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5. Utslipp til luft

5.2 Omsøkt utslipp og representativitet for utslipp fra ovnshus

5.2.7 Utslipp av Bly til luft

Analisemos o conceito de “Esquizoanálise”. Este conceito será absolutamente central para definir o tipo de acção arquitectónica que será proposta mais adiante.

A “esquizoanálise” é um conceito proposto em “Capitalismo e Esquizofrenia: Anti-Édipo”. É difícil descrevê-lo. É um processo que, pela sua natureza, se evade a descrições.

Destuir, Destruir. A tarefa da esquizoanálise acontece pela destruição – um completo vasculhar do inconsiente, uma completa curetagem. Destruir Édipo, a ilusão do ego, o fantoche do superego, a culpa, a lei, a castração. Não é uma questão de destruição devota, como aquelas executadas pela psicanálise sob o olho benevolente do analista. Pois essas são destruições estilo-Hegel, formas de consevar. 34

A “esquizoanálise” é um processo pelo qual o indivíduo se torna num produtor de desejos; isto é, passará a ter um papel activo e criativo no que toca à definição do seu papel na “economia de fluxos”. É um processo sem início nem fim, cuja essência é o constante trânsito e transformação do indivíduo. A produção de desejo é, na “esquizoanálise”, a forma de interferir significativamente com o circuito fechado, “Édipalizado”35 do poder e do desejo em sociedade. Eis o que Mark Seen, tradutor desta obra para inglês, tem a dizer acerca do uso do conceito de Complexo de Édipo nesta obra:

(...) Pois Édipo não é uma mera construção psicológica. Deleuze e Guattari explicam que Édipo é a entidade representativa do imperialismo, da

colonização levada a cabo por outros meios, é a colónia interior (...) é a nossa íntima educação colonial. 36

Assim, “esquizoanalisar” é romper com a colónia interior que

Deleuze e Guattari crêem estar instituída no indivíduo. Esta “colónia”,       

34 ibid. Gilles Deleuze e Félix Guattari.: “Destroy, destroy. The tasks of schizoanalysis goes by way of destruction – a whole scouring of the unconscious, a complete curettage. Destroy Oedipus, the illusion of the ego, the puppet of the superego, guilt, the law, castration. It is not a matter of pious destruction, such as those performed by psychoanalysis under the benevolent neutral eye of the analyst. For these are Hegel-style destruction, ways of conserving”. Página 311.

35 Deleuze e Guattari colocam o complexo de Édipo e as suas ramificações nas relações de poder e na “economia de fluxos” como a base do chamado imperialismo. Constroem a partir das ideias de Wilhelm Reich, que na obra “The Mass Psychology of Fascism” estabelece uma ligação entre a hierarquia, o fascismo, a opressão com o complexo

e as relações de poder “Édipais”.

36 Ibid. Mark Seem: “For Oedipus is not a mere psychological construct. Deleuze and Guattari explain. Oedipus is the figurehead of imperialism, colonization pursued by other means, it is the interior colony (...)”it is our intimate colonial education” Página XX.

Esquizoanálise   

pode dizer-se, é um tipo de formação discursiva, através da qual o indivíduo e a sociedade se definem como tal, e que neste sentido, o valor criativo da esquizoanálise reside na (re)criação do indivíduo pelos seus próprios meios. Os papéis e as funções inventadas pelo indivíduo não requerem coerência segundo nenhum tipo de discurso ou regras que dirijam a formação de objectos. Nesta acção está implicada

resistência; pela reinvenção do indivíduo através da reinvenção das suas

práticas, actividades, e essencialmente, pela relação de primeira mão que este adquire com a(s) sua(s) subjectividade(s). A simultaneidade de contrariedades, coexistência de diferenças, a incorporação de disjunções na autodefinição – são actos de resistência e prática de liberdade que, pela sua natureza, se afastam de formações discursivas. São desejos livres e insubordinados, sem estrutura entre si, cuja constelação de desordem almeja uma liberdade “esquizofrénica” em

relação às instituições discursivas e às relações de poder. O indivíduo, assim, não se sujeita às linhas mestras que, nos discursos, determinam e territorializam o sujeito e a sua subjectividade.

Eles resistem primeiro aos condicionamentos e às vozes da opinião corrente. Ou seja, a todo este domínio imbecil de perguntas. Eles exigem o seu... eles têm verdadeiramente a força de lhes exigir o seu [próprio] ritmo. Não os faremos deixar nada em condições prematuras. Assim como não se alterará um significativamente um artista. Ninguém tem o direito de perturbar um artista. Mas eu acho que... tudo isto é porque... criar é resistir.37

A “esquizoanálise” é um método que coloca o indivíduo num processo análogo ao de um artista. O artista produz algo com o qual tem uma relação de posse em primeira-mão; e apesar de este estar incorporado na “economia de fluxos”, isso não invalida que a sua produção seja uma produção-de-desejo, pelo que configura um exercício

de poder e uma prática de liberdade. Como Foucault disse, “A Liberdade é uma prática” 38 Produzir desejos insubordinados,

estruturalmente disruptivos com todas as escalas da economia de fluxos – é esta a actividade fundamental da “esquizoanálise”.

      

37 Gilles Deleuze e Claire Parnet; Consultado em 19/02/2015, disponível em: https://vimeo.com/37892409; “R comme Résistance / L’Abécédaire”, produzido por Alain Boutang. Em francês: “Ils résistent d’abord aux entraînements et aux vœux de l’opinion courante. C’est-à-dire à tout ce domaine d’interrogations imbéciles. Ils exigent leur . . ils ont vraiment la force d’exiger leur rythme à eux. On ne leur fera pas lâcher n’importe quoi dans des conditions prématurées. Tout comme on ne bousculera pas un artiste. Personne n’a le droit de bousculer un artiste. Mais je crois que . . tout ça c’est parce que . . que créer ce soit résister.” (itálico meu)

38 Michel Foucault : “Space, Knowledge, Power: Interview with Paul Rabinow”, in Rethinking Architecture: A Reader in Cultural Theory, editado por Neil Leach: “Eu não penso que exista alguma coisa que seja funcionalmente - pela sua própria natureza – absolutamente libertador. A Liberdade é uma prática (...) A liberdade dos homens nunca é

assegurada pelas instituições e leis que as tencionam garantir. Não porque elas são ambíguas, mas porque

‘liberdade’ é o que tem que ser exercido”(negrito meu). No original, em inglês: “(...) I do not think that there is

anything that is functionally – by its very nature – absolutely liberating. Liberty is a practice. (...) The liberty of men is never assured by the institutions and laws that are intended to guarantee them. (...) not because they are ambiguous, but because ‘liberty’ is what must be exerciced”; Página 371.

Há qualquer coisa [em] que um sábio está só, que [só] um sábio sabe fazer: inventar e criar funções.39

Trata-se, por outras palavras, de uma constante reordenação dos próprios fluxos de desejo, ocorrida através do desmantelamento daquilo que é sujeitado a discursos e assim se define seu sujeito – nós. É um

processo constante de desmontar, de complexificar e celebrar a desordem. A ideia é que este processo tornará os desejos insubordinados, anónimos e desta forma livres – uma espécie de loucura libertadora, de sanidade através da insanidade. A palavra “recriação” é curiosa a este respeito, porque equipara este processo de

auto-reinvenção com diversão, lazer e jogo. De um modo pertinente, e

que de certo modo prefigura o que viria a ser a esquizoanálise, Nietzsche constata o seguinte:

A virtude deve ser a nossa invenção; deve emanar da nossa necessidade e defesa pessoal. Em todos os outros casos é uma fonte de perigo. Aquilo que não pertence à nossa vida ameaça-a; uma virtude que tenha as suas raízes no mero respeito pelo conceito de “virtude”, como diria Kant, é pernicioso. “Virtude”, “dever”, “bem por si mesmo”, bondade fundamentada na impessoalidade ou numa noção de validade universal – estas são todas quimeras, e nelas apenas encontramos uma expressão da decadência, do último colapso da vida (...)40

Deleuze e Guattari, bem como Foucault, no prefácio que escreveu para esta obra, colocam-se numa posição na qual a revolução colectiva é possível e desejável. Nesta dissertação, a resistência e as acções de poder que se pretendem efectivar não são colectivas, mas à individuais. A resistência é como a liberdade; é uma prática que se efectiva através do posicionamento consciente do indivíduo nas relações de poder de todos os dias. É possível praticar um certo grau de liberdade discursiva, ou seja, uma produção própria de funções e desejos. A aceitação da sua simultaneidade, descontinuidade, disjunção e insubordinação liberta o indivíduo no sentido em que assim, este se torna livre para se posicionar – escolhendo-se a si mesmo e às suas práticas de poder e resistência.

      

39 Gilles Deleuze (17/05/1987) Palestra dada na fundação Femis. Em francês: Consultado em 19/02/2015. Disponível em: http://www.webdeleuze.com/php/texte.php?cle=134&groupe=Conf%E9rences&langue=1. “il y a quelque chose qu’un savant est seul, un savant sait faire : inventer et créer des fonctions”

40 Friedrich Wilhelm Nietzsche (1895): The Antichrist (O Anticristo), aforismo 11; Kessinger Publishing, 2004 traduzido para o inglês por Talcott Parsons. Traduzido para o português por mim. “A virtue must be our invention; it must spring out of our personal need and defence. In every other case it is a source of danger. That which does not belong to our life menaces it; a virtue which has its roots in mere respect for the concept of "virtue," as Kant would have it, is pernicious. "Virtue,""duty," "good for its own sake," goodness grounded upon impersonality or a notion of universal validity - these are all chimeras, and in them one finds only an expression of the decay, the last

collapse of life (...)” Reconquista de si através da criação “esquizofrénica”      O poder do indivíduo se (re)inventar a si e aos seus discursos