As casas autoconstruídas e as casas novas-transformadas foram analisadas através do número de espaços encontrados para cada setor funcional, conforme as atividades desenvolvidas em cada um deles, como mostra a tabela 02 do anexo 07.
O crescimento de espaços pode ser observado para todas as atividades realizadas nas casas novas-transformadas e mais acentuadamente em algumas atividades, como é o caso dos espaços de dormir.
Constatou-se que a atividade dormir encontra-se como prioridade absoluta nas 21 moradias autoconstruídas, onde foram identificados 35 espaços, contra 21 de cozinhar, 19 de serviço (quase todos externos), 17 de higiene pessoal e 14 de estar/receber (tabela 02, anexo 07). O quarto é o principal requisito desde os tempos dos mocambos, como visto nas características da moradia, que foi aprofundada no capítulo 1; o que mostra que algumas outras atividades eram efetivadas fora do espaço doméstico, o dormir, jamais, já que a moradia sempre esteve ligada a idéia de abrigo, descanso.
Coerentemente com este fato, foram multiplicados nas novas casas os espaços de dormir, à custa algumas vezes dos espaços de estar, que são transformados em quartos. Uma vez que nas moradias projetadas foram oferecidos somente quatro espaços, sendo apenas um para a atividade dormir - por exigências impostas pela Prefeitura, já expostas no capítulo 2 -, estes espaços foram multiplicados com acréscimo de cômodos ou modificando-se o uso dos cômodos estabelecidos no projeto, como é o caso citado da utilização de espaços de estar para a atividade dormir.
Verifica-se na tabela 02 do anexo 07 que nas atuais 24 casas do conjunto Parque do Cabugí, foram encontrados 37 espaços usados para a atividade dormir, sendo este também o espaço que aparece em maior número nas casas autoconstruídas. Porém, a média é maior nas casas autoconstruídas: de 1,67, e nas casas novas-transformadas, de 1,54; o que reforça o caráter prioritário desse espaço, independente das condições financeiras dos moradores.
Nas entrevistas realizadas vê-se que praticamente todas as famílias mencionaram que havia a intenção de ampliar a casa com a construção de um cômodo para dormir. Somente dois moradores das casas novas-transformadas não têm a necessidade de ampliar suas casas para criar novos espaços de dormir, e o motivo é que estas 02 casas são habitadas por um único morador (cn05, cn08).
Pode-se verificar então, como já esperado, que os espaços são ocupados e ampliados conforme as necessidades dos moradores, e a necessidade de dormir aparece como principal requisito, ocupando a maior quantidade de espaços, tanto nas casas autoconstruídas como nas casas novas-transformadas. E pode-se dizer diante deste fato que a quantidade de quartos encontrados nas casas novas- transformadas é ainda menor que a quantidade de quartos encontrados nas casas autoconstruídas, em decorrência acredita-se, do pouco tempo de ocupação e oportunidade de realizar ampliações em vista de contingências econômicas dos moradores.
Quanto aos espaços para a atividade cozinhar, foram encontrados 21 espaços em 20 casas autoconstruídas. Explicação deste fato: em uma das casas autoconstruídas havia 02 espaços para cozinhar, um interno e outro externo (ca13) e em outra casa autoconstruída (ca05) não havia espaço para cozinhar. Nesta, habitava um único morador, do sexo masculino, que tinha sua casa construída ao lado da casa da sua mãe, onde fazia suas refeições.
Nas 24 casas novas-transformadas foram encontrados 24 espaços para cozinhar, sendo um espaço em cada. Foi encontrado este espaço nas 22 casas entregues pela Prefeitura e também nas 2 casas construídas nos lotes das casas cn01 e cn19 para abrigar filhos casados - conforme mencionado nos capítulos anteriores.
Das 22 casas projetadas entregues pela Prefeitura, 4 (cn01a, cn03a, cn03b, cn09) foram reformadas e o espaço para cozinhar foi transferido de lugar e reconstruído com área útil maior do que a área útil da cozinha existente na casa projetada. Em outras 02 casas novas (cn12, cn19a) os espaços de cozinhar foram ampliados em suas áreas úteis.
Nota-se que este é um espaço de fundamental importância por sua presença em praticamente todas as moradias e nos processos de ampliações do novo conjunto.
Se forem observadas as áreas úteis das cozinhas nas casas autoconstruídas pode-se verificar que são maiores do que na casa projetada e nas casas novas- transformadas, porém, já se vê em alguns casos que as cozinhas foram ampliadas nestas últimas. Diante deste fato pode-se dizer que a cozinha aparece como um dos principais requisitos da moradia e no projeto da casa popular, sua área bastante restrita foi consequência das restrições orçamentárias do valor da obra; e permanece assim restrita na maioria das casas novas-transformadas, mas não parece satisfazer aos moradores, que nas entrevistas deixam transparecer que as cozinhas não foram ampliadas por falta de recursos.
Quanto à atividade de serviço, que engloba as atividades lavar roupas e/ou lavar louça, pode-se dizer que é geral a presença desses espaços – quase sempre externos – tanto nas moradias autoconstruídas quanto nas novas-transformadas. Nestas, o acréscimo de uma área delimitada em torno de uma “lavanderia” (como são chamados em Parnamirim os tanques de lavar roupa) foi o primeiro realizado pelos moradores, apesar da necessidade de construir novos quartos. Na maioria dos casos pode-se observar que as lavanderias aqui colocadas eram trazidas das casas antigas (autoconstruídas) e o material utilizado para as coberturas sobre estas, também, o que não ocasionou custos aos moradores.
Foram encontrados 19 espaços para esta atividade nas casas autoconstruídas e 22 nas casas novas-transformadas.
Os dois casos onde não foram encontradas as lavanderias são: a casa entregue ao proprietário da casa autoconstruída ca05, que mora sozinho e não fez nenhuma modificação na casa nova; e a outra é uma das casas feitas em extensão da casa entregue pela Prefeitura, sendo que a família neste caso utiliza a lavanderia feita na casa original, portanto pode-se considerar que das 24 novas casas somente uma não tem esse espaço de serviço (ca05).
Apesar da presença marcante da lavanderia e das atividades que se acumulam em torno dela nas casas autoconstruídas, este espaço não foi contemplado no projeto da nova casa, tendo passado despercebida sua presença indispensável.
Os espaços reservados para a atividade higiene pessoal – banheiros - foram encontrados em quase todas as casas autoconstruídas – em 5 casas não havia banheiro - e em todas as casas novas-transformadas.
Os moradores, quando habitavam as casas autoconstruídas, ao descreverem os cômodos existentes em suas moradias, registravam a ausência de outros cômodos, como banheiro e salas de estar, que não existiam por falta de recursos para construí-los, mas pretendiam em um momento oportuno ampliar suas casas a fim de criar tais espaços.
Nas casas projetadas estes espaços foram contemplados e observa-se que foram preservados e mantidos na forma e arranjo que foram construídos, como já foi mencionado, confirmando o já descrito que sua ausência nas casas autoconstruídas era fruto da precariedade financeira dos moradores.
Quanto à atividade estar/receber foram encontrados 14 espaços nas casas autoconstruídas, enquanto nas casas novas-transformadas foram encontrados 26 espaços, e em apenas 3 (cn01b, cn02, cn13) das casas novas-transformadas este espaço não foi encontrado; e uma destas é uma das casas que surgiram de ampliações posteriores. Em 4 (cn02, cn04, cn13) das moradias entregues pela Prefeitura os ambientes projetados para sala de estar foram transformados em quartos, sendo que em uma delas foi criado um espaço de estar nos fundos da casa, caso já anteriormente citado. E em uma das extensões construídas posteriormente este espaço está ausente, recaindo na lógica da autoconstrução, onde foram priorizados espaços para dormir e serviço.
Com este resultado pode-se dizer que apesar do espaço restrito e a necessidade de mais quartos, os moradores das casas novas-transformadas querem
permanecer com o estar, porém, este não é um requisito para sua habitação, apesar de nas entrevistas os moradores das casas da amostra terem mencionado que gostariam de ter um espaço para uma sala de estar, quando as condições financeiras permitissem. Então, encontrado este espaço na casa projetada, os moradores optaram por mantê-lo e utilizá-lo também como dormitório, à noite. A utilização de salas como espaço de dormir se alicerça em costumes muito antigos no Rio Grande do Norte, como é o caso das casas vernáculas do Seridó Norteriograndese estudadas por Feijó (2002), onde os quartos eram utilizados para dormir pelo casal e as filhas, e eram nas salas que dormiam os filhos homens, em redes.
Quanto à atividade transitar – halls/corredores –, como já foi visto, é mínima a sua presença, tanto nas casas autoconstruídas quanto nas novas; sendo mais observada nas casas autoconstruídas onde aparece em 8 (ca01, ca03, ca04, ca06, ca08, ca09, ca10, ca17) das 21 moradias. Na casa projetada, foi considerada a necessidade de economia de área em função dos custos da obra, apesar de exíguos
halls de articulação serem encontrados em casas populares de outros conjuntos
habitacionais. Por opção no ato da projetação, a circulação para todos os ambientes da casa é feita pela sala de estar.
Em apenas 2 (cn04 e cn13) das casas novas-transformadas foram criados espaços de transição e nestes dois casos foi feita a mesma modificação de uso do espaço de estar para espaço de dormir através da utilização de móveis divisórios, criando-se, assim, uma circulação que interliga o exterior e o setor funcional de serviço da moradia. É portanto de se supor, que a criação deste espaço de transitar foi motivada pela necessidade de criação de mais um quarto, como já mencionado, e que, caso pudesse ser mantida a sala, esta seria, como na casa projetada, o espaço de distribuição da circulação. Os outros espaços de transição que foram criados são espaços convexos de salas utilizadas para mais de uma atividade.
Não se vê nas casas desta amostra a necessidade de espaços de circulação para tornar outros espaços reservados, como ocorre nas casas de famílias de renda média, quando os corredores separam os setores funcionais destas; fato evidenciado no estudo de Monteiro (1997), que apresenta a permeabilidade dos cômodos como uma característica das casas de favela.
Como se pode perceber, pelos dados apresentados na tabela 02 do anexo 07, as casas novas-transformadas foram modificadas quanto ao número de espaços
por atividade, resultando daí uma aproximação, nas atividades de dormir e serviço, com a realidade encontrada nas casas autoconstruídas.
Nas casas autoconstruídas havia um número total de 114 espaços e nas casas novas-transformadas foram encontrados 135 espaços, para as atividades estabelecidas nesta análise. A média de espaços nas casas autoconstruídas era de 5.42, enquanto que nas casas novas-transformadas é de 5.62, muito aproximado e já ultrapassando em número de espaços as casas autoconstruídas. Isso em apenas um ano de ocupação, fator que faz presumir um aumento considerável de espaços com o passar dos anos.
Pode-se fazer uma relação entre o número de espaços encontrados para os setores funcionais em cada grupo de casas da amostra – casas autoconstruídas, casa projetada e casas novas-transformadas.
Observando os gráficos (gráficos 06A a 06D, anexo 04) que relacionam o número de espaços encontrados dos setores funcionais das casas da amostra, foi verificado que para todos os conjuntos de casas, o setor íntimo tem maior número de espaços.
Pode-se verificar no gráfico 06B, anexo 04, que nas casas autoconstruídas o setor de serviço tem média de número de espaços bastante superior à média de número de espaços do setor social. Na casa projetada esta proporção não foi mantida, deixando o mesmo número de espaços para os setores social e íntimo. Porém, as casas novas foram transformadas e o setor íntimo teve acréscimo de número de espaços, chegando a ficar com o número de espaços dos setores funcionais proporcionalmente muito próximos aos das casas autoconstruídas.
Esta comparação confirma o já visto quanto à questão dos requisitos e prioridades dos moradores, que foi aumentar o número de quartos e espaços de serviço nas casas novas-transformadas.
Comparando-se os números de espaços encontrados para as atividades quanto à permanência noturna e diurna nos três grupos de moradias, foi verificado que a maioria dos espaços é ocupado com atividades de uso predominantemente diurno; porém, as casas novas-transformadas se aproximam mais do padrão encontrado nas casas autoconstruídas do que a casa projetada, como pode ser visto no gráfico 06C do anexo 04.
Se forem comparados o número de espaços encontrados nas casas autoconstruídas ao tempo de ocupação destas, pode-se verificar que há uma
relação entre estes. Como mostra o gráfico 08 do anexo 04, a linha de tendência cresce à medida que aumentam o tempo de ocupação e o número de espaços, como era de se esperar. Existem dois casos que podem ser vistos como exceção, que são as casas ca05 e ca12, pois, a casa ca05 tem apenas 2 espaços em 18 anos de ocupação e a casa ca12 tem 10 espaços em 3 anos de ocupação. Se forem retiradas estas duas casas da amostra pode-se verificar que a linha de tendência se acentua ainda mais (ver gráfico 09, anexo 04).
Esta comparação não é possível para as casas novas-transformadas, pois todas têm 1 ano de ocupação.
Comparando-se ainda o número de espaços encontrados com a faixa de renda das famílias nas casas autoconstruídas verifica-se que não existe uma relação direta entre estas duas variáveis (gráfico 10, anexo 04), porém existe sim uma relação direta entre a faixa de renda e o tipo de material empregado na edificação, como se pode ver no gráfico 03 do anexo 04. Os tipos de casas em relação aos materiais utilizados nesta comparação são os mesmos utilizados na caracterização das casas autoconstruídas feita no capítulo 2.
A tendência que se viu foi que as famílias com renda maior que dois salários moravam em casas construídas em alvenaria de tijolos, enquanto as com renda de um salário mínimo moravam em casas de taipa.
Se observadas as reformas feitas nas casas novas-transformadas pode-se verificar que as famílias com maior renda e que moravam em casas construídas com materiais considerados de melhor qualidade, realizaram reformas mais significativas, ou seja, o número de espaços e área ampliadas foram maiores que na maioria das reformas encontradas.