A sociedade contemporânea e o modo como ela vêm se estruturando reafirmam, cada vez mais, a importância da criatividade em suas relações, sejam elas econômicas, comunicacionais, educacionais, entre outras. Isso porque se vive, atualmente, a valorização da criatividade como um capital, em que propostas e soluções criativas são apreciadas e requeridas constantemente.
Embora hoje exista clareza sobre o apoio da criatividade para muitas respostas que a sociedade procura, recorrer a estratégias criativas não é tão atual quanto se pode supor. Na verdade, essa atitude acompanha os hábitos e
costumes humanos desde o início dos tempos, visto que o homem primitivo, em sua escala evolutiva, sempre se ancorou em recursos criativos para garantir a própria vida e o melhor modo de vivê-la.
De Masi (2005) realiza um retrospecto da evolução humana sob a ótica de que atitudes criativas favoreceram a sobrevivência e a soberania humana frente às outras espécies animais e também sobre o próprio ambiente físico. O autor destaca que os ancestrais do homem já recorriam ao pensamento criativo como forma de sobrevivência. Com essa tese, apresenta a seus leitores um panorama peculiar da história do homem e da humanidade.
Como o próprio nome afirma, o Homo habilis, demonstrando desenvoltura para o andar ereto, repensou o uso das mãos, que ficaram ociosas, e passou a fabricar utensílios. Evidenciando a capacidade de projetar – planejar – e fabricar, esse ancestral do homem é um demonstrativo da natureza criativa da raça humana, visto que lançou um olhar diferenciado para objetos comuns que já havia a sua volta, percebendo-os e usando-os de modo diferente, a ponto de transformá-los.
Outro aspecto a se destacar, ainda nessa etapa da evolução, é o uso da linguagem, a qual se configurou como o grande salto humano para seus avanços e criações. Acompanha-se, dessa maneira, o início da jornada humana no ato de criar, também, pela palavra. Pelo uso da linguagem, impregnada de sentido e intenções, o homem inaugurou novos modos de se relacionar com seus pares e com o seu entorno.
[...] o Homo habilis começou a falar, adquirindo assim o principal instrumento para transmitir informações aos homens e aos animais, para se comunicar com seus semelhantes, educar a prole, organizar conscientemente a vida coletiva e diferenciar-se, de forma definitiva e numa medida incomensurável, de todos os seus rivais.
Assim, na junção da prática manual com a criação simbólica pela palavra, a raça humana segue seu curso em estado de criação, destacando-se, decisivamente, das demais espécies. Importante perceber a relação criatividade, interesses e necessidades em uma perspectiva pragmática e reflexiva.
Seguindo a perspectiva evolutiva, tem-se mais adiante o Homo erectus, ao qual se atribui, segundo estudos antropológicos e biológicos, a capacidade de melhor articular a vida social e a linguagem. Fatores facilitadores pelo uso de soluções criativas, tais como a utilização sistemática do fogo, a produção de instrumentos para o corte, para a caça, o transporte desta e o uso de pedras para isolar a umidade das cavernas estão entre algumas conquistas e/ou inovações dessa espécie.
Esses são dados que apontam a criatividade como uma estratégia humana antiga, ligada à melhoria e ao aperfeiçoamento, no caso dos homens primitivos, atrelada não só à sobrevivência, mas também à forma de garantir conforto e bem- estar.
O Homo sapiens, por sua vez, inaugura um novo tempo na trajetória humana, no tocante à criatividade, pois, como indica De Masi (2005), o aprendizado e a internalização de práticas sociais demonstram a busca por soluções criativas e facilitadoras do cotidiano.
[...] aprender a curar os doentes, enterrar os mortos, iluminar as noites com lanternas a óleo, aproveitando assim horas de escuridão para a sua vida ativa [...] demonstra que o homem finalmente conseguiu criar a si mesmo. (DE MASI, 2005, p. 40).
Do pronunciamento de De Masi (2005), percebe-se que nas estratégias criativas inventadas, o homem buscou mecanismos que assegurassem seu bem- estar e dessem mais conforto não apenas físico, mas psicológico. E assim, o homem segue seu percurso evolucional, sinalizando que perceber de modo diferenciado algumas situações e/ou objetos (como a pedra para ser burilada, o couro para ser vestimenta, os sons para serem palavras impregnadas de sentido), proporcionou ao próprio homem a sua invenção, a autocriação, revelando que a natureza criativa é inerente ao homem.
Possuindo capacidade de planejar, explorar, comparar, antever, executar e simbolizar, o homem traz, em essência, a capacidade de criar, de inaugurar novos modos de ser e estar no mundo, salientando que sua marca criativa redimensionou sua passagem e permanência no mundo.
A respeito da presença do homem no mundo, percebe-se que fatores ambientais, culturais e genéticos foram fundamentais na formação do sujeito que se tem nos dias atuais. Esses determinantes interferiram, significativamente, nas respostas criativas dos ancestrais humanos. E, assumindo gradativa complexidade morfológica e funcional, o cérebro assume papel de destaque no itinerário evolutivo humano, estando sempre associado, segundo pesquisas, à ampliação da capacidade de inventar, à longevidade e, também, ao progresso.
Acrescente-se, ainda, que essa criatividade não é relacionada apenas às atividades práticas, com fins imediatos, pois a esse antepassado humano é atribuída, também, a criação de “artifícios” facilitadores da própria vida e
apreciados pelo homem até a contemporaneidade, quais sejam: a arte e o além. Invenções proporcionadoras de leveza que atendem a uma necessidade lúdica e estética do ser humano.
E no cenário da evolução humana, no qual a criatividade se destaca por ser o elemento que proporciona avanços nos modos de viver e de perceber a própria vida, tem-se o Homo sapiens sapiens, cuja capacidade de adaptação mais elevada a variantes climáticos e geográficos, a capacidade de imaginar e executar, a necessidade estética, dentre outros empenhos criativos, conceberam o homem de hoje, cuja criatividade artística e científica inauguram, cada vez mais, outras formas de se relacionar com o entorno e com os demais.
Assim, nesse longo período da constituição humana, brevemente descrito aqui, a criatividade demonstra que também foi aperfeiçoada, esmerada, pois se antes, para sobreviver, a fabricação de instrumentos para a caça e proteção eram necessários, atualmente, essa mesma necessidade de sobrevivência perpassa pela criação do simbólico, do autoconhecimento e da valorização do saber acumulado. Dessa forma, fica evidente que o enredamento cerebral humano e os condicionantes culturais e ambientais promoveram a criação da atual sociedade científica, tecnológica e estética, com um potencial criativo seriamente desenvolvido e amadurecido.
E, no desenvolvimento desse potencial, o homem contemporâneo não difere de seu ancestral na exploração constante de alternativas e de respostas que julgue melhores para o bem-viver; assim, repete-se o eterno ciclo do processo criativo: exploração, experimentação, análise/julgamento e realização/criação (OECH, 1998).
No processo de criação, a exploração pode ser compreendida como a procura, a pesquisa e o ato de considerar diversas ideias. A experimentação consiste em manipular e transformar os recursos disponíveis provenientes da exploração, a partir da associação entre ideias. A análise e o julgamento são os critérios pelos quais a ideia será avaliada. Por fim, a realização é a concretização das ideias já julgadas como válidas.
Então, de modo abstrato com aparatos tecnológicos, científicos ou até ficcionais e, também, de modo prático ou até manualmente, o homem contemporâneo persegue o rumo da criação constante como modo de se relacionar no mundo e com o próprio mundo.
Mediante esse caminhar humano, nota-se que a criatividade é um elemento que valorizou, na sociedade, o sentimento do coletivo, no sentido de que foi a partir do saber acumulado de outras gerações e das experiências vividas pelos semelhantes que se puderam gerar legados que serviram de referência para outras criações. Legados e registros de até onde já se foi para que se possa saber/imaginar aonde se quer ir.
Dessa forma, em uma crescente criativa, a sociedade atual foi constituída. Pequenas ideias, constituindo grandes feitos, gestaram o que se tem hoje em termos de modos de viver, pensar, agir e criar. Da fantasia à concretude (DE MASI, 2005), formou-se o presente que hoje se vive e, da mesma forma, serão elaboradas as novas maneiras, ainda vindouras, de perceber a vida, tendo o presente, associado à capacidade de imaginar, como matéria-prima da evolução humana.
E nesse contexto de legados geracionais, uma instituição se forma e ganha força: a escola. O embrião da escola que se tem hoje é percebido com a
criação das oficinas, ateliês para a produção de obras artísticas, nas quais mestres orientavam aprendizes em alguma expressão artística – pintura, escultura, etc. Nesse lugar, a formação era em tempo integral, e cada mestre respondia, geralmente, por um discípulo. Ao aluno era reservada a execução de partes das obras de seus mestres, com o intuito de adquirir e desenvolver habilidade, estilo e o modus operandi necessários à expressão artística almejada. Outro aspecto relevante é que as oficinas foram locus da criatividade, pois nelas se formavam artistas, promoviam-se e concretizavam-se ideias.
Ainda às oficinas é atrelada a criação das academias, de onde se infere o nascimento da noção de escola. Diferente de uma instrução mais individualizada, as academias instituíram a necessidade de um sistema formativo, tanto teórico, quanto prático para a formação de artistas. A partir desse momento, as artes ganham status de atividade intelectual, assim como a matemática e a filosofia.
Tendo surgido no século XVI, as academias inauguram as práticas coletivas da criatividade em lugar privilegiado. E, em meados do século XVIII, quando as dinâmicas coletivas ganham força na sociedade, a escola formal tem seu surgimento, demonstrando que as ideias, inquietações e abstrações são materiais importantes para o ensinamento, e este, todavia, deve ser ministrado em lugar específico: a escola.
Sobre a escola e o modo como é articulado coletivamente o ensino, ver- se-á adiante quando serão abordados aspectos centrais de um ensino que valoriza ambientes coletivos.