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A atual configuração espacial da produção cearense de coco pode ser duplamente diferenciada. Grosso modo, observa-se a existência de dois arranjos espaciais completamente distintos entre si no que tange ao cultivo do fruto no Ceará, um localizado no litoral e outro no interior. Ambos representam um híbrido entre o tradicional e o moderno, entre os antigos espaços de produção do fruto e os novos, entre aqueles onde é cultivado o coqueiro gigante e aqueles onde se cultivam as outras duas variedades. Um híbrido ainda entre o cultivo de coqueiros de maneira semiextensiva, baseado em uma agricultura de sequeiro, e o cultivo realizado de maneira intensiva, baseado em uma agricultura irrigada, completamente inserido no contexto da reestruturação produtiva do setor.

O primeiro desses arranjos espaciais de produção de coco começou a se formar quando as primeiras mudas de coqueiros foram plantadas em território cearense. Caracterizado predominantemente pelo cultivo da variedade gigante, esse arranjo espacial abrange uma área que se estende de leste a oeste do litoral do Ceará, historicamente uma importante região produtora de coco. No entanto, se antes o coqueiro era sinônimo exclusivo de litoral, isso passa a ser alterado por influência direta da reestruturação produtiva, dando origem a um novo arranjo espacial de produção de coco, localizado no interior cearense e distinto do já existente.

Esse segundo grande arranjo espacial do cultivo do fruto começou a se formar a partir da dispersão do cultivo de coqueiros anão e híbrido por todo o território cearense, que deu origem a uma nova organização espacial da produção de coco, dinamizando um conjunto de espaços e municípios em várias regiões do Ceará, que passaram a se especializar nesse cultivo. E um dos principais fatores que levou à formação desse novo arranjo espacial foi a difusão da agricultura irrigada e de sistemas técnicos associados à irrigação, responsáveis por garantir a

120 Estamos chamando de “espacialização produtiva” a distribuição de uma dada produção em um determinado

sobrevivência dos coqueiros no hostil ambiente do semiárido nordestino, caracterizado especialmente pela escassez hídrica associada à irregularidade pluviométrica.

Alguns depoimentos dão conta dessa importância da irrigação na nova configuração espacial do coco no Ceará. De acordo com o presidente da Cohibra, por exemplo, em entrevista divulgada pelo jornal Diário do Nordeste121 em 2013,“o grande gargalo que temos hoje é a falta de áreas irrigadas”122. Isso ocorre porque a moderna produção de coco no Ceará não resiste sem irrigação, e o mesmo se pode dizer do novo arranjo espacial produtivo do fruto. Quando perguntado se o coco ainda poderia continuar se expandindo pelo Estado, o diretor de agronegócios da ADECE nos respondeu:

O coco ainda vai sim continuar se expandindo pelo Ceará, claro! Nós temos áreas irrigadas ainda passíveis para a realização do plantio desse fruto. O coqueiro anão irrigado pode ser plantado em qualquer lugar, basta ter água! Onde tem irrigação nós podemos plantar e ter uma alta produtividade. Hoje a única questão que impede o coco de se expandir ainda mais pelo Ceará é a água, que ainda é um fator limitante. Uma coisa é certa, a produção de coco só vai se expandir para onde tiver água.

Dessa forma, e de um modo geral, o que podemos constatar é que a produção, antes concentrada exclusivamente no litoral, passa a ser realizada também em diversas outras áreas, necessitando apenas da irrigação para poder ser efetivada. Dentre essas áreas de importante incremento na produção de coco nestas últimas décadas destacamos o interior dos municípios litorâneos, onde é possível cultivar o fruto em uma distância aproximada de até 20 quilômetros do litoral (em áreas de tabuleiro), e os vales dos rios Curu e Acaraú, que abrigam grandes projetos de irrigação, públicos e particulares. Além dessas, citamos ainda o Planalto da Ibiapaba e o Vale do Jaguaribe, áreas de recente expansão do cultivo do fruto. São essas as áreas (evidenciadas na imagem 10) que compõem o novo arranjo espacial produtivo do coco no Ceará, todas elas apresentando uma grande disponibilidade hídrica e condições para a implementação de sistemas de irrigação, basicamente a microaspersão.

Assim, além de promover essa dispersão espacial produtiva, a reestruturação do setor levou a uma nova concentração do cultivo do fruto, promovendo especializações territoriais centradas na sua produção, como a observada em uma região contínua que abrange seis municípios, na qual realizamos nossos trabalhos de campo. Essa importante e contínua região de produção de coco (imagem 10) é formada pelos municípios de Acaraú, Amontada, Itarema,

121 Fonte: http://goo.gl/S04Dzr, jornal Diário do Nordeste – “Falta de áreas irrigadas é gargalo”, matéria do dia

10/11/13 e acessada em 11/11/13.

122 É importante destacar que essas áreas irrigadas não se resumem somente aos perímetros irrigados, uma vez que

os próprios produtores do fruto estão perfurando poços profundos e instalando os equipamentos para a captação da água e irrigação dos coqueiros.

Itapipoca, Paraipaba e Trairi, e abrange espaços de cultivo de todas as variedades de coqueiro. Ela é a região mais dinâmica no que se refere ao cultivo do fruto no Ceará, concentrando 56% da área plantada com coqueiros de todo o Estado e em torno de 46% do coco produzido (IBGE/PAM, 2010). Nessa região podemos perceber a existência de um completo e dinâmico circuito espacial produtivo, conforme demonstramos em Cavalcante (2012), onde o cultivo do coco é uma das principais atividades econômicas desses seis municípios que a compõem, garantindo a sobrevivência de centenas de produtores.

Imagem 10 – Configuração espacial da produção de coco no Ceará.

Organização: Cavalcante e Mendoza, 2015. Base cartográfica: IBGE, 2010.

Em virtude da dispersão espacial produtiva do fruto, atualmente dos 184 municípios cearenses 172 são produtores de coco, conforme indicam os dados da PAM/IBGE, revelando a importância desse cultivo no Estado. Apesar disso, essa produção se dá com mais intensidade em alguns poucos municípios. Como se pode observar na tabela a seguir (tabela 26), somente 10 deles concentravam em 2010 aproximadamente 71% da área plantada com coqueiros e 64% da produção total de coco no Ceará, demonstrando o peso de tais municípios na configuração produtiva do fruto no Estado. Assim, nota-se que, apesar da dispersão da produção, ela continua espacialmente concentrada, sobretudo em Trairi, Acaraú, Itarema, Paraipaba, Itapipoca, Beberibe, Pentecoste, Amontada, Camocim e Cascavel.

Tabela 26 – Participação dos maiores municípios produtores de coco em relação ao total produzido no

Ceará (em %). Quantidade produzida (em mil frutos), área plantada (em hectares) e ranking diante dos demais municípios. 2010.

Quantidade

produzida Ranking plantada Área Ranking

Trairi 12,05 1° 16,13 1° Acaraú 8,59 2° 11,33 3° Itarema 8,23 3° 12,42 2° Paraipaba 6,31 4° 3,08 11° Itapipoca 5,58 5° 8,31 4° Beberibe 5,42 6° 5,31 5° Pentecoste 5,01 7° 2,92 12° Amontada 4,98 8° 5,05 6° Camocim 3,96 9° 3,13 10° Cascavel 3,95 10° 3,72 7° TOTAL 64,08 - 71,40 -

Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Analisando a evolução da quantidade produzida e da área plantada desses 10 principais municípios produtores de coco do Ceará entre os anos de 1990 e 2010, de acordo com os dados da PAM/IBGE (tabelas 27 e 28), percebe-se que há um decréscimo apenas em Amontada e Itapipoca, indicando que enquanto vários municípios são incorporados ao contexto da reestruturação produtiva, outros vêm encontrando inúmeras dificuldades de manter os coqueirais, seja pela falta de investimentos seja pela ausência de perspectivas para continuar na atividade. Em contrapartida, outros municípios litorâneos apresentaram um importante crescimento na produção e na área plantada, a exemplo de Beberibe e Camocim, onde o cultivo de coco está largamente sendo incrementado, fazendo com que as quantidades produzidas com o fruto apresentassem crescimentos de 501% e 370%, respectivamente. E o mesmo se pode dizer de Cascavel, com um acréscimo um pouco menor que o dos demais municípios.

Além desses, um importante destaque na produção de coco no Ceará vai para os municípios de Trairi e de Itarema, que concentram as maiores áreas plantadas do Estado e onde há uma produção bastante diversificada, tanto de coqueiro anão quanto de gigante. Em apenas duas décadas, a produção de coco dobrou em Trairi e triplicou em Itarema. O diferencial desses dois municípios é que sua produção não se concentra apenas nas proximidades do litoral, uma vez que muitas das fazendas aí encontradas se localizam no interior e não cultivam somente coqueiro gigante. Além de venderem os frutos para os mercados estadual e nacional, esses municípios destinam uma parte considerável da produção de coco seco e verde para as agroindústrias aí instaladas, que alavancam a dinamização do setor.

Já Paraipaba e Pentecoste, localizados do Vale do Curu, chamam atenção por apresentar, de longe, os maiores índices de crescimento da quantidade produzida e da área plantada. Num período de apenas 20 anos, a produção de coco em Paraipaba cresceu significativos 1.877%,

enquanto em Pentecoste esse aumento foi ainda maior, de 4.837% (tabelas 27 e 28). Isso se justifica sobretudo por esses dois municípios abrigarem grandes perímetros irrigados, que desde os anos 1990 passaram a cultivar coco verde, tendo à sua disposição eficientes sistemas de distribuição de água e modernos sistemas técnicos difundidos com a modernização da produção do fruto. Além disso, ambos apresentam uma produtividade de cerca de 12 mil frutos por hectare ao ano, índice muito acima das médias nacional e estadual, respectivamente de 6,85 e 6,02 mil frutos anuais para cada hectare cultivado.

Em Acaraú a produção de coco também está sendo bastante incrementada nestes últimos 20 anos, tendo aumentado 205%. Além de cultivos distribuídos por todo o seu litoral e interior, esse município se destaca ainda por abrigar um importante perímetro irrigado, onde o cultivo do fruto encontra-se em acelerado crescimento. Fora esses 10 principais produtores, outro que merece destaque é Varjota, localizado no Vale do Acaraú e que também abriga um perímetro irrigado especializado na produção de coco, fazendo com que a quantidade produzida por esse município apresentasse entre 1990 e 2010 um incremento importante e uma produtividade anual que já passa dos 21 mil frutos por hectare.

Tabela 27 – Principais municípios produtores de coco do Ceará. Área plantada com coqueiros (em

hectares) e quantidade produzida de coco (em mil frutos). 1990 – 2010.

1990 2000 2010

Acaraú Área plantada Quantidade produzida 1.500 7.500 22.500 4.500 22.881 5.010 Amontada Área plantada Quantidade produzida 12.500 2.500 11.484 1.980 13.263 2.235 Beberibe Área plantada 1.000 2.255 2.348

Quantidade produzida 2.400 7.015 14.431 Camocim Área plantada 640 1.216 1.382

Quantidade produzida 2.240 8.018 10.548 Cascavel Área plantada Quantidade produzida 5.600 740 1.561 7.025 10.514 1.646 Itapipoca Área plantada 5.000 3.200 3.675

Quantidade produzida 17.400 18.560 14.860 Itarema Área plantada 2.000 4.500 5.493

Quantidade produzida 7.500 22.500 21.902 Paraipaba Área plantada Quantidade produzida 170 850 10.185 1.100 16.806 1.362 Pentecoste Área plantada Quantidade produzida 270 54 1.464 305 13.331 1.293 Trairi Área plantada 4.000 6.500 7.132

Quantidade produzida 16.000 37.700 32.074 CEARÁ Área plantada 35.431 37.316 44.224 Quantidade produzida 133.880 193.729 266.263 Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Tabela 28 – Principais municípios produtores de coco do Ceará. Área plantada (em hectares) e

quantidade produzida (em mil frutos). Variações absoluta e relativa (em %). 1990 – 2010.

Variação

Absoluta Variação Relativa

Acaraú Área plantada 3.510 234,00 Quant. produzida 15.381 205,08 Amontada Área plantada -265 -10,60 Quant. produzida 763 6,10 Beberibe Área plantada Quant. produzida 12.031 1.348 134,80 501,29 Camocim Área plantada 742 115,94 Quant. produzida 8.308 370,89 Cascavel Área plantada 906 122,43 Quant. produzida 4.914 87,75 Itapipoca Área plantada Quant. produzida -1.325 -2.540 -26,50 -14,60

Itarema Área plantada Quant. produzida 14.402 3.493 174,65 192,03 Paraipaba Área plantada 1.192 701,18 Quant. produzida 15.956 1.877,18 Pentecoste Área plantada 1.239 2.294,44 Quant. produzida 13.061 4.837,41 Trairi Área plantada Quant. produzida 16.074 3.132 100,46 78,30 CEARÁ Área plantada 8.793 24,82

Quant. produzida 132.383 98,88 Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Nos cartogramas apresentados a seguir (imagem 11), podemos observar a distribuição espacial do cultivo de coco no Estado do Ceará nos anos de 1990 e 2010, onde é possível notar que mais municípios passaram a produzir o fruto, indicando uma importante dispersão espacial do seu cultivo, que contribui sobremaneira para desconcentrar a produção antigamente realizada com mais intensidade apenas no litoral. Apesar disso, essa produção ainda continua espacialmente concentrada nos municípios litorâneos. O cartograma de 2010 indica sobretudo a atual configuração espacial da produção do fruto no Ceará, que continuará sendo modificada em virtude do atual dinamismo observado no setor. Destaca-se que toda essa produção de coco é realizada em diferentes espaços, os quais apresentamos na sequência.

Imagem 11 – Distribuição espacial da produção de coco no Ceará, por municípios. 1990 – 2010.