O ato de pesquisar em campo educacional contém, implicitamente, a complexidade da ação, pois, como afirmado anteriormente, além de a educação ser um campo do saber favorável à contribuição de diversas áreas da ciência, o
exercício da pesquisa implica a presença de indivíduos envolvidos na própria ação e na situação investigada.
Considera-se, no âmbito deste estudo, a pesquisa como um processo dinâmico, no qual a pluralidade de estratégias se faz pertinente para a compreensão do objeto de estudo.
Ao se pensar em uma orientação metodológica apropriada às particularidades desta pesquisa e ao alcance dos objetivos propostos, a abordagem qualitativa mostrou-se coerente, uma vez que centraliza sua atenção para as singularidades que compõem o objeto de estudo, permitindo maior aproximação do pesquisador com os sujeitos envolvidos e maior conhecimento sobre a temática a ser estudada.
De acordo com Bogdan e Biklen (1994, p. 16), a pesquisa qualitativa pode ser definida da seguinte forma:
[...] como um termo genérico que agrupa diversas estratégias de investigação que partilham determinadas características. Os dados recolhidos são designados por qualitativos, o que significa ricos em pormenores descritivos relativamente a pessoas, locais e conversas [...]. As questões a investigar não se estabelecem mediante a operacionalização de variáveis, sendo, outrossim, formuladas com o objectivo de investigar os fenómenos em toda a sua complexidade e em contexto natural.
Dessa assertiva de Bogdan e Biklen (1994), destacam-se na pesquisa empreendida o agrupamento de estratégias, a possibilidade de investigar em contexto natural e o árduo tratamento dos dados obtidos.
Na pesquisa qualitativa não há preocupação em generalizar informações, pois nela os fenômenos são abordados em sua singularidade. Valoriza a figura do pesquisador como elemento importante na busca pelo entendimento dos
fenômenos e apresenta relevante aspecto descritivo na investigação de como o mundo é experimentado e interpretado (RAMPAZZO, 2002).
Os estudos, na perspectiva qualitativa, permitem uma compreensão mais particular dos fenômenos pesquisados, em função de fatores como: a construção dos dados ocorre no ambiente empírico; os dados são refletidos por meio de um equilíbrio entre a descrição e a análise crítica e o pesquisador assume importante atuação, assim como os sujeitos investigados (LUDKË; ANDRÉ, 1986).
Postula-se que um método, que assuma as características da investigação qualitativa é adequado para se aproximar do objeto de estudo investigado neste trabalho – o pensamento criativo –, que exige, em sua compreensão, ações dialógicas e flexíveis que busquem a reflexão e que favoreçam o repertório de experiência dos sujeitos envolvidos.
Nessa perspectiva, o uso do procedimento de intervenção pedagógica, utilizado na pesquisa-ação, respondeu prontamente à necessidade de intervir e fomentar a construção de novos horizontes sobre a formação leitora literária, com vistas a emergência do pensamento criativo.
Com essa compreensão, define-se esta pesquisa como uma intervenção pedagógica, por vislumbrar-se uma ação planejada em que pesquisador e sujeitos, envoltos em uma mesma estratégia, partilham os objetivos definidos (ANDRÉ, 2007), a fim de que possam experimentar caminhos e ações para um ensino de literatura sistematizado e provocador de situações que favoreçam a formação do leitor de modo criativo.
Para Chizzotti (2006), a intervenção é elemento importante para o conhecimento da realidade pesquisada, pois através dessa estratégia podem-se conhecer as práticas e teorias utilizadas no contexto investigado, contestá-las e,
ao mesmo tempo, propor alternativas e verificar a ressonância da intervenção no comportamento dos participantes. Nesses moldes é que se compreende uma intervenção através do redirecionamento e reorganização dos objetivos, respeitando o modo como os sujeitos se envolvem, significam e recebem a ação proposta.
É importante salientar que a intervenção não se caracteriza a partir de ações de controle ou impositivas ao ambiente investigado, mas sim como uma prática que busca sentir e aperfeiçoar estratégias que permitam pensar com maior propriedade e consciência sobre o ensino de literatura em contexto escolar, direcionando a valorização do pensamento criativo.
Bauer, Gaskell e Allum (2000, p. 18) afirmam que “uma cobertura adequada dos acontecimentos sociais exige muitos métodos e dados: um pluralismo metodológico se origina como uma necessidade metodológica”. Semelhante argumento destaca Amarilha (2007) a propósito da pesquisa do ensino de literatura, em contexto escolar, ressaltando a necessidade da utilização de várias estratégias mediante o estudo de um objeto complexo em essência.
[...] a produção do conhecimento sobre o “ensino de literatura” traz uma dificuldade inerente. Não se trata de uma criatura, não é um objeto, mas sim uma situação. Daí que é possível estabelecer focos, por necessidade operacional; entretanto, não se pode perder de vista que, sendo o objeto múltiplo e dinâmico, o pluralismo metodológico é uma necessidade [metodológica] (AMARILHA, 2007, p. 341, grifo no original).
A partir do pronunciamento dos autores sobre a complexidade de se investigar objetos de estudo de natureza social e educacional, marcados pelo aspecto interativo, ressalta-se a atitude de delinear processos investigativos que recorrem à estratégias diversificadas, a exemplo desta pesquisa.
Mills (1965) destaca o trabalho do pesquisador como um artesão do conhecimento e da pesquisa. Para ele, é preciso dar forma à experiência vivida de modo intelectual; para tanto, deve-se evitar a departamentalização acadêmica e metodológica.
Especializaremos variadamente nosso trabalho, segundo o tópico e, acima de tudo, segundo o problema significativo. Ao formular e tentar resolver tais problemas, não hesitemos, na verdade procuremos, de forma permanente e imaginativa, valer-nos das perspectivas e material, idéias e métodos, de qualquer e de todos os estudos sensíveis do homem e da sociedade. São nossos estudos; são parte do que somos parte; não deixemos que nos sejam tirados por aqueles que os encerrariam num jargão estéril e nas pretensões de especialização (MILLS, 1965, p. 242, grifos no original).
O pronunciamento de Mills (1965) é revelador da importância de se buscar estratégias e métodos que melhor se adequem à situação investigada, considerando tanto as especificidades do objeto, como também as orientações advindas do próprio contexto e dos sujeitos.