3.3 Diskusjon
3.3.2 Utvalg 2
Após a análise dos quinze estrangeirismos franceses, um balanço geral se faz necessário. A primeira observação a ser feita é com relação ao jornal que mais forneceu estrangeirismos para análise. Dos quinze encontrados, apenas três deles mademoiselle, mignon e salon não ocorreram no Bello Horizonte. É preciso observar também que a soma dos usos dos quinze estrangeirismos nos dá um total de sessenta e cinco ocorrências. Desse total, trinta e seis (55%) aconteceram no
Bello Horizonte.
Os contextos em que os quinze estrangeirismos franceses ocorreram são diversos. No entanto, observa-se uma tendência de uso de estrangeirismos franceses em anúncios publicitários e na descrição de pessoas. Das sessenta e cinco ocorrências, trinta e duas (49%) foram utilizadas para descrever pessoas, suas roupas e seus acessórios. As descrições apareceram em notas sobre festas, notas sobre inaugurações, em um texto sobre uma comédia que não conseguia fazer rir, na cena de uma peça e no elogio de um presente recebido.
O segundo contexto mais encontrado foi o de anúncios. Das sessenta e cinco ocorrências, vinte e quatro (37%) foram encontras em algum anúncio. Os anúncios ofereciam os mais variados produtos e serviços: material elétrico, roupas sob medida, móveis domésticos e para
131 estabelecimentos comerciais, gêneros alimentícios e bebidas, aulas de piano e francês, restaurantes e salão de perfumarias e de barbeiro.
As outras ocorrências se dividem em: uma nota sobre o roubo de mercadorias, duas notas sobre eventos ocorridos em Paris, duas notas sobre corrida de bicicletas, uma nota sobre eventos do carnaval e dois textos de elogios a uma revista e ao número de uma folhinha.
No que se refere à forma como os estrangeirismos foram grafados, o que se percebe é uma falta de critério e de padronização no tratamento desses elementos e a predominância de escolhas particulares e pessoais. Para esclarecer a questão, observemos um trecho onde o estrangeirismo
toilette ora aparece em itálico e ora aparece sem marcas: "O nosso representante tomou nota das
seguintes toilettes: Senhoritas, Guiomar Pereira, Coralia e Ordalia Magalhães, toilette blanche; Nenesta Ottoni, Rita Ribeiro e Pequenina Brant, en bleu; (...) Sinhá Ottoni, saia preta e blusa
jaune; Olga Campista, toilette blanche et rubans rose".173
No exemplo anterior e em outros que encontramos, percebe-se, ao que tudo indica, que o tratamento dos elementos estrangeiros era determinado, como já dissemos, pelas escolhas dos autores dos textos. Tal conclusão esclarece o motivo pelo qual encontramos, em um mesmo jornal, grafias diferentes e marcas diferentes para um mesmo estrangeirismo. No entanto, não podemos nos esquecer que atitudes individuais podem representar o pensamento coletivo.
Alguns estrangeirismos, entretanto, mantiveram um padrão de grafia: bonnet, cognac,
madame, mademoiselle e restaurant. Em todas as ocorrências, eles apareceram sem marcas. Essa
constante nos leva a crer que, possivelmente, todos os cinco já eram bem conhecidos ou bem usados por aquela comunidade. Por esse motivo, reconhecemos que, apesar da falta de critério e padronização no tratamento dos elementos, a forma como eram grafados nos serviu como pista e como informação complementar no momento de estabelecer considerações sobre a frequência e o conhecimento, por parte dos redatores e leitores, daqueles estrangeirismos franceses.
No que diz respeito à semântica, percebe-se que todos os quinze foram usados com pelo menos uma das acepções propostas pelas definições do dicionário da Academia Francesa. Em relação à inovação de sentido, apenas salon, em um dos dois casos em que apareceu, mostrou um sentido diferente dos que estavam previstos no dicionário da Academia. Para outros dois, bonnet e cognac, tivemos o pressentimento de que estariam trazendo novos sentidos, mas não tínhamos exemplos e nem evidências suficientes que comprovassem o palpite.
132 Para finalizar as considerações acerca da semântica dos elementos estrangeiros, três reflexões se fazem pertinentes: 1) a maioria dos estrangeirismos possuía vários sentidos na língua francesa e foram usados nos exemplos com apenas um deles; 2) alguns deles permaneceram na língua portuguesa e evoluíram para sentidos diferentes daqueles inicialmente propostos e 3) estrangeirismos como bonnet, mademoiselle e madame que já tinham entrado na língua portuguesa há muito tempo, já tinham se aportuguesado ou possuíam correspondentes na língua, retomaram a forma estrangeira, cremos, em razão da forte influência francesa na época.
Outro aspecto que consideramos para a análise foi a morfologia. Percebemos que a classe predominante entre elementos tomados por empréstimo é a dos substantivos. Dentre as sessenta e cinco ocorrências de estrangeirismos franceses, encontramos apenas dez usos como adjetivos, ou seja, aproximadamente 15% das ocorrências. Em relação ao gênero, os estrangeirismos analisados seguiram o mesmo gênero da língua francesa. A flexão de número foi a mais difícil de ser avaliada, pois os exemplos eram escassos.
Como parte da análise, também tentamos estabelecer os campos lexicais a que pertencia cada um dos estrangeirismos. Dos quarenta e dois campos174 que utilizamos como referência, oito foram encontrados no nosso trabalho. Foram os oito que nos demonstraram em que áreas da vida da população belo-horizontina o uso de elementos franceses era mais frequente.
A nossa análise se baseou em quinze estrangeirismos, mas como um deles salon foi encontrado com mais de um sentido, foi preciso encontrar mais um campo lexical. Dessa forma, os dezesseis sentidos encontrados ficaram assim distribuídos: três ocorrências para móveis e adornos da casa e também para vestuário; duas para cor/nuance, para epípetos e formas de tratamento, para estabelecimento comercial e para estrangeirismo não classificado; uma ocorrência para culinária/alimentação e uma para esporte/lazer.
Assim como assumimos no capítulo teórico, nós acreditamos que, do ponto de vista do uso, não há equivalência perfeita entre itens estrangeiros e vernáculos. No entanto, a verificação de possíveis equivalentes dos estrangeirismos franceses na língua foi importante, pois serviu como uma indicação a mais a respeito da sua entrada recente ou não na língua. Assim sendo, descobrimos que a maioria deles já possuía correspondentes na língua portuguesa. Os correspondentes se configuravam tanto como formas portuguesas equivalentes ou como formas francesas já aportuguesadas. Apenas para três estrangeirismos não conseguimos determinar se
133 possuíam ou não correspondentes ou se já eram aportuguesados: bureau ministre, cognac e poule. Isso se deu pela falta de mais exemplos e informações.
Na tentativa de estabelecer e explicar as razões pelas quais os estrangeirismos franceses foram tomados por empréstimo, descobrimos que a maioria deles foram utilizados como forma de identificação com a cultura francesa. Grande parte desses já possuía correspondentes em português ou já tinha se aportuguesado e a forma francesa foi retomada. Outra parte dos estrangeirismos foi usada para nomear objetos ou conceitos novos que se transferiram para essa nova cultura e apenas um foi utilizado para trazer ao texto cor local.