenado em 15 de abril de 1582, provavelmente em Lovaina; fez os últimos votos, em 10 de abril de 1590, em Lovaina (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume III), 2001, p. 2336).

1189

Gregório Lopes nasceu no ano de 1552, na cidade de Linhares (Celorico da Beira, Portugal); morreu em 1596. Sem ser sacerdote, este anacoreta, foi diretor espiritual de clérigos e leigos. A sua reconhecida espiritualidade é vista como um dos princípios que auxiliou no quietismo (SCHLESINGER e PORTO, Líderes Religiosos da Humandade, Tomo II, 1986, p. 815).

1190

Juan Martinez nasceu no ano de 1536, em Corchuela (Toledo, Espanha) e morreu no ano de 1609, em Madrid (Espanha). Foi escritor místico e frade franciscano (CASTRO, Manuel. Juan de los Angeles, In: ALDEA VAQUERO, Quintín; MARTÍNEZ MARÍN, Tomás; VIVES, José (dir.). Diccionario

de Historia Eclesiástica de España. Tomo II. Madrid: Instituto Enrique Flórez, Consejo Superior de

San Boaventura1191; San Gregório Magno; San Tomás de Aquino1192; San Ignacio de Loyola; além de inúmeras citações bíblicas1193. Estes diferentes textos, “muchas veces no citados, crecen o se concentran, creando más uma atmosfera conocida que presencias concretas”1194. Ao ser finalizado o manuscrito foi remetido ao provincial de Lima, padre Francisco de Contreras1195, e aos mestres em Teologia. Considerado como um trabalho digno de publicação foi enviado para a obtenção da do Nihil obstat quominus imprimatur do Padre Geral. Ao adquirir também esta aprovação, o manuscrito foi remetido a Sevilla, onde deveria ser impresso1196. Todavia, isso não ocorreu1197.

1191

São Boaventura nasceu no ano de 1221, em Bagnorea (Viterbo, Itália); morreu em 16 de julho de 1274, em Lyon (França). Foi Ministro Geral dos Frades Menores e Cardeal-Bispo de Albano (ROBINSON, Paschal. Saint Bonaventure, In: THE CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/02648c.htm. Acesso em 24 de setembro de 2012)

1192

São Tomás de Aquino nasceu no ano de 1225, em Rocca Secca (Reino de Nápoles); morreu em 7 de março de 1274, em Fossa Nova. Ficou conhecido como Doutor Angélico, era filósofo e teólogo. Sua filosofia influenciou a Companhia de Jesus (KENNEDY, Daniel. Saint Thomas Aquinas, In: THE

CATHOLIC Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/14663b.htm. Acesso em

24 de setembro de 2012).

1193

Como não é o foco da nossa pesquisa discutir as influências de cada um destes autores na escrita do Sílex, remetemos ao artigo escrito por Carlos Alberto González e a introdução escrita para o Sílex por José Luis Rouillón Arróspide (GONZÁLEZ, Carlos Alberto. El Sílex del divino amor, de Antonio Ruiz de Montoya: el testemonio místico de un misionero entre los guaraníes. Teología, 75, 2000/1, pp. 32-43; ROUILLON ARRÓSPIDE, Introdución, 1991, pp. LXXXIX-CXIII). Ambos os autores fazem estudos acurados sobre as obras destes autores e como elas se inserem na narrativa mística montoyana.

1194

ROUILLON ARRÓSPIDE, Introdución, 1991, pp. XCIII.

1195

Francisco de Contreras Ulloa nasceu em 1577, La Paz (Bolívia); morreu em 9 de julho de 1654, em Lima (Perú). Ingressou na Companhia de Jesus em 2 de fevereiro de 1595, na cidade de Lima; ordenado em 1603, em Lima; fez os últimos votos, no dia 4 de março de 1612, em Lima. Foi Superior da Companhia de Jesus na Vice-Província do Perú (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume I), 2001, p. 936).

1196

“Proseguí y acabe la obrilla con algún provecho mío; pero como yo soy la misma ignorancia en abstracto y concreto, antes de entregarla á la persona que me la pidió, la dí al Padre Francisco de Contreras, y otros maestros de Teología, para que con toda llaneza me dijesen su sentir y enmendasen los yerros que había en ella. Dijéronme que en todo o caso tratase de darla á la estampa, que sería muy fructuosa para los que tratan almas. Instóme mucho el Padre Contreras, y se ofreció alcanzar la licencia de nuestro Padre general, sin la cual ningún libro en la Compañía puede salir á la luz. Replíquele que no tenía con qué hacer la costa. […] Fuime á mi celda confuso, porque ni primer ofrecimiento había tenido de que fuese obra digna de salir á tanta luz. Estándolo tratando con Nuestro Señor entró en mi celda el criado de un clérigo santo que aquí vive, diciendo que su amo me enviaba aquellos dos mil pesos para la impresión de aquel libro, y que daría más si más fuese necesario. Quedé maravillado, porque desta materia solamente había hablado hasta entonces con la persona para quien lo escribí, con el Padre Francisco de Contreras y Padre Francisco de Soria, catedrático de prima. El primero escribió sobre la licencia á nuestro Padre general, y respondió que acá se mirase, y que si pareciese bien la daba con mucho gusto. Aquí no se puede imprimir por las láminas que se han de hacer. Algunas personas se han aprovechado de los traslados. Uno se remetió á Sevilla y la plata para el gasto de la impresión. Con que he respondido y satisfecho á la carta de Vuestra Reverencia” (“Carta do Padre Antonio Ruiz de Montoya ao Padre Provincial”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias... (Volume IV), 1900, pp. 153-155).

1197

AGUILAR, Conquista Espiritual..., 2002, p. 406. Segundo Francisco del Castillo essa obra ser perdeu por “ocasión de la gran peste que había”. Sem desconsiderar que de fato isso tenha ocorrido, e por não haver fatos concretos que confirmem a afirmação, pode-se considerar que a peste seja um

O Sílex, entre todos os livros montoyanos, pode ser considerado o mais autoral, pelas indecisões e pequenos erros gramaticais na formulação das frases, como era perceptível também nas suas cartas. Se a estrutura, desta forma, torna-se falha, o refinamento de seu corto estilo emerge das frases1198. Neste livro, transparece a faceta mística de Montoya, que esteve presente em toda a sua vida, mas que ganhou força ao final dela. Ruiz de Montoya era um místico, um verdadeiro “homem de Deus”, capacitado a enxergar os fatos através da luz divina e de interpretar os “sinais dos tempos”1199. Todos os seres, na visão de mundo montoyana, são considerados como divinos. Eles são tudo e nada, pois, são partes de Deus e, consequentemente, criaturas únicas e de inigualável beleza, mesmo na sua condição criatural. O Éden, antes quase anchietano e de cores vermelhas e verdes1200 da Conqvista, se transforma em nada diante da presença divina. A narrativa continua apresentando uma beleza poética, penetrante e arguta ao perceber os detalhes mais sutis dos ensinamentos que os autores lidos transmitiram e as percepções trazidas da sua própria experiência pessoal de meditação1201.

Este livro apresenta uma estrutura baseada nos Exercícios Espirituais (purgação, iluminação e contemplação), para encontrar o caminho da contemplação divina, onde a realidade da pessoa se entrelaçaria com a transcendência de Deus1202. A primeira vez em que a experiência ascético-mística montoyana seria mencionada, foi ao longo da narração de sua primeira viagem da reducción de Loreto à Assumpción1203, quando Montoya relata que se sentiu acompanhado pela figura de Ignacio de Loyola e fortalecido pelo seu ideal.

Para compreender o universo interior de Antonio Ruiz de Montoya, se faz necessário seguir simplesmente o fio condutor e doutrinal exposto ao longo de sua

eufemismo para falar sobre a inquisição e a vigilância em relação aos livros suspeitos que tratavam sobre mística. Um fator que nos leva a acreditar nesta possibilidade é o elogio feito a Luisa Melgarejo, no momento em que esta era denunciada a Inquisição. Questão que justificaria o desaparecimento do livro antes do desembarque em Sevilla, evitando que o mesmo caísse nas mãos dos inquisidores e proteger a fama de virtude inabalável que Montoya havia alcançado (ROUILLON ARRÓSPIDE,

Introdución, 1991, p. LIV; GONZÁLEZ, El Sílex del divino amor..., 2000/1, p. 32 [o autor trata sobre

o assunto em nota de rodapé]).

1198

No Sílex podem ser observadas várias repetições e digressões, que o tornam difícil de compreender em que ponto a narrativa quer chegar. Contudo, não podemos esquecer que o livro é fruto das práticas de oração e dos ensinamentos passados de Montoya para Castillo. Não havia grandes pretensões de organização dos ensinamentos, que provavelmente em sua grande maioria, estavam apenas sendo relembrados (GONZÁLEZ, El Sílex del divino amor..., 2000/1, p.43)

1199

RABUSKE, Antônio Ruiz de Montoya, 1985, p. 53.

1200

Ver referência 631.

1201

AGUILAR, Conquista Espiritual..., 2002, p. 408.

1202

EE¸ 1635, f. 22r [§21]

1203

narrativa. Montoya escreveu um verdadeiro tratado de como organizar sistematicamente as ideias para conseguirmos submeter o nosso próprio itinerário interior, alcançando uma plena vida de atitudes contemplativas.

O Sílex é dividido em quatro opúsculos: o primeiro opúsculo é dedicado ao conhecimento especulativo de Deus através das criaturas, através da busca da Primeira Causa em sua essência, presença e força1204. No opúsculo segundo, expõe as suas observações sobre a pureza da alma na memória, entendimento e vontade, que seriam necessárias para a contemplação divina1205. O terceiro opúsculo1206, trata sobre as potências da memória, entendimento e vontade. O quarto opúsculo1207, explica o entendimento e a vontade. Para melhor visualizar conjuntamente os desdobramentos de cada um dos opúsculos (subdivididos em capítulos, ou parágrafos, ou mansión1208), recorremos à utilização do quadro a seguir:

Opúsculos Capítulos Parágrafos Mansión(es)

Primeiro opúsculo1209

Divide-se em dois capítulos.

O primeiro capítulo apresenta quatro parágrafos; e, o segundo, contem doze parágrafos, onde o tema do primeiro opúsculo é desenvolvido. Não possui. Segundo opúsculo1210 Divide-se em cinco capítulos.

O primeiro capítulo apresenta nove parágrafos; o segundo possui dez; o terceiro contém sete; o quarto apresenta vinte e dois; e o quinto tem vinte e um parágrafos.

Não possui.

Terceiro opúsculo1211

Não possui. Divide-se em quarenta e seis parágrafos.

Não possui.

Quarto opúsculo1212 Não possui. Não possui. Divide-se em treze

1204

Del conocimiento de Dios especulativo por las criaturas (RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp.3-7).

1205

Contiene la pureza del alma en la memoria, entendimiento y voluntad, necesaria para la divina contemplación (RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp.45-46).

1206

Sílex del divino amor y rapto activo del alma ya purgada en sus potencias memoria, entendimiento y voluntad (RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp. 111-205).

1207

Sílex pasivo del divino amor en el entendimiento y voluntad (RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp. 207-250).

1208

Mansión segundo o Diccionario de la lengua castellana: “MANSION. s.f. La detencion ó parada que se hace en alguna parte. Mansio (Diccionario de la lengua castellana…, 1817, p. 552). Outra definição para esta palavra é dada por Bluteau: “Mansaõ. He palavra Latina de Manfio, onis. Fem. (As diferentes manfoes, que ha na cafa de Deos. Macedo, Domin. fobre a Fortuna, 106) Vid. Apofento (BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino..., Tomo V, 1716, p. 297).

1209

Del conocimiento de Dios especulativo por las criaturas, In: RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp.3-7.

1210

Contiene la pureza del alma en la memoria, entendimiento y voluntad, necesaria para la divina contemplación (RUIZ DE MONTOYA, Sílex…, 1991, pp. 45-46).

1211

Sílex del divino amor y rapto activo del alma ya purgada en sus potencias memoria,