Informativ og normativ sosial påvirkning
3.1 Analyse av problemstillingen
3.4.2 Utvalg av respondenter
A cartografia dos lugares possíveis que, em relação de dialogia e/ou recursividade, podem nos evidenciar as (in)coerências na compreensão e prática da comunicação organizacional, para além de atender às nossas inquietações científicas, busca colaborar com práticas de gestão, diagnóstico e auditoria em comunicação e, por consequência, com o avanço e a legitimação
64 A expressão cartografia, enquanto disciplina que trata da concepção, produção, disseminação e estudo de mapas (ASSOCIAÇÃO CARTOGRÁFICA INTERNACIONAL, 1991), é aqui utilizada como metáfora que representa o conjunto de esforços a fim de compreender e mapear os possíveis (não/entre)lugares da comunicação no universo organizacional.
143 da comunicação organizacional como área vital e estratégica no universo corporativo.
Para investigar as concepções de comunicação dos gestores das organizações investigadas e analisar as dimensões que proporcionam a (não) lugarização da comunicação organizacional, partimos de dois lugares mapeados por nós a priori, com base na nossa compreensão, vivência, aprofundamento teórico e experiência profissional na área de comunicação organizacional. São eles: o lugar institucional e o lugar empírico. Vale ressaltar que temos ciência de que se trata de uma entre as tantas possibilidades de cartografar a comunicação organizacional.
Por lugar institucional, compreendemos o lugar oficial conferido à comunicação, que se manifeta por meio das falas e documentos oficiais [institucionais], das organizações. Esse lugar materializa-se nos espaços institucionalizados que a comunicação, enquanto área/setor organizacional, ocupa na estrutura das multinacionais, a quem se reporta, e também em políticas, diretrizes, textos, organogramas, conteúdos impressos e digitais, assim como documentos de outra natureza, nos quais seja possível identificar, entre outras dimensões, quais são suas atribuições, seus princípios, sua localização na estrutura organizacional.
Trata-se de um (não/entre)lugar que assegura, de certa forma, um espaço institucionalizado para a comunicação no sistema organizacional, ao mesmo tempo em que revela o posicionamento oficial da organização sobre a área, ao reunir as suas escolhas conceituais e pragmáticas. Também é o lugar institucional que, teoricamente, pauta a compreensão, postura e atuação dos profissionais de comunicação da organização.
Ao serem produtos culturais (PINTO, 1999), a materialização do discurso, os textos e falas revelam um modo de pensar, uma construção social e cultural, e carregam na sua materialidade, em cada parte, a totalidade das condições de sua produção. Como nos assinala Verón (2004), não há discurso – e tampouco texto – que não esteja social, cultural, ideológica, temporalmente situado. Sendo assim, acreditamos que os textos corporativos, assim como as falas organizacionais, materializam o discurso da organização e, de certo
144 modo, são como seu espelho, revelam-na em cada palavra escolhida, em cada fotografia, em cada ângulo, em cada parágrafo e também em cada escolha, no que evidencia e no que oculta, no que exibe em frases e no que permanece em silêncio.
Como apreender o que está fora dos textos, dos documentos, do lugar institucional? A compreensão de comunicação não se revela apenas nos discursos oficiais, mas também nos (não) verbais, não apenas na fala autorizada das lideranças, mas também na fala informal de quem habita a organização. Para complementar o lugar institucional vamos também ao encontro do lugar empírico. Complementar ao texto, a fala, os discursos verbais dos sujeitos organizacionais são, assim como os textuais, reveladores.
Se os sujeitos são parte do todo – a organização – e a representam, o seu
entendimento de comunicação também deixam transparecer o olhar da organização. Assim como os textos, as falas agem também como espelhos. Em um movimento hologramático, a concepção dos sujeitos tende a revelar o modo como a organização compreende/entende a comunicação, seus discursos contêm partes do todo, do olhar partilhado sobre a área nos ambientes organizacionais (figura 7).
Figura 7 – Cartografia dos lugares
145 Os dois lugares aqui mapeados, na complexidade da vida e das organizações, não existem separadamente, mas mesclam-se, complementam- se, produzem-se mutuamente, recursivamente. Para investigar tais lugares, realizamos o que chamamos de momentos de conversação, a partir da técnica de entrevistas em profundidade (DUARTE, 2008), com as lideranças de comunicação das organizações investigadas. Compreendemos a conversação a partir de Maturana (2001) como coordenações de ações e emoções que se entrelaçam em redes e são parte da existência e do viver humano.
A opção por denominar esta etapa de momentos de conversação (MATTOS, 2005) se deve à compreensão de que o encontro com nossos interlocutores vai além da coleta de dados, como por vezes restringem-se as técnicas de entrevistas. Para Mattos (2005), ao se configurar em uma interação linguística, não é possível ignorar o efeito da presença do pesquisador e das situações criadas (pelo entrevistado) no ato da entrevista, do encontro. Acreditamos que os sentidos que emergem na conversação não estão apenas na palavra verbalizada; a palavra, em si, é apenas o fragmento do discurso. Os sentidos nascem do movimento complexo e recursivo da conversação, no qual
os gestos, o tom, a postura, o contexto, no sentido etimológico da palavra – do
que é tecido junto – são tramados no ato da conversação e são
corresponsáveis pelos sentidos que emergem do encontro.
Para alcançar os resultados esperados no momento de conversação, acreditamos ser necessária uma escuta sensível, que dê espaço à sensibilidade indispensável para apreender a trama dos sentidos e que permita ao entrevistador e ao entrevistado estarem em relação e não diante de si para uma interação contratual de perguntas e respostas. A escuta sensível integra a metodologia denominada Abordagem Transversal, do sociólogo francês René
Barbier65, que se caracteriza por unir dimensões sociológicas, psicológicas,
conjugando várias disciplinas com o olhar filosófico, com a sensibilidade estética e poética na perspectiva crítica e compreensiva.
65 René Barbier, pesquisador francês, é professor emérito da Universidade Paris VIII. Desenvolve seus estudos no âmbito da sociologia da educação, sendo especialista em pesquisa ação que ele denomina deà e iste ial ,à aà ualà e introduz as categorias de sensibilidade, imaginação, corpo, criação, o mito- poético. É autor da teoria da Abordagem Transversal, utilizada no Brasil principalmente em pesquisas no campo da educação (BARBIER, 1998, 2007).
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A abordagem transversal reconhece a importância primordial do imaginário tridimensional (pulsional, social e sacra!) que ultrapassa as categorias classificatórias habituais em ciências humanas. Dentro da perspectiva da complexidade, tão cara a Edgar Morin, ela desenvolve uma teoria da escuta-ação deste imaginário nos planos científico, filosófico e poético. Ela requer do pesquisador ser mais que um especialista: por meio da abertura concreta sobre a vida social, política, afetiva, imaginária e espiritual, ela faz um convite para que ele seja verdadeiramente, e talvez, tão simplesmente, um ser humano (BARBIER, 2007, p. 15).
Para encarnar nossa humanidade no momento de conversação é preciso empatia, uma escuta com sensibilidade. Segundo Barbier (2007), o pesquisador necessita buscar sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo
do outro para assim compreender “de dentro” suas atitudes, comportamentos,
sistemas de ideias, valores, símbolos, mitos, etc., que é, em essência, o entendimento de conversação, a partir de Maturana (2001). A escuta sensível
nos possibilita acionar a sensibilidade e manter nossa “humanidade” no
momento da conversa, o que nos parece coerente [e até necessário] quando se trata de uma pesquisa de “espírito complexo”.
A partir da escuta, buscamos encontrar pistas sobre a compreensão de comunicação que se revelam na tessitura das palavras, dos olhares, dos gestos, do comportamento, permeados de múltiplos sentidos e do que emergir no momento do encontro. Uma escuta que compreenda a linguagem humana como polivalente e polifuncional, capaz de constatar, transmitir, argumentar, dissimular, proclamar, prescrever (MORIN, 2008). Ao expressar-se, não apenas o que está dito está explícito. Conforme nos alerta Brait (1993), as formas dessa maneira de dizer, a entonação, gestualidade, expressão permitem
uma série de leituras dos elementos que mesmo estando implícitos se revelam e mostram a interação como jogo de subjetividades, um jogo de representações em que o conhecimento se dá através de um processo de negociações, de troca, de normas partilhadas, de concessões (BRAIT, 1993, p. 94).
Embora com um pré-roteiro para guiar a conversa, sabíamos, de antemão, que os momentos de conversação estavam rodeados de incertezas, já que não é possível prever a priori os rumos, os caminhos e aonde chegaríamos junto aos nossos parceiros de diálogo. A incerteza é a certeza
147 quando não partimos com um questionário fechado, uma trilha traçada, em busca de respostas absolutas que atendam a hipóteses preconcebidas. Para esses momentos de conversação e escuta sensível, partimos, assim como no decorrer deste estudo, com a bússola do pensamento, com algumas curiosidades para dar início à escuta e alguns parceiros teóricos de caminhada. Os momentos de conversação foram orientados por um guia semiestruturado de questões que buscaram atender aos objetivos da tese: a) discutir as concepções de comunicação dos gestores da área; b) analisar as possíveis (in)coerências entre os lugares institucional e empírico da comunicação nas organizações analisadas; c) investigar o nivel de (não/entre)lugarização da comunicação organizacional nas multinacionais e as dimensões que interferem nesse processo. Para atender a esses objetivos, o guia da contemplava três principais ênfases, conforme o quadro 2, a seguir. Cada ênfase foi composta por um conjunto de perguntas/temas que foi
abordado ao longo do diálogo66.
Ênfase Objetivo
Organização/atribuições da área na multinacional
cartografar o lugar institucional e empírico
Concepções do gestor sobre comunicação organizacional
investigar suas (in)compreensões sobre comunicação organizacional
Legitimidade e reconhecimento da área analisar o nível de (não/entre)lugarização da comunicação e as dimensões que interferem
no processo.
Quadro 2 – Guia dos momentos de conversação
Fonte: elaborado pela autora
Por si só, este não seria um estudo em que no momento da aplicabilidade das técnicas, da ida a campo, da imersão na paisagem, nós,
148 pesquisadores, deixaríamos de lado a sensibilidade, a memória, os sentidos, o que somos, para assumirmos as vestes de especialistas e, a distância (do entrevistado e de nós mesmos), observarmos nosso objeto de estudo. Não seria coerente com o nosso método, que propõe exatamente o oposto: não há como estarmos do lado de fora, pois o objeto também está em nós. O pesquisador está na sociedade que também está nele, nos recorda Morin (2000, 2003). Como profissionais e pesquisadoras, atuamos em comunicação organizacional e ela está em nós, assim como estão todas as nossas escolhas e crenças paradigmáticas que se manifestam em nosso modo de compreender a área, as organizações, o mundo e a vida, e elas permaneceram presentes em cada etapa deste estudo, sobretudo nos momentos de conversação e análise, onde buscamos estar inteiras, na unidade diversa complexa que nos caracteriza.
Nesse sentido, complementamos a escuta sensível com momentos de observação sensível, uma vez que todos os momentos de conversação ocorreram, propositalmente, no ambiente organizacional das multinacionais que compõem a amostra. Assim como a escuta sensível nos momentos de conversação, a observação sensível do cotidiano organizacional é aberta à sensibilidade, à humanidade, à complexidade das rotinas e das pessoas. A presença nos ambientes nos possibilitou conhecer, pessoalmente, o espaço físico e observar, mesmo que brevemente, o que ele revela sobre sua identidade, rotinas, comportamentos, processos, sentidos, assim como desencontros e desordens que conformam o cotidiano do universo organizacional.
Além de requerer a presença afetiva, humana e sensível do pesquisador no encontro com o entrevistado, a escuta e a observação sensível também reconhecem a aceitação incondicional do outro. No encontro, não situamos a pessoa em “seu lugar” (físico, organizacional), mas a reconhecemos na dimensão do seu ser, na qualidade de pessoa complexa, dotada de liberdade, de imaginação, na sua totalidade e na sua existência dinâmica (BARBIER, 2007). Alguém só é pessoa, ressalta Barbier (2002), através da existência de um corpo, da imaginação, da razão e da sua afetividade, todos em interação permanente. A escuta sensível aproxima-se da razão sensível proposta por
149 Maffesoli (2008), que nos convida a integrar a experiência sensível espontânea que é da natureza da vida cotidiana, à produção intelectual, científica, e
também é coerente com o entendimento que temos sobre o “fazer ciência”, a
partir do Paradigma da Complexidade.
De acordo com Sodré (2006a), nem sempre as dimensões sensíveis, fruto dos sentidos, são comunicadas racionalmente. Nos fenômenos da simpatia, da antipatia, do amor, da paixão, das emoções, mas igualmente nas relações em que os índices predominam sobre os signos com valor semântico, exemplifica o autor, algo passa, transmite-se, comunica-se, sem que nem sempre se saiba muito bem do que se trata. E é na presença e no encontro que os sentidos podem tornar-se perceptíveis.