O ano de 1972 foi decisivo nos rumos tomados pela revista REB. Além do primeiro editorial, que se tornou um marco divisor na concepção e no paradigma da revista, outros editoriais acentuariam ainda mais o ideário a ser seguido pelo grupo de intelectuais, o que não significa que aqueles, não ligados à “nova” teologia não pudessem publicar e nem participar do debate.
No periódico do mês de setembro, o redator publica na íntegra o capítulo X de seu polêmico livro Jesus Cristo Libertador, como forma de resposta às críticas feitas a seus escritos. A resposta foi dirigida, de forma direta, ao então Cardel-Arcebispo
de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, que teceu duras críticas ao autor do livro por meio da imprensa.
O primeiro ensaio "Jesus Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro Homem", é a transcrição literal do capítulo X do livro Jesus Cristo Libertador, da autoria do Redator desta revista, acusado por uma alta autoridade eclesiástica de negar a divindade de Cristo e o dogma de Calcedônia. O leitor da REB merece um esclarecimento. E é em nome da justiça que o fazemos. A simples transcrição do mais longo capítulo do livro irá mostrar a improcedência de tal juízo (EDITORIAL, 1972c, p. 513).
Antes de transcrever o mencionado capítulo53, o redator teceu comentários às críticas feitas ao seu livro, e procurou se defender de acusações que são pertinentes à doutrina cristã. Ele foi acusado de negar a natureza divina do Cristo e da união substancial das duas naturezas divinas e humanas na pessoa de Jesus Cristo54. O redator procura mostrar que não é contrário à doutrina cristã e, ao mesmo tempo, afirma que a produção da ciência teológica deve-se atualizar, pois aconteceram mudanças no mundo e também na linguagem, no sentido de que a semântica possa auxiliar no explicitamento da compreensão teológica.
E como entre Calcedônia (451) e nós vão 1542 anos, onde supomos que tenha acontecido alguma coisa no mundo e na Igreja que as palavras tenham assumido significados diversos, tento no meu livro aprofundar a verdade irreformável de nossa fé sobre Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, dizendo: “Tentaremos, dentro do horizonte da compreensão do que significa para nós hoje homem-pessoa, reler a mensagem de Calcedônia a fim de conquistar para a nossa linguagem o sentido profundo e verdadeiro da fórmula, conciliar que afirma que em Jesus subsiste simultaneamente o verus homo e verus Deus” (BOFF L, 1972c, p. 516).
Ao fazermos abordagens com relação a questões doutrinais internas ao cristianismo, não queremos chamar atenção a questões dogmáticas, que tratam de problemáticas teológicas, mas destacar como essas questões levantadas demonstram uma mudança de direção e de mentalidade dentro da revista. É evidente que essas tomadas de posição iriam influenciar o ideário elaborado, trabalhado e exposto na REB.
O que chama a atenção é que uma das acusações feitas pelo cardeal Vicente Scherer seria uma das características marcantes da Teologia da Libertação.
Os princípios da nova teologia entre cujos arautos se coloca Frei Leonardo Boff, por força de lógica, querendo ou não querendo seus defensores, levam ao total esvaziamento do cristianismo, de seu caráter transcendente e da perda das dimensões que ultrapassam o limitado espaço e tempo reduzido da existência terrena do homem (citado segundo o texto
53 Leonardo Boff fez uma espécie de introdução ao texto transcrito, em forma apologética, o que não é
comum nos demais artigos da revista.
54 Estas questões sobre a divindade e a união hipostática do Cristo (natureza humana e divina, numa só
pessoa) foram causa de controvérsia, discussão e disputas durante séculos na Igreja. Estes problemas doutrinais foram resolvidos nos Concílios de Éfeso (431) e principalmente no de Calcedônia (451).
publicado no Correio de Povo de 29 de agosto: Cardeal critica livro de Padre Francisco) (BOFF, L, 1972c, p. 515) (Grifo nosso).
O caráter imanente da teologia da libertação seria determinante na sua elaboração teológica. Por isso, o cardeal acentua que os teólogos da libertação não se interessam por aquilo que é transcendente, ou seja, que está além da compreensão humana e situa-se fora do espaço e tempo. A imanência definida como a “presença da finalidade da ação na ação ou do resultado de uma operação qualquer na operação” (ABBAGNANO, 2000, p. 539), isto é, a ação que tenha a finalidade em si mesma, o fazer humano ligado à sua realidade terrena. Preocupar-se com a imanência significa, em última instância, cuidar de questões sociais, políticas, econômicas etc. Com isso, o interesse da reflexão teológica tomará outros rumos, fundamentados na Teologia Política de Metz, como foi visto acima, porém não perderá as suas fundamentações, como afirmou o Cardeal Dom Vicente Scherer.
O redator cita uma apreciação55 feita pelo teólogo Karl Josef, afirmando que para “uns a teologia do livro é um vivo testemunho de fé, e, partindo de Jesus, conduz seguramente ao Ministério Divino” (BOFF, L, 1972c, p. 515). De fato, Romer (1972) analisa de forma conclusiva na seção de Apreciações da REB.
A Obra de Leonardo Boff comunica amplo e profundo conhecimento; reflete uma teologia responsável, comprometida com a fonte, orientada pela Tradição autêntica, questionada e questionante a respeito do homem moderno. Escrito numa linguagem agradável, o trabalho que oferece, não poucas vezes, ideias fascinantes, supõe uma certa preparação da parte do leitor. O livro merece ampla divulgação. Agradecemos o autor por esta teologia que é um vivo testemunho da fé, e – “partindo de Jesus” – conduz seguramente ao seu Mistério Divino (ROMER, 1972, p. 493).
Os comentários feitos acima demonstram o comprometimento do redator da REB com a doutrina cristã, sem perder o novo foco teológico. Vale ressaltar, ainda, o apoio a sua obra por parte de outros teólogos, que seguem o mesmo viés de uma teologia comprometida com questões sociais.
No editorial da revista do mês de junho, surgem novas menções à nova forma de elaboração teológica, com questionamentos e referências a elaborações e ações embrionárias do novo ideário da revista.
A REB quis estar presente nas comemorações do Sesquicentenário. Apresenta dois estudos da lavra de conhecidos pesquisadores: o primeiro de Eduardo Hoornaert, do Recife, sobre As relações entre a Igreja e o Estado na Bahia colonial. Trata-se de um estudo histórico, orientado porém por uma preocupação mais fundamental, à qual somos hoje muito sensíveis: pode a Igreja realmente evangelizar de forma libertadora quando ela se
55 Na REB, existe uma seção “Apreciações”, de livros, artigos de revistas ou jornais e demais
mancomuna com o poder? O segundo do acadêmico e famoso historiador José Honório Rodrigues sobre O Clero e a Independência ressalta a participação inconteste do clero no processo e na instauração da Independência do Brasil. “Um povo abandonado pela metrópole, desiludido, não educado pelo governo, o pouco que aprendeu deve-se ao clero... As grandes causas sempre tiveram ao seu lado os combatentes religiosos”. A participação atual do clero na arrancada do ajustamento social brasileiro se inscreve dentro de nossas tradições mais beneméritas. (EDITORIAL, 1972b, p. 273) (Grifo nosso).
O cenário intelectual da revista começa a tomar uma nova forma. Aborda questões de libertação, termo chave para a teologia que insurge nas páginas da REB. Faz releituras da relação do Estado e da Igreja, o trono e o altar, as alianças, por vezes perversas, com o poder instituído, e nem sempre de forma legítima. Por outro lado, tem o olhar da participação eclesiástica em questões sociais, ainda que de forma tímida e assistencial, e projeta, ao mesmo tempo, uma nova sociedade, fundamentada em uma teologia social. Começa a formar um novo grupo, com interesses semelhantes, com postura social e política. Assim podemos compreender a REB, a partir de 1972.