Bilder og figurer
PRODUCED BY AN AUTODESK EDUCATIONAL PRODUCT
8 UTSTYRSBEHOV/FORUTSETNINGER FOR GJENNOMFØRING
Os argumentos baseados na estrutura do real têm esse nome por se valerem da própria estrutura do que é considerado real para “[...] estabelecer uma solidariedade entre juízos admitidos e outros que se procura promover”365, ou seja, utilizam tal estrutura para instituir uma ligação entre opiniões formadas acerca de acordos já válidos para o auditório. Não interessa saber em que se fundamenta a crença da existência do acordo, mas sim que ele exista e seja aceito e inquestionável. Dentre tais argumentos, destacam-se dois grupos: os que se aplicam às ligações de sucessão, que relacionam um acontecimento às suas causas ou às suas conseqüências, e as ligações de coexistência, que observam a relação de uma essência com suas manifestações.
3.2.4.2.1 As ligações de coexistência
As ligações de coexistência inserem-se no último caso mencionado, isto é, contrário às ligações de sucessão cujos elementos encontram-se em um mesmo nível dentro de uma relação temporal; às ligações de coexistência importa relacionar elementos de realidades 362 PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, p. 250. 363 Ibid., p. 251. 364 Ibid., p. 257. 365 Ibid., p. 297.
distintas, sendo a dimensão temporal secundária. Neste caso, os argumentos fundam-se na relação de coexistência entre a essência, parte integrante, e suas manifestações, instância transitória, sendo que o “[...] protótipo dessa construção teórica se encontra nas relações existentes entre uma pessoa e seus atos.”366 Incluem-se aí as relações de seus juízos ou suas obras. Por esse caminho, Perelman discorre sobre o vínculo da pessoa e seus atos: “a construção da pessoa humana, que se vincula aos atos, é ligada a uma distinção entre o que se considera importante, natural e próprio do ser de quem fala, e o que se considera transitório, manifestação exterior do sujeito.”367
A correlação entre a pessoa e seus atos, parcialmente solidários e parcialmente independentes, é que possibilita a utilização freqüente de argumentos baseados nessa relação de coexistência.
De fato, aquilo que se atribui a uma pessoa, faz-se em função das suas manifestações cuja base é construída em cima da unidade e da estabilidade observáveis no conjunto dos seus atos. Presumimos essa estabilidade quando interpretamos o ato em função da pessoa. Por isso, a idéia de pessoa introduz um elemento de estabilidade por oposição aos atos, manifestações transitórias, variadas e mutáveis, embora essa estabilidade nunca esteja totalmente assegurada. Da mesma forma que os atos reverberam no conceito que fazemos acerca de uma pessoa, a qual, todavia, é passível de reconstrução, por reciprocidade, é possível usar o conceito como premissa para avaliar seus atos. Neste caso, quando a pessoa serve como contexto para a interpretação do ato, geralmente se abre mão da noção de intenção.
Na argumentação, a pessoa é considerada suporte de qualidades, autora de atos e juízos, objeto de apreciações, um ser duradouro em cuja volta há uma série de fenômenos aos quais ela dá coesão e significado. Atos são emanações da pessoa, suas ações, modos de expressão, reações emotivas, cacoetes involuntários ou juízos.368
Nesse sentido, Perelman coloca que muitos argumentos são influenciados pelo prestígio do orador; assim, dispõe sobre o que chama de argumento de autoridade, “[...] o qual utiliza atos ou juízos de uma pessoa ou de um grupo de pessoas como meio de prova de uma tese.”369
O autor lembra que não existe autoridade que prevaleça sobre uma verdade demonstrável, mas o mesmo não acontece a respeito de opiniões ou juízos de valor; por isso, considera “[...] essencial em todos os domínios em que não se dispõe de um procedimento
366
Ibid., p. 334. 367
Ibid., loc. cit. 368
Cf. Ibid., p. 336-9. 369
admitido para o estabelecimento dos fatos e das verdades.”370 É freqüente o ataque ao argumento de autoridade, mas é raro ocorrer o contrário, o que, via de regra, garante-o.
Porém, as autoridades invocadas variam muito: “ora será ‘o parecer’ ou ‘a opinião comum’, ora certas categorias de homens, ‘os cientistas’, ‘os filósofos’, ‘os padres da igreja’ [...]; por vezes a autoridade será impessoal [...] ‘a religião’, ‘a Bíblia’; por vezes autoridades designadas pelo nome.”371
Ainda na circunscrição da relação entre ato e pessoa, há o discurso que é prioritariamente vislumbrado como um ato do orador (discurso como ato do orador); neste caso, “o orador se arrisca a ser considerado, pelo ouvinte, vinculado a seu discurso. Essa interação entre orador e discurso seria inclusive a característica da argumentação, opostamente à demonstração.”372 A relevância incide sobre o papel do orador “à medida que a linguagem utilizada se afasta da univocidade, à medida que o contexto, as intenções e os fins adquirem importância.”373
A pessoa do orador é o contexto fundamental para a apreciação do sentido e do alcance de suas afirmações, mesmo ao reproduzir palavras de outrem, pois não há simples transferência de valores, mas reinterpretação em um novo contexto, avaliado pelo que se conhece do autor presumido. Outra estrutura argumentativa, baseada na estrutura do real, eficaz e de intenso potencial persuasivo é nomeada de ligação simbólica. Deve-se, antes de tudo, esclarecer que o entendimento de símbolo para Perelman não se distancia do sentido junguiano, conforme mencionamos no primeiro capítulo; deixemos suas palavras falarem por si: “[...] símbolo, para nós, se distingue de signo, porque não é puramente convencional; se ele possui um significado [...] são tirados do fato de que parece existir, entre símbolo e o que ele evoca, uma relação que, na falta de melhor termo, qualificaremos de relação de participação.”374 Por essa via, a ligação simbólica estabelece “[...] uma relação de participação, assente numa visão mítica ou especulativa de um todo do qual símbolo e simbolizado fazem igualmente parte.”375
Para o autor, o vínculo simbólico é tido como se fizesse parte do real, embora ele não se refira a uma estrutura definida deste. Tem-se a impressão de que fazem parte da mesma camada de realidade e, por isso, a relação entre ambos é considerada analógica, “mas com isso se destruiria o que há de impressionante na ligação simbólica, pois, para que ela
370
PERELMAN, Argumentação, loc. cit. 371
PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, p. 350. 372
Ibid., p. 361. 373
Ibid., loc. cit. 374
Ibid., p. 377. (grifo do autor) 375
desempenhe seu papel, é preciso que símbolo e simbolizado estejam integrados numa realidade mítica ou especulativa, na qual participam um do outro.”376
A ligação simbólica ocasiona transferências entre símbolo e simbolizado, haja vista que na presença de certos símbolos há emoções por trás:
Quando a cruz, a bandeira, a pessoa do rei são encaradas como símbolos do cristianismo, da pátria, do Estado, essas realidades despertam um amor ou um ódio, uma veneração ou um desprezo, que seriam incompreensíveis e ridículos se, com seu caráter representativo, não estivesse relacionado um vínculo de participação. Este é indispensável para despertar o fervor patriótico ou religioso377
Em virtude do caráter indeterminado e indefinido da ligação simbólica, é possível transmitir um valor simbólico a qualquer coisa, ato ou acontecimento, modificando, pois, seu significado e relevância. O aspecto simbólico de certo ato será sempre mais aceito quanto menor plausibilidade existir de qualquer outra interpretação. Um indivíduo pode tornar-se símbolo e, quando isso acontece, é imediatamente considerado mais importante, por ser mais representativo do que os demais. Dessa maneira, o indivíduo representa o grupo porque foi escolhido para desempenhar um papel como, por exemplo, porta-voz, que exercerá uma influência determinante na conduta de todos.
Por fim, há de se comentar que os símbolos têm uma função inegável sobre os que reconhecem a ligação simbólica, mas nada significam para os outros, visto que são característicos de uma cultura particular e de nada servem para o auditório universal, o que lhes ratifica o aspecto irracional.
Posto isso, parece oportuno no momento ampliar o sentido de símbolo para cruzarmos as teorias já expostas. A etimologia da palavra símbolo é originária do grego symballein, que indica reconhecimento, visto que os gregos, utilizando o método de unir duas metades de moedas, que antes estavam sob posse de duas pessoas apartadas por um motivo qualquer, conseguiam identificar-se mutuamente por meio da união desse instrumento.378 Nesse sentido, à luz da concepção psíquica, símbolo é uma estrutura que consegue criar uma nova forma de unidade, antes fragmentada, a partir do encontro entre inconsciente e consciente, visível e invisível, palpável e impalpável ou instinto e idéia. A particularidade do símbolo é sempre portar um elemento cujo conteúdo é inefável, mas sempre tem algo a revelar; por isso se
376
PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, p. 378. 377
Ibid., loc. cit. 378
Cf. CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos... 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989. p. 20.
diferencia, como já apontamos, de signo que, pelo contrário, sempre significa algo pronto, plenamente visível. 379
Há uma aproximação entre Kant, Jung e Perelman no conceito de símbolo, pois os dois últimos “beberam no primeiro”, bem como em Cassirer, para então chegar a termo aos seus respectivos entendimentos. O método simbólico de experiência aproxima-se da ‘coisa em si’ de Kant, conforme Whitmont revela:
[...] para sempre incognoscível, ao perceber uma significação, translógica máxima não limitada por tempo, espaço e causalidade, que só pode ser sugerida ou intuída. Na verdade, em sua afirmação ‘um signo é uma parte do mundo físico do ser; um símbolo é uma parte do mundo humano do significado’, Cassirer sugere que o homem pode ser definido mais como animal symbolicum do que como animal rationale.380
De fato, Perelman fundamenta o que chamou de “participação” naquilo que Cassirer entende da relação entre símbolo e simbolizado, ou seja, assim como a parte se identifica com o todo, ambos, símbolo e simbolizado, não se distinguem, sendo apenas no encontro que algo novo se forma.381 Nesse ponto, há um interesse comum das teorias, pois tanto a teoria perelmeniana quanto a psicologia analítica junguiana, interessam-se pelo que se produz a partir do encontro. Enquanto à primeira importa o que a função simbólica (participação) consegue mobilizar nas pessoas − cujo resultado final é a adesão ao argumento empreendido −, à segunda é o que o símbolo produz no encontro do inconsciente com o consciente.