Para o presente trabalho, operamos com dois tipos de análise: a que efetuamos nos jornais, através da leitura e recolhimento de estrangeirismos franceses e a que vamos realizar com os estrangeirismos. Os resultados parciais da primeira análise foram expostos nas seções anteriores. A partir de agora, demonstraremos os aspectos que estarão envolvidos no segundo tipo de análise.
A análise dos estrangeirismos começará com a apresentação de suas definições tanto em língua francesa como em língua portuguesa. Ambas serão extraídas de dicionários referentes ao período que estabelecemos anteriormente. A definição em língua francesa será retirada da versão
83 informatizada da oitava edição do Dictionnaire de l’Académie Française (1932-1935)139. Por sua vez, a definição em língua portuguesa derivará do Grande e Novíssimo Dicionário da Língua
Portuguesa (1939-1944), dicionário de Laudelino Freire.
O Dictionnaire de l’Académie Française é o dicionário oficial da língua francesa e pode
ser facilmente encontrado em versão informatizada. Por sua vez, O Grande e Novíssimo
Dicionário da Língua Portuguesa é uma obra de referência no quadro da lexicografia de língua
portuguesa. A edição utilizada para este trabalho encontra-se disponível na Biblioteca de Obras Raras da Universidade Federal de Ouro Preto.
Foram escolhidos um dicionário em língua portuguesa e outro em língua francesa, pois acreditamos que o contraste entre as duas definições nos possibilitará perceber se a unidade lexical estrangeira manteve o(s) sentido(s) que possuía na sua língua de origem. Outro dicionário da língua francesa será utilizado nos casos em que, por ventura, a unidade não figurar no dicionário da Academia. Tal dicionário é a versão numérica do LE PETIT ROBERT.
Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française. Paris, 1986. Esse dicionário é
um dos mais populares e um dos mais conhecidos da língua francesa.
Para confirmar a entrada do estrangeirismo na língua portuguesa, utilizaremos e apresentaremos as definições encontradas no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009). Esse dicionário contemporâneo será utilizado para o acompanhamento das mudanças de sentido sofridas pelos estrangeirismos. Apesar de não ser um dicionário etimológico, podemos encontrar nele algumas informações a respeito da data de entrada dos estrangeirismos na língua portuguesa. Por se tratar de uma obra que não é referência em etimologia, é preciso ter a ciência de que as informações nele contidas devem ser cuidadosamente consideradas. O Dicionário Etimológico
Nova Fronteira da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha (1982)140, será consultado
nos casos em que precisarmos confirmar a etimologia de algum estrangeirismo.
Logo após as definições dos três dicionários, traremos os trechos dos textos onde figuram os estrangeirismos. Os exemplos foram coletados e transcritos da forma mais abrangente possível para que o contexto de utilização ficasse esclarecido.
139 A oitava edição do Dicionário da Academia Francesa está disponível no site do Centro Nacional de Pesquisas
Textuais e Lexicais (http://www.cnrtl.fr/). O site foi criado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica, um organismo público de pesquisa colocado sob a tutela do Ministério Francês de Ensino Superior e de Pesquisa.
140 CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2ed. Rio de Janeiro:
84 A informação subsequente que comporá a análise revela em que jornais cada estrangeirismo foi encontrado. Além disso, descrevemos o contexto de utilização para completar as informações trazidas pelos trechos dos textos. Desta forma, pretendemos ser capazes de dizer se o uso de elementos estrangeiros era bem difundido ou se se restringia apenas a algumas situações.
O próximo aspecto observado será a forma com que os itens lexicais estrangeiros foram grafados nos respectivos jornais. A grafia é um elemento extremamente importante uma vez que através dela é possível observar o grau de adaptação e reconhecimento dos estrangeirismos e sua relação com os emissores e receptores dos jornais.
Outro aspecto que será observado e que tem relação com a integração do elemento emprestado à língua receptora é a sua possível mudança de classe, de gênero ou de número. Deste modo, considerações sobre os aspectos morfológicos de cada estrangeirismo francês serão tecidas e comporão a análise. Aspectos semânticos também serão observados e analisados pois, de acordo com Guilbert (1975)141, um elemento mostra seu processo de instalação na língua receptora quando ele adquire novos significados.
Prosseguindo a análise, passaremos a um aspecto que, para nós, servirá mais precisamente para demonstrar em que áreas da vida da população belo-horizontina o uso de estrangeirismos franceses era mais frequente. Estamos nos referindo aos campos lexicais que serão considerados aqui no sentido geral do termo.
Não é nosso objetivo trabalhar segundo a vertente estrutural proposta por Coseriu (1977): “A teoria do campo lexical de Eugenio Coseriu propõe uma análise estrutural do vocabulário, determinando o campo lexical dentro de estruturas lexemáticas onde os lexemas constituem um sistema de oposições”142. Os campos lexicais serão considerados como conceitos ordenadores que associam unidades lexicais que têm seus significados ou parte deles relacionados.143
Para finalizar, destacamos a importância da obra de Figueiredo144 para a verificação da possibilidade de existência de equivalentes dos estrangeirismos franceses na língua portuguesa da
141 GUILBERT, 1975 apud ALVES, 1984, p.120. 142 ABBADE, 2011, p.1339
143 A relação dos campos lexicais utilizada pode ser consultada na dissertação de mestrado: FRANCO. O léxico da
Belle Époque na obra de João do Rio, 2008, p.64-65.
144 FIGUEIREDO. Os Estrangeirismos. Resenha e comentário de centenas de vocábulos e locuções estranhas à língua portuguesa. Vol. 1. 6 ed. e Vol. 2. 4 ed. Livraria Clássica Editora. Lisboa, 1956-57.
85 época. Essa obra possibilitará igualmente a confirmação do sentido com que alguns eram usados e ajudará a determinar as razões de sua utilização.
Concluindo as etapas da análise, acrescentaremos informações suplementares a respeito dos estrangeirismos, quais sejam: se eles permaneceram na língua, se ganharam mais sentidos ou se se constiuíram apenas em uma moda do momento.
Abordando todos esses aspectos e explorando ao máximo as características dos estrangeirismos franceses, acreditamos que seremos capazes de dizer de que modo a busca de modernidade e progresso em Belo Horizonte, baseada em moldes franceses, afetou a linguagem utilizada pelos jornais. Pretendemos ser capazes de dizer também até que ponto a busca de civilização para a cidade lhe impôs novos hábitos, novas necessidades e novas unidades lexicais.
Sabemos que em algumas cidades brasileiras a influência francesa determinava os modelos da vida social e as referências intelectuais para a elite brasileira, que ao importar valores e hábitos franceses, acreditavam estar adotando paradigmas tidos como a "civilização". Pretendemos ser capazes de dizer como essa situação se desenrolou na nova capital do estado de Minas Gerais.
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