4. Utslipp til vann
4.2 Omsøkt utslipp og representativitet
4.2.6 Utslipp av Bly til vann
Comecemos este capítulo reiterando a noção de que o poder não se deve considerar em termos dos seus efeitos negativos. É acima de tudo útil. Considerar as suas manifestações como positivas ou negativas é subjectivo e relativo – bem e mal não serão tomados como ideias a priori, absolutas, mas como noções relativas a posicionamentos
específicos dentro das relações de poder. Será deste pressuposto que partirei.
Temos que deixar de uma vez por todas de descrever os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”, ele “reprime”, ele “abstrai”, ele “mascara”, ele “oculta”. De facto, o poder produz; produz realidade,
produz domínios de objectos e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento que pode ser obtido dele pertencem a esta produção.30
Revisitando o conceito de poder Foucauldiano, podemos caracterizá-lo como uma produção relacional disseminada por todo o corpo social; volátil, móvel e mutável. Assim sendo, é possível que o indivíduo tenha uma posição ambivalente: aceitando-se, por um lado, como um produto de relações de poder, a múltiplas escalas, num campo cultural e discursivo amplo; e por outro encarando a resistência como possível, dada a omnipresença e inconstância do poder. O facto de que o poder é um produto de relações entre pontos implica resistência; caso contrário não existiria nenhuma relação. Assim, o indivíduo tem a oportunidade, no oceano de relações de poder, de ele próprio determinar os métodos e instâncias onde pratica resistência. Para Foucault, a liberdade é uma prática, e não um estado imóvel. A escolha individual de exercer poder e resistência, mesmo no seio do oceano das relações de poder e dos seus efeitos, é uma prática
Como diz Foucault, o poder produz realidade; produz domínios de objectos e rituais de verdade. É assim que o indivíduo efectivará uma resistência significativa aos fluxos e relações desiguais de poder. O indivíduo deverá ser o criador da sua própria realidade. A criação será a
resistência.
30 Michel Foucault (1975) Discipline and Punish (no original: Surveiller et Punir; em português: Vigiar e Punir) . New York: Pantheon, (1977) Em Inglês: “We must cease once and for all to describe the effects of power in negative
terms: it ‘excludes’, it ‘represses’, it ‘censors’, it ‘abstracts’, it ‘masks’, it ‘conceals’. In fact power produces; it produces reality; it produces domains of objects and rituals of truth. The individual and the knowledge that may be gained of him belong to this production” Página 194
O poder, em si mesmo, está para além do bem e do mal
“CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA: ANTI-ÉDIPO”
Para abordar a questão da resistência, comecemos por analisar a obra de Deleuze e Guattari. Os autores propõem-se a perseguir e expor diversas formas de “fascismo”31, desde as maiores, que exercem poder colectivamente, até às mais pequenas, da vida de todos os dias, que não obstante são também “fascismo”. Para fazer isto, atrevem-se a abordar a imensidão das lógicas interiores ao “espectáculo”, ao capitalismo, à sociedade, ao indivíduo e à sua psique que, no seu conjunto, compõem o universo do poder.
Não fazem distinções disciplinares no seu campo de abordagem. Falam de tudo que consideram necessário para tratar a problemática da opressão correctamente. A própria leitura do livro assemelha-se a uma colagem criativa de ideias, que no seu conjunto conformam e ilustram um raciocínio de inúmeros pontos de vista. É uma atitude consciente, da parte dos autores, que procuram alhear-se da construção de um argumento sólido, linear e congruente consigo mesmo – procurando antes ter uma atitude criativa e que potencie a criatividade na sua leitura. Mais do que construir uma tese análoga a um edifício, constituída por partes definidas e coerentes, Deleuze e Guattari colocam o leitor numa posição de pensador-recolector, que se vê no meio de uma cadeia de conceitos sem início e sem fim; num rizoma, se quisermos.32 Como Mark Seem diz na sua introdução a esta obra:
Ainda que Deleuze e Guattari utilizem muitos autores e conceitos, isto nunca é feito de um modo académico, com a finalidade de persuadir o leitor. Em vez disso, utilizam estes nomes e ideias como efeitos que atravessam as suas análises, gerando efeitos sempre novos; como pontos de referência, de facto, mas também como pontos de intensidade e sinais apontando para uma saída: sinais-pontos que oferecem uma multiplicidade de soluções e uma variedade de direcções para um novo estilo de política.33
31 “Fascismo” tem aqui o sentido de tirania ou de opressão, poder exercido dum modo que oprime aquele sobre o qual é exercido. Uma rígida relação de poder desigual
32 Um rizoma é um sistema de conhecimento particular. Uma estrutura em árvore (tal como uma árvore genealógica ou uma hierarquia piramidal) caracteriza-se por uma topologia definida de relações entre pontos. Por oposição, um rizoma assemelha-se mais a uma nuvem ou a um arbusto; caracteriza-se pela indefinição e proliferação
das ligações entre os pontos que a compõem. É também pluridimensional; incorpora relações e pontos de infinitas origens, não existindo nenhum ponto central no sistema. Em relação a esta ideia ver as páginas 3-30 de Mil Planaltos: Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
33 Mark Seen (1983): Capitalism and Schizophrenia: Anti-Oedipus (em português: Capitalismo e Esquizofrenia: Anti- Édipo; no original: Capitalisme et Schizophrénie: L’Anti-Oedipe): “While Deleuze and Guattari use many authors and
concepts, this is never done in an academic fashion aimed at persuading the reader. Rather, they use these names and ideas as effects that traverse their analyses, generating ever new effects, as points of reference indeed, but also as points of intensity and signs pointing a way out: point-signs that offer a multiplicity of solutions and a variety of directions for a new style of politics”. Introdução, página xix
Deleuze & Guattari Capitalismo e Esquzofrenia: Anti-Édipo