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Quando a persuasão se transforma em astúcia, ocorre a perversão da prudência e o início da pleonexia – o fascínio e o desejo pelo poder nascido na alma de homens eruditos que sonham em se tornar conselheiros de reis e principados. Alguns anos depois, vários historiadores afirmariam que o cardeal Morton não resistiria a este fascínio. O estudioso Paul Murray Kendall afirma que ele “usou a Igreja, como qualquer um de seu século, para assegurar sua ascensão”; e, se é um fato que Morton tinha um talento para a intriga e para a sobrevivência política, não é por acaso que seus contemporâneos não se lembram dele em suas preces169. A sombra de Morton agiu nas escolhas de More como homem de fé e homem público.

Havia talvez outro motivo para a permanência de tal influência. Morton foi um dos primeiros a reconhecer no jovem More algo especial, de acordo com William Roper170. A declaração do segundo homem mais poderoso da Inglaterra sobre o jovem escudeiro deu-se no momento em que este se apresentava em um papel de uma pequena peça desconhecida encenada no Palácio Lambeth. É também aí que reconhecemos os primeiros passos de um More que via e atuaria o drama de

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VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política, UNB, 1992, pág. 61.

169 Cf. MARIUS, Richard. Thomas More – A Biography, Yale Press, 2001, pág. 21. 170

sua própria vida como uma encenação em que tinha uma performance a cumprir – uma característica peculiar que teria suas variações na sua trajetória:

“Esta intervenção juvenil em um palco público será algo típico durante toda a vida de More, pois sempre estava atuando num palco e interpretando a si mesmo para uma audiência. Em dois diálogos que escreveu, Utopia e Diálogo Sobre as Heresias, ele aparece sob seu próprio nome. Em ambos é cuidadoso ao mostrar a importância de sua posição no mundo, seu papel como servo real – como um homem ocupado em negócios muito importantes. Em Um Diálogo de Conforto

contra a Tribulação, composto enquanto se confrontava com a prisão e a morte, ele aparece disfarçado transparentemente sob o nome de ‘Anthony’, um ancião doente e santo da Hungria e que espera pela invasão do Grande Turco. More compôs esta obra para sua família e seus amigos mais próximos; o nome Anthony vem de um dos maiores santos sofredores da Cristandade, que lutou com os demônios no deserto. Logo, boa parte da tradição familiar sobre a santidade de More, uma tradição que foi exposta de forma amorosa por Roper, Harpsfield, Stapleton e outros que vieram depois, foi encorajada pelo próprio More, interpretando esse papel no palco em que fez sua obra. Ele também era um bom pai para as suas crianças e, em várias aparições públicas, fez questão de mostrar aos europeus eruditos o quão excelente era com elas. E, no final de sua vida, transformou brilhantemente o cadafalso em um palco e interpretou seu papel para a multidão que foi vê-lo morrer”171.

Eis aí o primeiro dado de coerência na vida e na obra de Thomas More: a capacidade de, mesmo quando a fortuna lhe era desfavorável, sempre estar no domínio da situação, graças ao seu senso dramático. Não se trata de viver uma duplicidade de intenções, que pode ser confundida com a astúcia ou a malícia; trata- se de transformar a prudência numa ação que só será realizada tendo plena

consciência do drama, seja histórico, seja pessoal, que se pretende viver. Como explica R.S. Sylvester, temos a impressão de que “a compostura de More nunca está em dúvida”, mesmo em seus piores momentos:

“Cada fato da sua queda foi antevisto, foi cuidadosamente ensaiado e estava totalmente sob seu controle, como, por exemplo, os seus últimos passos rumo ao cadafalso. Qualquer que seja o seu papel, qualquer que seja o papel atribuído, vamos realizá-lo com a melhor de nossas habilidades, ‘alegremente’ sem dúvida, mesmo que isso signifique que seremos os mendigos mais felizes e devotos de toda a Cristandade. Pois o homem que triunfou completamente sobre si mesmo – e creio que isso é

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o que significa quando Roper faz constantes referências à ‘consciência imaculada’ de More – sabe que o reconhecimento desses papéis é realizado com simplicidade inocente. E ainda assim, por baixo desta superfície calma e desta fácil flexibilidade, há a noção de luta e de uma pungente agonia. Porque ‘consciência’, como Roper usa o termo para descrever More, não indica somente uma profunda integridade moral; a consciência é também, se usarmos a etimologia do século XVI, um ‘saber com’ (knowing with), uma completa e especial percepção tanto de si mesmo como do mundo onde vive. Interpretar o seu papel conscientemente significa interpretá-lo com plena consciência dos outros atores que estão no drama. O papel que More sabia que era o seu não era, em última instância, aquele que poderia compartilhar com sua família. E nisto está a tragédia humana de sua morte, mas também está os fundamentos da sua glória”172.

Portanto, vemos isso como a realização de um presságio quando sabemos que, durante sua primeira apresentação pública, considerada o início de uma carreira auspiciosa, o arcebispo teria dito a respeito de More sob os aplausos efusivos da platéia: “Esta criança sentada aqui na mesa, para quem for viver nos próximos anos, provará ser um homem maravilhoso”173.

A passagem pelo Palácio Lambeth ensinou ao filho de John More o cuidado pela etiqueta da corte, pelos modos sedutores da diplomacia e pela argumentação racional na política. Foi quando o Arcebispo Morton percebeu que o garoto não tinha mais o que fazer em sua casa, que havia aprendido tudo o que poderia aprender e assim o enviou à Universidade de Oxford no outono de 1492.

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