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Utlysning av ”Frie midler til ernæringsprosjekt”

Se considerarmos que, desde o início da história da cidade, o momento da festa pode ser entendido como o resultado do investimento de grupos dominantes na espacialidade concreta e, conforme pontuou Lefebvre, como uma estratégia dessas mesmas classes para persuadir os citadinos, podemos concluir que sua essência contraditória está ligada, principalmente, aos interesses de grupos que se utilizam do espaço enquanto meio de manutenção do poder.

No interior dessa centralidade, a diferença entre obra e produto não deve ser entendida como simples oposição lógica entre termos contrários, à medida que entre eles passa a existir uma complementaridade de funções, sobretudo se considerarmos a função que os usos do espaço público desempenha na produção de um espaço renovado ou, em outras palavras, de um espaço-produto. Dessa forma, podemos entender a produção do novo Hipercentro e, por extensão, de toda a metrópole, como depositário dessa mesma contradição entre valor de uso e valor de troca, principalmente pelo fato da cidade estar contida em um emaranhado de relações institucionalizadas, que dizem respeito à forma com que o espaço é politicamente construído, como também como as

$-0 políticas urbanas devem ser levadas a cabo, sob a forma atual de estratégias que devem ser adotadas para que a cidade possa sobreviver capturando investimentos e oportunidades. Em outras palavras, podemos afirmar que Belo Horizonte também está contida em uma ordem distante, mas contém sua própria ordem próxima. Produz, reproduz e acentua as contradições que são próprias da condição urbana atual.

No caso do Hipercentro de Belo Horizonte, vimos que seu processo de reabilitação, com as ofertas de espaço público para pedestres, com as melhorias nas condições de acessibilidade, espaços não conflitantes com os usos, tem como característica a compatibilização com a diversidade presente no local. Entretanto, o Hipercentro é uma centralidade marcadamente dual e, através dos processos de renovação, tais características se tornam ainda mais visíveis. Essa dualidade pode ser interpretada de acordo com a natureza dos grupos que estão ali presentes. Podemos até afirmar que nos espaços renovados há uma relação assimétrica entre aqueles que já faziam uso do local e a suposta qualidade dos novos espaços. Alguns usuários parecem ser percebidos como ruídos na nova paisagem, como os vendedores ambulantes e os hippies do calçadão Xacriabá e Krenak. Eles não se enquadram na imagem projetada para o lugar e são mal vistos na área, como comprovam a opinião de alguns comerciantes locais e as constantes investidas policiais sobre os vendedores da Praça Sete, além das remoções dos ambulantes para os shoppings populares.

Essa dualidade se manifesta também em um outro nível, agora a partir de uma perspectiva que toma o Hipercentro como local de consumo. Isso por si só seria uma contradição de termos, porque esse mesmo centro de consumo possui outras qualidades além daquelas intermediadas pelo dinheiro, à medida que seu capital simbólico também é universalmente apropriado. A dualidade do Hipercentro como local de consumo reside no fato de que ele também é apropriado como lugar pelos novos consumidores. Assim, ele é valor de uso para grupos tradicionais como hippies, skatistas e namorados, mas também passa a ser para os novos usadores que são atraídos a reboque da valorização da área. Esses incomers são os novos frequentadores dos centros culturais e museus, até novos moradores e trabalhadores de classe média que provavelmente ocuparão os novos lançamentos imobiliários.

Aqui o consumo do lugar expressa a contradição essencial da metrópole pós- moderna, caracterizada por uma prática espacial que resulta num espaço híbrido, que comporta em sua espacialidade, desde sempre geometrizada e marcada por todo tipo de coações, modos de apropriação que ora se alinham ao consumo de uma representação do espaço voltado para a troca, ora se constitui na fruição de em espaço de representação.

$-1 Esta centralidade que ainda hoje conserva os traços da cidade industrial ou aristocrática, ressignificados em uma pós-modernidade que cria cenários, continua a apresentar, de certa forma, as mesmas disposições que criaram as áreas funcionalizadas do plano de Aarão Reis. Este espaço isotópico, formado por áreas homogêneas onde as possibilidades dos usos já estão dadas, revelam o caráter do processo de renovação do Hipercentro e os termos onde podem ocorrer as possíveis apropriações.

Conforme apontado por Lefebvre (2006), as heterotopias, ou os espaços do outro poderiam aqui ser consideradas como os momentos de uma irrupção de uma contraordem nos espaços pré-estabelecidos da ordem urbanística? Em outras palavras, podemos considerar os usos observados nas áreas requalificadas, conforme visto no capítulo 3, como sendo uma restituição do valor de uso ao espaço geométrico, ou numa perspectiva mais abstrata, traçar um paralelo entre esses momentos e a concepção teórica do espaço diferencial lefebvriano?

Retomando as concepções de lugar e espaço para os autores discutidos neste trabalho, podemos resumir que, para Santos (1996), são as relações transescalares entre os agentes no espaço que conformam os lugares – quando essas ligações são intermediadas por uma espacialidade contígua – e a formação de espaços em redes, ou verticalidades constituídas por relações baseadas no valor de troca, ambos podendo coexistir no mesmo território. No interior desse, onde se opõem verticalidades e hoizontalidades, o lugar é simplesmente o locus de relações ancoradas numa espacialidade, e que dão a medida da identidade e dos referenciais simbólicos de um grupo. Em Santos, o lugar pode ser entendido como resistência à tendência que homogeneíza o espaço e elimina os vínculos entre os citadinos e seu ambiente imediato. Pode ser visto também como lugar de politização da vida cotidiana, principalmente devido à contiguidade espacial que, como ele afirma, em relação ao “conteúdo geográfico do cotidiano”, é um convite à ação reformadora (SANTOS, 1996). Entretanto, mesmo em oposição constante aos espaços dos fluxos, ou às verticalidades, o lugar em Santos, ou a representação teórica do lugar não se constitui enquanto ressignificação de um espaço liso. Aqui a conformação de lugares não é entendida enquanto irrupção, ou nos termos colocados por Lefebvre, enquanto restituição do valor de uso à cidade.

Da mesma forma que em Santos, a concepção progressista de lugar apresentada por Massey (2000), procura estabelecer novas bases para se pensar o lugar em um contexto de constantes desterritorializações. Devido às relações cada vez mais dominantes voltadas para fora, no sentido dos espaços das redes de Santos, o lugar deve ser pensado como uma teia de relações sem limites espaciais definidos, ou limitada apenas pelas interações entre diversas matrizes identitárias.

$.% Nesse sentido, o Hipercentro requalificado poderia ser considerado como lugar ou não, dependendo do tipo e grupo social que estabelece vínculos espaciais e, sobretudo, da natureza dos usos. Para os jogadores de damas que se encontram quase religiosamente sob a mesma marquise, o espaço da Praça Sete é lugar no sentido proposto por Santos. É uma atividade que estabelece significado simbólico para o local, que passa a ser referenciado como local de encontro. Ainda que tais usos sejam totalmente correspondentes às finalidades para as quais o espaço foi projetado, ele é, na perspectiva de Santos, uma forma de perpetuação de tempos lentos. Esse raciocínio pode ser estendido a outros casos no Hipercentro: os skatistas, os frequentadores de bar, os frequentadores das galerias, os deficientes auditivos, os pregadores evangélicos e os casais de namorados, os leitores e os pais que levam as crianças para brincar nas fontes da Praça da Estação. Em todos esses casos o espaço se conforma enquanto tempos lentos no interior de centralidade que é produzida de acordo com os preceitos dos espaços de fluxos. Aqui fica mais claro o sentido contraditório do espaço.

Entretanto, a categoria lugar possui outras acepções mais amplas que, para nós, são mais compatíveis com nosso pressuposto teórico de que a produção do espaço comporta a interação entre o percebido, o concebido e, principalmente, o vivido, representado pelos momentos onde o uso do espaço se irrompe em meio a um território regido por estratégias.

Nesse sentido, tanto Guattari (1985) como Certeau (1994) consideram os espaços existenciais ou modos de fazer como os momentos definidores dos lugares. O que difere estas representações das anteriores é quem e, principalmente, como este espaço é apropriado ou consumido. Aqui, o lugar não representa o último bastião da identidade local, das tradições e do valor de uso em meio ao avanço cada vez mais dominante de um espaço homogeneizante. O lugar para Guattari e para Certeau (que emprega o termo espaço em vez de lugar) é caracterizado por momentos onde a espacialidade pertencente à realidade pós-moderna é taticamente reinventado, ou ressignificado. Para Guattari, a diferenciação entre espaço e território vai mais além da conformação espacial que atende a alguma necessidade pré-estabelecida e a espacialidade ressignificada simbolicamente. Para ele trata-se dos desvios de uso, das disfunções do espaço, caracterizando espaços de subjetivação ou territórios existenciais. Sua especificidade reside no fato desses territórios serem criados sob os domínios daquilo que Milton Santos chama de espaço liso, ou o que Lefebvre considera como o espaço geométrico. Nesse mesmo sentido, Michel de Certeau enxerga nessas irrupções momentos táticos quando os usadores do espaço subvertem as possibilidades dadas e pré-definidas de uso no interior do espaço estratégico. No lugar de Certeau, somente uma única função pode ser exercida. O lugar segue uma lógica na qual seu funcionamento ótimo acontece à medida

$.$ que somente a função que lhe é prescrita se impõe, não havendo aqui oportunidades para os desvios. Corresponde ao ideal de espaço abstrato lefebvriano, acima de tudo programado, cujas possibilidades de desvirtualização, por um uso não esperado, é considerada como uma disfunção. No outro extremo, a ideia de espaço que supõe o momento do imprevisível. Os usos que lhe são característicos subvertem o que é normatizado pelo urbanismo, redefinindo sua ordem.

Nesse contexto, podemos afirmar que os usos e apropriações descritos no capítulo 3 se configuram como ressignificações ou reapropriações de um espaço geométrico, ou numa subversão dos usos numa espacialidade que é reatualizada para funcionar ora como cenário, ora como novo locus de investimento imobiliário? Podemos considerar os usos do Hipercentro requalificado como incoerentes com as funções para as quais tal espacialidade foi programada?

Pelo que foi observado, um grau de reapropriação dessas espacialidades é muito baixo. Nos termos utilizados por Leite (2004), os “contra-usos” no Hipercentro novo, ainda que existentes, se limitam às atividades marginais, exercidas por aqueles grupos para os quais o Hipercentro se configura como lugar de sobrevivência; é mais que um meio de subsistência, é o local onde sua vida se desenvolve. Como foi dito, tais grupos não são bem vindos nos espaços renovados: os hippies no calçadão Xacriabá e Krenak, constantemente tendo que utilizar de táticas para burlar a vigilância municipal, mas frequentemente expulsos de seu território. Da mesma forma, os poucos moradores de rua que ainda permanecem sob as marquises do PSIU e as crianças que pedem dinheiro aos frequentadores de bar. Suas ações são modos de fazer que, conforme dito por Certeau, são consumos transformadores do espaço pois, nesse caso, em uma situação ideal, não deveriam ser consumidos por esse tipo de público e, mesmo sendo cerceada pela ordem dominante, introduzem uma maneira de tirar partido dela. Entretanto, mesmos nesses casos extremos, o ponto de vista que considera tais usos como de caráter tático deve ser relativizado. Em princípio pela falta de conteúdo político de tais usos, que, ao contrário de ações que poderiam ter natureza emancipadora, só contribuem para a perpetuação da precariedade desses grupos. Trata-se de táticas espaciais passivas, sem nenhum sentido de luta ou reivindicação que utilize o espaço público como instrumento. Em segundo, pelo fato dessa “reapropriação” não ser necessariamente uma prática irruptiva, no sentido de que tais usos, no caso específico da Praça Sete, se verificarem ali desde a década de 1990. Portanto, não chegam a instaurar uma ordem nova no interior do espaço percebido, pois são, de certa forma, resquícios de outros usos, ou permanecem como outra temporalidade superposta.

Ainda na perspectiva de um lugar ressignificado de Guattari e Certeau, os outros usos se afastam ainda mais daquilo que caracteriza um lugar. Para os skatistas, os

$.+ pastores evangélicos, as estátuas vivas, mágicos e artistas de rua, as crianças que brincam nas fontes, esse espaço se converte em espacialidade apropriada, mas ao mesmo tempo permitida. Aqui esses usos não conflitam com os mecanismos que asseguram a ordem e a segurança no Hipercentro. Mais do que isso, tais usos atestam ao Hipercentro seu caráter – agora institucionalizado – de diversidade e de multiplicidade, local de reunião de várias “tribos urbanas”, conforme o mapeamento feito pela PBH e divulgado pela mídia. É o atestado de que, no processo de reabilitação do Hipercentro, não existe assepsia social.

Da mesma forma, as agentes de crédito, os poucos ambulantes, os compradores de metais, os anunciantes possuem uma relação específica com o espaço do Hipercentro, que não é nada além de lugar de trabalho. Possuem hora de chegada e de saída, seu tempo nessa espacialidade é regulado por uma jornada dividida em dois períodos de trabalho e uma pausa para almoço. Quanto aos jogadores de dama, namorados das praças, frequentadores de bar e manifestantes da Praça Sete, seus usos são também modos passivos de apropriação. São consumidores de espaço no sentido estrito do termo, tornando legítimas as ações de um urbanismo que ordena o espaço e disciplina o emprego do tempo no interior dos centros renovados.

Portanto, se adotarmos a perspectiva de um lugar político no sentido de Guattari e Certeau, onde a apropriação tem, acima de tudo, um caráter subversivo, podemos considerar o Hipercentro renovado como lugar da ordem. Excluindo-se alguns modos de

fazer que são bastante específicos e em vias de desaparecimento74, o Hipercentro

requalificado segue como local de reunião e diversidade, e seus usos se alinham aos objetivos desse espaço estratégico.