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In document Handlingsplan for kollektivtransport (sider 31-34)

Com vista ao melhor conhecimento dos cultuantes de Endovélico do ponto de vista sociojurídico, foram analisadas 59 epígrafes do conjunto de 89 procedentes de S. Miguel da Mota, das quais puderam ser recuperados 75 dedicantes; tendo então sido excluídas aquelas desprovidas de dados onomásticos, ou demasiado incompletas/duvidosas neste aspecto.

3.4.1. Estrutura onomástica e gentílica

A observação da origem dos nomes parece ilustrar a sólida fixação da norma romana de identificação entre os cultuantes de Endovélico (Tabelas 47.1 a 47.3), dado verificar-se um predomínio da onomástica romana face à indígena, comum à globalidade do espaço em análise, apesar da sugerida origem pré-romana do culto, uma vez que 65 dos 75 indivíduos recuperados possuem pelo menos um nome de origem latina, incluindo escravos (IRCP 489, 515, 536). Apenas 11 indivíduos parecem apresentar um nome indígena na sua estrutura onomástica, se considerarmos Antubellicus, Critonius, Dobetianus, Mogolius, Sitonius e Vivennius como ligados à onomástica pré-romana (Dias e Coelho, 1995-97: 248); embora apenas dois deles (IRCP 493 e AE 2004, 705) se apresentem como detentores da condição de peregrini, identificados unicamente através deste nome.

Também a análise das estruturas onomásticas presentes se revela elucidativa neste aspecto: dos 75 indivíduos registados, 44% apresentam-se portadores de tria nomina, não se afastando demasiado dos duo nomina, que constituem a forma de identificação de 37,3% do total de cultuantes; pertencendo 24 dos 28 indivíduos identificados desta forma ao género feminino (Tabela 47.2). Por fim, o nome único, associado às condições indígena e servil, identifica 17,3% do total de cultuantes (Tabela 48 e Gráfico 48.1). Este cenário contrasta com o do mundo rural do Sul do território actualmente português, em que o nome único surge como a estrutura onomástica dominante.

A maior amostra epigráfica do santuário, em comparação com o restante espaço geográfico em análise, traz-nos uma maior diversidade de gentilícios, cuja distribuição se afigura menos fragmentada (Tabela 50). Dos 75 indivíduos registados, 31 possuem gentilícios imperiais, nomeadamente designando imperadores cujo governo ultrapassa os finais do séc. II d. C. (Annius, Antonius, Caelius, Helvius, Licinius, Messius, Vibius), e mesmo do séc. IV (Valerius, designando imperadores da dinastia constantiniana). Seguem-se a Iulius, em termos de representatividade, Annius, Calpurnius e Vibius. Entre os cultuantes de Endovélico contar-

se-iam então gentes de posse e prestígio, como seriam os Vibii (Encarnação, 1984: 612), gentilício ausente do espaço geográfico em análise, salvo em S. Miguel da Mota; estando contudo registado em cidades do vale do Guadalquivir como Hispalis (Sevilha), Corduba (Córdova) e Italica (Santiponce, Sevilha) (Saquete, 1996: 80). Neste sentido, devem ainda ser referidos os gentilícios Annius, Helvius, Messius e Valerius; assim, os nomina dos cultuantes de Endovélico seriam, na sua maioria, comuns as famílias senatoriais não apenas da Lusitânia, mas também da Bética (Dias e Coelho, 1995-97: 248-49).

3.4.2. Categorias sociais e potencial económico

De facto, como mostram a Tabela 48 e o Gráfico 48.2, a maioria dos cultuantes (cerca de 75%) apresenta-se detentora de cidadania romana, o que se mostra consistente com o peso dos tria nomina, e também com a frequente utilização dos duo nomina para designar cidadãos romanos, dado que 23 dos 28 indivíduos portadores desta estrutura onomástica apresentam-se como tal (Tabela 47.2); registam-se ainda quatro indivíduos de condição incerta, mas que poderão ter sido civi romani.

As restantes categorias encontram-se representadas de forma residual, avultando a fraca presença dos indivíduos de condição indígena; porém, não deixa de se verificar uma apreciável diversidade social dos cultuantes desta divindade (Vasconcelos, 1905: 138). Comparando com o mundo rural do espaço geográfico em análise na sua globalidade, a representatividade da cidadania emerge como traço comum, embora a escassez de peregrini entre os cultuantes de Endovélico contraste com a representação desta condição em âmbito rural.

Estes cultuantes parecem ter integrado sobretudo a esfera dos particulares, dada a escassez de funcionários da administração imperial ou magistrados provinciais e municipais, estando contudo presente o elemento militar, através de um indivíduo identificado como cavaleiro romano (IRCP 492); bem como do cognome de um dos dedicantes, Equester (IRCP 527) que se afigura relacionável com a classe equestre, segundo J. d’Encarnação (1984: 605), embora não disponhamos de quaisquer referências a cargos ou funções deste indivíduo em âmbito militar, o que coloca algumas reservas a encarar este indivíduo como cavaleiro romano. Também a presença de vestígios escultóricos exibindo atributos claramente militares aponta para a presença deste elemento em S. Miguel da Mota (Dias, 2002a: 91).

Além da onomástica, outros aspectos reflectem a apreciável romanidade dos dedicantes de Endovélico: a qualidade e graciosidade de certos monumentos, revelando a integração dos dedicantes nos hábitos estéticos romanos; o uso de formulário nitidamente

latino, nomeadamente animo libens votum solvit, que constitui a fórmula mais utilizada (19 das 89 epígrafes), embora 36 inscrições deste conjunto surjam desprovidas de fórmula final, destacando-se ainda neste sentido as expressões praestantissimi et praesentissimi numinis (IRCP 492) e hunc deum sibi propitiatum (IRCP 495); e a gravação dos tria nomina através de siglas (IRCP 523, 528 e 530).

Como propõem M. M. A. Dias e L. Coelho (1995-97: 236), os cultuantes detêm, além da sua acentuada romanidade, um estatuto socioeconómico geralmente elevado, pelo menos o suficiente para permitir as oferendas em prata e de estátuas, muitas de boa qualidade artística e elevado preço; o qual se manifesta de forma bastante mais notória face à globalidade do espaço em análise. Efectivamente, pelo menos 15 inscrições da epigrafia votiva de Endovélico (IRCP 484, 486, 492, 495, 496, 498, 503, 504, 512, 514, 516, 525, 529, 534 e 535), pela forma do seu suporte, poderão apontar para a erecção de estátuas à divindade, uma delas (IRCP 486) de prata, uma vez que poderão ter sido gravadas em presumíveis pedestais, com excepção do busto (IRCP 534) que representaria um togado de âmbito presumivelmente imperial (Encarnação, 1984: 610); bem como de uma edícula (IRCP 523), entendida como um pequeno templo com o propósito de recolha do ex-voto (Encarnação, 1984: 601).

Porém, impõe-se alguma cautela na consideração deste aspecto, pois nem sempre podemos ver claramente a gravação da inscrição num pedestal, como é o caso de seis destas epígrafes, além de que mesmo a existência de um pedestal não garante a erecção de uma estátua a Endovélico, pela eventualidade de o monumento ter sofrido modificações posteriores. O estatuto socioeconómico deteria então considerável importância para os seus cultuantes, como sugere ainda a possibilidade de as mulheres possuírem escravos, desde que o seu potencial económico o permitisse; de facto, três das quatro situações de escravatura registadas entre os cultuantes (Tabela 48) registam uma patrona do sexo feminino (IRCP 489, 497 e 515).

Já no que respeita a actividades económicas, não obstante a apreciável fama do santuário, a observação dos diversos suportes das inscrições indica a quase exclusiva utilização do mármore de Estremoz/Vila Viçosa, bem como a utilização residual de mármores dos arredores do santuário, como o de Trigaches e o de Pardais; o que anula a hipótese, avançada por Leite de Vasconcelos, de coincidência dos locais de proveniência das dádivas com os dos seus ofertantes (Dias e Coelho, 1995-97: 238). O santuário de Endovélico terá então mantido contactos privilegiados com a área de Vila Viçosa, onde se documentam vestígios de extracção de mármore em época romana (Alarcão, 2002: 119 e 135; Calado, 1996: 99; Encarnação, 1984: 577-78).

Nesta perspectiva, a análise dos mármores utilizados aponta não apenas para a existência de uma oficina local, mas também de uma produção local, exclusiva, na qual seriam utilizados mármores regionais (Dias e Coelho, 1995-97: 238). De facto, das 89 dedicatórias a Endovélico, pelo menos 68 foram lavradas em mármore de Estremoz/Vila Viçosa, podendo este número ter abrangido mais inscrições, pois nalgumas destas não surge especificado o tipo de mármore no qual foram gravadas, como vemos na Tabela 51. Uma inscrição (IRCP 497) revela-se particularmente importante na abordagem a esta questão, ao registar um dedicante identificado como marmorista, servo de uma mulher de elevado estatuto social, como sugerem os seus dois gentilícios, Aurelia e Vibia (Encarnação, 1984: 578). Este autor (loc. cit.) apoia a hipótese, colocada por Leite de Vasconcelos (1905: 138-39), de Hermes ter possuído uma oficina nas imediações do santuário, fornecendo assim monumentos votivos aos cultuantes.

Contudo, M. M. A. Dias e L. Coelho (1995-97: 247-48, nota 37), bem como Mayer Olivé (2008: 413), entendem-no como liberto de Aurelia Vibia Sabina, identificada com a filha do imperador Marco Aurélio, sugerindo a sua condição de liberto imperial, como já Hübner (CIL II 133) propusera; embora J. d’Encarnação (1984: 578) rejeite esta hipótese. O seu estatuto de servus marmorarius colocaria assim as explorações de mármore da região entre as possíveis metalla imperiais da segunda metade do séc. II, altura de realização de grandes obras públicas nas cidades da Bética (Alarcão, 2002: 135; Dias e Coelho, op. cit.: 249-50; Mayer, 2008: 411-14). Partindo deste princípio, este Hermes poderá ser entendido como o único escravo de âmbito imperial, registado não apenas na epigrafia de Endovélico, mas em todo o material epigráfico votivo do espaço geográfico em análise.

Assim, entre as grandes famílias senatoriais, nomeadamente as da Bética, o negócio dos materiais de construção terá assumido uma apreciável importância, estando a ele vinculadas muitas princesas imperiais; o santuário de Endovélico terá ainda servido de pedreira para a recolha de blocos trabalhados, fustes e capitéis para o seu reaproveitamento em diversas construções (Dias e Coelho, 1995-97: 249-50).

Os cultuantes de S. Miguel da Mota estariam então vinculados às elites urbanas do Sudoeste peninsular através de laços de dependência ou parentesco, como aponta a análise gentílica, e envolvidos nos negócios de exploração de mármores. Esta situação remeterá para a importância não apenas religiosa mas também económica e político-social do santuário, na óptica dos interesses das referidas famílias e das relações entre elas, indicadas pela onomástica; vindo este santuário a ser objecto de uma apropriação política por parte dos descendentes dos liberti dos grupos dirigentes (Dias e Coelho, op.cit: 249 e 252).

Considerações finais

Apesar do carácter fragmentário dos dados analisados, por vezes pouco claros e limitados no seu potencial informativo, creio que será lícito retirar algumas ilações a partir dos mesmos, bem como expor algumas questões.

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