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2. Teoretiske perspektiver

2.2. Utvikling av analyseverktøy

Conforme já se referiu, a causa precípua da construção jurídica contemporânea volta-se à proteção da dignidade da pessoa humana. No campo do trabalho, esta realidade mostra-se ainda mais sensível. A melhoria das condições de trabalho capazes de atender aos preceptivos da dignidade exige plena realização dos direitos ditos sociais, os quais Alexandre de Moraes54 conceitua como:

“direitos fundamentais do homem, caracterizando-se como verdadeiras liberdades positivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por finalidade a melhoria de condições de vida aos hipossuficientes, visando à concretização da igualdade social, e são consagrados como fundamentos do Estado democrático”.

De modo crescente, os direitos sociais previstos reclamam efetivação. Não se admite a inviabilização ou anulação de garantias das necessidades vitais do indivíduo, ou, então, a afronta ao princípio da dignidade humana estará caracterizada, determinando o desmoronamento da base de toda a sistemática dos

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direitos fundamentais.

Irany Ferrari55 afirma, categoricamente, que “o trabalho há de ser o centro dos valores numa visão ideal do Estado Moral”.

A conjugação do Direito com a responsabilidade social, fora de dúvida, demonstra-se primordial para exercer decisivo impacto no elevado propósito da implementação dos direitos fundamentais no trabalho, sem os quais, decisivamente, nenhum outro direito ou preceptivo de tutela ao trabalho subsistirá.

A Justiça é um ideal desejável para todas as relações humanas, para o convívio social, para o bem-estar coletivo. Pode-se dizer que ao Direito cabe regulamentar o que seja justo por meio de um consenso geral sobre as condutas moralmente aprovadas, evidenciando a Ética. Sua concretização necessita ser deflagrada.

Todas as nações, elidindo o indesejável e inaceitável retrocesso social, devem almejar a evolução plena na direção dos mais altos padrões de direitos humanos e trabalhistas, reconhecendo, efetivamente, a importância dos institutos destinados a realizar tão relevantes desígnios. A notória impotência do Estado para reduzir as desigualdades, cada vez mais evidentes, entre as classes sociais exige uma nova postura, um posicionamento amadurecido e emancipado de empresas e sociedade civil, definindo a ascensão da responsabilidade social.

55 FERRARI, Irany; NASCIMENTO, Amauri Mascaro; MARTINS FILHO, Ives Gandra. História do

CAPÍTULO III

3 Definição dos direitos fundamentais no trabalho

O trabalho, em sua concepção humanista, apresenta-se como referência simbólica fundamental da sociedade contemporânea. É essencialmente por meio do trabalho que toda pessoa busca atingir o pleno desenvolvimento de suas potencialidades e, sobretudo, o sentido de completude.

Para Josué Lafayete Petter56

“Valorizar o trabalho, então, equivale a valorizar a pessoa humana, e o exercício de uma profissão pode e deve conduzir à realização de uma vocação do homem”.

Em enunciado sentido, afirma Miguel Reale57:

“Não entendo como se possa dizer que o trabalho não seja criador de valores. Ele já é, por si mesmo, um valor, como uma das formas fundamentais de objetivação do espírito enquanto transformador da realidade física e social, visto como o homem não trabalha por que quer, mas sim por uma exigência indeclinável de seu ser social, que é um “ser pessoal de relação”, assim como não se pensa porque se quer, mas por ser o pensamento um elemento intrínseco ao home, no seu processo existencial, que se traduz em sucessivas “formas de objetivação”. Trabalho e valor, bem como, por via de conseqüência,

56PETTER, Josué Lafayete. Princípios Constitucionais da Ordem Econômica: o significado e o

alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p.153.

57

Apud FERRARI, Irany; NASCIMENTO, Amauri Mascaro, MARTINS FILHO, Ives Gandra. Op. Cit., São Paulo: LTr, 1998, p. 18 - 19.

trabalho e cultura, afiguram-se termos regidos por essencial dialética de complementaridade”.

Segundo o estudo evolutivo proposto no ensinamento de Amauri Mascaro Nascimento58, a valorização do trabalho humano não é construção axiológica recente:

“tema de filosofia do trabalho cujas raízes primeiras estão no pensamento da Antigüidade e da Idade Média – do trabalho como um castigo dos deuses -, no Renascimento – com as idéias de valorização do trabalho como manifestação da cultura -, e, mais recentemente, nos preceitos constitucionais modernos – do trabalho como direito, como dever, direito dever ou, ainda, como valor fundante das sociedades políticas”.

De modo enfático, preconiza Manoel Jorge Silva Neto59:

“o trabalho não pode, de maneira alguma, ser assumido friamente como mero fator produtivo; é, sim, fonte de realização material, moral e espiritual do trabalhador”.

A valorização do trabalho humano, fora de dúvida, tem por objetivo e fundamento a proteção da existência digna do homem.

A afirmação e proteção de tão precioso bem se insere, dessarte, na esfera dos direitos fundamentais, como resultado de avanços e conquistas sociais alcançadas ao longo da história, notadamente a partir do século XIX, consolidando espaços reivindicatórios e de luta pela dignidade da pessoa humana.

58 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 19.ª ed. São Paulo: Saraiva,

2004, p. 07.

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A conceituação de direitos humanos60, essencial ao vertente estudo, apresenta-se, na doutrina nacional e estrangeira, de diferentes formas, embora sempre com elementos comuns.

Para José Carlos Vieira de Andrade61, direitos humanos foram primeiramente considerados pelo direito natural como “direitos de todas as pessoas humanas, em todos os tempos e em todos os lugares”.

Segundo João Batista Herkenhoff62, direitos humanos são "aqueles direitos fundamentais que o homem possui pelo fato de ser homem, por sua natureza humana, pela dignidade que a ela é inerente."

Selma Regina Aragão63 conceitua os direitos humanos como "os direitos em função da natureza humana, reconhecidos universalmente pelos quais indivíduos e humanidade, em geral, possam sobreviver e alcançar suas próprias realizações".

Alexandre de Moraes64, numa perspectiva mais constitucionalista e preferindo a expressão direitos humanos fundamentais, considera-os como sendo o

“conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito a sua dignidade, por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento

60 Para Carlos Bernardo Alves Aarão Reis: “Os termos ‘direitos fundamentais’ e ‘direitos humanos’

usualmente são utilizados de forma indiscriminada, como se sinônimos fossem, malgrado possuam tais conceitos linhas comuns, não se confundindo, por conseguinte”. E prossegue: “Em verdade, ao nosso sentir, em que pese ao uso indistinto das terminologias em comento e à estreita ligação entre tais conceitos, o termo ‘direitos humanos’ reserva-se ao campo histórico e filosófico, enquanto que a terminologia ‘direitos fundamentais’ resta reservada ao discurso jurídico” (in Notas acerca da efetividade dos direitos fundamentais sociais como limite à discricionariedade administrativa. Capitulo do livro: GARCIA, Emerson (Coord.). A efetividade dos direitos sociais. Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora, 2004, p. 358-359). No presente estudo, ante o diálogo estabelecido entre diferentes campos científicos, não foi adotada a rigidez sugerida.

61 ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa.

Coimbra: Almedina, 1987, p. 12.

62 HERKENHOFF, João Batista. Curso de Direitos Humanos. v I. São Paulo: Acadêmica, 1994. p.

30.

63 ARAGÃO, Selma Regina. Direitos Humanos na ordem mundial. Rio de Janeiro: Forense, 2000,

p. 105.

64 MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais: teoria geral. 4.ª ed. São Paulo: Atlas,

de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana.”

Perez Luño65 propõe que os direitos humanos sejam entendidos como:

“um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e da igualdade humanas, as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos em nível nacional e internacional.”

Para Edilsom Farias66, direitos humanos:

“podem ser aproximadamente entendidos como constituídos pelas posições subjetivas e pelas instituições jurídicas que, em cada momento histórico, procuram garantir os valores da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da igualdade e da fraternidade ou da solidariedade.”

Os direitos sociais, nesse sentido, são, exatamente, integrantes de uma das chamadas gerações ou dimensões dos direitos humanos67.

Ao lado, dos direitos econômicos e culturais, são classificados como direitos humanos de segunda dimensão ou geração, correspondendo à garantia da igualdade entre os indivíduos. A afirmação da proteção dos direitos do trabalhador insere-se em tal tipologia, conforme se demonstrará. Na mesma linha de

65 PEREZ LUÑO, Antonio Enrique. Derechos Humanos, estado de derecho y Constitución. 3.ª ed.

Madri: Teccnos, 1990, p. 48.

66 FARIAS, Edilsom. Liberdade de Expressão e Comunicação: teoria e proteção constitucional. São

Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004, p. 27.

67 Alguns constitucionalistas, como Paulo Bonavides, utilizam-se da expressão dimensões das

declarações dos direitos àquela de gerações das declarações dos direitos, procurando indicar uma complementação contínua das declarações dos direitos, cada nova dimensão ampliando as conquistas das dimensões anteriores. Há, ainda, autores que consideram uma quarta e mesmo a uma quinta geração das declarações dos direitos.

classificação, os direitos humanos de primeira dimensão ou geração são os direitos civis e políticos. Os de terceira geração, os direitos de solidariedade.

O surgimento dos denominados direitos sociais está associado à transição do Estado Liberal para o Estado Social. Nesse processo, privilegia-se a proteção do indivíduo, diante do extremo poder econômico notado no Estado Liberal.

Percebeu-se que, sujeitando os homens ao livre jogo das "leis do mercado", ameaçada restava a garantia de uma existência digna e de satisfação de necessidades básicas, ensejando iniquidades e desigualdades. Dessa verificação e da necessidade de superar a ameaça decorrente nasceram os chamados direitos sociais.

Como salienta Perez Luño68, os direitos sociais surgem do reconhecimento de que "liberdade sem igualdade não conduz a uma sociedade livre e pluralista". Tal, por certo, coaduna-se com a preservação do mínimo existencial, exigível por meio da intervenção positiva do Estado.

Extrai-se, em consequência, a essencialidade dos direitos sociais e a relevância jurídica de sua tutela. Tratam-se de direitos contidos no mínimo existencial englobado, nomeadamente, no conteúdo jurídico do princípio da dignidade da pessoa humana. São, pois, direitos fundamentais.

O Estado Social teve sua base ideológica formada a partir do processo de intensas lutas operárias e sindicais, anarquistas e socialistas, iniciado no século XIX, em países como França, Alemanha e Inglaterra. Depois, já no século XX, afirmou-se com a Revolução Mexicana, de 1910, e com a Revolução Russa, de 1917. Ou seja, de meados do século XIX até os anos de 1930, o Estado Social esteve consolidando suas bases históricas e matrizes ideológicas.

Foi o advento do Estado Social que propiciou o desenvolvimento do processo de redirecionamento das funções do Estado e de reapropriação do Direito pelas camadas sociais populares.

Assim, são reivindicadas, do Estado, intervenções na ordem social segundo critérios de justiça distributiva, que incluam os direitos a segurança social, ao trabalho, ao repouso, a um padrão de vida que assegure a saúde e o bem-estar individual e da família, à educação, entre outros. Trata-se, portanto, do resultado da articulação popular que postula a consagração de direitos sociais e sua materialização.

Na lição de Paulo Bonavides69:

“Os direitos de segunda geração merecem um exame mais amplo. Dominam o século XX do mesmo modo como os direitos de primeira geração dominaram o século passado. São os direitos sociais, culturais e econômicos, bem como os direitos coletivos e das coletividades, introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social, depois que determinaram por obra da ideologia e da reflexão antiliberal deste século. Nasceram abraçados ao princípio da igualdade, do qual não se podem separar, pois fazê-lo equivaleria a desmembrá-los da razão de ser que os ampara e estimula.”

Para a Professora Flávia Piovesan70:

“Direitos sociais, econômicos e culturais são verdadeiros direitos fundamentais e, por isso, devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade.”

O sistema jurídico deve, doravante, proteger determinados direitos e valores,

69 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 7ª ed. São Paulo: Malheiros, 1998, p.518. 70 PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. São Paulo: Max Limonad, 1.998, p. 12.

não apenas pelo eventual proveito que possam trazer a uma ou a algumas pessoas, mas pelo interesse geral da sociedade na sua satisfação.

O primado da dignidade da pessoa humana exige, de modo basilar, a concepção da proteção do trabalho. Do trabalho exercido em condições de dignidade.

A essencialidade da proteção jurídica do trabalho pode ser amplamente compreendida a partir da magistral lição do Professor Manoel Gonçalves Ferreira Filho71:

“O trabalho é ao mesmo tempo um direito e uma obrigação de cada indivíduo. Como direito, deflui diretamente do direito à vida. Para viver, tem o homem de trabalhar. A ordem econômica que lhe rejeitar o trabalho, lhe recusa o direito a sobreviver. Como obrigação, deriva do fato de viver o homem em sociedade, de tal sorte que o todo depende da colaboração de cada um.”

Em direção similar, o escólio de Dalmo de Abreu Dallari72:

“O trabalho permite à pessoa humana desenvolver sua capacidade física e intelectual, conviver de modo positivo com outros seres humanos e realizar-se integralmente como pessoa. Por isso o trabalho deve ser visto como um direito de todo ser humano.”

Todo trabalhador tem direito ao trabalho, respeitando-se sua dignidade e seus direitos fundamentais declarados. Os direitos fundamentais são dotados de características especialíssimas, as quais demonstram a sua singular importância no

71 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional. 26 ed. atual. São Paulo:

Saraiva, 1999. p. 355.

sistema jurídico. Conforme ensina Alexandre de Moraes73, suas principais características são: a imprescritibilidade (os direitos fundamentais não desaparecem pelo decurso do tempo); inalienabilidade (não há possibilidade de transferência a outrem); irrenunciabilidade (não podem ser objeto de renúncia); inviolabilidade (impossibilidade de sua não observância por disposições infraconstitucionais ou por atos das autoridades públicas); universalidade (devem abranger todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político- filosófica); efetividade (a autuação do Poder Público deve ter por escopo garantir a sua efetivação); interdependência (as várias previsões apesar de autônomas, possuem diversas intersecções para atingirem suas finalidades); complementaridade (não devem ser interpretados isoladamente, mas sim de forma conjunta com a finalidade de alcançar os objetivos previstos pelo legislador).

Em inspiradora lição, Norberto Bobbio74 afirma que a paz, a democracia e os direitos fundamentais constituem três momentos inquestionavelmente necessários do mesmo movimento histórico. A paz, assim, atuaria como pressuposto inafastável para o reconhecimento da proteção dos direitos fundamentais, sendo certo que não haverá democracia onde não forem garantidos os direitos fundamentais e, inexistindo democracia, não sobreviverão as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos.

O trabalho, fora de dúvida, é o meio fundamental dado à pessoa humana para efetivar e sublimar sua existência com dignidade. Sua proteção, em decorrência, assume diferenciado relevo e superior importância. Daí a construção dos direitos fundamentais no trabalho.

73MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 14ª ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 55. 74

3.1. Os desafios da proteção internacional ao trabalho