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Em sua obra sobre a história do café, Martins (2008) constata que nas muitas narrativas que refazem a chegada da cultura no Brasil, há sempre um ponto em comum: a figura emblemática e quase folclórica de Francisco de Melo Palheta (1670–1750?). Palheta foi um militar luso-brasileiro de alta patente, comandante de várias expedições fronteiriças a mando do governador da então Capitania do Pará. Sabe-se que foi grande proprietário de terras. Em uma de suas expedições, teria trazido da Guiana Francesa as primeiras sementes e mudas cafeeiras e as introduzido no Pará, no ano 1727.

Entretanto, a autora revela haver um relato assinado pelo diplomata português Duarte Ribeiro de Macedo (1618–1680), datado de 1663, que atesta o conhecimento da cultura, cerca de sete décadas antes, pelos colonos no Maranhão. Em verdade, a cultura teria sido trazida diretamente de Portugal. O mérito à expedição de Palheta, cuja missão fora garantir os limites entre a colônia portuguesa e o território francês, talvez se deva às menções recebidas por uma inciativa focada na especulação comercial da cultura. Ao retornar, o militar concedeu trato oficial ao feito, distribuindo sementes ao Senado (MARTINS, 2008).

O café era um produto relativamente recente na Europa, tendo sido introduzido em Veneza, Itália, em 1615, segundo esta autora. Por isso, nas colônias holandesas e francesas por onde se propagou, e também no Brasil, as lavouras eram bem pequenas e de baixo custo. O produto só ganharia importância no

mercado mundial a partir da primeira metade do século XVIII, época da missão de Palheta à Guiana, quando o açúcar, o café e o chá começavam a fazer parte da dieta da burguesia europeia (SANDALJ, LINK & BECERRA, 2000).

Em 1720 todo o comércio mundial de café se resumiu a 90 toneladas, desembarcadas na Europa provenientes da ilha de Java, nas Índias Holandesas – atual Indonésia. O interesse no produto ainda era pequeno, tanto no Brasil, como em Portugal, nesse período. Os primeiros embarques ainda experimentais, para Lisboa, ocorreram no início da década de 1730, a partir das lavouras do Pará. O destaque dos cafeicultores paraenses ante a inércia dos maranhenses contribuiu para impulsionar, décadas mais tarde, a construção do mito em torno de Francisco Palheta (ALDEN, 2004; MARTINS, 2008; SANDALJ, LINK & BECERRA, 2000).

Por volta de 1749 havia aproximadamente 17 mil pés de café no Pará, mas as exportações permaneciam acanhadas. Em arrobas, unidade de medida da época, o Brasil exportou 2,5 mil de café naquele ano, contra 58 mil de cacau. Em 1770 o mercado internacional ainda era abastecido quase que exclusivamente pelas lavouras asiáticas e o volume negociado havia alcançado 320 toneladas (SANDALJ, LINK & BECERRA, 2000).

Pode-se dizer que a cultura do café nunca deslanchou, nem no Pará, nem no Maranhão. Entre as décadas de 1760 e 1790 abriram-se novas lavouras em Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. A bebida ganhou realmente o interesse dos brasileiros quando os bares de cafezinhos, protótipos das famosas cafeterias, começaram a surgir na cidade do Rio de Janeiro na década de 1790 (ALDEN, 2004; TAUNAY, 1945).

A partir de seu cultivo no estado fluminense o café iniciaria uma trajetória que o elevaria a principal produto das exportações brasileiras, tornando- se importante gerador de riqueza nos períodos de colônia, império e república. Em São Paulo, não sem antes enfrentar a resistência das regiões açucareiras. Apesar de promissora, a ideia de destinar terras canavieiras para a produção de café implicava em custos de transição relativamente elevados (LUNA & KLEIN, 2005).

Em 1805 as remessas internacionais superaram a marca de mil toneladas. A Figura 5.1 mostra a participação dos estados produtores na evolução das exportações brasileiras, entre 1750 e 1807. Os valores, originalmente em arroba, foram convertidos para quilograma de acordo com Rozenberg (2006): uma arroba equivale a 14,688 kg.

A percepção da força econômica que o café representava para o país era tal que em 18 de setembro de 1822, logo após a Proclamação da Independência,

foi incorporado um ramo de café ao escudo de armas do, agora, Império do Brasil. Apesar de ainda não figurar como primeiro item da balança comercial, seu progressivo avanço sinalizava a liderança iminente. Liderança que o café alcançaria pouco tempo depois, durante o período regencial, de 1831 a 1840. Por volta de 1850 o Brasil se tornou o maior produtor mundial de café (MARTINS, 2008).

Entretanto, Alden (2004) mostra que os ganhos econômicos nesse período deviam-se ao emprego de técnicas antiquadas. A força de trabalho agrícola ainda era, desde o século XVI, centrada na mão-de-obra escrava. O Brasil dispunha de grandes plantéis e o comércio de escravos permaneceu ao longo do período imperial. Os cativos sustentavam a economia agroexportadora, quase que exclusivamente voltada para a maximização da safra, em detrimento da qualidade do produto. Como sintetiza Martins (2008, p.84), as etapas clássicas da cafeicultura brasileira, em seus primórdios, eram: plantar, colher, beneficiar e despachar.

Na transição entre os séculos XIX e XX o volume de produção crescia de modo exponencial, motivado pelos preços do produto no mercado externo. Nas décadas de 1850 e 1860 no Vale do Paraíba, até então a principal região cafeeira do país, cada escravo cuidava de, no máximo, 4500 a 5000 pés de café. Nas décadas seguintes esta relação subiu para 7000 pés de café por escravo. Sendo que, no pico da colheita, cada um deles tinha que colher uma área de oito a nove alqueires, três vezes mais do que era praticado nos anos 1830 (MAQUESE, 2008).

As fazendas cafeeiras revelaram uma complexidade bem maior que as de engenho de açúcar, exigindo um número maior de escravos. A cafeicultura, por

- 200 400 600 800 1.000 1.200 1.400 1.600 Q u an ti d ad e (x 1000 kg ) PA MA PE BA RJ SP Fonte: Elaborada a partir de Alden (2004), Taunay (1945).

conseguinte, valeu-se intensamente do comércio de africanos da época, infelizmente contribuindo com a viabilidade da atividade. Segundo Luna e Klein (2005), somente nas fazendas do Estado de São Paulo havia, em 1854, 55.834 escravos. Destes, 74% pertenciam a lavouras cafeeiras, contra 20% alocados em fazendas de cana-de- açúcar.

Após a coibição deste tipo de comércio, os cafezais começaram a se encher de mão-de-obra livre estrangeira e de ex-escravos e seus filhos, gente muito pobre a serviço dos senhores do café. Assim, a cafeicultura adentrou o século XX mantendo a sua configuração de um mundo de trabalho com especificidades próprias, ainda amplamente dependente da força de trabalho humana (LUNA & KLEIN, 2005; MARTINS, 2008).

A desqualificação profissional sempre foi uma marca acentuada da atividade no Brasil. O conhecimento em cada etapa era assimilado empiricamente, após várias tentativas e erros dos lavradores pioneiros, uma vez que os manuais da cultura da época não eram de grande auxílio. Muitos, aliás, enviados pela coroa portuguesa, eram caros e nem chegavam a alcançar seu destino, nas fazendas, ficando esquecidos nos armazéns. O máximo que os lavradores recebiam eram algumas instruções dos fornecedores de mudas. Munidos de pouca informação, a única verdade para orientá-los eram os resultados de campo, consagrados, com o tempo, como técnicas de cultivo (J. OLIVEIRA, 2004; TAUNAY, 1945).

As práticas de derrubada e queimada, assimiladas dos índios e tradicionais nas lavouras coloniais, firmaram-se como métodos de limpeza e preparo do solo. O latifúndio persistiu como modelo de propriedade agrícola mesmo após a expulsão dos jesuítas e de outras ordens religiosas proprietárias de terras. Sobretudo pela ascensão do algodão, cana-de-açúcar e da pecuária (ALDEN, 2004).

Tecnicamente despreparados e motivados pelas vantagens de mercado anunciadas, os cafeicultores brasileiros manejaram mal a cultura desde o início. Alden (2004) e Martins (2008) percebem que as consequências deste ímpeto refletem-se até os dias atuais. Seja pelo desgaste precoce do solo, irremediável em algumas regiões, seja pela formação de gerações de cafeicultores igualmente despreparados. Ou, ainda, pela manutenção de técnicas de manejo arcaicas.

Cita-se, por exemplo, que práticas primitivas como a retirada dos frutos do cafeeiro por derriça ao chão, a peneiração e abanação e o descascamento manual dos grãos, resistiram ao tempo e ainda hoje são bastante comuns nas lavouras de café do país, apesar de categoricamente desaconselhadas em prol da excelência na qualidade.