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2. Styring i offentlig sektor – bakgrunn og utfordringer

2.2 Utfordringer med dagens styringsprinsipper

Enfim, o próprio trabalho da interpretação revela um desígnio profundo: o de superar uma distância, um afastamento cultural, o de equiparar o leitor a um texto que se tornou estranho e, assim, incorporar seu sentido à compreensão presente que um homem pode obter dele mesmo. Ricoeur – O Conflito das Interpretações

Os excertos abaixo mostram as leituras dos alunos do filme através de apresentações que estes fizeram no final do curso da UniB, na última aula, mais especificamente. O trabalho de superar uma distância entre leitor e texto apontado por Ricouer (1978) acima compõe a questão cerne selecionada para esse subcapítulo. Muitas vezes, o leitor passa a incorporar seus sentidos na leitura revelando, dessa forma, um processo de ruptura com uma leitura reprodutivista. Nesse debate, caberia analisarmos se essas leituras formariam apontamentos para a compreensão sobre a interação entre leitor e texto (e, portanto, segundo Ricoeur, um trabalho de interpretação) ou se os alunos apreenderam esses conceitos “novos” de maneira também crítico-reprodutivista. Nessa perspectiva última, eles procuram assistir ao filme tentando encontrar previamente os conceitos discutidos em aula, como se “encaixassem” cada conceito em uma cena. Não fosse a necessidade de agência e de uma leitura crítica, a cisão apontada poderia nos

levar a dois caminhos: a construção de sentidos ou a reprodução dos mesmos sentidos dados. A esse respeito, verificamos no excerto 41 abaixo a coexistência de ambos os caminhos na leitura da A5 uma vez que, por vezes, ela revela o que para ela seria desconstrução a partir de sua leitura do filme e, em outros momentos, defende o conceito desconstrução de forma estanque. A5 apresenta sua leitura do que seria desconstrução numa cena do filme. Para ela, rasgar o prefácio de um livro tradicional seria um exemplo de desconstrução (linhas 1 e 2).

Excerto 41 - UniB

Apresentação do filme Sociedade dos Poetas Mortos pela A5

1 A5: deconstruction I thought that was the a different approach to literature leading the 2 students to reap out the preface of a traditional book which had the intent as if it could 3 be possible to teach how to understand poetry when I believe I really believe that it’s a 4 particular way of each person own read a poetry I don’t believe that we …I think that 5 some people can share same things but in one aspect one word it is our for me each 6 reads, and allowed students to discover new techniques not to learn but also to create 7 poems I think it’s something we must consider deconstruction

Entretanto, ainda segundo a aluna, entender literatura requer um modo único de ler onde cada um possui a sua maneira (linha 4). Na linha 7, ela revela que em sua leitura “deve” ser desconstrução, como se tivesse acertado a resposta: “devemos considerar isso desconstrução”. Provavelmente os conceitos de desconstrução foram apresentados em aula pelo professor da UniB e, como discutimos extensivamente no capítulo da AP pedagógica do professor, o conceito de desconstrução não pode ser banalizado e utilizado a qualquer razão. Isso porque corremos o risco, mesmo com a tendência de facilitar a teoria para os alunos e alguma tentativa de agência, da banalização a que se refere Perrone-Moisés quando fala da desconstrução e de como ela é utilizada no Brasil. Segunda a citada autora há uma falta ou não existência dessa teoria latina, brasileira, pois não temos uma “filosofia brasileira, no sentido de criação de

conceitos e métodos absolutamente originais (Perrone-Moisés 2004: 232).

Contrariamente a esse argumento, parece-nos que houve no excerto discutido, à luz de Ricouer (1978), uma tentativa de compreender a interação entre leitor e texto, onde A5 buscou entender como aquela cena poderia ser indício de uma construção de sentido, completando com sua experiência sobre a literatura: “cada um tem a sua”. Nesse

sentido, ela nos leva a interpretar seu questionamento em relação aos moldes assumidos em muitas aulas de literatura. Ainda sobre a construção de sentido, a mesma A5 comenta em outro momento do curso.

Excerto 42 - UniB

A5 comenta após atividade de apresentação aula 2

1 A5: I remember when I was young, 19 years old, a long time ago I used to be part of a 2 group of cinema and then we were studying eight and a half, Felini’s movie and there 3 was a situation in which I compared people in a big city with small people, like ants 4 and I comment with a friend and she said why don’t you tell them? no, they will think 5 I am silly . now I think I have a different opinion . this is my opinion . so, you have to 6 open to other people when you are young . don’t be shy

A5 questiona, finalmente, um modo de educar quase repreensivo que não permite interpretações outras, ou seja, A5 não dividiu com o grupo sua interpretação, pois os outros iriam pensar que ela era tola. À luz de Saviani (1990) e Bourdieu (1982) discutidos anteriormente, esse tipo de ensino não privilegia construção de interpretações e não promove uma autonomia. De efeito oposto, ele promove uma total dependência da autoridade, no caso, da leitura do professor.

Em outros momentos, parece-nos que houve apontamentos para um letramento crítico e visual no que diz respeito à apresentação em si do filme. Eles não comentaram o filme de maneira superficial, mas tentaram estabelecer conexões com sua realidade local e com seus conhecimentos históricos. Nessas conexões, os alunos claramente revelam uma preocupação com pesquisa e, principalmente, com a busca do que “está por detrás” no filme, suas ideologias e construções, seus sentidos e intenções outras que não as leituras de uma primeira vista ou dita “leiga” conforme definição de Ricouer (1978) para a interpretação (o que vimos chamando de leitura).

A5 a seguir continua sua interpretação do filme Sociedade dos Poetas Mortos e sua fala revela conexões e pesquisa por ela realizadas.

Excerto 43 - UniB

Aluna apresenta sua leitura do filme Sociedade dos poetas mortos

1 A5: there are some facts that are important to mention him that are related with the year of 2 the movie it’s 1959 they are showing a traditional way of study and 1959 is when the lunar 3 missions happened in the USA and so you can see the context the world is modern and 4 traditional schools strict, it also … (…) at that time also we had the boom of television, 5 rock and roll Barbie and 1959 …fashion, in literature we had Lolita and Catch in the rise

6 that influenced students at that time so I brought these topics because I think they are 7 important to contextualize what was important in the USA

Vemos uma leitura dentro das perspectivas da pedagogia e do letramento crítico onde a aluna busca relações com a realidade social. O ano do filme é comparado com o contexto histórico em que é produzido (linhas 1 a 3) onde A5 revela uma contradição entre a “modernidade” das expedições e o tradicionalismo da referida escola. Os dois excertos da A3 revelam similarmente construções de sentido teorizada por Ricouer (1978) ao falar da despolitização da política é um dos argumentos do filme ao desviar assuntos políticos sérios para o pessoal:

Understood in ideological terms, the depoliticizing of politics is about the attempt to construct citizens who believe that they have little or no control over their lives: that issues of identity, culture, and agency bear no relationship to or “ acknowledgement of mediations: material, historical, social, psychological, and ideological” p. 75

Excerto 44 - UniB

A3 faz apresentação sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

1 A3: he’s teaching the guys to deconstruct exactly the rules of the school traditional 2 school but I think in a way he himself has been very rigid because the moment he 3 wants to change the student’s mind he is imposing litlle bit because he wants 4 everybody to reap out , it’s reap out or reap up?

Percebemos no discurso de A3 que, ao mesmo tempo em que ela percebe um momento que para ela poderia ser a desconstrução, ou seja, quando o professor tenta desconstruir as regras da escola tradicional (linha 1), ela questiona se isso seria mesmo uma desconstrução uma vez que o próprio professor estaria de certo forma doutrinando os alunos ao impor que os mesmos rasguem o livro (linhas 2 a 4).

Excerto 45 - UniB

A3 faz apresentação sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

1 A3: I talked about deconstructing when the guy called when they are supposed to be 2 punished there was a comfront ball did you see the film? then the guy said then the 3 teacher comes and talks to them but it’s not like deconstruct I think like this you have 4

5 to live your dreams but not to destroy . but I compare deconstruction like a child . my 6 grandson two years old I gave him a car and it lasted two hours because he he broke 7 all the windows all the trunks to discover and deconstruct for is like this he wants to 8 see it’s not to destroy it’s to construct in a different way

Nessa passagem, percebemos novamente uma tentativa da A3 em utilizar o conceito de desconstrução. Percebe-se, no entanto, que ela o faz de maneira inadequada uma vez que ainda não esta certa do significado do conceito. Ela utiliza conceitos positivistas, ou seja, segunda ela, a referida cena do professor conversando com os alunos poderia ser desconstrução, mas para A3 “tirar o melhor da vida” (linhas 3 e 4), “abrir a mente” (idem) e viver os seus sonhos (linha 5) são conceitos importantes. Nesse sentido, ela busca os ideais positivistas da felicidade para justificar a escolha. Uma crítica nesse sentido é feita por Morin (2005) ao discutir a cultura de massa no século XX.

Simplificação, maniqueização, atualização, modernização concorrem para aclimatar as obras de “alta cultura” na cultura de massa. Essa aclimatação por retiradas e acréscimos vista a torna-las facilmente consumíveis, deixa mesmo que se introduzam nelas temas específicos da cultura de massa, ausentes da obra original, como por exemplo, o happy end (p.55).

Giroux (2002) corrobora com essa visão equivocada e, muitas vezes leiga, de que Sociedade dos Poetas Mortos seria um filme de desconstrução de moldes educacionais e de resistência a uma educação considerada tradicional.

In my view, the film [Dead Poets Society] presented a model of liberal pedagogy, by mobilizing popular sentiment through what Larry Grosberg called “an affective epidemic”. That is, even though the film takes as its central narrative the issue of resistance, its structure undermined a critical reading of its own codes by establishing a strong emotional affinity between the viewers and the progressive teacher portrayed in this film. P. 81

Visto nessa perspectiva, o filme, através dos “apelativos” (o que Grosberg chamou “epidemia afetiva”) da relação estabelecida entre espectadores e o professor, o filme pretende proclamar uma pedagogia de resistência, entretanto, reforça valores neoliberais. Ainda segundo Giroux (2002)

One of the most pernitious subtext in this film is organized around the construction of gendered subject positions in which women are represented in terms that are misogynist and demeaning. Understood in this terms Dead Poets Society does more than ignore structured inequalities in the wider society, depoliticize resistance, and naturalize how the canon is used to produce racist and class-specific practices. P. 88

A3 discursa, finalmente (linhas 5 a 8), sobre um outro exemplo (de sua realidade social) do que para ela seria desconstrução. Nesse momento, percebemos a construção de sentidos a que nos referimos. Isso porque, ao comparar a desconstrução do brinquedo de seu neto, a aluna percebe o quanto as oposições binárias podem ser inculcadas e o quanto é possível mudar essa visão, ou ter uma outra possibilidade de leitura. Há nesse momento, a nosso ver, um processo de analogia ao comparar as “quebras” de carrinho de seu neto com o processo de descontrução na leitura de um filme.

Nesse capítulo, buscamos compreender a leitura inserida nos contextos dos movimentos que apresentam visões outras que não as predominantemente positivistas observadas nos discursos do capítulo 1. Observamos como essas características são reveladas em ambos alunos e professores através das análises das gravações das aulas e de atividades escritas. Vimos que, apesar de influenciados sobremaneira pelo pensamento predominantemente dicotômico, por uma leitura tida como tradicional e por uma pedagogia predominantemente reprodutivista, houve muitos momentos de discussão onde construções de leituras dentro de uma perspectiva crítica foram buscadas/iniciadas. Procuramos analisar esses momentos de ruptura, ou seja, as construções de sentidos pelos alunos. Vimos que esses momentos aconteceram, principalmente, nas aulas finais da UniB quando os alunos apresentaram suas leituras de diversos filmes. Esses excertos compuseram discursos essenciais, pois revelam um

início de um trabalho de letramento crítico dentro das perspectivas e princípios da pedagogia crítica a que se insere essa pesquisa.