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2. KOMMUNEHELSETJENESTEN

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Importa saber que para Nicolau de Cusa os conceitos: Deus, Uno, (Máximo) Absoluto, Infinito, verdade, ser, essência, substância, forma, universal. Todos de alguma forma são “sinônimos”, ou seja, correspondem a uma mesma “realidade qualitativa” ou “realidade ontológica”. São conceitos que analogamente remetem a Deus (Uno), que na maioria das vezes são aplicados ou entendidos equivocadamente devido nossa condição finita. Esses conceitos são por vezes usados como: sujeito, pronome, qualidade, ou até como características acidentais (como o ser do Ser). Com algumas exceções - quando Nicolau de Cusa utiliza estes conceitos dentro de um contexto determinado os relacionando sempre a Deus, por exemplo, quando ele fala de substância para contrapor à supersubstância (Máximo Absoluto) - via de regra Nicolau entende que são palavras que remete à mesma qualidade ontológica (e epistemológica).

Dessa forma, Nicolau criticará grande parte da filosofia e teologia precedente a ele, que utiliza esses conceitos citados acima (e outros similares), fazendo algum paralelo com o finito e Deus, por exemplo: usar os conceitos de substância, forma, ato, numa linguagem aristotélica, para Nicolau seria um erro, pois esses termos querendo se referir a Deus (Uno), na verdade são apenas apreensões lógicas, abstraídas a partir do sensível, portanto apenas formas nominais (sem conteúdo substancial). Porém se pretender dizer que Deus são tais conceitos, eles não poderiam se nomináveis, só intuídos. Ainda que os conceitos sejam usados análogos a Deus, para Nicolau inevitavelmente tenderemos a tratá-los, como: a priori, princípio, universal, necessidade, essência, imutabilidade, etc., propositivamente, o que incorre num erro ontológico e epistemológico.

Contudo, não significa que Nicolau também não os utilize, porém o faz sempre de forma negativa (e dialética), apontando usando-s mais no sentido de demonstrar nossa insufuciência epistemológica diante de Deus, do que propriamente usá-los para um conhecimento de Deus, ou seja, ele os trata sempre na via apofática, observando que: 1) os conceitos se pretendem tratar de algo sempre essencial, universal, quando não o podem; 2) e isto se torna um erro epistemológico, pois usá-los para tratar da essência (Deus), ainda que analogamente, o fazem catafaticamente, o que impede o avanço do próprio conhecimento, que só ocorre apofaticamente, para incidir numa intuição rumo ao Infinito. Por isto Nicolau criticará todo o uso da filosofia, da Antiga até na Idade Média, quando faz o uso dos conceitos sem fazer a distinção que todo conceito sempre está atrelado ao finito, seja abstrativamente ou empiricamente, enquanto Deus está fora de qualquer apreensão.

No entanto, não negamos que alguns, entre os pagãos [filósofos], não compreenderam que Deus, sendo a essência das coisas, existe fora das coisas de modo diverso que por abstração, assim como a matéria primeira não existe fora das coisas a não ser pelo intelecto que abstrai (CUSA, 2002, p. 98)

A partir desse entendimento que Nicolau possui a respeito do que convém ser esta relação com o Infinito (Uno), que não pode ser por conceitos, é que ele empreenderá esforços especulativos epistemológicos.

Na obra de De Docta Ignorantia Nicolau quer realmente especular sobre o conhecimento a ponto de encontrar nas diferenças uma unidade. Algo que seja possível coincidir mesmo onde aparentemente há diferentes paradoxais. Mas para que isso ocorra é preciso admitir que mesmo ao “mais douto, nada sobrevirá mais perfeito em conhecimento do que descobrir-se doutíssimo na mesma ignorância”, ou seja, o princípio para esta caminhada epistemológica é admitir a própria ignorância diante do que se conhece e do que se pretende conhecer, pois aí reside o princípio da sabedoria (CUSA, 2002, p. 44).

As paradoxalidades ocorrem na tentativa de conhecer a Verdade, por meio das “comparações” entre o que se quer conhecer e com o que é conhecido, os muitos “elos intermédios, a dificuldades e o trabalho aparecem” neste processo epistemológico, já que “toda nossa investigação é comparativa”, ou seja, dependente de construções finitas. Por este motivo o “infinito enquanto infinito, por subtrair-se a toda e qualquer proporção, é desconhecido” (CUSA, 2002, p. 42).

Para encontrar essa unidade, antes é preciso responder ao problema central filosófico, que aflige Nicolau de Cusa e “percorre todas as suas obras: (...) como podemos nós, como seres finitos criados, pensar no Deus infinito e transcendente?” (MORAN, 2007, p. 174).

Como Nicolau responde esse problema em De Docta Ignorantia? Sua resposta e estilo especulativo envolto dos aspectos místico cristão, que o identifica como um pensador da escola da “Mística Especulativa ou Mística do Logos” (alusão a passagem do Evangelho de S. João 1.1) (ANDRÉ, 1993, p. 370).

Nicolau de Cusa se detém a escrever sobre esse conhecimento que parte de uma “ignorância”, que se busca se tornar “douta”, na medida em que deseja conhecer cada vez mais além dos limites impostos por um pretenso universalismo racionalista. Torna-se douta quando admitir que os limites encontrados, em forma de contradições, são necessários na especulação na medida em que se busca conhecimento infinito. Mesmo que esta especulação não seja absolutamente suficiente, mas o possível. Apreender o Absoluto (Uno) é o que a ignorância douta deseja, mas reconhece não poder. Como o próprio Nicolau diz no início de sua obra:

Se, pois, é assim, como também o assevera o mui profundo Aristóteles, na Filosofia Primeira, ou seja, que em a natureza, nas coisas mais manifestas, deparamos uma dificuldade, semelhante à da coruja que tenta ver o sol, na verdade, já que a tendência em nós não existe em vão, desejamos saber o que não sabemos. (CUSA, 2002, p. 43)

A ignorância douta sabe que há o “sol” (Absoluto), porém sua “visão” permanece dentro de certos limites da qual reconhecê-los por si só já é um grande passo ao conhecimento. O conhecimento especulativo está para o Absoluto na mesma medida em que a visão da coruja está para (conhecimento) do sol.

Como dito, Nicolau de Cusa não apresenta seu pensamento nesta obra de uma forma sistemática ou sob uma análise do ponto de vista lógico formal tradicionalmente feito na escolástica, antes parte daquilo que ele chama de “intuição” - um conhecimento suprarracional – para um argumento especulativo místico.

É mister, porém, que quem deseja penetrar no sentido, ao invés de insistir nas propriedades dos vocábulos, os quais não podem ser adaptados, em sentido pleno, os tão grandes mistérios espirituais, devem, sim, elevar o intelecto acima da força e sentido das palavras. (CUSA, 2002, p. 46)

Portanto, o conhecimento, a epistemologia em Nicolau de Cusa, contempla tanto o uso da razão, que aponta limites e contradições, como a intuição, que transpõe as próprias contradições. Conhecer é vivenciar todos estes aspectos racionais e intuitivos.

De partida vemos que Nicolau de Cusa não tem uma preocupação em estabelecer uma forma de conhecimento inteiramente nova, já que a intuição não é um conceito novo no

neoplatonismo ou na mítica, bem como a via apofática. Será a contradição e a matemática como forma especulativa simbólica debatendo sobre a limitação dos conceitos que criamos, que o diferira da metafísica dos demais. Não que Nicolau de Cusa não possa ser visto como um metafísico, mas como diz João M. André, “(...) toda a gnosiologia cusana é a sua passagem de uma metafísica do ser para uma metafísica do sujeito ou da mente” (ANDRÉ, 1995, p. 76). João M. André enfatiza o fato do deslocamento que Nicolau de Cusa faz da problemática do ser de Deus, da metafísica tradicional, para uma epistemologia do sujeito, ainda que seu fundamento continue sendo o cristianismo. A questão passa ser não mais a definição do ser do Infinito (Deus), mas como e se o sujeito finito “conhece” o Infinito, e como faria isto escapando das aporias lógicas e limitações conceituais. Significa que para Nicolau é preciso levar em conta que a uma distância qualitativa entre Deus e o homem. Mas não uma distância representada pela metafísica tradicional, mas pela própria dialética apofática que esta distância aponta. Por isso os métodos representativos devem ser outros, e não mais os silogísticos.

Portanto Nicolau fará uma metafísica com ênfase em uma epistemologia representativa matemática. A matemática (como linguagem de símbolos e não como cálculos74) que serve como ciência precisa e objetiva do mundo finito, e conhecimento simbólico, é a melhor ciência representativa entre o finito e o infinito para ele.

O próprio Nicolau de Cusa frequentemente se refere à suas investigações matemáticas como uma forma de pôr à prova o seu princípio da “coincidência dos opostos”, tendo pela consciência de que, dessa forma, não só abria vias filosófico- teológicas ainda por explorar, como também inaugurava uma nova arte no domínio das Matemáticas, susceptível de permitir uma resolução de problemas que o primado do aristotélico princípio de não-contradição até aí não permitira equacionar devidamente. (ANDRÉ, 1995, p. 77)

Mais sobre sua epistemologia será mais aprofundada no terceiro capítulo. Aqui serve como apresentação introdutória do que será demonstrado mais adiante. No entanto, vou tratar um pouco do sujeito que conhece, o ente-homem que possui sua peculiar condição ontológica na criação, o único capaz de representar o Infinito em termos finitos.

74 Nicolau de Cusa foi um grande matemático de sua época, utilizando, por exemplo, a “quadratura do círculo”

(já conhecido desde a Idade Média). Porém em De Docta Ignorantia ele a utiliza muito mais como símbolos representativos, já que sua intenção não é apresentar a objetividade rigorosa da ciência, mas o paralelo entre ela, matemática, (ciência finita mais exata) com a forma de conhecimento intuitivo (infinito).