5. Mål og forutsetninger for Telemark Museum
5.1 Mål for Telemark Museum
Nos discursos, foram trazidos diferentes espaços de atendimento clínico, como consultório privado e instituições governamentais (postos de saúde, serviços ambulatoriais) e não-governamentais (instituição que trabalha com vítimas de violência). Surgiram, também, nas entrevistas, experiências e reflexões relacionadas a outros contextos de atuação profissional, como a sala de aula, o acompanhamento terapêutico e a área de psicologia do trabalho, que não serão abordados aqui. Restringir-nos-emos, nesse espaço, a realizar apontamentos para futuras pesquisas sobre atendimento clínico, focando a amplitude e multiplicidade das noções de psicoterapia.
No que se refere às instituições governamentais e não-governamentais, apesar de o papel do psicólogo não se restringir à atuação clínica, ele exerce também essa atuação, tal como relatado na entrevista:
[...] embora eu trabalhe numa instituição, num programa de cunho mais social a gente tem esse atendimento individual que tem esse olhar clínico, essa prática clínica, mas que não pode se restringir a ele. A gente trabalha numa equipe multidisciplinar então a gente não pode se restringir apenas ao atendimento clínico. Mas existe esse espaço lá de fazer esse trabalho (Psicoterapeuta 4).
A emergência dessa discussão nos levou a refletir sobre a pluralidade de psicoterapias possíveis, além da ampliação da noção de prática clínica, já reconhecida e estudada por autores contemporâneos (DUTRA, 2004; MOREIRA; ROMAGNOLI; NEVES, 2007) e, atrelado a isso, da alteração da concepção de psicoterapia.
Uma das entrevistadas nos trouxe novas formas de conceber a psicoterapia a partir da influência de sua experiência em plantão psicológico, apesar de diferenças no que se refere ao foco da psicoterapia onde ocorrem mudanças mais profundas da personalidade. Acerca da aproximação entre a psicoterapia e essa outra modalidade de atendimento clínico, ela afirma:
Eu defendo a ideia de que a psicoterapia não tem diferença, por exemplo, de uma escuta do plantão psicológico, com começo, meio e fim. Eu não tenho garantia de que o cliente vá voltar na próxima sessão. Eu não faço um trabalho programado, embora tenha perspectiva diferente que os atendimentos, eles provocam uma reorganização da personalidade diferente do plantão psicológico, tá claro pra mim. A questão é que mesmo que tenha mudança da personalidade, eu tenho que tá aberto numa questão, não é a continuação da outra. Se eu não fiz uma intervenção sobre algo que o meu cliente tava dizendo numa sessão, eu não fiz e só vou ter a oportunidade de fazer quando ele trouxer aquela questão novamente. Eu sempre trabalho com o que é importante pra hoje, não que eu não possa fazer pontuações que às vezes passam por questões anteriores, coisas do tipo: “Parece me fazer sentido mais quando você abordava isso, isso... Você consegue se localizar? Ver dessa forma?” ou alguma coisa assim nesse sentido, mas não é uma obrigação, nem deve ser um dever você ficar resgatando a sessão anterior e quando a gente faz isso, a gente se abre pro inusitado acontecer, eu não tô programada [...] (Psicoterapeuta 5).
Para a Psicoterapeuta 5, cada sessão de atendimento psicoterapêutico é única e não possui a garantia de um próximo atendimento, precisando ter claramente um começo, meio e fim, além de uma atuação perspicaz do terapeuta focando o momento atual e evitando ficar preso a sessões anteriores. Isso permite, por exemplo, extrapolar o limite convencionado de cinquenta minutos numa sessão, como ela nos relata:
Essa questão [a angústia do cliente diante do resultado do exame de HIV] foi uma sessão, extrapolou o horário que a gente convencionaliza, que é 50 minutos, sei lá, foi uma sessão, pela necessidade dele, de uma hora e quinze, uma hora e vinte, mais ou menos, e eu estive com ele nesse medo, nesse pavor... Acho que é isso, é estar aberto pra isso, não é: “Então, vamos agora falar sobre isso que deixamos na semana passada”, isso em terapia centrada não deve existir (Psicoterapeuta 5).
Neste sentido, passar por experiências em diferentes práticas clínicas, por exemplo, o plantão psicológico, tal como foi o caso da entrevistada, permite que o profissional construa uma dimensão diferenciada acerca da sua atuação clínica, reverberando mudanças na concepção de psicoterapia. Mas que dimensões diferenciadas seriam essas? E que reformulações a psicoterapia vem atualmente sofrendo a partir de experiências como a clínica em instituições, plantões psicológicos e atendimentos multidisciplinares, com a adoção da noção de clínica ampliada? Cury (1999), por exemplo, ilustra os ganhos da formação de estagiários-plantonistas (estudantes que estagiavam no plantão psicológico). Para ela, o estagiário
[...] desenvolve uma compreensão mais abrangente da comunidade, amplia sua capacidade diagnóstica pela diversidade de casos atendidos num espaço de tempo relativamente curto, e aprende a estabelecer um contato emocional com os clientes a partir de uma escuta empática que precisa ocorrer de imediato. Também vivencia um processo de amadurecimento profissional que confere maior autonomia a sua prática clínica (CURY, 1999, p.128-129).
A multiplicidade de formatos e concepções de práticas clínicas no campo de trabalho do psicólogo se deu mediante a maior inserção desse profissional na saúde pública (CURY, 1993; DUTRA, 2004). Então, vem-se delineando uma nova concepção de clínica, aquém da psicoterapia, mas que acarreta, também, modificações teóricas e práticas no setting terapêutico. Essa outra psicoterapeuta realizou atendimento em espaços diferenciados, saindo da sala do consultório, a partir das necessidades específicas da relação estabelecida com aquele cliente:
[...] para atendê-lo, eu precisava tomar alguns cuidados. Por exemplo, ele não queria e eu não queria o seu telefone nem o endereço dele porque ele estava sendo procurado. Nós não podíamos ter dia fixo, então eu tinha que aguardar ele me telefonar para saber quando era possível, dentro das minhas possibilidades. Eu dei mais ou menos os meus horários possíveis e assim combinamos. Nessa época, a instituição onde eu atendia [...] era em frente a uma igreja que eventualmente poderia ser... A segunda sessão eu atendi na igreja como se estivéssemos rezando, ajoelhados e atendendo [...]. Mas essa eu tentei a alternativa da igreja, do banco da praça, algumas alternativas (Psicoterapeuta 3).
Mais preocupado com a contextualização social do cliente, mais flexível diante das necessidades singulares dos atendimentos, seja em relação ao local de atendimento, seja à duração da sessão, a psicologia clínica vem passando por mudanças, incluindo aspectos de formação e, consequentemente, de atuação profissional. Parece-nos que aí emerge um profissional mais voltado para as vicissitudes dos clientes, mais aberto ao acolhimento das necessidades singulares, aproximando-se da noção de responsabilidade levinasiana, de ter-ser- pelo-e-para-o-outro, tendo-se como Outro o cliente. Outra compreensão de psicoterapia que surgiu nos discursos, e que se difere da noção trazida pela Psicoterapeuta 2, sendo mais tradicional, é a concepção de uma psicoterapia processual, com foco no diálogo terapêutico, estabelecido gradativamente ao longo dos atendimentos.
Apareceram, também, outras divergências sobre a noção de psicoterapia, como uma maior ou menor implicação do terapeuta nas sessões, tendo o foco mais voltado para a relação, com maior expressividade do terapeuta, ou mais direcionado ao cliente, em que o terapeuta coloca-se de forma pessoal o mínimo possível na relação. A respeito dessa divergência, a entrevistada comenta a partir de seu ponto de vista mais relacional:
As pessoas confundem esse centrado na pessoa do cliente como sendo algo que você tem que ir só pelo percurso dele [...] ali vale no momento da relação que a gente tá caminhando junto. Se eu tô contigo numa estrada e estamos caminhando juntos, a gente pode negociar, de repente eu posso dizer: “Ô Silvia...”, Silvia só tá vendo aquela direção, mas eu também tô percebendo outra, então: “Silvia, o quê que tu acha da gente ir por aqui?”. Se ela disser não de todo jeito a gente não vai não, mas se ela pensar na possibilidade, a gente vai e depois a gente volta, mas eu não fico nessa coisa de caminhar só no discurso dele [do cliente]. Eu caminho no discurso que vai surgir no momento em que eu estou com ele (Psicoterapeuta 2). Outra diferença que surgiu entre os terapeutas foi quanto à suficiência das atitudes facilitadoras. Embasadas por sua prática, cada uma, as Psicoterapeutas 2 e 5, chegou a conclusões diferenciadas a respeito dessa questão. Para a Psicoterapeuta 2, essas atitutes não têm aparecido em sua prática como suficientes, haja vista a necessidade de lançar mão de outros recursos a partir de cada caso trazido:
Eu questiono essas coisas, questiono a não suficiência das atitudes, a minha prática tem mostrado, não é suficiente. Elas são necessárias, importantíssimas, ô como são, mas na minha concepção, não são suficientes (Psicoterapeuta 2).
Já a psicoterapeuta 5 trouxe em seu discurso a experiência na qual teve de aplicar uma técnica de relaxamento numa cliente que era muito ansiosa. Ao fazer isso, a cliente dormiu todo o horário do atendimento e ela, refletindo, percebeu que o uso da técnica havia partido de uma necessidade sua de cessar a ansiedade da cliente, sendo desnecessária por impossibilitar a relação de acontecer:
Eu acho que eu tive, talvez, nesse momento, a necessidade de experienciar se era ou não facilitador, se as atitudes eram necessárias e suficientes ou se só necessárias, mas não suficientes. E essa experiência foi muito legal pra mim [de aplicar uma técnica de relaxamento na cliente], do inusitado, porque ela dormiu e que bom que ela dormiu, que eu pude fazer essas reflexões. E a partir desse momento começa a fazer todo o sentido pra mim, enquanto terapeuta, as atitudes necessárias e suficientes. Eu me dei conta de que eu não precisava de nada mais, assim, essa técnica que eu levei como um algo a mais pra essa relação, quer dizer, eu impossibilitei uma relação de acontecer, mas isso foi legal, foi inusitado (Psicoterapeuta 5).
Essas diferenças nos remetem a uma multiplicidade de compreensões e, consequentemente, de práticas em psicoterapia, quer esta se dê num consultório privado ou em instituições outras, e ainda que compartilhem de uma mesma Abordagem. É necessário que essas diferenças sejam escutadas eticamente, no sentido, de serem reconhecidas e aprofundadas.
Desta forma, cabe a nós, nessa pesquisa, mais do que discorrer sobre esse tema apresentando respostas, apontar indagações, rastros que possam acarretar futuros estudos e o desenvolvimento do conhecimento acerca das diversas práticas clínicas existentes no cenário
contemporâneo e reverberações dessa multiplicidade na formação profissional do psicólogo clínico.