Conforme mencionamos anteriormente, na visão sócio-histórica, brincadeira e jogo são termos utilizados para designar o mesmo fenômeno, seu desenvolvimento não é determinado por leis biológicas; ao contrário, depende de múltiplas relações estabelecidas na realidade objetiva.
Segundo Elkonin (1998), nos primórdios da civilização, o que existia era trabalho, como atividade de sobrevivência do grupo, em busca de alimentação, de proteção contra as intempéries e de animais predadores. Adultos e crianças conviviam num mesmo espaço social, dividindo tarefas e afazeres domésticos; diante da necessidade de produzir a sobrevivência, não existia jogo, o que prevalecia eram as atividades atreladas ao trabalho produtivo. Segundo o referencial histórico-cultural, a base da cultura humana é o trabalho. O jogo só veio a desenvolver-se posteriormente, com as primeiras formas de industrialização.
Segundo o autor, a atuação do homem sobre a natureza para permitir a sobrevivência da espécie e atender às suas necessidades básicas fez com que ele desenvolvesse técnicas, utensílios e instrumentos de trabalho cada vez mais complexos e sofisticados, o que gerou a produção de excedentes, ultrapassando as necessidades do grupo. Com isso, as crianças se distanciaram das atividades produtivas de subsistência dos adultos, por falta de habilidades para manipular estes instrumentos. Em contrapartida, os adultos criam instrumentos adaptados e reduzidos no sentido de ensinar as crianças a manipular estes objetos. Pelo fato de as crianças ficarem isoladas e em alguns momentos livres em suas atividades, elas desenvolveram formas lúdicas de atividades com estes instrumentos, uma maneira de reaproximarem da vida do adulto, uma vez que, não podiam fazê-lo na vida cotidiana. O objeto acaba tendo duas naturezas, uma como representante na vida cotidiana e outra como objeto dentro de uma situação lúdica (brinquedo). Segundo Elkonin (1998), as atividades lúdicas têm origem e desenvolvimento históricos e estão atreladas, principalmente, às atividades dos adultos, diante das mudanças das condições sociais mais concretas e do lugar que a criança ocupa na sociedade em determinado momento.
104 A brincadeira do bebê origina-se e desenvolve-se de acordo com as condições de vida e das relações sociais estabelecidas entre adulto-criança. Segundo Elkonin (1998), a brincadeira não provém de mecanismos biológicos; mesmo que no início as ações entre bebê- objeto sejam por instinto e pelo simples prazer funcional de repetição do exercício, esta relação pode se converter em brincadeira situada historicamente e constituída socialmente na relação estabelecida entre bebê-objeto-adulto.
A brincadeira do bebê é intencional, orientada e regulada pelos motivos e necessidades, assim como pelas emoções que a constituem como seus aspectos fundamentais. Assim, o bebê, por meio da relação que estabelece com o adulto-brinquedo, age em função de produzir os meios para atender suas necessidades.
Logo após o nascimento, a criança tem uma relação afetiva com quem cuida dela. O adulto que cuida dela é quem lhe garante a sobrevivência, quem satisfaz suas necessidades primárias, mas essa necessidade, que a princípio a criança tem, embora seja primária, já vem carregada de necessidades sociais. A partir desses contatos, a criança desenvolve a necessidade de comunicação e pronuncia as primeiras palavras.
Posteriormente, o adulto vai ensinando a criança como manipular os objetos, sendo este o fator que determina suas ações. Entretanto, conforme mencionado, são os motivos e necessidades sociais que impulsionam suas ações com os objetos, movidas pela relação criança-objeto-social. Portanto, mesmo que, no inicio, a atividade principal da criança esteja atrelada à comunicação afetiva e, posteriormente, à manipulação dos objetos, estas atividades são sempre mediadas pelas relações com os adultos.
Segundo Elkonin (1998), no momento em que a criança sente a necessidade de substituir um objeto por outro, inicia-se o principio da ação lúdica, e isso só ocorre ao observar as ações dos adultos com determinados objetos. Da mesma forma ocorre o papel lúdico, quando a criança assume um papel dentro da brincadeira a partir do que observa das ações dos adultos. Ou seja, apesar de a brincadeira de papéis ser a primeira atividade com situação imaginária, é possível afirmar que as atividades que envolvem comunicação afetiva com o adulto e manipulação de objetos contêm, de alguma forma, elementos da atividade lúdica futura (situação imaginária presente nos jogos de papéis); portanto, já são sociais.
A brincadeira de papéis é característica do período em que a criança já desenvolveu a linguagem, momento em que ela tem necessidade de comunicar-se, de relacionar-se com o mundo mais amplo dos adultos, de agir sobre ele, para poder dominá-lo/apreendê-lo.
Todo este processo cria novas necessidades e consequentemente novas atividades, como é o caso do período em que a criança ingressa na escola, quando seus motivos e sua
105 atividade principal mudam da brincadeira para o estudo sistemático, denominada por Elkonin (1998) de Atividade de estudo. Nesse período a criança se vê motivada a ir para a escola e realizar atividades tidas como socialmente importantes e sérias, que serão valorizadas pelo mundo do adulto. No entanto, a brincadeira não deixa de existir, nem, contudo, deixa de ser importante no desenvolvimento do psiquismo. Brinca por outros motivos e necessidades, assim como incorpora novos conteúdos e significados, tornando as experiências mais ricas e elaboradas.
No período escolar, predominam os jogos do tipo atlético e os jogos em grupos, em que as relações sociais são a base para as regras. Já, na adolescência, a atividade principal passa a ser o trabalho produtivo e a brincadeira passa a receber novas configurações e novos conteúdos. Todo esse processo de desenvolvimento é determinado pelas condições históricas, sociais e culturais que afetam o modo como a atividade é desenvolvida.