O Curu-Paraipaba foi inaugurado pelo DNOCS em 1975, sendo um dos mais antigos perímetros irrigados do Nordeste, e ocupa uma área total irrigável de 3.357 hectares, localizando-se na porção centro-sul do município de Paraipaba, na margem esquerda do Rio Curu (imagem 14). Esse perímetro tem um arranjo espacial bastante particular, estando divido em duas etapas: a primeira, entregue no decorrer dos anos 1970 e 1980 e subdividida em seis comunidades (B, C1, C2, D1, D2 e E), e a segunda, entregue entre as décadas 1980 e 1990 e
139 Tal proximidade vem inclusive limitando o crescimento urbano da cidade de Paraipaba. Para sanar esse
problema, uma das saídas encontradas está sendo a venda dos lotes agrícolas anteriormente cultivados com coco para a construção de casas, loteamentos e estabelecimentos comerciais.
subdivida em uma comunidade chamada de GH. Existe ainda uma área à parte, o Centro Gerencial do DNOCS, onde estão localizados a sede do órgão, a associação que gere o perímetro, uma agroindústria do ramo do coco e a área de preservação ambiental. Na imagem abaixo vemos como está organizado esse perímetro.
Imagem 14 – Arranjo espacial do perímetro irrigado Curu-Paraipaba.
Fonte: Google Earth, 2012. Adaptação: Cavalcante, 2014.
Legenda: O traçado vermelho indica a área total ocupada pelo perímetro irrigado, já os polígonos azul-escuros representam cada um dos setores que compõem esse perímetro, enquanto que o polígono marrom representa a
área urbana da cidade de Paraipaba e a linha azul clara indica por onde passa o rio Curu.
No Curu-Paraipaba chama atenção ainda a sua separação entre as áreas de produção e as áreas de moradia, através da subdivisão de todos os setores em lotes agrícolas, quintais residenciais e áreas mortas140. Os lotes têm um tamanho médio de 3,6 hectares; já os quintais apresentam uma área média de 0,4 hectares, sendo compostos pelas casas onde vivem os produtores e sua família, além dos armazéns, viveiros de animais, hortas e pomares. Na imagem seguinte (imagem 15) podemos observar melhor essa subdivisão do Curu-Paraipaba em lotes agrícolas e quintais residenciais, através da qual é possível perceber a grande concentração do plantio de coqueiros. De acordo com a associação que gere o Curu-Paraipaba, existem atualmente 807 lotes agrícolas no perímetro, nem todos ocupados.
140 As áreas mortas foram aquelas não divididas inicialmente aos colonos por estarem localizadas ao lado de
Imagem 15 – Subdivisão do Curu-Paraipaba em lotes agrícolas e quintais residenciais.
Fonte: Google Earth, 2012. Adaptação: Cavalcante, 2014.
Ao longo de seus 40 anos de existência, o perímetro irrigado Curu-Paraipaba apresentou alguns momentos distintos que marcam seu histórico produtivo, por vezes bastante diversificado e em outros momentos altamente especializado. Uma série de fatores, tanto internos quanto externos ao perímetro, agem determinando o que será ou não produzido pelos irrigantes/colonos. Dentre os principais fatores responsáveis por levar ao desenrolar de importantes dinâmicas socioespaciais e produtivas que agem dinamizando o Curu-Paraipaba podemos destacar: a atuação do DNOCS; a rentabilidade do cultivo; o comportamento do mercado; a adaptação às potencialidades naturais do lote; a sobrevivência e manutenção da família; e também a conjuntura econômica e política do país.
Logo na inauguração do perímetro, em 1975, 13 famílias o ocuparam e deram início à exploração dos primeiros lotes, cabendo a elas escolher os produtos a serem cultivados, preparar a terra e iniciar os plantios. Os colonos mais antigos contaram nas entrevistas que apesar de o começo ter sido muito difícil, devido à adaptação pela qual tiveram de passar, nunca na história do perímetro houve uma fartura tão grande de alimentos como a observada no início da exploração dos lotes, quando a produtividade chegava a impressionar aqueles habituados a cultivar pequenas roças exclusivamente no período das chuvas.
Os colonos relataram ainda que tudo que se plantava no perímetro nascia, devido à fertilidade do solo e à grande disponibilidade de água garantida por meio dos canais de irrigação, e informaram também que no começo da exploração existia uma produção altamente diversificada. Dentre os produtos primeiramente cultivados destacam-se feijão, milho,
mandioca, tomate, pimentão, cenoura, cebola, laranja, abacate e maracujá, produção essa realizada tanto nos lotes quanto nos quintais, além da existência de uma pequena criação de bois e galinhas nos quintais. Nesse período inicial os colonos e o DNOCS iam testando as potencialidades naturais do perímetro para ver qual cultivo mais se adaptaria. Há de se destacar que toda a produção era, obrigatoriamente, comercializada pela cooperativa existente no perímetro, sempre sob mediação do DNOCS.
Essa fase diversificada, porém, rapidamente daria lugar a monoculturas que possuíam um maior valor agregado: primeiro a cana-de-açúcar e depois o coco. E foram esses dois cultivos que marcaram sobremaneira a história produtiva do perímetro irrigado Curu-Paraipaba, assim como a dos colonos que dele tiram o sustento de suas famílias. Esse histórico produtivo do perímetro é retratado especialmente por Martins (2008), que descreve alguns elementos inerentes à especialização produtiva baseada na cana, e por Vasconcelos (2011), Mendes (2011) e sobretudo Alves (2013), que apresentam importantes elementos relativos à especialização centrada no cultivo do coco.
A primeira grande mudança observada na estrutura produtiva do perímetro se deu por pressão da Agrovale, uma grande agroindústria localizada na região do Vale do Curu e importante produtora de derivados de cana-de-açúcar, contando com o aval e a intermediação do Estado via DNOCS. Juntos, esses agentes conseguiram mudar a vocação econômica do Curu-Paraipaba, que passou da policultura, baseada na hortifruticultura, para a monocultura da cana. Dessa forma, a fase de produção diversificada evidenciada no início perdurou apenas por uns dois ou três anos. Em 1977 começaram a chegar os novos colonos e todos eles já recebiam os lotes prontos para o plantio de cana, segundo alguns desses colonos nos relataram.
A Agrovale foi fundada em 1964 e iniciou suas atividades produzindo açúcar. Porém Martins (2008) assegura que com a inauguração oficial do perímetro irrigado Curu-Paraipaba, em 1975, os rumos dessa empresa mudaram completamente e sua história passou a ser associada à própria história do perímetro, marcando o início de uma atuação cerrada e controladora por parte do DNOCS. O país estava em plena Ditadura Militar e assistia ao início do Proálcool, um importante programa que impulsionou a produção de álcool à base de cana- de-açúcar. Nesse período, a Agrovale recebeu um grande financiamento por parte do Governo e firmou uma parceria com o DNOCS que marcaria por completo os rumos do Curu-Paraipaba.
De acordo com Martins (2008), o contrato firmado entre a Agrovale e o DNOCS indicava que todos os 522 colonos lá existentes passariam, a partir daquele momento, a ser fornecedores exclusivos de cana para a empresa, e caso desobedecessem essa norma perderiam o direito de posse dos lotes e seriam expulsos do perímetro. A partir daí, esse espaço foi
rapidamente transformado em um imenso e contínuo canavial. Em pouco tempo todos os colonos começaram a plantar cana visando atender a grande demanda de matéria-prima por parte da Agrovale, que teve sua produção largamente incrementada devido ao Proálcool e que encontrou no perímetro a melhor maneira de se consolidar no mercado de álcool, já que ela tinha à sua disposição cerca de 2.000 hectares irrigados geridos pelo DNOCS.
A atuação desse órgão se dava por meio da cooperativa existente na época, a CIVAC, responsável pela gestão do negócio com a Agrovale, controlando tanto a produção quanto a comercialização da cana. Ao longo do ano a cooperativa fornecia insumos aos colonos, que posteriormente seriam pagos com a renda advinda da venda da cana. Além disso, assim que a cana era colhida, a produção dos colonos deveria ser repassada à cooperativa, que se encarregaria de revendê-la à Agrovale. No final das contas, o saldo que chegava às mãos dos colonos mal dava para pagar as dívidas que iam sendo contraídas ao longo do ano, além de uma série de impostos que lhes era cobrado.
Essa hegemonia da cana-de-açúcar perdurou somente até o início da década de 1990, quando se inicia a reconversão produtiva quase que completa para o coco. Dentre os motivos que impulsionaram essa mudança estão: o enfraquecimento do poder do DNOCS, com o fim da Ditadura Militar e a entrada do Brasil em um período marcado pelo neoliberalismo e pela redução da interferência direta do Estado; o fim do Proálcool; o desmantelamento da cooperativa; a progressiva falência da Agrovale, que encerrou sua atividade definitivamente em 1996; e sobretudo o total descontentamento dos colonos diante do controle da produção e da não rentabilidade da cana, fatores que os forçaram a investir em outros cultivos mais rentáveis. Com a falência da Agrovale, os colonos ainda continuaram produzindo cana para a Ypióca, outra empresa localizada nas proximidades do perímetro e produtora de aguardente, mas com o tempo todos foram optando pelo coco. Segundo um dos colonos entrevistados: “pouco a pouco o canavial foi dando lugar ao coqueiral, onde cada vez tinha menos cana e mais coco”. Dessa forma, aos poucos se dava uma segunda reconversão produtiva no Curu- Paraipaba, dessa vez passando de uma monocultura para outra. Se antes era a cana que ditava todas as relações que aí se davam, impulsionando o desenrolar das dinâmicas socioespaciais, o coco passou a assumir o lugar central na dinamização daquele espaço. Para Vasconcelos (2011, p. 182), no perímetro “o tempo do coco é o tempo do hoje”.
Essa mudança da cana para o coco é sempre referida pelos colonos como sendo “a salvação do perímetro, a salvação da própria Paraipaba”. Os colonos entrevistados asseguraram que com o coco há um rendimento muito maior do que o obtido com a cana, já que agora eles realizam a colheita dos frutos mensalmente, tendo sempre algum dinheiro para se manterem
durante o mês. Com o coco também sobra mais espaço no lote para realizarem o cultivo consorciado com alguns outros produtos nas entrelinhas dos coqueiros. Esses colonos informaram ainda que com o coco a vida de suas famílias melhorou consideravelmente comparada à realidade observada na época da cana. De acordo com os funcionários do DNOCS e da associação que administra o perímetro, até o início de 2014 todos os colonos produziam coco no Curu-Paraipaba, sem nenhuma exceção.
Foto 25 – Imagem aérea dos lotes agrícolas Foto 26 – Cultivo de coqueiro anão e
ocupados por coqueiros em Paraipaba/CE. produção de coco verde em Paraipaba/CE.
Fonte: Leto Rocha, 2010. Fonte: Cavalcante, 2014.
Todavia, apesar da hegemonia absoluta do cultivo de coco no perímetro, esse produto não é o único aí cultivado. Diversas foram as ocasiões em que encontramos colonos cultivando outros produtos além do coco, tendo em vista que é muito a prática do consorciamento nas entrelinhas que separam os coqueiros. No perímetro, os colonos cultivam especialmente feijão e mandioca, visando o consumo das famílias e a venda do excedente; além disso, cultivar esses dois produtos entre os coqueiros ajuda na fixação de nutrientes no solo, reduzindo bastante os gastos com fertilizantes. Há ainda produtores que fazem o consorciamento também com milho, capim, mamão, graviola e até mesmo ainda cana-de-açúcar.
Ao analisarmos a tabela seguinte, sobre a composição produtiva do Curu-Paraipaba, a partir dos dados da SMPPI/DNOCS, percebemos a hegemonia desempenhada pelo coco, que ocupa em torno de 81% da área total cultivada no perímetro, como também uma certa expressividade da cana, do feijão e da mandioca, somando 12% da área cultivada, enquanto os outros cultivos chegam a 7%. Observamos ainda que entre 2000 e 2012 a organização produtiva do perímetro é praticamente a mesma, uma vez que não notamos grandes alterações, o que demonstra uma certa estabilidade em seu perfil produtivo mais recente. Podemos afirmar, dessa forma, que o Curu-Paraipaba é um espaço de produção diversificada, porém especializado majoritariamente no cultivo de coco.
Tabela 34 – Composição produtiva do perímetro irrigado Curu-Paraipaba.
Área plantada (em hectares) e quantidade produzida. 2000 – 2012.
2000 2012
Área
plantada Quantidade produzida plantada Área Quantidade produzida
Acerola 28,23 497.210 31,65 485.340 Caju 29,96 20.320 29,91 8.300 Cana-de-açúcar 244,70 7.754.000 186,70 6.193.400 Capim 45,83 305.460 41,06 1.626.000 Coco 2.299,84 28.255.220 2.533,34 31.820.570 Feijão 124,50 76.670 83,70 36.650 Graviola 41,34 205.570 40,20 308.640 Mandioca 58,56 290.790 96,45 385.350 Mamão 20,92 592.990 24,62 827.360 Milho 49,50 38.000 47,00 26.800 Outros* 70,95 - 40,74 - TOTAL 3.014,33 - 3.155,37 - Fonte: DNOCS/SMPPI. Elaboração: Cavalcante, 2014.
Obs: Todos os valores de quantidade produzida são dados em quilos, exceto o coco, que é mensurado em unidades. Os outros* cultivos se referem a abacate, abóbora, banana, batata-doce, laranja, limão, goiaba, manga,
maxixe, melancia, pimenta e sapoti, cultivados em quantidades menores.
Nesse sentido, de posse das informações apresentadas, vemos claramente a existência de três momentos produtivos distintos no perímetro: um primeiro momento, de 1975 a 1977 com uma produção diversificada; um segundo momento, de 1977 a 1990 com a hegemonia da cana; um terceiro e atual momento, com a hegemonia do coco. Ressaltamos, entretanto, que essas datas não são temporalmente rígidas, sendo importantes apenas para marcar as grandes modificações que se deram na estrutura produtiva do perímetro. Além disso, em todos os momentos marcados por monoculturas notamos o cultivo de outros produtos. O importante é perceber que o Curu-Paraipaba deixou de ser um espaço especializado no cultivo de cana-de- açúcar e reorganizou toda sua estrutura produtiva voltada para o cultivo de coco.