Buscando-se articular os dois contextos aparentemente desconectados – universidade e serviços – foram surgindo ao longo do tempo iniciativas de reforma comprometidas com a relevância social da escola e dos processos de formação no campo da saúde. Para Werneck et al. (2010), na década de 1950, foram criados os departamentos de Medicina Preventiva nas escolas, com perspectiva de aliar saúde pública com medicina liberal. Nesse período, começaram a ser ofertados nos cursos da área de saúde, experiências que visavam à integração docência-serviços, inicialmente em serviços próprios, mediante a proposta de campi avançados. Nas décadas de 1960/70, inúmeras experiências e eventos internacionais marcaram a trajetória da integração ensino-serviço no Brasil, dentre elas, merece destaque a Medicina Comunitária, cuja principal contribuição foi adotar, como princípio pedagógico, o trabalho dos alunos nos serviços de saúde da comunidade.
Em meados da década de 1980, como informa Lucas (1995) apud Werneck et al. (2010), foi constituída no Brasil a REDE IDA, que articulava os vários projetos de IDA (Integração Docente Assistencial) em curso nas universidades públicas brasileiras. Em 1982, o currículo mínimo do curso de Odontologia estabelecia que o ensino e treinamento dos alunos, em termos de necessidades globais dos pacientes, seriam realizados em clínica integrada e que as atividades extramurais seriam desenvolvidas sob a forma de estágio
supervisionado, preferencialmente em sistemas públicos de saúde . Verifica-se, com efeito, que a IDA se conformou ao longo do tempo como estratégia recorrente para as experiências ou propostas de mudanças da educação profissional na área de saúde. E, no ensino odontológico, essa estratégia foi incorporada pelas propostas oficiais.
Na Odontologia, a evolução da trajetória da IDA resultou na migração das experiências extramuros para o serviço público, na busca de uma relevância social mais expressiva. No âmbito dos serviços públicos, o mundo do trabalho e a vivência de situações reais junto à população constituem os locais preferenciais de aprendizagem na consolidação de mudanças curriculares e formação de profissionais competentes e com espírito crítico (WERNECK et al., 2010).
Ainda segundo esses autores, na década de noventa, surgiu outra experiência relevante de mudança na formação dos profissionais de saúde: o "Programa UNI - uma nova iniciativa na formação dos profissionais de saúde: união com a comunidade". O Programa UNI apoiou projetos de mudanças na formação de profissionais na área da saúde que se tornaram referência no campo, como a implantação do Internato em Enfermagem, com o objetivo de criar oportunidades de ensino e aprendizagem que possibilitassem a vivência de situações profissionais e o aprofundamento dos conhecimentos nas áreas básicas de atuação do enfermeiro.
Com a extinção do currículo mínimo dos cursos de graduação em 1996, por força da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), que possibilitou a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais, conjuntura que criou um ambiente favorável para capilarizar e experimentar projetos de mudança mais ousados, as instituições de ensino superior foram chamadas a participar do mundo que acontece fora de seus muros.
Especificamente no setor da educação, a mudança na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), com o consequente processo de elaboração e implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais – DCN para o sistema de educação superior do País, reabriu uma importante interlocução das demandas do setor da saúde de natureza coletiva com aquelas da formação dos profissionais. O texto aprovado nas DCN para os cursos de Odontologia trouxe, do ponto de visa de um arcabouço legal, o resgate dos pilares das discussões do ensino da Odontologia na década de sessenta, e da atualidade dos princípios do Sistema Único de Saúde, quais sejam: da integração curricular e da integralidade da atenção.
Em dezembro de 2001, foi lançado pelo Ministério da Saúde (MS), em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e a Organização Panamericana de Saúde (OPS), o PROMED que é o Programa de Incentivo às Mudanças Curriculares das Escolas Médicas. O
objetivo principal é incentivar as escolas médicas do País a adequarem seus currículos, sua produção de conhecimento e os programas de educação permanente à realidade social e de saúde da população brasileira e, desta forma, contribuírem na consolidação do SUS (OLIVEIRA et al., 2008).
Na perspectiva desses autores, o PROMED tem ainda como objetivos: programar estágios nos hospitais universitários e em toda a rede de serviços e atividades extraclasse, contemplando os principais problemas de saúde da população e capacitar melhor os estudantes de Medicina para atendimento aos principais problemas de saúde da população, sendo necessário, para isso, que os cursos de medicina possibilitassem a formação de médicos com competência geral, essencial à ampliação de programas de atenção básica, como o Programa Saúde da Família.
Em 2003, o Ministério da Saúde elaborou e implementou uma política de educação permanente para os trabalhadores do SUS e, no âmbito do ensino de graduação, foi criado o AprenderSUS, cujo objetivo foi estabelecer a integralidade como eixo para a formação de saúde. Segundo o documento orientador, a formação para a área da saúde deveria ter como objetivo a transformação das práticas profissionais com procedência na própria organização do trabalho. Além disso, deveria estar estruturada a partir da problematização do processo de trabalho e de sua capacidade de dar acolhimento e cuidado às várias dimensões e necessidades em saúde das pessoas (BRASIL, 2004).
A integralidade do cuidado foi definida como eixo central no AprenderSUS, e algumas das propostas executadas foram: curso de educação a distância para a formação de ativadores de processos de mudança na graduação, destinados a docentes e preceptores do serviço; trabalho articulado com Ministério da Educação na implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais e o financiamento dos Pólos de Educação Permanente, que agregam usuários, gestores, profissionais de saúde e as universidades em torno de projetos de qualificação da atenção à saúde (BRASIL, 2004).
Outra iniciativa foi o “VerSUS – Vivência-estágio na realidade do SUS”, projeto proposto para acadêmicos de graduação dos cursos da saúde com objetivo de ensejar uma inserção não assistencial no interior do sistema público de saúde. Partiu do diagnóstico de que havia um despreparo dos recém-formados para atuarem na complexidade inerente ao sistema de saúde, compreender sua gestão e entender a ação de controle social sobre o setor. A partir de 2004, esse projeto tomou uma dimensão nacional após a realização do VerSUS/RS em 2002 (BRASIL, 2006).
No VerSUS, alunos de diferentes carreiras estagiam em setores como o de financiamento, estratégias de controle e auditoria, formulação de políticas técnicas, ordenamento do trabalho e da rede assistencial, interpretação demográfica e epidemiológica, descentralização da gestão (compreensão das diferentes esferas da gestão) e exercício do controle social sobre o setor saúde em municípios de gestão plena da saúde (MORITA; KRIGER, 2004).
Em 2005, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), em parceria com a Secretaria de Educação Superior (SESU) e com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do Ministério da Educação (MEC), e com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), instituíram o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde). O objetivo do programa é a integração ensino-serviço, visando à reorientação da formação profissional, assegurando uma abordagem integral do processo saúde-doença com ênfase na Atenção Básica, promovendo transformações na prestação de serviços à população (BRASIL, 2005).
O Pró-Saúde visa à reorientação da formação dos profissionais de saúde favorecendo mudanças curriculares segundo três eixos – orientação teórica, cenários de prática e orientação pedagógica – com o objetivo de fortalecer a integração entre instituições de ensino e serviço público de saúde, com vistas à consolidação do SUS. Dessa forma, tem sido possível uma ampliação na concepção da formação profissional, a qual passa a incluir todos os níveis de atenção à saúde e a compor um processo sintonizado com as necessidades sociais, levando em conta as dimensões históricas, econômicas e culturais da população (BRASIL, 2005).
O Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde - PET-Saúde é regulamentado pela Portaria Interministerial nº 421, de 03 de março de 2010, tem como pressuposto a educação pelo trabalho e disponibiliza bolsas para tutores, preceptores (profissionais dos serviços) e estudantes de graduação da área da saúde, sendo uma das estratégias do Pró-Saúde. O PET-Saúde tem como objetivos fomentar a formação de grupos de aprendizagem tutorial em áreas estratégicas para o SUS, caracterizando-se como instrumento para qualificação em serviço dos profissionais da saúde, bem como de iniciação ao trabalho e vivências dirigidos aos estudantes das graduações em saúde, de acordo com as necessidades do SUS. O programa visa facilitar o processo de integração ensino-serviço- comunidade, além de estimular a inserção das necessidades do serviço como fonte de produção de conhecimento e pesquisa na universidade (BRASIL, 2013).
Importante é destacar o fato de que todos os projetos/programas criados para dar direcionalidade à mudança - VerSUS, AprenderSUS, especialização em Ativação de Processos de Mudança, Polos de Educação Permanente, PROMED e o Pró-Saúde - são iniciativas simultaneamente relacionadas com o reordenamento, tanto no âmbito das políticas de saúde como de educação, e que fundamentalmente mobilizaram diferentes agentes da sociedade brasileira, para a discussão, proposição e acompanhamento dos resultados (BRASIL, 2005).