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Um dos motivos da escolha do recorte de pesquisa na REB se dá pelo fato de Leonardo Boff ter sido o redator. Assim, nos propomos a apresentar o seu itinerário intelectual, em que vida e obra se identificam. Nascido a 14 de dezembro de 1938, em Concórdia – SC, Genézio Darci Boff, nome de batismo e civil, filho de Mansueto Boff e Regina Fontana Boff, adota o nome religioso de Leonardo Boff que, consequentemente, torna-se seu nome literário. Entra para a Ordem dos Frades Menores em 1959 e é ordenado sacerdote em 1964. Estuda Filosofia na Faculdade de Filosofia (Seminário Maior) da Província da Imaculada Conceição, Curitiba – PR, e Teologia na Faculdade de Teologia dos Franciscanos de Petrópolis - RJ. Doutora-se em Teologia, pela Universidade de Munique, na Alemanha, com a tese: A Igreja como sacramento no

horizonte da experiência do mundo: tentativa de uma fundamentação estrutural- funcional da eclesiologia, e em Filosofia da Religião, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Segundo o site oficial, é autor e coautor de diversos livros e artigos publicados no Brasil e em vários países, com traduções em diversos idiomas como: alemão, austríaco, castelhano, catalão, chinês, coreano, croata, espanhol, francês, húngaro, inglês, italiano, japonês, polonês, yugoslavo51. Dentre os diversos livros destacamos: O Evangelho do Cristo Cósmico; Jesus Cristo libertador: Ensaio de

Cristologia crítica para o nosso tempo; Vida para além da morte: o futuro, a festa e a

contestação do presente; Mínima Sacramentalia: os Sacramentos da Vida e a Vida dos

Sacramentos; Teologia da libertação e do cativeiro; Eclesiogenese: as comunidades

Eclesiais de Base reinventam a igreja; Paixão de Cristo - Paixão do Mundo: O fato, as

interpretações e o significado ontem e hoje; O rosto materno de Deus: ensaio

interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas; O Pai-Nosso: a oração da

libertação integral; Igreja - carisma e poder. Ensaios de eclesiologia militante; A

trindade, a sociedade e a libertação; E a Igreja se fez povo - Eclesiogeneses: a Igreja

que nasce da fé do povo; 500 anos de Evangelização na América Latina; Dimensão

política e teológica da Ecologia; Ecologia, mundialização e espiritualidade; Ecologia:

grito da terra, grito dos pobres; A águia e a galinha: uma metáfora da condição

humana; O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade;

Saber Cuidar - Ética do humano - compaixão pela terra; Ética da Vida; São Francisco

de Assis, ternura e vigor.

Com intensa atividade docente, trabalha como professor titular de teologia fundamental, sistemática e ecumênica no Instituto Filosófico-Teológico Franciscano de Petrópolis durante 22 anos, no Centro de Estudos Teológicos e Espirituais (CETESP) e na Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), ambos no Rio de Janeiro. Foi professor visitante na Universidade Católica de Lisboa, no MACC- Mexican American Cultural Center-San Antonio, Texas, USA, na Universidade de Salamanca-Espanha, Universidade de Basel, na Suiça, Universidade de Lund, Suécia; Universidade de Oslo, Noruega; Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade de Harward, Universidade de Barcelona, na Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, Universidade de Heidelberg, Alemanha; e professor concursado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Foi assessor teológico da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) Confederação Latino- Americana de Religiosos (CLAR), em Bogotá, na Colombia, das CEBs em âmbito nacional e co-fundador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos.

Outro dado importante é sua aproximação no trabalho com periódicos. Foi redator das revistas: Revista Eclesiástica Brasileira (1972 - 1986), da Revista

Internacional de Teologia Concilium, que é publicada em diversos idiomas. Revista de

Cultura Vozes (1989 - 1992) e dos Cadernos de Fé e Política (1992 -1993). Leonardo Boff contribui também como conselheiro em diversas redações, participa e coordena movimentos ligados a direitos humanos, movimentos sociais, sendo assíduo em congressos, conferências, palestras e encontros. Foram-lhe conferidos vários títulos acadêmicos e prêmios por sua atuação política, pela defesa dos direitos humanos e pela sua produção literária, principalmente na área da teologia. Em seu currículo, é citado o processo que sofreu em 1984, por parte do Vaticano, devido às teses apresentadas no livro Igreja: Carisma e Poder. Em 1985, é condenado ao "silêncio obsequioso", sendo impedido de exercer suas funções no magistério e editoriais, no campo eclesiástico.

Leonardo Boff herda de seus estudos na Alemanha uma nova concepção teológica, que tem seus fundamentos principalmente na teologia de Johann Baptist Metz, que pensa uma nova reflexão teológica para o mundo moderno (ABBAGNANO, 2000). Essa teologia tem por ponto de partida o antropocentrismo cristão, que permite estabelecer uma nova concepção humana. Quando compreende o humano como

construtor da sua própria realidade, como sujeito de sua história em sua concretude, isto vale dizer que o ser humano não é entendido em seu intimismo, mas, sobretudo, como um ser social que está inserido no mundo, repleto de sua mundaneidade. Este aspecto do mundano, isto é, o humano só se projeta e se realiza mediante o mundo, é uma forma de se fazer crítico-criativo, em que as promessas da tradição bíblica como a paz, a justiça, a liberdade, a igualdade não podem ser concebidas somente como espera ou desprovidas de qualquer conotação social (ABBAGNANO, 2000).

Essa elaboração teológica, Metz a denomina de Teologia Política, que concentra em si, ainda que de forma embrionária, a Teologia da Libertação. Com isso, Metz quer superar e afrontar dois problemas provenientes da teologia tradicional. A primeira questão é a transcendental-idealístico que, para Metz, não sustenta a identidade cristã, já que utiliza categorias que não tratam sobre a realidade. A segunda é a recordação-narração, isto é, a forma como o cristianismo trata os problemas atuais, como se a simples “atualização”, narrativa dos acontecimentos passados pudesse suprir necessidades presentes. Esses dois problemas suscitados acima não permitem fazer uma interpretação da realidade atual, tornando a teologia estéril. A metafísica consolidada, desde então, não é suficiente para interpretar e atualizar a Revelação, assim como a tentativa de se aplicar em as “concepções existencialistas e personalistas52

(REALE;ANTISERI, 2003, p. 763) torna-se insuficiente, pois a salvação e a fé permanecem no âmbito individual, privado. Para Metz, é evidente que, nas origens do cristianismo, a salvação tem o caráter comunitário, portanto, social. Metz propõe que a teologia seja fundamentada no sujeito e na prática, superando, assim, o aspecto simplesmente racional, voltando-se dessa forma à realidade. Ademais, pensar Deus, para o teólogo ou para qualquer cristão, já é uma prática. Dessa forma, entende-se que a teologia é em si mesma prática, por isso deve assumir a sua condição de ser política, em assumir a dialética histórica, tema que será de grande importância à Teologia da Libertação.

Parto aqui, naturalmente, da hipótese de que uma política de inspiração socialista só é possível e só pode ser justificável, em nossa sociedade centro- europeia, pela via democrática, ou seja, por conseguinte, sob a forma de um socialismo democrático que não renegue as conquistas da história burguesa de liberdades, mas a assuma na dialética histórica e, justamente deste modo, salve a herança burguesa que não pode ser abandonada. Seja como for, trata-

52 As teologias contemporâneas seguiram ou mesmo utilizaram como referencial teórico algumas

categorias filosóficas de seu tempo. No século passado surgiram diversas correntes teológicas, como a

teologia da morte de Deus ou teologia radical, que se baseiam na filosofia “empirista e anglo-saxônica”,

vinculada à filosofia da linguagem. A teologia da esperança está ligada ao pensamento “hegeliano-

se, por conseguinte, de uma política que inclui uma reconhecida divisão de poderes, o direito à oposição, a liberdade de pensamento e de expressão, e a soberania popular etc (METZ, 1984, p. 100).

O teólogo Metz acentua a importância de se assumirem as conquistas históricas feitas pela burguesia que, de fato, são várias. O próprio Lênin reconhece a importância de se assimilar e compreender a cultura burguesa, sobretudo no que tange à educação/instrução.

É preciso ter isso em conta quando falamos, por exemplo, da cultura proletária. Sem compreender com clareza que só se pode criar a cultura proletária conhecendo com precisão a cultura conhecida pela humanidade em todo o seu desenvolvimento e transformando-a; sem compreender isso, não podemos cumprir nossa tarefa. A cultura proletária não surge de fonte desconhecida, não é uma invenção dos que se proclamam especialistas em cultura proletária. Isso é uma estupidez. A cultura proletária tem de ser o desenvolvimento lógico do acervo do conhecimento conquistado pela humanidade sob o julgo da sociedade capitalista, da sociedade latifundiária, da sociedade burocrática. (LÊNIN, 2000, p.12).

É claro que Lênin fez críticas à construção burguesa da sociedade, mas não deixou de dar a devida importância ao que ele chama de “velha escola”, que “era livresca” (LÊNIN, 2000, p.11), quando afirma que “Marx se apoiava na base dos conhecimentos humanos adquiridos no capitalismo” (LÊNIN, 2000, p.12). Uma nova concepção de teologia emerge com Metz, como “uma nova cultura política” (METZ, 1984, p. 100) que será referenciada pelas ciências humanas, concepções de mundo e sistemas políticos que darão embasamentos metodológicos a essa Teologia Política. Assim que se deve buscar “uma ‘inspiração socialista’, neste sentido, da consciência política não é mais simplesmente estranha nem mais considerada simplesmente como anticristã dentro de nossa Igreja” (METZ, 1984, p. 98).