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3. FYLKESHELSETJENESTEN OG STATLIGE HELSEINSTITUSJONER

4.2. Utgiftsfordeling

Em Nicolau de Cusa percebemos o especial tratamento que ele dá ao homem, por sua condição criadora de símbolos e conceitos, em relação a toda criação, sendo o principal deles a própria matemática.75 O homem é quem cria e define para este mundo suas representações conceituais. Só a criatura-homem é quem pode conceituar a criação divina, por isso o único a representar a relação entre Criador e criatura a partir dos seus próprios conceitos criados.

Há em Nicolau de Cusa há um tipo de idealismo, mas não o platônico, pois os conceitos se são “criações” da mens humanas, a potencialidade está na mente humana.

O homem é criatura; mas o que o distingue de todas as demais criaturas é o fato de ter recebido do seu criador o dom da própria criação. O homem só chega ao seu destino, somente atinge a plenitude do seu ser, à medida que põe em ação essa sua força básica e primordial. (CASSIRER, 2001, p. 159)76

E por serem criações, os conceitos não podem ser inatos ou ideais independentes e anteriores ao mundo como no platonismo. Os conceitos não existem anteriores ao uso da

ratio. Também há um importante empirismo no pensamento de Nicolau, mas não a ponto de

apreendermos universalidades conceituais ou a substância (essência) dos entes a partir de uma abstração empírica nos moldes aristotélicos. Seu empirismo está ligado ao fato do mundo estar refém do homem para ser determinado enquanto conceito. “No interior do poder humano, portanto, todas as coisas existem segundo o seu modo”, ou seja, é o homem quem determina conceitualmente cada ente empírico. Assim o homem é tido como “homem- microcosmos” (CASSIRER, 2001, p. 146), aquele que reúne em si toda a condição de conhecer o mundo finito a partir da ligação (imago dei) que possui intuitivamente com Deus. O silogismo não entra nessa equação, já que esse processo não parte de apreensões empíricas, depois conceituações para então gerar argumentações e exposições lógicas numa relação causal conceitual. Ela inicia e termina via intuição, sendo a ratio apenas parte do processo, onde a lógica também faz parte.

Para Nicolau o conhecimento que temos dos entes (finitos) sempre é conjectural, parcial, aproximativo. Os conceitos que tendemos a universalizar criados a partir das características similares que identificamos nos entes entre si, porém que são apenas

75 Em De mente Nicolau utiliza o conceito de “imagem da unidade (imago unitatis) ou “a imagem da

complicação (imago complicationis)” para ressaltar a condição criadora do homem por er imago Dei (DI RIENZO, 2005, p. 166).

76 Nicolau de Cusa é mais otimista quanto à condição do homem em relação ao “pecado original”. Diferente

daqueles que defendiam que a queda de Adão no Éden teria limitado a capacidade de conhecimento do homem. Ernst Cassirer chama de “um elemento de pelagianismo”, no pensamento cusano (CASSIRER, 2001, p. 158).

apreensões finitas que fazemos, uma vez que não há entre os entes uma semelhança tal de onde ser possa apreender uma mesma essência, substância, um conceito universal a partir de abstração destas semelhanças.

E por vermos que a igualdade a uma do que a outra, segundo concordância e diferença de gênero, espécie, lugar, capacidade de influência e tempo, com outros aspectos semelhantes, é claro que não se podem descobrir duas ou mais coisas tão semelhantes e iguais de maneira que não possam ser infinitamente mais semelhantes. (CUSA, 2002, p. 47)

Se os conceitos são “criados” pelo homem (é dado pelo homem), portanto finitos, então o que conhecemos acerca de Deus é por intuição. Nesse sentido Nicolau é um nominalista (conceitualista) nos moldes ockhamianos. Porém Nicolau se aproximará muito mais do neoplatonismo do que o aristotelismo, já que Nicolau parte sempre de um conhecimento a priori e nunca a posteriori, que é a própria intuição, para só então passar a especular a partir dos conceitos que são criados pelo homem. Desta forma o homem possui um movimento dialético no ato de conhecer: ele conhece o mundo finito na medida em que cria conceitos para este mundo, porém “conhece” intuitivamente a Deus na medida em que rompe com a finitude destes conceitos, utilizando da própria contradição.

Mesmo que o homem em contato com o mundo empírico (finito) conceitue para só então “conhecer” – pois conhecer o mundo é identificá-lo conceitualmente ou matematicamente -, o homem só o faz porque antes Deus conhece tudo a priori e permite que o homem “participe” com ele deste conhecimento, ou seja, tudo que é possível a vir ser conhecimento já está potencialmente contido (complicatio) em Deus. Neste sentido o homem é apenas a explicatio do que já está contido em Deus. O homem é imago Dei.

Portanto o conhecimento é sempre a priori, seja do mundo, seja até mesmo de Deus, e não conhecimento que se dá através de abstrações do que é empírico numa relação de causa e efeito como é possível ver nas analogias como em Tomás de Aquino, por exemplo.77 O conhecimento neste caso é inverso. Ele parte sempre de um conhecimento já existente em Deus, que alimenta nossa mente que em contato com o empírico no permite formulações de hipóteses, conjecturas, determinações conceituais. Não acessamos as ideias a partir de um

77 Urbano Zilles diz que “as provas da existência de Deus de Tomás de Aquino merecem algumas observações

críticas”. Urbano critica a tentativa de Tomás partindo dos efeitos visíveis e finitos” buscar o invisível e infinito” numa sucessão causal. Diz que a “estrutura das Cinco Vias é sempre a mesma”. Tanto as “três causas eficientes” como as “duas finais” partem do princípio de causalidade. Para Urbano, ao remeter este conceito causal ao plano metafísico em alusão “como objetara Kant”, isto se torna uma problema, pois o “máximo que poderia dizer é que um efeito tem um causa” e não um princípio causal. Da mesma forma que uma “teologia da natureza” (aristotelismo) não poderia servir para “afirmações filosófico-teológicas” (ZILLES, 1989, p. 31-33).

mundo inteligível divino, o que acessamos é a condição criadora dada por Deus para representarmos conceitualmente o mundo.

Por isso não é de se estranhar que todos os conceitos centrais da obra De Docta

Ignorantia (Uno, Máximo Absoluto, Universo Infinito privativo) em vários momentos girem

em torno do mesmo tema central, buscando dirimir a relação entre aquilo que criamos, enquanto conceitos, e o que pretendemos alcançar que é o Infinito Absoluto (Deus). Ao mesmo tempo em que estes conceitos apontam para o problema central que é a diferença qualitativa entre o que conseguimos conceituar (mundo finito) e o que pretendemos conceituar (o Infinito). Portanto, como é possível conhecer aquilo que não conseguimos conceituar: o Infinito “Contudo, o homem rompe com as limitações de tal natureza” finita, já que “seu agir não é pura e simplesmente ditado pela realidade em que vive, mas encerra em si possibilidades sempre novas que, em princípio, transcende todo e qualquer círculo finito (CASSIRER, 2001, p. 142). O rompimento se dá por via da intuição, o prolongamento do conhecimento finito ao Infinito.

E se o conceito mais próximo da perfeição, criado (pensado) pelo homem é a matemática, logo é ela quem está mais próxima de representar esta relação entre finito e Infinito. Temos uma metafísica com ênfase epistemológica sob uma linguagem matemática- geométrica. Sua tentativa é então explicitar a paradoxal relação que existe entre o mundo finito diante do Infinito, do múltiplo diante do Uno. Veja que ao falar que o homem cria, ele o faz a partir da potencialidade que existe nele dada por Deus, e a matemática é um pensamento potencial em Deus, que só se concretiza no homem.

Dentre esses conceitos criados, em De Docta Ignorantia, Nicolau utiliza o conceito

complicatio-explicatio78 para essa representação, na contradição, Infinito-finito, Deus e

criação. Se o homem pode e deve criar conceitos, seja para definir sua relação com o mundo ou representar esta relação entre Deus e a criação, então De Docta Ignorantia será a exposição de como o homem pode usar livremente a linguagem para falar do Infinito, desde que sob o fundamento da douta ignorância. O homem só será capaz dessa condição representativa se for sabedor de suas limitações representativas nesta paradoxal relação (uma dialética sempre presente). Um sujeito sabedor de sua ignorância, de sua distância qualitativa em relação ao Infinito, se tornará cada vez mais eficaz em suas representações, na medida em que se percebe mais ignorante diante deste Infinito.

78 A complicatio/explicatio é “a fórmula, que radica no verbo grego ʌȜȑțİȚȞ, que significa dobrar (...)”. (ANDRÉ,

A criatura-homem que sabe desta sua douta ignorância, ao criar conceitos para representar esta relação entre Criador-criação, Infinito-finito, saberá que o relacionamento que ocorre na contradição, nos paradoxos, necessitará de representações que assumam para si estas condições paradoxais. Exigirá a transpor os limites aporéticos e lógicos. Então Nicolau apresentará seu conceito de coincidentia oppositorum (coincidência dos opostos), 79 quando pela e na contradição é que o máximo dessa relação, em termos dialéticos, é manifesto Significa que nosso processo de conhecimento e de criação também será sempre infinito, pois nunca chegamos ao limite, ao fim, ao Absoluto. Para compreender um pouco mais esta via na contradição, fundamentada na coincidentia oppositorum, apresento mais detidamente a obra

De Docta Ignorantia a seguir.