Normalmente observam-se alguns títulos de livros ou artigos com o termo: “Revolução da Informação”, transmitindo a idéia de uma mudança de grandes proporções, configurando uma nova ordem na qual todos os segmentos (político, econômico, social, cultural, etc.) sofrem modificações. Observando certa movimentação nas ruas, o Rei Luís XVI pergunta ao Duque de La Rochefoucauld – Liancourt; “É uma revolta?” E este responde: “Não, senhor, é uma revolução.”[STEWART, 1998] Do ponto de vista político, a revolução é uma mudança violenta nas instituições políticas de uma nação. Este é o sentido pelo qual o termo normalmente se apresenta, demonstrando completo revolvimento das formas como as questões, de um modo geral, são comumente encaminhadas.
De um certo modo, ocorreram poucas mudanças econômicas e sociais na história da humanidade, porém todas elas marcaram, profundamente, os povos que sofreram suas conseqüências. Duas grandes revoluções transformaram,
definitivamente, o comportamento econômico e, por conseqüência, o social e político da humanidade. A revolução agrícola, também denominada como revolução verde, marcou o início do domínio das técnicas agrícolas que proporcionaram melhores tratos do solo, por conseguinte melhores produções, do ponto de vista quantitativo e qualitativo. “Pouco após a Guerra de Secessão, em 1869, os produtos agrícolas constituíam quase 40% do PIB norte-americano; meio século depois, após o final da Primeira Guerra Mundial, esse percentual havia caído para 14% (atualmente, ele é de apenas 1,4%)” [STEWART,1998].
A revolução industrial, iniciada na Inglaterra, na metade do século XVIII, foi marcada pelo uso da máquina a vapor e novas fontes de energia (elétrica e petróleo), empregadas no processo produtivo, que pôde então ser realizado em larga escala. Os artesãos e seus aprendizes tiveram que ceder lugar às fábricas com seus processos mais elaborados em termos de produção para atender aos grandes mercados. O processo de produção foi caracterizado pela divisão do trabalho, a produção em série e a urbanização. Enquanto na manufatura o trabalhador produzia uma unidade completa e conhecia o processo, agora ele passa a fazer apenas parte dela, limitando seu domínio técnico sobre o próprio trabalho [UFMG, 1995].
Grandes avanços tecnológicos foram verificados na primeira metade do século XIX, modificando os sistemas de transporte e comunicação: barcos a vapor (Robert Fulton/1807), locomotiva (Stephenson/1814), estradas de ferro (McAdam/1819), telégrafos (Morse/1836), eletricidade (Ohm/1827),
eletromagnetismo (Faraday/1831). De uma primeira fase cuja matéria prima era o minério de ferro, o carvão e o algodão, concentrada na indústria têxtil e energia a vapor, passa para a utilização do aço e petróleo como matéria prima, na indústria siderúrgica, petroquímica e automobilística, utilizando como principais fontes de energia a elétrica e os derivados de petróleo [UFMG, 1995]. Nos Estados Unidos, onde a revolução industrial teve início por volta de 1860 – considerada a segunda revolução industrial - a padronização das horas entre os diversos estados só ocorreu devido às ferrovias, para divulgar o horário dos trens [STEWART, 1998]. A população que vivia na área agrícola se transferiu para os centros urbanos à procura de novas oportunidades de trabalho, onde as fábricas se instalaram inicialmente.
Nos últimos anos foram publicadas diversas obras de autores conhecidos tais como Peter F. Druker, Thomas A. Stewart, Don Tapscott, Tom Peters, Peter Senge e Michel Porte, entre outros, que procuram delinear e caracterizar as últimas grandes transformações, que são normalmente tituladas: revolução da informação. Na nova economia, a informação, em todas as suas formas de expressão, tornou-se digital, sendo armazenada na forma de dígitos binários nos computadores e transmitida por redes a qualquer ponto na velocidade da luz. Comparativamente, o leque de novas possibilidades é tão significativo quanto a invenção da própria linguagem [TAPSCOTT, 1997].
Da mesma forma que a era agrícola, em termos de equipamentos, foi marcada pelo arado e mula, assim como na industrial encontram-se o aço,
motores e estradas, na era da informação destaca-se o silício, o microcomputador e as “estradas” de fibra óptica. As mudanças não se limitam aos meios, vão além, pois, nas extremidades dessas estradas encontram-se organizações e pessoas, utilizando as novas formas de interação. A estrutura da economia é alterada, surgindo um novo setor (Figura 3-1) a partir da convergência entre a computação, comunicação e conteúdo, formando a indústria da multimídia interativa, que representa 10% do PIB americano [TAPSCOTT, 1997].
Figura 2-2 - Indústria Multimídia Interativa
Conteúdo
Multimídia
Interativa
Computação Comunicação
Fonte: [TAPSCOTT, 1997].
Os fatores básicos de produção, na era capitalista, eram a terra, o capital e o trabalho. No pós-capitalismo, “em torno de tudo isso surge a economia da nova Era da Informação, cujas fontes fundamentais de riqueza são o conhecimento e a comunicação, e não recursos naturais ou o trabalho físico” [STEWART, 1998]. Na sociedade do conhecimento, o recurso primário para os indivíduos e a sociedade é o conhecimento. Os outros fatores não são eliminados, mas se tornam secundários, uma vez que podem ser obtidos com mais facilidade. Porém o conhecimento especializado deve estar integrado aos processos de negócios, pois de outra forma – isolado – não estaria sendo produtivo [DRUKER, 1995].
O surgimento de uma nova era não elimina completamente os produtos/serviços gerados nas eras anteriores. “Novas formas de produção desenvolvem novos produtos e produtos antigos, dentro de uma nova ótica, senão vejamos: graças às pesquisas sobre grãos híbridos de alta produtividade, os agricultores produzem cerca de cinco vezes mais milho por hectare do que produziam na década de 20 – em outras palavras – atualmente uma espiga de milho contém 80% de conhecimento; mais da metade dos recursos utilizados em máquinas operatrizes, nos tornos mecânicos que cortam e moldam metal, em parafusadoras e moldes usados nas fábricas, destina-se às ferramentas controladas numericamente pelo computador; mais da metade do custo da exploração e extração de petróleo tem a ver com informação; uma grande siderúrgica como a Bethlehem – Pittsbursh E.U.A. - precisava de três a quatro horas/homem para produzir uma tonelada de aço. Agora a Nucor Steel revolucionou o negócio do aço laminado com um processo que exige sofisticados computadores – não pode funcionar sem eles – e exige apenas 45 minutos de trabalho por tonelada. O componente intelectual aumentou e o físico diminuiu” [STEWART, 1998].
A questão do tempo para as organizações em constantes mudanças é fundamental. O conhecimento deve estar em reciclagem constante, sob pena de se tornar obsoleto, ao passo que, na era dos artesãos, o conhecimento que eles adquiriam possibilitavam toda uma vida de trabalho produtivo. As organizações atuais necessitam de incessantes inovações para permanecerem competitivas, exigindo, portanto, de seus funcionários capacidade adaptativa às novas
situações, que pode ser alcançada pela aprendizagem permanente. Em resumo, as organizações devem se organizar para mudanças constantes [DRUKER, 1995].
A empresa, do ponto de vista de seu funcionamento (processos) e de sua estrutura (organização), sofre drásticas conseqüências da pressão de mercado. Concorrentes podem surgir de qualquer lugar, a qualquer momento. As novas tecnologias da informação proporcionaram um passo de mudança mais veloz, reduzindo o tempo de realização dos processos e aproximando - diminuindo a distância - os participantes, fazendo surgir novos produtos substitutos num tempo muito menor.
No novo paradigma – era da informação - o primeiro passo importante para a empresa é compreender o ritmo de mudança e assim desenvolver novas estratégias de negócios. “As empresas precisam fundamentalmente de novas estratégias para a nova economia. A interligação em rede está possibilitando novas estruturas e novas estratégias. E ainda, cada vez mais, ela está possibilitando um forte relacionamento de confiança entre pessoas – relacionamentos que são muito diferentes daqueles da antiga hierarquia” [TAPSCOTT, 1997].
A empresa no novo paradigma sofre uma série de transformações de natureza tecnológica causada pela convergência da computação, comunicação e conteúdo. Essas mudanças propiciam novas alternativas na criação de
produtos/serviços. O Quadro 3.1, a seguir, expõe, de forma sintética, algumas transformações:
Quadro 2.3 - Transformações tecnológicas nas empresas
1 • da analógica para digital • das tecnologias digitas para a economia digital
2 • do semicondutor para o microprocessador
• processamento de alto desempenho para a organização de alto desempenho
3 • do processamento
centralizado para cliente/servidor
• computação cliente/servidor para
organização dinâmica. A rede torna-se o computador e a empresa torna-se rede
4 • da trilha para a super estrada da informação
• comunicação em banda larga para a economia em rede
5 • do terminal ‘burro’ para o equipamento de informação
• rampas inteligentes de entrada e saída para a super-rodovia da informação
6 • dos dados, textos, voz e imagem separados para a multimídia
• multimídia interativa para comunicação entre seres humanos
7 • dos sistemas proprietários para os sistemas abertos
• sistemas abertos para um mundo aberto
8 • das redes não inteligente para as redes inteligentes
• agora seu agente anda pela rede por você
9 • da computação artesanal para computação objeto
• software que pode ser utilizado rapidamente para um mundo que muda a todo instante 10 • de GUIs para MUIs • novos ambientes de colaboração para uma
nova economia Fonte: [TAPSCOTT, 1997]
O governo, constituído burocraticamente de diversos órgãos, que têm um papel definido na sociedade, também apresenta-se como uma empresa que sofre as pressões da era da informação.
A interligação em rede é uma forma não-somente para diminuir os custos operacionais do governo, mas também para transformar em essência a forma como os programas governamentais são implementados. A superação do tempo e da distância pode oferecer serviços públicos à população onde e quando ela
desejar, com melhor qualidade, eficazes na estrutura de custos, e com maior conveniência. O desenvolvimento de programas que vão ao encontro das necessidades dos cidadãos (clientes), e não apenas em torno das antigas estruturas ou da conveniência dos serviços civis [TAPSCOTT, 1997].
Assim como as organizações sofreram alterações na sua estrutura, face às necessidades de se adaptarem à nova ordem (por exemplo: a era industrial, a produção em massa, o estudo de tempos e movimentos, etc.), elas terão que se adequar às novas exigências. A “nova organização é voltada para atender às necessidades e expectativas dos clientes, com alta qualidade e produtividade, utilizando-se uma estrutura organizacional leve, baseada em equipes de trabalho e processos de trabalho horizontal, com o mínimo de estrutura hierárquica, i.e., mínimo de camadas gerenciais ou níveis hierárquicos” [FRESNEDA, 1998]. A tecnologia da informação pode oferecer a infra-estrutura necessária para que as organizações públicas utilizem o recurso informação de forma efetiva e até mesmo ser útil para alavancar o processo de transformação destas.
A tecnologia da informação, ferramenta básica da era da informação, apresenta-se de duas formas primárias: automação e informação. Geralmente, num primeiro momento em que a tecnologia da informação é adotada em uma organização, ela se aplica na melhoria dos processos, proporcionando mais agilidade, maior qualidade e menores custos de elaboração, substituindo o trabalho humano repetitivo e mecânico por processos com maior continuidade e controle – the automate paradigm.[ALTER, 1996]. Num segundo momento, a
tecnologia da informação oferece condições para captar, trabalhar e exibir informações sobre os processos produtivos e administrativos que ocorrem nas organizações, apresentando maior transparência sobre as atividades - information. “Por um lado, a tecnologia pode ser usada para automatizar, mas sempre que isto ocorre, a tecnologia tem a capacidade de traduzir as atividades automatizadas em dados e exibi-los. A tecnologia da informação, simbolicamente, expõe processos, objetos, comportamentos e eventos, tanto que eles se tornam visíveis, perceptíveis e compartilháveis de uma nova forma” [CASH, 1993].
As novas tecnologias da informação oferecem condições de automatizar e tornar transparentes os processos desenvolvidos pelo governo. [TAPSCOTT, 1997] propõe um cenário no qual diversos fornecedores e gerentes de compra observam as telas e o relógio, pois em poucos minutos será dado início a uma concorrência eletrônica pelo direito de fornecer, por um ano, discos óticos e magnéticos para computadores. Este panorama expõe, de forma transparente, uma atividade, mesmo que interna, do governo, além de oferecer condições de participação para um leque mais abrangente de concorrentes, o que certamente implicará melhores produtos e preços mais atraentes.
Diversos segmentos da sociedade – empresas, famílias e governo – podem ser afetados pela revolução da informação. É necessário, então, que as organizações estejam preparadas para prestarem um atendimento diversificado, se comparadas à forma tradicional, mesmo que apoiada por sistemas de informação. A Figura 3-2 destaca duas formas dos cidadãos utilizarem os serviços
governamentais. Uma forma (agora) na qual é necessária a presença do cidadão no órgão que presta o serviço, e outra (futuro) onde o cidadão dispõe de sistemas de informação que estarão conduzindo-o, indiretamente, ao órgão responsável pelo serviço.
Figura 2-3 - Reinventando o governo
Fonte: [TAPSCOTT, 1997]
Algumas organizações governamentais já disponibilizaram seus serviços e informações, ou parte destes, na forma de sistemas de informação, alcançando a posição de futuro que Don Tapscott coloca como posição de futuro. Um exemplo deste empreendimento pode ser o portal (www.redegoverno.gov.br), que centraliza o acesso a diversos serviços prestados pelo governo federal.
Dentro desta perspectiva de futuro comentado anteriormente, que está se tornando realidade para alguns Órgãos, pressupõe-se que os funcionários do governo que trabalham direta ou indiretamente no atendimento ao cliente estejam habilitados e com tecnologias adequadas disponíveis para tomar as decisões e
Cidadãos Ógão Governamental Sistemas de Informação Ógão Governamental Sistemas de Informação Cidadãos Sistemas de Informação Órgão Governamental Sistemas de Informação Órgão Governamental Agora Futuro
responder de pronto aos problemas e necessidades dos clientes, que na realidade são os contribuintes.
Uma organização, para acompanhar esta fase de grandes mudanças, principalmente no aspecto do tempo, ou seja, na velocidade com que estas mudanças estão ocorrendo, requer um alto grau de descentralização na sua estrutura, para proporcionar agilidade na tomada de decisão. O primeiro passo é o melhoramento contínuo de tudo que é feito na organização; o segundo é que a organização deverá aprender a explorar o seu conhecimento para desenvolver a próxima geração de aplicações para o seu próprio sucesso; e o terceiro passo é que a organização deverá aprender para inovar como um processo sistemático [DRUKER, 1995].
A nova organização deve trabalhar convenientemente o novo recurso – tecnologia da informação - no rol de seus insumos tais como finanças e capital humano. Ela não pode ser vista como um recurso que tem a capacidade de corrigir qualquer falha e/ou proporcionar, inevitavelmente, melhores condições competitivas para as organizações.