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Pensando especificamente sobre o processo de construção e reconstrução das exposições no Museu do Ceará, pode-se fazer um paralelo com dois modelos discutidos por Santos (2006) no que se refere à linguagem museológica: o “museu-memória” e o “museu-narrativa”. No primeiro modelo, os objetos não estabelecem relação entre si, não sendo possível articulá-los a um tema ou época específica. Estes refletem uma temporalidade descontínua, pretendendo conferir autenticidade ao passado, por meio de objetos que aparecem como comprovação destes fatos. Já no segundo modelo, os objetos não são apresentados como suportes de retorno ao passado, mas como elementos para a compreensão e interpretação deste. Dessa forma, a narrativa histórica construída anteriormente à formação da exposição subordina à sua lógica o discurso dos objetos. Assim, os objetos serão dispostos na exposição seguindo a narrativa histórica que foi elaborada previamente. Nas palavras da autora:

Enquanto no primeiro modelo de museu [“museu-memória”] a ênfase recai sobre os objetos materiais colecionados e expostos, apresentados mais como „amostras‟ (ou „alusões‟) do que „exemplos‟ (ou „demonstrações‟) do passado, sendo este mediado por meio de categorias sensíveis; no segundo modelo [“museu-narrativa”] a ênfase volta-se para os discursos narrativos que impõem uma determinada ordem sobre os objetos materiais [...], sendo o passado aqui apresentado como uma dimensão distante, mediada pelas categorias disciplinares da história (SANTOS, 2006, p.6).

No “museu-memória” o objeto é possuidor de um discurso próprio, inerente a ele; sendo testemunha do passado, apresenta a história tal e qual aconteceu. Nesse modelo, não há relação com um discurso histórico anteriormente elaborado, pois os objetos “falam sobre o passado” por si só. Por isso, não se faz necessário uma disposição lógica, articulada entre um objeto e

outro, pois cada qual adquire importância em si mesmo. Já no “museu-

narrativa” os objetos se inserem em uma narrativa historiográfica, ou seja, o discurso racional que é elaborado anteriormente à montagem das exposições é

o responsável pela lógica e pela disposição dos objetos. Tais objetos passam a compor um texto de história que tem como finalidade despertar reflexões sobre a nossa relação com o passado. Nele, os objetos inseridos na exposição, postos em diálogo uns com os outros, produzem intencionalmente um discurso.

Pode-se, então, fazer um paralelo entre esses dois modelos de exposição definidos por Santos (2006), com os dois conceitos de objeto anteriormente apresentados, quais sejam: “objeto-fetiche” e “objeto-gerador”.

Pode-se pensar que o primeiro modelo – o “museu-memória” – seria composto

por “objetos-fetiche”, haja vista que este é entendido como prova fiel do passado, e esse modelo de exposição se propõe a esse tipo de entendimento, ou seja, os objetos não estabelecem vínculos, aparecem esparsos, sem conexão de sentido. Na medida em que se relaciona com o “objeto-fetiche”, esse tipo de modelo tende a encarar os objetos como “autênticas” mostras do passado, não sendo possível ter outras formas de interpretação. Já no segundo

modelo – o “museu-narrativa” – estaria presente o “objeto-gerador”, na medida

em que este pressupõe a composição de um discurso articulado entre eles para que se possa interpretar o passado em sua pluralidade. Aí a narrativa histórica é associada à representação da realidade, considerada dinâmica e plural.

Pode-se pensar também que na trajetória do Museu do Ceará houve uma transição entre estas duas linguagens museológicas: se em suas primeiras décadas de existência predominou a linguagem do museu-memória; a partir da remodelação que passou no final do século XX, passou a adotar a linguagem do museu-narrativa. Como visto anteriormente, em suas primeiras

décadas de funcionamento as exposições apoiavam-se no “culto ao passado”,

priorizando as relíquias associadas aos eventos da nação que eram apresentadas como testemunho do passado, ou seja, como mostra “real” de como os fatos aconteceram.

A partir do final do século XX, essa concepção foi substituída por outra, baseada em uma análise da história como processo, levando em consideração as transformações políticas, sociais e econômicas. Essa modificação no modo

de expor do Museu do Ceará é mencionada por Régis Lopes Ramos (2008, p. 53)

As exposições deixam de ter uma organização que os historiadores consideram como caótica, impregnada de peças por todos os lados e passa a seguir um circuito narrativo, de modo que a visualização do passado passa a ser uma leitura da História.

Nessa perspectiva, uma exposição é sempre um discurso; ela diz alguma coisa através de objetos (RAMOS, 2004). Assim, os objetos seriam encarados como produto social e histórico representativo de uma época e de uma cultura específica, mas, nesse caso, como representantes de uma história plural, passível de várias formas de interpretação. Cada objeto seria selecionado e exposto, a partir de então, seguindo uma narrativa histórica pré- estabelecida.

Se levarmos em consideração como as exposições do Museu do Ceará estão organizadas atualmente pode-se pensar que a visão que prevalece seja

ainda a de “museu-narrativa”, haja vista que nessa instituição há a produção de

um discurso, de uma historiografia que oferece ao público várias formas de interpretação a partir da utilização do “objeto-gerador”. Reconhece-se que no Museu do Ceará o que está exposto é também uma forma de representar o passado e por meio do “objeto gerador” convida o observador a realizar a sua própria interpretação; convida-o a refletir, a dialogar. Esse fato aparece como pré-requisito para que o museu atinja seu papel educativo:

Para assumir seu caráter educativo, o museu coloca-se, então, como o lugar onde os objetos são expostos para compor um argumento crítico. Sem problemáticas historicamente fundamentadas não é possível produzir uma exposição histórica com qualidade de reflexão crítica (RAMOS, 2008, p. 58).

O Museu do Ceará a partir de seus propósitos educativos e da pedagogia questionadora incentiva o observador a refletir de forma crítica e autônoma sobre as experiências do passado. Assim, instiga a memória dos

seus “consumidores”, o público. No entanto, cabe ressaltar que, ao instigar a memória dos visitantes, o faz não só por meio das exposições: o próprio local que o abriga é motivador de recordações. Isso se levarmos em conta tanto o

prédio que o abriga – o Palacete senador Alencar – quando o bairro onde se