6. Analyse
6.4 Institusjonelt perspektiv
6.4.1 Reflekterer månedsrapporteringen interne holdninger og verdier?
Quando Rousseau redige a Profession de foi e o Émile, a França vivia um cenário de intenso embate de ideias a respeito do cristianismo. Nas Confessions, Rousseau faz alusão à tempestade suscitada pela publicação da Encyclopédie, e coloca o ano de 1757 como o momento de “maior furor.”213 Os dois partidos em disputa, materialistas, de um lado, e alguns integrantes da ortodoxia católica, de outro, pareciam-se, segundo ele, “mais com lobos raivosos, encarniçados em se dilacerarem, e não com cristãos e filósofos que querem esclarecer suas ideias reciprocamente, convencendo-se e volvendo ao caminho da verdade.”214
Esse cenário de efervescência na França do Antigo Regime é bastante conhecido. O anticlericalismo típico das Luzes francesas, que começa a ganhar corpo já na primeira metade do século XVIII com a apropriação e releitura do deísmo inglês,215 se intensifica sobretudo na década de 1750 com os materialistas. A crítica à Igreja ganha na França um tom sarcástico e mesmo agressivo.216 Os adversários da religião estabelecida pedem apoio a todos aqueles que mostraram que era possível bem viver sem conhecer a religião revelada: chineses, egípcios, maometanos, gregos, Sócrates, Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca. Maldiziam Constantino, traduziam o discurso de Juliano contra os cristãos. Invocavam os racionais italianos que haviam padecido pela causa (Giordano Bruno, Cardano, Campanella, Pomponazzi, Vanini), aos libertinos do século XVII e os vizinhos ingleses.217
Dentre os críticos da ortodoxia católica estabelecida, podemos colocar, além é claro dos materialistas, ilustrados que de modo nenhum poderiam ser qualificados de ateus, como um Montesquieu, um Voltaire, um Turgot ou um d‟Alembert. A Encyclopédie se torna um veículo importante das ideias ilustradas, reunindo homens que suspeitam das ortodoxias e
213 As Confissões..., op. cit., p.395. 214 Ibidem.
215 As obras de Locke, Tolland, Collins, Tindal, Techard, Molesworth, Thomas Gordon, Wolston, Middleton,
Thomas Grubb, Thomas Morgan, Peter Annet, produzidas num contexto de crítica à intolerância religiosa na Inglaterra da segunda metade do século XVII, são incorporados no cenário francês no século seguinte. Para detalhes desse processo, vide VENTURI, Franco. Utopia e Reforma no Iluminismo, op. cit.
216“Um dos aspectos mais conhecidos e evidentes da secularização foi o desenvolvimento da crítica às crenças e
práticas religiosas, em nome da razão e da liberdade de pensamento. Já em 1713 Anthony Collins, no seu Discourse of free-thinking, defendia a liberdade de pensamento [...]. O livre-pensar, com tendência ao deísmo,
caracteriza inicialmente os meios culturais anglo-holandeses, difundindo-se, a partir dali, durante o setecentos e assumindo, principalmente em França, uma forte conotação anticlerical [...].” FALCON, Francisco José Calazans. Iluminismo. 4.ed. 2. reimp. São Paulo: Ática, 2002. p.33-34.
58 reprovam muitas das práticas das igrejas estabelecidas, como o abuso das massas e a utilização do espiritual em proveito de fins temporais.218
Uma ofensiva materialista se desencadeará na França ao longo das décadas de 1750 e 1760, e em reação a ela setores da Igreja vão produzir uma apologética igualmente radical, numa atitude de defesa. Setores do clero francês farão todo um trabalho para desqualificar os
philosophes e tudo aquilo diga respeito às novas correntes intelectuais do século. Libelos,
tratados, panfletos são escritos para reforçar o peso milenar da tradição religiosa e defender os dogmas da fé, as crenças e o papel da Igreja. Embora um setor do clero francês tenha recorrido a um discurso apologético radical e igualmente ofensivo contra os “filósofos ímpios”, já na década de 1750 pode-se observar um esforço de setores consideráveis das ortodoxias religiosas em conciliar os postulados da fé cristã com as novas correntes intelectuais.219
De toda sorte, os setores ligados à Igreja na França do Antigo Regime contam não só com a autoridade de bispos, abades e padres, mas também tem o apoio de um Rei cuja sagração fora mediada pela Igreja. O mundo institucional pesava a seu favor e a parte do clero disposta a uma defesa intransigente da tradição personificava nesse embate a ordem política e jurídica vigentes. Embora os ilustrados das décadas de 1750 e 1760 não pensassem em “revolução”,220 é inegável que a atividade intelectual desses homens, sobretudo a dos materialistas, trazia elementos de instabilidade para uma ordem política e jurídica centrada no cristianismo.
É claro que os “defensores da tradição” nem sempre estavam preocupados com a “causa do cristianismo”, in abstracto, estando a defesa da religião inevitavelmente interligada à defesa de interesses socialmente constituídos. Os postos de comando da Igreja do Antigo Regime francês eram todos eles ocupados por pessoas indicadas diretamente pelo Rei e alinhadas, portanto, aos interesses da ordem vigente.221 Em geral, pessoas oriundas das
218 GUSDORF, Georges. Dieu, la nature..., op. cit., p.48. Como aponta Gusdorf, nem por isso a Encyclopédie
pode ser vista como redigida por ateus para ateus. É mais legítimo vê-la como mais uma expressão do novo espírito religioso da Europa ocidental, que se impõe à opinião esclarecida na França. Ibidem.
219 Para mais detalhes dos “apologistas conciliadores”, vide MASSEAU, Didier. “La position des apologistes
conciliateurs.” Dix-huitième siècle, (Christianisme et Lumières), n.34, 2002. pp.121-130. Se não se pode defender uma concepção monolítica por parte das ortodoxias religiosas – católica e protestante –, o mesmo se diga quanto à posição dos ilustrados quanto à religião. Embora existam traços característicos, as posições variam segundo autores, grupos, ou mesmo de acordo com o tempo.
220 O movimento das Luzes contou em seus quadros com pessoas que estavam bem integradas na ordem social
do Antigo Regime (nobres como Montesquieu e Holbach, burgueses bem inseridos nos espaços aristocráticos como Voltaire, Diderot, D‟Alembert), inclusive abades (como Claude-Yvon, Pestré e Prades), todos eles sem quaisquer motivos para pretender uma revolução.
221 Esse poder de nomeação havia sido concedido por uma concordata assinada entre Francisco I e o Papa em
59 famílias aristocráticas mais próximas. 222 Os bispos do século XVIII provinham quase que exclusivamente da antiga nobreza e, por meio deles, o Rei podia também controlar o modo de vida e a atividade por vezes inquietante do baixo clero e do clero regular.223
A Igreja na França do Antigo Regime é uma Igreja controlada por grandes senhores. O clero gozava de uma série de privilégios tributários, jurídicos e judiciais. Sociedade “quase democrática”224 nos seus princípios, a Igreja do século XVIII era hierarquizada como o Império e feudalizada como quase toda a Europa. Seculares, e mesmo regulares, estavam totalmente integrados nas hierarquias complexas de suserania e vassalagem, de senhorios, feudos e justiças. Riqueza, poder, força jurídica, moral e material faziam parte da essência do sagrado.225
O arcebispo que condenou o Émile era grande senhor. No Mandement, ele se apresenta como “duque de Saint Cloud, Par da França, Comendador da Ordem do Espírito Santo e Provedor da Sorbonne.”226 Rousseau se refere a ele como “homem incapaz de dobrar-se diante de qualquer poder”.
É parte dessa Igreja aristocratizada que se porá em embate com as correntes ilustradas, sobretudo a materialista. Rousseau oferece-nos uma ideia da tensão: “talvez não faltassem, a um nem a outro [partido], chefes turbulentos que tivessem crédito, para degenerar em guerra civil; e sabe Deus o que teria produzido uma guerra civil religiosa, em que a intolerância mais cruel era a base de ambos os partidos.”227
Oposto àquilo que ele mesmo chama de “espírito de partido”, Rousseau procura não se alinhar às facções em disputa. Acreditando que o partidarismo leva necessariamente à intolerância, reivindica uma postura independente, negando-se a ser ateu ou devoto por princípio. Vê nas duas concepções tão-só modos distintos de fanatismo.
1977. Volume II: “Les Pouvoirs”, p.169.O direito de nomear os bispos garantia também ao Rei a possibilidade de dispor das rendas da Igreja, oferecendo dotes para as pessoas e as famílias que ele queria favorecer. Isso permitia grossas rendas a famílias aristocráticas inteiras como os Rohan, os Rochefoucauld, os d‟Estrées, os Montesquiou, os Bouillé, os Chabannes e os Vintimille, por meio dos recursos destinados às abadias ou aos bispados controlados por essas famílias. Ibidem, p.171.
222 Ajudado por seu “conselho de consciência”, o Rei instala no seio da Igreja os seus parentes, os irmãos e filhos
de seus ministros (os Le Tellier, os Colbert), a grande nobreza de toga e a antiqüíssima nobreza (4 Castellane, 3 La Rochefaoucauld, 2 Rohan e 2 Talleyrand sob Luís XVI). Dados retirados de GOUBERT, Pierre, op. cit., p.170.
223 Ibidem.
224 A expressão é de Pierre Goubert.
225Em pleno século XVII ainda, quase todos os grandes senhores de Paris „pretendendo justiça e feudo‟ eram da
Igreja (22 em 25 segundo Claude Malingre, 1640). Entre um quarto e a metade dos senhores rurais da França do Norte também o eram. GOUBERT, Pierre, op. cit., p.165.
226 « Carta Pastoral... » In: ROUSSEAU, Jean-Jacques. Carta a Christophe de Beaumont..., op. cit., p.219. 227 As Confissões..., op. cit., p.395.
60 Masa postura independente não significa omissão no debate. Rousseau pretende dizer a ambos “verdades duras que não tinham querido ouvir.”228 Imagina, então, um expediente que à época ele achou admirável, mas numa visão retrospectiva qualificou de “projeto um tanto insensato”: “era adoçar-lhes o ódio recíproco destruindo-lhes os preconceitos e mostrar a cada partido o mérito e a virtude do outro, dignos da estima pública e do respeito de todos os mortais.”229 Rousseau pretendia romântica e ingenuamente conciliar os partidos.
La Nouvelle Héloïse é fruto desse projeto; pretende ser uma resposta sensata a esse
contexto de disputa e intolerância. O mesmo se diga do Émile e da Profession de foi. Rousseau declara nas Confessions que a Profissão de fé de Héloïse em Julie é a mesma do vigário saboiano.230
Rousseau começa a redigir o Émile em 1759 e o publica em 1762. Conta que começou a escrevê-lo após o término de La Nouvelle Héloïse231, e esta foi concluída no verão de 1759.232 É com o Émile e a Profession do vigário que Rousseau pretende acalmar os ânimos exaltados, e o faz cuidando daquilo que é o tema central das disputas: a religião cristã.
A intenção do projeto não é filosófica. Na carta dirigida ao bispo de Paris, Rousseau afirma que sua intenção com a Profession é “chamar o público de volta à verdadeira fé que ele olvida.”233 A “fé esquecida” é, naturalmente, o cristianismo. A despeito dos clamores contrários, Rousseau considera a Profession como “o melhor e mais útil escrito no século em que foi publicado.”
Nem as fogueiras nem as ordens de prisão me farão mudar minha linguagem; os teólogos, ordenando-me a ser humilde, não me tornarão falso, e os filósofos, acusando-me de hipocrisia, não me farão professar a incredulidade. Proclamarei minha religião, porque tenho uma, e a proclamarei abertamente, porque tenho a coragem de fazê-lo e porque seria desejável, para o bem dos homens, que essa fosse a religião do gênero humano.234
Destinada aos filósofos e aos teólogos, a profissão é também a religião que Rousseau quer proclamar abertamente. Ou melhor, o cristianismo que, “para o bem dos homens”, deveria ser “a religião do gênero humano.”
228 As Confissões..., op. cit., p.395. 229 Ibidem.
230 O resultado foi que Rousseau não conseguiu efetivar seu projeto conciliatório e ambos os partidos se voltaram
contra ele. As Confissões..., op. cit., p.369.
231 As Confissões..., op. cit., p.468. 232 Ibidem, p.456.
233 « Carta a Christophe de Beaumont.» In : ROUSSEAU, Jean-Jacques. Carta a Beaumont..., op. cit., p.94. 234 Ibidem, p.71-72.
61 O texto é composto de duas partes, sendo que um dos objetivos da primeira é “combater o moderno materialismo.”235 Ao iniciar seu relato introdutório à Profession mostrando a sua visão inicialmente negativa a respeito da religião, Rousseau pretendia atingir os grupos refratários ao cristianismo. Acreditava que, assim como ele, se o seu público fizesse “a experiência do vigário” certamente mudaria de opinião.
A figura do vigário exerce no texto uma função pedagógica, que é a de mostrar aos ateus e aos devotos fanáticos o que é o verdadeiro cristianismo. O vigário saboiano é o porta- voz da boa religião. A expectativa de Rousseau é que sua figura quebre os enganos e os preconceitos quanto ao polêmico tema.
1.4. “Os novos princípios”
À época da redação do Émile e da Profession, Rousseau já era um homem ligado ao mundo das letras. Suas relações com os philosophes e letrados, segundo as Confessions, iniciaram-se quando de sua estadia em Paris. Ele mesmo diz que já em 1742 conheceu “o que havia em Paris de mais distinto em literatura”; e mais tarde: “reforcei tais relações desde que me vi subitamente inscrito entre os literatos.”236 Jean-Jacques travou especialmente relações com Diderot237 e o barão de Holbach. Chegou inclusive a frequentar a casa do barão no início da década de 1750: “nosso principal ponto de reunião, antes que Grimm se ligasse com madame d‟Épinay, como aconteceu depois, era a casa do barão de Holbach.”238 Rousseau descreve o barão como
filho dum aventureiro, que possuía grande fortuna, sabendo usá-la com nobreza, recebendo em sua casa ilustres homens de letras e, por seu saber e seus conhecimentos, destacava-se no meio deles. Há muito relacionado com Diderot, havia me procurado por intermédio deste último, antes mesmo de meu nome ser conhecido.239
Na casa do barão, jovens oriundos das províncias e recém-chegados a Paris conversavam livremente sobre tudo: arte, poesia, filosofia, amor, sentimento, imortalidade,
235 « Cart'a a Christophe de Beaumont .» In : ROUSSEAU, Jean-Jacques. Carta a Beaumont..., op. cit., p.94. 236 As Confissões...¸op. cit., p.258. Rousseau conheceu nessa época, além de Condillac, Helvetius, Touissant e o
abade Raynal. MASSON, P.-M. La religion de Jean-Jacques Rousseau..., op. cit., I, p.140.
237“Diderot [...] era quase de minha idade. Adorava a música e conhecia teoria; conversávamos: falava-me
também de seus projetos de trabalho. Isso fez com que se formasse em breve uma ligação mais íntima, que durou quinze anos e que ainda duraria se, infelizmente, e bem por sua culpa, eu não me tivesse entregue a trabalho semelhante ao dele.” As Confissões..., op. cit., p.259.
238 Ibidem, p.337. 239 Ibidem.
62 homens, deuses e reis, espaço e tempo, a morte e a vida.240 A residência foi a oficina produtiva de algumas das notáveis profissões de fé filosóficas, como Christianisme dévoilé e o Système de la nature, ambos escritos pelo barão. Embora jovens, os filósofos e homens de letras que ali frequentavam já cultivavam uma filosofia agressiva, que maldizia os padres, devotos, as superstições e mesmo as religiões, pondo toda a esperança no “reino da natureza” e na “razão”.241
Jean-Jacques teve uma admiração inicial por esses jovens escritores. Em certo momento, todavia, suas relações com os letrados começam a esfriar. Rousseau afirma nas
Confessions que alguns de seus amigos começaram a cultivar invejas secretas em relação a
ele, devido ao sucesso de sua peça Devin du village, encenada em Paris e assistida pelo próprio Luís XV.242 Após assistir à peça, o Rei ficou tão entusiasmado que pretendeu dar-lhe uma pensão. Na mesma noite da apresentação,
o senhor duque d‟Aumont mandou dizer-me que fosse ao castelo no dia seguinte, às onze horas, pois apresentar-me-ia ao rei. M. de Cury, que me deu o recado, acrescentou que achava que se tratava duma pensão e que o rei queria conceder-ma pessoalmente.243
Mas, segundo Jean-Jacques, sua timidez o impediu de comparecer ao castelo no dia seguinte. Só a imaginação de estar diante de Sua Majestade o intimidava:
imaginava-me diante do rei, apresentado a sua majestade, que se dignava parar e dirigir-me a palavra. Era aí que seriam precisos exatidão e presença de espírito para responder. Minha maldita timidez, que me perturba diante do menor desconhecido, deixar-me-ia diante do rei de França, ou permitir-me-ia escolher bem e no momento exato o que deveria dizer? [...] O que seria de mim naquele momento, sob os olhos de toda a corte, se escapasse em minha perturbação algumas de minhas asneiras habituais?244
Diante do impasse e da aflição provocada pela situação, Rousseau acaba desistindo do encontro e da pensão que conseguiria.245 Porém, via na situação um aspecto positivo, que era o da manutenção de sua independência e liberdade. A recusa da pensão isentava-o
do jugo que ela me teria imposto. Adeus, verdade, liberdade, coragem. Como, dali por diante, falar de independência e de desinteresse? Teria que
240 MASSON, P.-M. La religion de Jean-Jacques Rousseau, I, op. cit., p.141. Masson retira essas referências de
uma carta de Diderot a Mlle. Volland, de 10 de maio de 1759.
241 Ibidem, p.141-142.
242 As Confissões..., op. cit., p.343. “Depois do sucesso de minha peça não mais observei em Grimm, nem em
Diderot, nem em quase todos os outros homens de letras de minhas relações, aquela cordialidade, aquela franqueza, aquele prazer de me ver que eu tinha julgado encontrar neles até então. Assim que eu surgia na casa do barão, a conversa deixava de ser geral. Formavam-se grupinhos, falavam segredos e eu ficava sozinho, sem ter com quem conversar.” Ibidem, p.351.
243 Ibidem, p.344. 244 Ibidem, p.345. 245 Ibidem.
63 lisonjear ou calar-me ao receber aquela pensão: e ainda, quem me asseguraria que ela seria paga?246
Recusando a pensão, ao contrário, “tomaria uma decisão mais de acordo com os meus princípios e sacrificaria a aparência à realidade.”247Ao longo de todas as suas Confessions, Jean-Jacques mostra-se um homem com desejo de independência; de acordo com ele, seu gênio jamais suportou o menor jugo; desde a infância mostrou-se uma personalidade refratária a convenções sociais, e o menor esforço sempre o incomodava. Em várias passagens do texto, manifesta seu embaraço e timidez diante de situações que o expunham ao olhar alheio, e tinha dificuldades de adaptação às regras então postas de convivência, principalmente nos ambientes da alta sociedade. Nisso ele não via tanto um mérito, quanto um dado de sua personalidade.248
Rousseau nos diz que a recusa da pensão régia o colocaria mais de acordo com “seus princípios.” Mas que princípios são estes que o motivam a recusar uma pensão? A história dos “princípios” está ligada a outra, a da famosa “iluminação de Vincennes”. O episódio é bem conhecido. Após a publicação da Lettre sur les aveugles, Diderot foi preso e mandado para a torre de Vincennes. Rousseau ia visitá-lo com regularidade. Numa de suas visitas, em 1749, no caminho de Paris a Vincennes, Rousseau abriu a edição do Mercure de France que trazia consigo e ali se deparou com a questão proposta pela Academia de Dijon: “se o progresso das ciências e das artes tinha contribuído para corromper ou para apurar os costumes.”
Rousseau relata o estado em que ficou após a leitura da questão: “assim que fiz a leitura, divisei um outro universo e tornei-me outro homem.”249Na segunda Lettre a
Malesherbes, Rousseau descreve a situação com mais detalhes:
De repente, senti meu espírito iluminado por mil luzes; uma multidão de ideias vívidas apresentou-se ao mesmo tempo com uma força e uma confusão que me lançou em inexprimível desordem.[...] Uma violenta palpitação me oprimiu, ergueu-me o peito; não mais podendo respirar e andar, deixei-me cair sob uma das árvores da avenida e lá fiquei uma meia hora [...].250
Jean-Jacques relata o episódio como uma “súbita iluminação”. A ideia certamente causa alguma perplexidade ao historiador. Se ele não pode aceitar o acontecimento como um
246 ROUSSEAU, Jean-Jacques, As Confissões..., op. cit., p.345. 247 Ibidem.
248 Nas Confessions, após se referir à simplicidade e bondade dos saboianos, diz acerca do trato social: “e o
prazer que então sentia provou-me bem que se não gosto de viver em sociedade é mais por minha culpa do que por culpa dos outros.” As Confissões..., op. cit., p.175.
249 Ibidem, p.316.
64 “milagre” ou algo do domínio do “sobrenatural”, também não pode pura e simplesmente rejeitar o relato. No caso de Rousseau, talvez não devamos tomar a experiência da “iluminação” no sentido místico, embora seja um homem orientado por princípios religiosos, nascido e educado num ambiente e num contexto marcado por referenciais de uma tradição cristã particularmente sensível ao tema da “iluminação”.251
É difícil saber se Rousseau conscientemente procura se inscrever numa tradição milenar de “iluminados” e “iluminações” ou se simplesmente sua intuição foi interpretada sob o prisma religioso. Na primeira hipótese, é igualmente complicado avaliar o nível de sinceridade da experiência. Bernard e Monique Cottret destacam que nenhum dos relatos da “iluminação de Vincennes” é contemporâneo aos eventos relatados.252 Tratam-se, pois, de