2 Nærings- og fiskeridepartementet
2.5 Utkvittering av bestillinger og føringer .1 Sektorovergripende føringer
Durante a elaboração desta dissertação, procuramos compreender a experiência dos pedreiros, canteiros e carpinteiros que atuaram em Vila Rica no século XVIII, bem como de seus auxiliares, os escravos. Como se pode verificar, a pesquisa foi constantemente subsidiada pela consulta aos acervos documentais, como os inventários, os testamentos, os acordos e os contratos de obras deixados por essas personagens. Tudo para rastrear a maior quantidade de indícios e vestígios que pudessem satisfazer o nosso intento inicial e clarear alguns problemas apontados pela bibliografia manuseada.
Na introdução da pesquisa mostramos que, tanto para um cronista colonial quanto para grandes intérpretes da história do Brasil, as atividades manuais eram pouco apreciadas por mulatos e, mais ainda, pelos brancos, que nelas não queriam se empregar. Percebemos, páginas depois, que a vivência no mundo do trabalho não foi abandonada por esses indivíduos, em virtude do desprezo e do estigma pelo fazer manual ou pela desclassificação social gerada por uma ordem escravocrata, pois muitos permaneceram exercendo suas especialidades nas vilas e arraiais das Minas Setecentistas.
Os pretos, mulatos, crioulos e pardos livres atuaram em todas as profissões mecânicas identificadas na documentação fiscal de Vila Rica, como alfaiates, ferradores, ferreiros, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, seleiros e tantos outros ofícios importantes para a economia dessa localidade. Quanto aos colonos brancos, eles não deixaram seus ofícios e continuaram a exercê-los como jornaleiros ou arrematantes de grandes empreitadas. Os pedreiros, canteiros e carpinteiros brancos combinaram suas especialidades com a posse de cativos qualificados para satisfazerem a grande demanda por obras construtivas requeridas pela Câmara, irmandades, ordens terceiras e pela sociedade civil. No caso da Câmara de Vila Rica, vimos que o construtor mobilizava não somente o domínio técnico de
sua fábrica, mas também, as redes de interesses e de proteção formadas com outros oficiais renomados, negociantes e autoridades locais.
O contato com tais redes servia como diferencial entre os construtores, proporcionando acesso privilegiado ao mercado de construções públicas, o que promovia re- arranjos de interesses e disputas pelo controle das arrematações. Essa desigualdade no acesso aos contratos permitiu a alguns arrematantes monopolizarem muitas obras, restringindo a participação daqueles que não pertenciam as suas redes de relacionamentos.
A diversificação nas áreas de atuação foi uma tônica na trajetória desses construtores. Vimos que eles conseguiram montar fábricas e cabedais consideráveis com os ganhos auferidos tanto das atividades no campo construtivo quanto em setores como mineração, agropecuária, comércio, aluguéis e pequenos empréstimos. Isso abriu portas que reforçaram suas posições no campo de atuação e forneceram passaporte para outros espaços sociais na sociedade vilarriquenha.
Os fragmentos documentais analisados na pesquisa mostraram que os mecanismos de solidariedade e de identidade desses trabalhadores não estiveram assentados, exclusivamente, em categorias sócio-profissionais, mas se estenderam para espaços distintos, como as irmandades e ordens terceiras mais importantes de Vila Rica. Isso possibilitou ao restrito grupo dos construtores monopolistas vôos para além da condição mecânica que usufruíam anteriormente no Reino, principalmente numa conjuntura de oportunidades dilatadas como a economia escravista mineradora.
Também percebemos que o acesso ao mercado de trabalho no setor construtivo em Vila Rica era restrito, especialmente nas arrematações das obras monumentais, que envolviam maiores ganhos. Poucos construtores conseguiram constituir redes de proteção e formar fábrica com escravos especializados, equipamentos e materiais, restando à maioria, o trabalho como jornaleiro licenciado/examinado ou não. Assim, aqueles que constituíram tais condições
privilegiadas não precisaram das corporações de ofícios para controlar quem poderia participar do mercado, pois monopolizavam as arrematações junto aos principais clientes da localidade.
Esse controle das arrematações pelos construtores brancos e reinóis não pode ser lido como indício seguro para inferir um predomínio do grupo no exercício dos ofícios de pedreiros, canteiros e carpinteiros, já que os trabalhadores nativos e africanos livres e cativos registrados nas fontes consultadas (fiscais, judiciais, inventários e testamentos) participavam decisivamente das obras, seja como oficiais, serventes ou aprendizes.
O setor construtivo, em certa medida, estava assentado no trabalho escravo, com equipes de africanos, mulatos e pardos. Nesse setor havia possibilidades de trocas de informações, de experiências e de conhecimentos. Por isso, alguns desses escravos especializados teriam, inclusive, treinado parcela das equipes de cativos, bem como servido de mediadores culturais, especialmente pelo conhecimento técnico que deveriam repassar aos novos africanos serventes, como a tradução do nome de materiais, ferramentas e equipamentos.
A compreensão do processo sob esse prisma nos conduziu para a percepção de possíveis contribuições dos cativos africanos e afro-americanos na produção artística do século XVIII, seja na adequação de elementos arquitetônicos europeus aos materiais locais, seja até numa provável produção de particularidades estilísticas. Um conjunto de condições, como o caráter escravista das atividades construtivas, a organização coletiva do trabalho em fábricas, a autonomia usufruída pelos trabalhadores no dia-a-dia, e a ausência de rochas como
quartzito, quartzo-clorita-xisto e pedra-sabão na cantaria portuguesa, teria favorecido o
trânsito de conhecimentos e de saberes dentro dessas equipes.
Igualmente tentamos mostrar que o olhar do historiador, para o universo cultural das populações das vilas mineiras do Setecentos, não pode negligenciar a heterogeneidade que as
dominou. Identificar e catalogar formas e objetos nesses espaços pode ser importante em um primeiro momento do trabalho, mas isso deve vir acompanhado da exploração dos significados que tais elementos possam adquirir nas tradições culturais diversas que coexistem e, às vezes, mantêm-se impermeáveis em solo colonial, pois a reprodução do modelo europeu não assegurava nem garantia a manutenção de um sentido ou significado exclusivamente europeu no cotidiano dessas populações.
Para finalizar devemos lembrar que essa pesquisa não tinha e nem tem a pretensão de esgotar ou concluir nenhum dos assuntos tratados aqui. Nossos objetivos foram mais modestos, pois pretendíamos apenas apontar perspectivas diferentes para o entendimento da experiência dos trabalhadores manuais livres e escravos de Vila Rica no Setecentos.