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4. BESKRIVELSE AV DET NORSKE BOLIGMARKEDET

4.2 B OLIGPRISUTVIKLING I N ORGE

4.2.2 Utvikling under pandemien

Reconstruir um entendimento do passado através de um trabalho de memória significa, tomando de empréstimo uma metáfora do filósofo Walter Benjamin (1994), empreender uma “escovação da história a contrapelo”.25 As lembranças do passado podem exercer uma influência determinante na formulação de um posicionamento, no presente, ou de um projeto que aponte em direção ao futuro. Desse modo, um trabalho de memória encerra a possibilidade de uma práxis, que não diz respeito somente ao passado, mas também ao momento presente e ao futuro.

De acordo com o estudo de Silva (2004), o passado não pertence a um tempo definitivamente acabado, pois ele é constantemente reavivado pelas lembranças. A memória, como mostram as narrativas, é uma reconstrução social; e transforma o presente na medida em que reinterpreta o passado. O passado reinterpretado, segundo a pesquisadora, “constitui um ingrediente de um devir, de um possível acontecer”. Nesse sentido, “a memória é libertadora”, na medida em que ela escreve a história daqueles que vem de baixo (Silva, 2004, p.46).

Recordar é lembrar com o coração. Lembrar é reconstruir, repensar, com sentimentos e imagens, as idéias de hoje e as exigências do passado. Logo, a memória é um trabalho. Existe, atualmente, certa urgência em se realizar um trabalho de memória com pessoas idosas, pois, com o moderno desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, a figura do narrador entrou em vias de desaparecimento. De acordo com Benjamin (1994), o narrador é alguém que sabe dar conselhos, uma espécie de conselheiro do seu ouvinte. Dar um conselho, segundo este autor, significa elaborar uma proposta sobre a continuidade

25 “... o materialista histórico... considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo” (Löwy, 2005, p. 70).

de uma história que, neste instante, está a se desenrolar. Para formular o conselho, no entanto, é preciso saber narrar a história. Um conselho, fiado no tecido da existência vivida concentra sabedoria, e, se hoje em dia a expressão “conselho” parece antiquada é porque se diminuiu a comunicabilidade da experiência (Benjamin, 1994).

Em todas as épocas, a educação, a formação de hábitos, e a transmissão de conhecimentos, estiveram baseadas na narrativa. A narrativa é uma forma artesanal de comunicação. Florescida num meio de artesões, ela sempre carrega a marca do narrador, pois resulta de uma íntima relação entre “alma, olho e mão”, que agem de forma recíproca e determinam a transmissão oral de experiências vividas. O narrador, de acordo com Ecléa Bosi, é um mestre do ofício, que, conhecendo bem a sua ocupação, possui o dom de aconselhar.26 Seu estudo revela que a narração da própria vida “é o testemunho mais

eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar” (Bosi, 1994, p.68). Nas lembranças de

pessoas idosas é possível verificar os traços de uma história social bem desenvolvida. Tendo elas atravessado um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e vivenciado quadros de referência familiar e cultural bem definidos, suas memórias atuais podem ser desenhadas sobre um pano de fundo mais elaborado do que a memória de uma pessoa jovem, ou adulta, ainda absorvida pelas lutas e contradições de um presente que a solicita.

Assim, quando a memória “amadurece e se extravasa lúcida é através de um corpo

alquebrado...”. A conversa evocativa de um velho, mostra a pesquisadora, é sempre uma

experiência profunda, semelhante a uma obra de arte. Para quem sabe ouvi-la, é desalienadora, pois confronta a riqueza e a potencialidade deste “ser criador de cultura,

26 “Seu talento de narrar lhe vem da experiência, sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é

com a mísera figura do consumidor atual”. É por essa razão que uma atmosfera sagrada

circunda a figura do narrador. A arte da narração não está confinada nos livros, seu veio épico é oral. A memória é a faculdade épica por excelência e a linguagem é o instrumento decisivamente socializador da memória. O narrador retira o que narra da própria existência e transforma em experiência daqueles que o escutam (Bosi, 1994).

O registro destas narrativas se torna possível por meio da técnica de gravação de depoimentos orais, entendida por Maria Isaura Pereira de Queiroz, como “a maior fonte

humana de conservação e difusão do saber, o que equivale a dizer a maior fonte de dados para as ciências em geral” (Queiroz, 1988, p. 16). O relato oral está na base da obtenção de

toda a sorte de conhecimentos e antecede as outras técnicas de obtenção e conservação do saber. Assim, de acordo com a autora, a narrativa encerra uma primeira transposição, a da experiência indizível que se procura traduzir em vocábulos. Com a transposição de ações e emoções, para a nitidez das palavras, um primeiro enfraquecimento ocorre.27

No trabalho com relatos de idosos, segundo Bosi (1994), existe um movimento peculiar à memória do velho, que tende a adquirir, na hora da transmissão aos mais jovens, a forma de ensaio, de conselho, de sabedoria. A experiência transmitida por ele é sempre representativa de um grupo. Uma memória coletiva sempre se desenvolve a partir de laços de convivência familiares, escolares e profissionais. O grupo, em relação à memória do indivíduo, circunscreve aquilo que o sociólogo Maurice Halbwachs (apud Bosi, 1994, p.56) definiu como “os quadros sociais da memória”, amarrando a memória da pessoa à

27

“[A transmissão oral do conhecimento]... tanto diz respeito a um passado mais longínquo, que pode mesmo

ser mitológico, quanto ao passado mais recente, à experiência do dia-a-dia. Ela se refere ao legado dos antepassados e também à comunicação de uma ocorrência próxima no tempo; tanto veicula noções adquiridas diretamente pelo narrador... quanto transmite noções adquiridas por outros meios que não a experiência direta, e também antigas tradições do grupo ou da coletividade” (Queiroz, 1988, p.16).

memória do grupo; e, esta última, à esfera maior da tradição, que é a memória coletiva de cada sociedade.

Capítulo III

Primavera

Flores que nascem na aurora migratória.

Sonhos que se vão.

Fotografia 1: retrato da entrevistada H. (3ª

pessoa, ao fundo, da esquerda para a direita), com seus familiares, a bordo do navio, com destino ao Brasil – início da década de 1930.