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A história do desenvolvimento da Psicologia como ciência apresenta certo obstáculo ao leitor interessado, tendo em vista a grande quantidade de informação proveniente das peculiaridades do campo, dentre elas a multiplicidade de enfoques e abordagens. A amplitude de modelos e sistemas psicológicos assume pelo menos duas posturas distintas na história da Psicologia.

A primeira exige um esforço enciclopédico por parte dos historiadores da Psicologia, posto que estas publicações priorizam sinalizar o seguimento de ideias e soluções filosóficas que contribuíram para a construção dos múltiplos projetos e sistemas em Psicologia, sendo, portanto, necessário falar do desenvolvimento das ideias de cada um em específico. Podemos citar como exemplos as obras: História da Psicologia Moderna – C. James Goodwin; História da Psicologia Moderna – Duane P. Schultz e Sydney Ellen Schultz; Sistemas e teorias em Psicologia - Melvin H. Marx e William A. Hillix.

A segunda assume a diversidade desses sistemas e do aparecimento dessas ideias, muitas contraditórias, como um efeito de conjunto sociocultural que constitui o projeto de Psicologia como ciência independente. Citamos como exemplo as obras: Psicologia, uma (nova) introdução crítica; Matrizes do pensamento psicológico; e A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500 – 1900), todas de Luiz Cláudio Figueiredo.

Daremos prioridade à segunda opção, que nos é mais interessante, pois desejamos neste tópico abordar a Psicologia em seu aparecimento, contemplando seu conjunto diverso e

entendendo seu aparecimento variado. Iniciaremos falando que o saber psicológico apresenta um grande ponto em crise, que atinge temporalidades distintas, mas está intimamente ligado ao desenvolvimento de seu estatuto enquanto ciência independente.

Em um primeiro momento, no que diz respeito ao seu estágio pré-científico, os temas da Psicologia estavam dispersos entre muitos saberes, podendo ser visualizados nos grandes sistemas filosóficos, que abordavam noções e conceitos relacionados a campos que hoje são reconhecidamente da Psicologia dita científica, passando pelas ciências físicas e da natureza, até as ciências sociais. Dessa forma, não restaria um espaço para a Psicologia científica (FIGUEIREDO; SANTI, 2007).

Em um segundo momento, após seu estabelecimento como ciência independente, apresenta a ambiguidade da posição do seu objeto que se manifesta e pode ser observado através do desenvolvimento de duas matrizes específicas. Uma relacionada ao cientificismo, na qual a particularidade do objeto tende a ser desconhecida, operando práticas semelhantes às executadas pelas ciências naturais e, assim, aproximando-se solidamente de disciplinas como a Biologia, ocasionando a perda da definição de seus contornos que a tornam independente. E outra vinculada ao Romantismo e Pós-Romantismo, que reconhece a particularidade da condição do objeto estabelecendo uma separação das demais ciências, entretanto, arriscando seu estatuto científico a fim de afirmar novos modelos de legitimação (FIGUEIREDO, 2008).

Essas duas etapas do pensamento psicológico mostram a dificuldade na delimitação de um espaço independente para a Psicologia. Sua separação dos demais conhecimentos ou seu estatuto científico ficam em questão. Porém, para que se chegue ao interesse do desenvolvimento de uma Psicologia científica são necessárias três condições.

A primeira é de que a ciência seja o meio para se conhecer, a segunda a experiência de uma subjetividade privatizada e em seguida uma crise dessa subjetividade privada. Tais condições só se fazem possíveis em uma sociedade com determinadas características que possibilitam, por exemplo, a experiência de sentimentos e emoções particulares e da capacidade de tomada de decisões individuais. Os estudos históricos apontam que em sociedades que passam por momentos de crise em sua tradição cultural – valores, normas e costumes –, os homens assumem posições mais individuais, pois são levados a tomar decisões que não encontram subsídios nos hábitos costumeiros da cultura em que estão inseridos. Diante disso, então, os sujeitos não podem mais se projetar nas referências sociais e coletivas, possibilitando a criação de referências internas – experiência da subjetividade privatizada (FIGUEIREDO; SANTI, 2007).

A conjuntura formada pela retomada dos valores renascentistas, falência do mundo medieval, a redução da influência da religião e o desenvolvimento dos discursos de suspeita, como já apresentados antes, contribuem fundamentalmente para o aparecimento de um projeto científico da Psicologia. Para Figueiredo e Santi (2007), outro fator fundamental diz respeito ao surgimento da imprensa que, através da oportunidade da leitura particular, construiu espaços decisivos para a diferenciação entre comunidade e indivíduo. A partir do impacto dessas experiências sociais, o homem perdeu seu sentimento de ligação com uma ordem superior, passando o mundo a ocupar um lugar cada vez menos sacralizado, o que promoveu uma maior sensação de liberdade para atuar sobre ele, mas o tornou inseguro.

Os aspectos de conjunto dessas modificações sociais consolidam, em um primeiro momento, a noção da existência de uma subjetividade privatizada, porém, apontam também, em um momento posterior, para a crise dessa subjetividade. Os discursos de suspeição em Descartes e Bacon vão cada vez mais se refinando e continuamente encontrando problemas para o conhecimento a partir do aprofundamento das qualidades da razão e da experiência sensível.

Tanto razão como sensação, qualidades humanas utilizadas como possibilidades de acesso ao conhecimento, são colocadas em questão. A elaboração do pensamento é posta sob suspeita tal qual a experiência sensorial das relações que se estabelecem. Dessa forma, corroboramos a ideia de Figueiredo (2008) de que o sujeito passa a ser concebido como fator de erro e ilusão. A subjetividade é tomada como um problema à apreensão lógica dos fatos objetivos, tendo essa época como caráter central os ataques ao sujeito do conhecimento na tentativa de destituir os elementos que pudessem atrapalhar o acesso ao conhecimento preciso. O desenvolvimento de uma ciência do subjetivo, portanto, vincula-se intimamente a métodos e epistemes13 que se dirigem ao privado, ao particular, ao subjetivo para fiscalizá- lo, controlá-lo e corrigi-lo, entendendo que sua natureza é contrária às aspirações do conhecimento científico. A Psicologia nasce, então, por uma história estreitamente ligada ao ideal de progresso científico e como instrumento de controle, operando uma garantia de rigor às ciências pela retirada das interferências do subjetivo na tentativa de fundamentação de outras ciências (FIGUEIREDO, 2008).

Dito isso, se a subjetividade é contrária às próprias condições do conhecimento científico, como pode ela mesma tornar-se objeto de estudo aplicado aos mesmos métodos de

13 O desenvolvimento do conceito de Episteme encontra-se na obra As Palavras e As Coisas (FOUCAULT, 2000).

construção do conhecimento objetivo? A natureza subjetiva não teria um caráter arredio e por isso mesma precisaria ser retirada de cena? Desse conflito sobre a Psicologia resta um paradoxo explicitado pela boa análise de Figueiredo (2008, p. 22):

[...] a ciência psicológica tenta-se constituir, sendo obrigada a, simultaneamente, reconhecer e desconhecer seu objeto. Se não o reconhece não se legitima como ciência independente, podendo ser anexada à medicina, à pedagogia e à administração, ou seja, as técnicas ou às suas bases teóricas, como a biologia e a micro-sociologia. Se não o desconhece não se legitima como ciência, já que não se submete aos requisitos da metodologia científica nem resulta na formulação de leis gerais com caráter preditivo. [...] As divergências parecem, antes, refletir as contradições do próprio projeto que, por sua vez, enraízam-se na ambiguidade da posição do sujeito e do indivíduo na cultura ocidental contemporânea.

Essa condição da própria história da Psicologia torna difícil precisar quando a família se transforma em objeto de interesse para esse campo de saber, a não ser que tomássemos uma de suas matrizes como plano de análise independente. Entretanto, se analisarmos a disciplina psicológica em seu efeito de conjunto, encontraremos um crivo de inteligibilidade possível a partir das pistas dadas por Figueiredo em suas análises da Psicologia como ciência independente.

Os estudos e interesses da Psicologia pela família também apresentam caráter ambíguo e disperso. Essas investigações apresentam-se ou vinculadas a outras áreas do campo científico como a Sociologia, a Biologia e a História, ou dizem respeito a projetos individuais presentes em matrizes de pensamento psicológico distintas. Podemos citar como exemplos a Psicanálise, o Comportamentalismo e a Teoria Sistêmica