VURDERING AV EKSISTERENDE AGILE METODER
3.1.6. USIKKERHETSHÅNDTERING
estava numa sala, fazendo a prova (principalmente de Biologia, disciplina específica da minha área, da qual tenho mais insegurança quanto aos meus conhecimentos), e lendo as questões. Nunca me lembrei de nenhuma das questões que li, mas comumente era algo que eu tinha estudado "por cima" e não conseguia me aprofundar numa resposta.”
Sonho Mais Recente (controle): “Eu estava numa festa, num ambiente pouco
iluminado. Minhas companhias eram algumas amigas da escola. Lá tocava forró. Eu encontrava dois colegas do cursinho, e a gente conversava um pouco, sobre assuntos banais (nada relativo a vestibular, mas não lembro o que era exatamente). Depois eles iam para outro ambiente e eu continuei com as minhas amigas. O sonho foi agradável, mas nada marcante. Um sonho qualquer.”
II. Sonho-Prova: “Tive um ou dois sonhos ruins na semana anterior a da prova,
pois não conseguia dormir bem , mas já não lembro do que se tratava.”
Questionado: “pesadelo confuso, não lembro sobre o quê, não lembro dos meus
sonhos””
Sonho Mais Recente (controle): “Dificilmente lembro dos sonhos. Geralmente
tenho um sono muito bom, sem sonhos que eu me lembre. Não me lembro do último sonho que tive”
III. Sonho-Prova: “Pesadelo> O local era a biblioteca do colégio que estudei, com
uma amiga (17 anos) sentada na cadeira em frente ao computador e eu e outro amigo (17 anos) atrás dela também olhando para o computador. Estávamos
esperando o resultado da 1ª fase do vestibular da UFRN, e, quando foi divulgado, acabei obtendo o 304º lugar e meus dois amigos também não se dando bem. Em relação ao sentimento que senti na hora foi o pior possível, parecia que o mundo tinha desabado em cima das costas. Sonho> Estava já no meio do vestibular, no 3º dia de prova, mais exatamente no meio da prova de física, quando vi uma questão difícil (sobre Torque) que sabia resolver. Então, fiquei satisfeito.”
Sonho Mais Recente: “Muito vago o sonho, mas pelo que eu lembre estava
recebendo a notícia de algum amigo que fui aprovado no vestibular. Sensação de dever cumprido, muito boa.”
IV. Sonho-Prova: “Sonhei que estava entrando de branco numa sala de aula,
onde as pessoas já me eram familiares (sinal de que eu já estava estudando com elas há certo tempo), o que me pareceu bastante agradável!”
Sonho Mais Recente: “Eu estava recebendo o resultado de um outro
vestibular que fiz e ele era negativo, mas eu pensava: "puxa, que ruim, mas ainda há o da UFRN", mas quando eu olhava no calendário, já havia passado a data da prova e eu havia perdido. Foi terrível, porque queria significar que eu não passaria.”
Por fim, segue os relatos de sonhos com a prova dos 3 candidatos com pior desempenho [V: sexo masculino, candidato ao curso de Publicidade, sem AO; VI: sexo feminino, curso de Ciências Sociais, sem AO; e VII: sexo feminino, curso de Design, AO 433,3 (0,025)]:
V. Sonho-Prova: “Sonhei que estava em dois ambientes universitários. Lanchando com amigos de classe no refeitório, quatro amigos e me dava muito bem com eles. Estava na classe de aula respondendo perguntas orais sobre o meu curso. Momentos felizes.”
Sonho Mais Recente: “Sonhei que eu viajava para Porto de Galinhas/PE (eu
nunca fui) com um amigo que não recordo o rosto, e que era um turista e ficava muito feliz em consumir os produtos de lá, como comidas, roupas e passeios. Lembro que o cenário era semelhante ao de Pipa/RN. Eu tirava muitas fotos dos lugares que conhecia e ao mesmo tempo me encantava.”
VI. Sonho-Prova: “Lembro-me vagamente de ter sonhado que chegaria atrasada no dia da prova... Pegava o ônibus atrasada, no ônibus estavam pessoas estranhas, e parecia que nunca iria chegar ao local da prova. Chegando ao local da prova, eu tentava convencer o porteiro a entrar mas não teve jeito. Perdi a prova.”
Sonho Mais Recente: “sonhei que se encontrava com um amigo em um lugar
público, como se fosse um shopping. Conversamos sobre nós e acabamos ‘ficando’. Em seguida acordei surpresa com o sonho”.
VII. Sonho-Prova: “Sonhei que eu ia saindo de casa para fazer a prova e esquecia
meu cartão de inscrição, quase não conseguia fazer a prova por isso. Acordei apavorada louca que fosse um sonho mesmo.”
Sonho Mais Recente: “Sonhei que eu estava na minha casa aqui em Natal, na
sala com minha mãe de 50 anos e minha irmã mais velha de 26 anos, quando minha outra irmã de 22 entrava em casa chorando e dizendo que um homem tinha pego ela e outra garota na parada e tinha batido nelas, e quando eu olha pra ela, ela
estava toda inchada e com cortes no rosto. Foi horrível, eu acordei depois ainda bem que era só um sonho! “
DISCUSSÃO
Nossos resultados quantitativos demonstram uma correlação positiva entre o sonhar com as provas e o desempenho nas mesmas, tal como ilustrado na comparação bruta dos dados das provas Objetivas (Gráfico 5), e nas comparações de AO (Gráfico 1), AD (Gráfico 2) e AC (Gráfico 4), nos quais observou-se um melhor rendimento na performance para o grupo que sonhou com a prova.
Esta relação entre o sonho com o desempenho foi encontrada também na análise da Aprovação Final do candidato, isto é, aqueles efetivamente convocados para a matrícula no curso pretendido (Tabela 4). Enquanto que para o grupo que não sonhou com a prova o índice de aprovação geral foi semelhante ao encontrado no processo seletivo como um todo (respectivamente 22,45% e 22,19%), para o grupo sonho-prova esse índice foi 35,56%, sugerindo uma correlação positiva entre o sonhar com as provas e o desempenho nas mesmas, independente da dificuldade específica de cada curso pretendido (um candidato reprovado em Medicina seria aprovado, somente em função das notas, em outro curso com menor concorrência).
Além disso, o sonho com a prova aparenta ter abolido o fator deletério no desempenho da expectativa subjetiva de Desafio/Dificuldade das provas (desempenho pior conforme aumenta dificuldade), uma vez que o valores elevados (4 e 5) implicaram em pior desempenho para o grupo não-sonhou em comparação ao grupo sonho-prova (Gráficos 9, 11 e 13), reforçando nossa hipótese de função adaptativa do sonhar. Ou seja, o sonho é muito mais que um mero reflexo despropositado da realidade cotidiana da vigília. Tal função, contudo, só é mais
clara dentro de um contexto ameaçador, em que realmente o sucesso adaptativo do sonhador estivesse em risco durante a vigília. A ansiedade moderada ou grave apresentada por quase um quarto dos vestibulandos em geral (Rodrigues & Pelisoli 2008) pode ser considerada uma expressão da percepção subjetiva dos riscos que um fracasso representaria, com conseqüências imediatas no plano social (familiar) e para o futuro do jovem. Nossos dados, desse modo, corroboram a noção de valor adaptativo do enredo onírico, tal como postula a hipótese da Teoria da Simulação de Ameaças (Revonsuo 2000) e suas ampliações (Ribeiro & Nicolelis 2006), em oposição ao que postula a hipótese da ativação-síntese (Hobson & McCarley 1977).
Assim, a ocorrência do sonho com a prova se relaciona com maior medo e apreensão (Gráficos 14 a 16), além de alterações mais profundas no cotidiano (Gráficos 19 a 21), nos padrões de humor (Gráficos 22 a 24) e de sono (Gráficos 25 a 27) do candidato (índices mais elevados para o grupo Sonho-Prova). As alterações do cotidiano ilustram quantitativamente uma maior mobilização das atividades da vigília em função do Vestibular, com reflexos também no desempenho (Gráficos 17 e 18), tal como seria esperado (horas específicas de estudo, freqüentou cursos preparatórios, etc).
Mais interessante ainda é o fato do fator socioeconômico aparentemente influenciar o fenômeno onírico, já que a maioria dos candidatos beneficiados com Critério de Inclusão relata ter sonhado com a prova (8 no grupo sonho-prova contra 4 no não-sonhou). O n é baixo para comparações mais amplas, mas condiz com a noção da relevância do evento para o sucesso adaptativo do indivíduo (lembrando que a universidade pública, gratuita, pode ser a única possibilidade desse aluno
carente freqüentar o ensino superior, o impacto em seu meio social também é mais relevante) e isso influenciar o conteúdo onírico com mais intensidade. Nota-se, portanto, que uma maior mobilização psicofisiológica em função do desafiador evento futuro (preocupação na vigília) é capaz de influenciar o conteúdo dos sonhos, tal como esperado (
Cartwright
,Agargun
et al. 2006).O fato de o sujeito ter costumeiramente sonhos antecipatórios não influenciou a performance AO por si só, indicando que não há um viés a priori nos dois grupos (Gráfico 42, Tabela 17). Isso indica que o importante para o desempenho na prova não foi ter o hábito de sonhar com provas em geral, mas ter tido um sonho antecipatório sobre essa prova especificamente. Ainda assim, é de interesse que praticamente a metade dos participantes no grupo Sonho-prova já experimentou tal fenômeno onírico em seu cotidiano.
Não esperávamos o resultado negativo em AP (Gráfico 3), provavelmente relacionado ao fato de que AP, além de uma média ponderada de AO (peso 2) e AD (peso 3), só é calculado para nota mínima de 450 no AD. Daí o n entre os grupos variável (AO, sonho-prova=43, não-sonhou=44; AD sonho-prova=29, não- sonhou=33; AP sonho-prova=27 não-sonhou=24). Talvez, ao excluir os piores resultados (maioria não-sonhou), a diferença real entre os grupos desapareceu. A diferença significativa entre os grupos é observada novamente no AC. Considerando que AC=AP+CI, observamos que duas vezes mais candidatos do grupo sonho-prova (8) receberam pontuação de CI do que os não-sonhou (4). Provavelmente, ao aumentarmos a pontuação principalmente do "sonho-prova", o efeito do cálculo de AP (retirar os piores) foi reduzido.
Nossa amostra exibe uma maior prevalência do sexo feminino e candidatos a cursos de alta demanda (medicina, psicologia e design), justamente a população mais sujeita aos índices elevados na Escala Beck de Ansiedade (Rodrigues & Pelisoli 2008). É provável, portanto, que o grupo sonho-prova seja proporcionalmente menor no vestibular como um todo. Considerando a definição dos grupos a partir da lembrança ou não de um sonho com a prova, atenta-se, porém, ao fato de que o principal fator para lembrar-se de um sonho é a recentidade (quanto menor o tempo que se passou desde o sonho, maior a recordação), apesar da intensidade emocional do conteúdo onírico também influir, em menor grau, na lembrança (Domhoff 2003). O baixo retorno de respostas via e-mail e a multiplicidade de cursos via contato pessoal impossibilitaram a análise comparativa adequada do efeito da Demanda no fenômeno, quando esperávamos que cursos de baixa demanda (pouco desafio) obtivessem um menor número de sonhos-prova.
A Lista de Preocupações Atuais não mostrou resultados significativos. A motivação em relação ao vestibular entre os candidatos é alta de modo geral, acarretando em uma amostra homogênia. Além disso, a ferramenta foi desenvolvida principalmente para um uso longitudinal, avaliando dinamicamente oscilações nos índices para possivelmente correlacioná-los com diferentes relatos oníricos. Obviamente esse não é o caso do presente estudo.
Sumariamente, foi possível demonstrar uma clara relação positiva do sonho com a prova com o desempenho do candidato na mesma, tanto na comparação entre os diferentes argumentos do processo seletivo quanto nos índices finais de
aprovação. Podemos atribuir uma importância adaptativa ao fenômeno do sonho, uma vez que este minimizou os efeitos deletérios da dificuldade; além do nível de mobilização psicobiológica (preocupação na vigília) em torno de um evento futuro (de alta relevância para o sucesso adaptativo do indivíduo) predizer sua ocorrência. Uma análise dos relatos dos sonhos com a prova poderá nos indicar como funcionaria essa correlação do sonho com o desempenho.
O tom emocional do sonho com a prova apresentou um padrão de U invertido (Gráficos 29 a 32), com tendência de melhor performance para sonhos Neutros, comparativamente a Pesadelos e Sonhos Agradáveis. Tal padrão de curva segue a lei de Yerkes-Dodson (Teigen 1994), que relaciona ativação (englobando ansiedade, estresse e atenção) com performance. Neuro-cognitivamente, o desempenho na prova pode estar associado com a capacidade de acessar conteúdos específicos adequadamente inseridos em uma matriz neural, além de plena articulação das funções Executivas. Durante o longo período de preparação para o vestibular, sucessivos ciclos de vigília (estudo) e sono contribuiriam com a retenção, reforço e articulação dos assuntos que serão cobrados nas provas. Ao mesmo tempo, tal conteúdo deve ser acessível mesmo em um contexto de ansiedade e pressão (evitando os chamados “brancos”). Isso explicaria a tendência de melhor desempenho observado para os sonhos com tom emocional neutro (e ansiedade baixa e média), que provavelmente estão relacionados à circunscrição (definição, ou preparação) da matriz neural específica necessária para a situação única das provas. Ou seja, não é necessariamente um processamento restrito (sonhar somente com o dia seguinte), mas um processo contínuo nos diversos ciclos de vigília e sono (e dentro deste, ciclos Ondas Lentas e REM).
A ansiedade no sonho com a prova (Alto para a maioria) também apresentou um padrão de U invertido, ainda que bem menos evidente (Gráficos 33 a 35). Não devemos desconsiderar que cada candidato faz uma auto-avaliação mais ou menos consciente de seu real potencial e condições de sucesso, que indiretamente pode estar expresso através de ansiedade durante o sonho. De fato, ao observamos apenas o grupo com Ansiedade Alta, aumentou o índice de pesadelos e diminuiu a tendência de melhor desempenho para os sonhos neutros (Tabela 15, Gráficos 36 a 38).
Realizamos uma análise considerando a hipótese de que aqueles que sonharam com o ato da prova, e principalmente com o conteúdo provável da mesma, apresentariam os melhores desempenhos, o que não foi comprovado pelos nossos dados (Tabela 18). Além de um viés da amostra reduzida (12 sonhos de 43), o que mais isso poderia significar? De modo geral, os chamados vestibulandos se preparam com antecedência de pelo menos alguns meses para o processo seletivo, seja freqüentando cursos preparatórios, estabelecendo um roteiro de estudos e participando de provas simuladas. Mesmo que se candidate a processos seletivos de outras faculdades (e carreiras), normalmente o vestibulando foca uma das provas como meta principal, sendo a UFRN referência no estado do Rio Grande do Norte. Conforme o dia D se aproxima, valorizam-se os simulados, tanto como forma de testar o nível de conteúdo aprendido e sua capacidade de articulação, quanto preparar emocionalmente o candidato reproduzindo características da prova (tamanho, duração, etc). De forma análoga, podemos considerar o sonhar como um tipo simulação, mas com características únicas e distintas, como veremos a seguir.
Aparentemente, tal simulação não deve ser tão real e exata, se considerarmos melhor desempenho para Vividez Média do que Alta (Gráficos 39 a 41) e o fato de que sonhar exatamente que faz a prova não apresentar melhor desempenho. Uma das possíveis justificativas pode ser o caráter artificial do vestibular, um desafio sem equivalentes no ambiente natural: horas de desafio intelectual com participação motora extremamente limitada. Ao mesmo tempo, existe a aproximação do fenômeno onírico como um todo com o fenômeno do brincar (Cheyne 2000), um tipo de simulação online capaz de gerar aprendizado sem riscos com aplicações indiretas na prática (por exemplo, um filhote de predador pode experimentar também o papel de presa). Justamente por ser offline (estar fora da realidade), o sonho é muito mais efetivo em simular cenários extremos e drásticos mantendo ainda a integridade do organismo, do mesmo modo que um piloto em treinamento em um simulador de vôo interage com difíceis cenários de risco extremo. Isso explicaria a dificuldade de esclarecermos qual foi o aspecto onírico decisivo para o melhor desempenho observado: o importante não é exatamente com o que se sonha, mas sim o fato de sonhar.
Assim, tal simulação iria além do contexto da prova em si, com a importante tarefa de salientar o aspecto determinante do evento futuro para o sucesso adaptativo do sujeito através das possíveis recompensas oriundas do sucesso (sonhos agradáveis) e das adversidades de uma falha (pesadelos).
A partir de uma análise qualitativa dos relatos oníricos dos candidatos com melhor desempenho, podemos observar que o candidato I realmente sonhou que
fazia a prova, mas no sonho não conseguia se aprofundar em uma resposta. Ou seja, a simulação nesse caso poderia estar apontando para possíveis falhas na preparação do candidato (o conteúdo ainda não estaria pronto). Tal processamento parece independer do nível de consciência do sujeito em relação ao fenômeno ou do papel da interpretação do sonho pelo sonhador, como ilustra o candidato II, que não costuma lembrar-se de seus sonhos de modo geral, mas recordou a ocorrência de sonhos desagradáveis com a prova (mas não do conteúdo em si). O candidato III espontaneamente nos relatou um pesadelo, no qual recebia o resultado que havia sido reprovado, e um sonho que considerou agradável, no qual conseguia responder uma questão sobre um conteúdo específico e sentia-se satisfeito com isso. Sua preocupação na vigília com a aprovação no vestibular continuou influenciando seu conteúdo onírico mesmo após as provas, tal como vemos em seu Sonho Mais Recente (sonhou que fora aprovado). Por fim, o candidato IV relatou um sonho agradável em que já tinha sido aprovado e freqüentava o ambiente acadêmico, já familiarizado com os colegas. Dentre esses casos com melhor desempenho, foi o único concorrente reprovado, e o único a simular a recompensa após o evento. Considerando seu Sonho Mais Recente, o oráculo biológico previu seu fracasso.
Progredindo para a análise dos sonhos dos candidatos com pior desempenho, vemos no relato do candidato V o mesmo fenômeno observado no candidato IV, um sonho em que o sujeito já realizou a tarefa e participa do meio social almejado (ambiente universitário). Já os candidatos VI e VII apresentam pesadelos de estrutura muito semelhante, nos quais o sonhador, por algum motivo, não consegue realizar a prova (no caso VI, chegou atrasada ao local da prova, e VII esqueceu o cartão de inscrição no vestibular).
Mesmo que não adaptativo, simular a recompensa pode na verdade sinalizar para o indivíduo a necessidade de maior mobilização para o sucesso na situação vindoura, talvez direcionando as atitudes na vigília através um reforço “endógeno”. Do mesmo modo, o pesadelo estaria simulando as conseqüências deletérias de uma possível falha (como observado naqueles com melhor desempenho), ou ainda uma possível reação de fuga (evitar a tarefa, no caso daqueles com pior desempenho). Considerando a hiperativação do sistema límbico durante o sono REM (em comparação com a vigília), podemos considerar que as emoções modulam não só o processamento de memórias que acontece durante o sono (saliência emocional), mas o próprio conteúdo onírico. Com a influência límbica, memórias prazerosas (principalmente sociais) seriam combinadas para gerar um sonho agradável. No caso do pesadelo, uma possível reação de fuga evocaria memórias que seriam combinadas para simular as prováveis conseqüências dessa fuga para o indivíduo (pesadelo que não consegue fazer a prova). Interessante, ambas as ocasiões podem ser lidas como uma forma de realização de um desejo (‘Ser aprovado’ ou ‘Evitar a tensão’) que Freud postulou ser a principal função dos sonhos (Freud 1900), e que estes seriam uma porta para o inconsciente (que influenciaria todo comportamento consciente).
Nossos achados ilustram um interessante aspecto para a compreensão da função onírica: Cartwight e colaboradores (
Cartwright
,Agargun
et al. 2006) demonstraram um papel do sonho na regulação emocional do indivíduo, já que pacientes deprimidos apresentavam melhoras correlacionadas com a riqueza das associações entre a imagem do ex-cônjuge e a rede de memórias. Individuos sãos,assim, apresentaram maior neutralidade em relação a tais traços de memórias. No presente trabalho, encontramos uma tendência de melhor desempenho para sonhos neutros. Ou seja, os sonhos podem refletir (ou são responsáveis por) uma adequação da rede neural para um progressivo descolamento do tom emocional, tanto em função do passado (no caso, o luto em função do divórcio) quanto em função do futuro (a prova do vestibular). Os mecanismos neurais ainda não são claros. Uma possibilidade seria a interferência da adrenalina sistêmica (liberada na vigília) no locus coeruleus durante o sono REM, o que explicaria o achado (Ribeiro, Goyal et al. 1999) de expressão gênica de zif-286 no encéfalo de animais expostos a ambientes novos e ricos, mas não no grupo controle (a expressão gênica é altamente dependente da integridade do sistema noradrenérgico, inativo no sono REM).
CONCLUSÃO
Nossos dados mostram uma correlação positiva entre o desempenho na prova do vestibular e sonhos antecipatórios com o evento. A ocorrência desses sonhos reflete uma preocupação da vigília, como encontrado na literatura (
Cartwright
,Agargun
et al. 2006) mas neste caso para eventos vindouros. Além do envolvimento no processamento de memórias e a capacidade de simular (testar) tal preparação (sonhar com o ato da prova ou o conteúdo), os sonhos parecem ter um papel importante na determinação de comportamentos ecologicamente relevantes na vigília (sonhos em que já fez a prova ou não consegue fazê-la), simulando possíveis cenários de sucesso e fracasso para maximizar o sucesso adaptativo do indivíduo. Estudos futuros serão importantes para corroborar tal associação entre sonho antecipatório e desempenho, além de elucidar os limites dessa relação, as diferenças para outros sonhos gerais, o papel da interpretação do sonhador (ou do nível de consciência) (Morewedge & Norton 2009), a relação com a capacidade de imaginação da vigília, e os mecanismos neurais subjacentes ao fenômeno.BIBLIOGRAFIA
Aserinsky, E. & Kleitman, N. 1953. Regularly Occurring Periods of Eye Motility, and
Concomitant Phenomena, During Sleep. Science 118(3062): 273-274.