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Dificilmente uma investigação em ciências sociais e humanas conseguirá abranger a totalidade das variáveis e das relações dinâmicas que ocorrem entre os elementos, os atores e no seu meio circundante. Com efeito, seria utopia pensar que, por um determinado período, fosse possível a sua transposição para um ambiente laboratorial. Porém, temos obrigatoriamente que procurar uma aproximação ao contexto emergente por forma a alcançarmos uma maior coerência e rigor nos resultados e na sua análise.

O processo de investigação que iremos seguir integra três fases cruciais: (1) a fase concetual, (2) a fase metodológica, e (3) a fase empírica. A cada fase do processo correspondem etapas distintas, conforme representação esquemática pela Figura 0.2.

Figura 0.2: Etapas do processo de investigação

Fonte: Adaptado de Fortin (2009, p. 38)

Como clarifica Fortin (2009), cada etapa do processo não é necessariamente independente de outras, tanto que, por vezes, “se sobrepõem para permitir uma melhor clarificação do objecto de estudo” (p.38), significa pois, que muito embora as etapas se definam ao nível teórico de uma forma progressiva, nem sempre o processo segue o modelo na sequência que se apresenta, porém, nenhuma delas deverá ser negligenciada.

Investigar não é apenas um simples método de observação ou inquirição com vista à obtenção de dados. Uma pesquisa persegue objetivos que visam a descoberta, a explicação e a compreensão dos factos que compõem determinada

realidade.

FASE CONCETUAL - Formulação da questão de investigação

- Revisão da literatura pertinente na área de estudo - Elaboração do quadro de referência

- Enunciação dos objetivos e proposições

FASE METODOLÓGICA - Elaboração do desenho de investigação - Definição do universo populacional - Definição das variáveis

- Elaboração dos métodos de recolha de dados - Definição dos métodos de análise dos dados

FASE EMPÍRICA - Recolha dos dados

- Codificação e analise dos dados - Interpretação dos resultados - Comunicação dos resultados

Um problema pode ser estudado a partir de diferentes paradigmas. Acredita-se que não exista uma melhor ou pior metodologia de investigação. Existem métodos que observam técnicas diferenciadas as quais o investigador deve conhecer para uma escolha consciente daquela que lhe permitirá, sob um referencial teórico-analítico, encontrar resultados fidedignos.

Em ciências sociais e humanas a investigação carateriza-se pela multiplicidade - traduzida por conjunto de abordagens, nem sempre consensuais entre os autores, acerca de aspectos epistemológicos e metodológicos do processo de pesquisa, e ainda pela dependência contextual - particularidade que lhe confere uma natureza indissociável dos contextos socioculturais em que a mesma é produzida (Coutinho, 2011).

A abordagem qualitativa ocupa um reconhecido lugar entre as várias possibilidades de estudo de fenómenos em ciências sociais e humanas. Tal facto revela a necessidade de uma metodologia de pesquisa que abarque a complexidade das questões que envolvem o ser humano, onde a racionalidade não impere de forma absoluta sob modelos matemáticos interpretados pela máquina, pela simples razão de que o indivíduo não perceciona nem responde de forma linear aos mesmos estímulos. Mais. A realidade existe sob a forma dinâmica de múltiplas construções mentais e sociais, e, especialmente nos dias de hoje, mais que prevê-la e controla-la tem que ser compreendida tal como se apresenta no seu contexto natural e a partir da perspetiva de quem a vive. Na nossa investigação, à semelhança de muitas outras pesquisas nesta área científica, estudamos variáveis cuja representação está ancorada em conceitos

abstratos. No mesmo sentido que Coutinho (2011) questionamos: “Como podem

os métodos próprios das ciências naturais elucidar-nos dos significados das acções humanas se esses significados não são ‘mensuráveis’, ou seja, susceptíveis de uma observação rigorosa como pretendem os positivistas?” (p.17). Interroga, ainda, a autora: “Pode o comportamento das pessoas ser regulado por leis gerais e causais susceptíveis de serem generalizáveis?” (p.17). Cremos, efetivamente, que não! A explicação para o mundo social terá que

emergir de um paradigma interpretativo que vise descodificar, pela presença ou pela sua ausência, componentes de um sistema complexo de significados (o que está escrito e o seu significado) que não têm uma representação totalmente objetiva nem são vivenciados de forma polarizada.

Ao posicionarmos a investigação qualitativa sob o paradigma interpretativo assumimos o compromisso de tomarmos por objeto os significados atribuídos pelos indivíduos aos sentidos, ações ou acontecimentos por si vivenciados. Kirk e Miller (1986) citados por Lessard-Hébert, Goyette, and Boutin (2010) preconizam a tese que defende que a validade de estudos que incidem sobre grupos ou culturas humanas passa, necessariamente, por uma “interacção

pessoal a longo termo” entre o investigador e os sujeitos no seu ambiente

natural

Não existe outro procedimento para assegurar este tipo de validação senão a interacção pessoal continuada. Não podemos estar absolutamente certos de que compreendemos todos os aspectos culturais inerentes a uma dada situação, mas o facto de ter em campo um investigador aberto e inteligente, possuidor de um bom quadro teórico e de um bom relacionamento, durante um longo período, constitui a melhor verificação da validade dos nossos conhecimentos. (pp. 75-76)

Não estamos seguros de termos sido abençoados com o dom da inteligência na dimensão que referem os autores. Temos, porém, a certeza de um percurso de trabalho que já conta para lá de vinte e três anos numa instituição da Administração Pública, das equipas que lideramos, das dificuldades que diariamente superamos e das conquistas que alcançamos.

Outro aspecto que nos merece uma reflexão inicial respeita à representatividade de uma população. E aqui, quando usamos o termo

representatividade não nos referimos, particularmente, ao sentido probabilístico

do conceito. Com efeito, a questão que nos orienta é a de sabermos em que medida os sujeitos que participam no estudo são suscetíveis de fornecer os dados adequados, i.e., de testemunhar acerca da sua experiência que nos permita inferir acerca da problemática em estudo expectantes de atingir uma

diversidade e saturação dos dados e não a dimensão de uma dita amostragem da população para generalização absoluta de resultados.