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Estamos realmente a uma distância considerável da data em que nasceu Platão, cujo verdadeiro nome é Aristocles, proveniente de uma família de nobres aristocratas, em Atenas. Sobre sua filiação, linhagem e nascimento quem nos conta é Diôgenes Laêrtios: “Era filho de Aríston e de Perictione – ou Potone – que fazia sua ascendência recuar a Sólon [...] Dizem ainda que seu pai traçava sua ascendência até Codros, filho de Melantos.” 382; portanto, a partir de uma linhagem aristocrática, ele contava, na verdade, entre os seus ascendentes o lendário rei Codros, e também ascendia a Sólon, (640 a. C. – 558 a. C.), o grande responsável pela reforma política de Atenas, posteriormente aperfeiçoada por outros dois estadistas, Clístenes (565 a. C. – 492 a. C.)

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LAÊRTIS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução o Grego, Introdução e Notas. Mario da Gama Kury. Brasília: UNB, 1998. (Coleção Biblioteca UnB). p.85.

e Péricles, (495 – 429 a. C.). Assim, tanto por parte de seus pais paternos, como por parte dos maternos, sua descendência remete aos políticos da pólis, e dos antigos reis de Atenas. Platão parece ter conhecido Sócrates (469 a. C. – 399 a. C.) provavelmente no interior de sua própria família, pois ele era amigo de seus parentes. Conforme esse mesmo autor, Platão passou a ouvi-lo ainda bem jovem, mesmo porque a juventude da elite da pólis sabia que, além de estudar filosofia, deveria também se preparar para a carreira política, portanto, “[...] aos vinte anos tornou-se discípulo de Sócrates.” 383 A educação de Platão não poderia ser diferente dos demais jovens da pólis, certamente deve ter aprendido a música, bem com a ginástica, a arte da retórica e, sobretudo, uma formação política. Desde muito cedo sua vida está envolvida com as questões da política de Atenas, mesmo porque sua mãe era prima de Crítias, (450 – 404 a. C.) um dos principais representantes do governo oligárquico. Crítias participou intensamente da vida política de Atenas, é quem organiza o Governo dos Trinta, – uma espécie de liderança governada por trinta magistrados atenienses após a derrocada da democracia grega.

Platão sabe que tais políticos não fazem outra coisa senão destruir os caminhos da justiça. Nesse ínterim, a sua perspectiva política é estritamente ética. A morte de Sócrates fez com que Platão frustrasse em relação à carreira política. O maior desgosto de Platão é a morte de Sócrates, seu professor e mestre. Sócrates morrerá pelas mãos dos democratas que estavam no poder de Atenas. A morte de Sócrates foi fundamental para que Platão pensasse em uma nova atututde. Ele é o mais fiel aluno de Sócrates e, talvez, o filósofo mais combatido em Atenas. Sócrates foi morto pela lei de Atenas; em outras palavras, a norma, a legalidade e a constituição de sua cidade Atenas; acabaram por assassinar seu professor e amigo. O que poderá ser a justiça para Platão? O que será que Platão pensa das leis e das normas de sua cidade? Em que medida essa constituição de Atenas é justa para Platão? O que é, na verdade, a justiça para Platão?

Ele segue sua carreira filosófica com profunda dor e remorso pela morte de Sócrates. Ele não aceita o fato. Por isso, ao longo de sua trajetória existencial, segue procurando homens justos e sábios, homens de bem que consigam governar justamente sua cidade. Essa foi sua incumbência. “Suponhamos que nunca antes dele tenha a filosofia assumido tanto brilho, nem depois dele. Mesmo traduzido, seu estilo é todo

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centelha e efervescência.” 384 Descrevendo a personalidade política desse filósofo, expressa François Châtelet, que “[...] esse jovem de boa família, prometido ao mais belo destino de um político, renunciou-se à carreira que poderia ter justamente por causa da morte de Sócrates.” 385 Nos diálogos filosóficos de Platão, a natureza política da formação do rei - filósofo ou do filósofo – rei, é sem dúvida a sua maior intenção

educativa, ancorado a partir da ideia do Bem, ancorado essencialmente na constituição, nas leis, o filósofo propugna um governo para uma pólis justa. Também em Leis, Platão conserva seus objetivos formativos, de acordo com Finley, ele escreveu essa obra mais ou menos perto dos oitenta anos, tais escritos condesam um projeto para pólis – para o Estado. Podemos afirmar então, que ele projetou a justiça e o cuidado tal qual elaborou em A República, mas agora, os objetivos formativos visam todos os cantos da pólis, portanto, “[…] abarca a regulamentação de todos os pormenores possíveis na vida dos cidadãos, estrangeiros – não os Dez mandamentos, mas dez mil com penas cuidadosamente graduadas para cada tipo de infração.” 386 Em suma, acima de qualquer crítica, para além de qualquer oposição, Platão revela aqui, o cuidado com a cidade, o zelo com o Estado, e, sobretudo, a disposição para fazer reinar a justiça, o direito na vida de cada cidadão.

No mesmo ano da morte de Sócrates, Platão e outros alunos socratianos decidem ir para a cidade de Megara, ficando “[...] como hóspedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). Mas não deve ter estado muito tempo em Megara.” 387 A partir de então, Platão faz inúmeras viagens: passa pela Itália, depois vai até o Egito, entre outras regiões. Nessas viagens, conhece novas filosofias, entra em contato com a filosofia de Heráclito (540 – 480 a. C.), conhece Crátilo, discípulo imediato desse, logo, aprofunda com precisão os conhecimentos dessa escola. Entra em contato também com a filosofia de Pitágoras (século V a C.), também acompanhou e frequentou os seguidores desse filósofo. Sobre essas viagens, Henri Bergson nos informa:

384 DURANT, Will. História da Filosofia. Vida e ideais dos grandes filósofos. Tradução de Godofredo Rangel e Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1926. p.35.

385 CHÂTELET, François. Uma história da razão. Entrevistas com Émile Noel. Prefácio Jean-Toussaint. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1994. p.22.

386 FINLEY. Moses. I. Os gregos antigos. Tradução. Artur Morão. Revisto Por Dr. José Ribeiro Ferreira. Lisboa: Edições 70, 1963. p.115.

387 REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. II Platão e Aristóteles. Tradução Henrique Cláudio de Lima Vaz, Marcelo Perine. São Paulo. Edições Loyola, 1994. (Série História da Filosofia). p 8.

A morte de seu mestre foi um golpe terrível para ele. Tentou em vão defendê-lo e, após a condenação de Sócrates, deixou Atenas. Viajou para a África, a magna Grécia, a Sicília. É na Sicília, sobretudo, que parece ter aprofundado a filosofia pitagórica. È lá que teve aventuras romanescas como poucos filósofos tiveram. 388

Durante mais de uma década peregrinando, sempre buscou aperfeiçoar sua formação, como aludimos anteriormente, sendo de família abastada, sua educação desde muito cedo foi brilhante. “Era eminentemente artista, mesmo quando se tornou filósofo.” Agora, nessas viagens, cada vez mais, impregnava “[...] de todas as fontes de sabedoria.” 389 Aproximadamente pelos anos de 387 a. C., retorna a Atenas, com o espírito amadurecido, inundado de sabedoria dos lugares e terras distantes por onde passou. Platão dá início à sua carreira de educador. Assim como Sócrates começa a angariar discípulos, [...] procurava nos ginásios e alhures jovens inteligentes, nos quais desperta o gosto pela filosofia. ” 390 Seus ensinamentos são ensinamentos novos e essa filosofia anunciada não difere da dos diálogos que conhecemos.

Com a ideia e a pretensão de um projeto mais ambicioso em torno das questões políticas, empreende-se numa nova viagem. “Sabe-se, todavia, que em 388 a.C. foi recebido na corte do tirano Dionísio de Siracusa.” 391 Platão ainda faz três grandes viagens para Siracusa, na região da Sicília, na tentativa de colocar seu projeto educativo em prática, mas essa intenção falhou e, em razão disso, não foi realizada. Bernard Piettre afirma:

Esse projeto não constituía somente um sonho do filósofo, pois não era estranho à formação dada aos alunos da Academia. Além disso, Platão alimentou a esperança de vê-lo, de certo modo, concretizar-se. Acreditou, nesse sentido, encontrar na figura de Dion, cunhado de Dionísio de Siracusa, a reunião providencial entre o filósofo e o político. 392

Mesmo não realizando seu projeto em Siracusa, seu programa de estudos, sua concepção política e ética, sua concepção de sociedade, seu pensamento educativo, foram sendo reconhecidos. Em Roma, descrevendo sobre as consequências dos males e dos bens públicos, o filósofo Cícero (106 – 43 a. C.) procura reproduzir para os

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BERGSON, Henri. Curso sobre a filosofia grega. Tradução. Bento Prado Neto. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.296.

389 DURANT, Will. op. cit. p.34. 390 BERGSON, Henri. op. cit. p.296.

391 N.T. In: PLATÃO. A república livro VII. p.18. 392 N.T. ibid. p.19.

romanos os mesmos princípios que Platão desenvolveu em A República. O filósofo expressa:

Platão dividiu seu território, com suas moradas e riquezas, entre os cidadãos, em parte iguais, e estabeleceu sua República, tão fácil de desejar quanto difícil de possuir, e que vinha a ser menos um plano suscetível de realização do que um modelo em que se pudessem estudar todos os expedientes da política. Por minha parte, tanto que possa consegui-lo, tentarei aplicar princípios idênticos, não ao vão simulacro de uma sociedade imaginária, mas à ampla e poderosa República, de modo que se possa assinalar a causa dos males e dos bens públicos. 393

Sobre sua estada em Siracusa, Platão tinha uma profunda amizade com Dion, genro do tirano Dionísio (430-367 a. C.), que governava Siracusa entre os anos de 403 a 367 a. C. Esta amizade rendeu a Platão novas expectativas e novas esperanças para colocar seu projeto em prática. “Essa ligação com Dion, – talvez o mais forte laço afetivo da vida de Platão – representa também o início de reiteradas tentativas para interferir na vida política de Siracusa.” 394 Após a morte de Dionísio, seu filho, denominado também Dionísio, assumiu o governo em Siracusa. Nesse ínterim, Dion queria realizar o projeto de Platão, associando o novo dirigente ao rei-filósofo, maso fato é que Dionísio não se prestou a isso.

Coincidindo com a sua segunda viagem de volta da Sicília, Platão funda a sua própria escola – a sua Academia. Não temos muitas notícias sobre a organização dessa escola, mas com base em estudos sobre o tema, parece que ali não havia cursos regulares. Ainda, os estudiosos que comentam Platão, em considerável parte, entendem que a própria história da academia está vinculada pelo filósofo, existe uma especulação sobre a existência desta escola. Após a morte de Platão, essa escola foi ganhando forma e corpo, e permaneceu assim por durante muitos ao desenvolvimento do pensamento de Platão, ou seja, de acordo com os temas pesquisados séculos, haja vista que não são poucos os nomes que ficaram registrados na história e que sucederam o mestre. O sucessor primeiro foi Espeusipo, (408 – 339 a. C.) seu sobrinho. O segundo é Xenócrates (406 – 314 a. C.) que conduziu a escola provavelmente por mais de vinte e cinco anos (339 – 314 a. C.). O próximo nome é de Polémon de Atenas, (314 – 270 a. C.) Entre os nomes dos discípulos imediatos de Platão estão também: Heráclides do Pontico (390 – 310 a. C.) , Exodos de Cnidos (390 – 338 a. C.) e, finalmente, Filipo de

393 CÍCERO, Marco Túlio. Da República. II, 30. 394 N.T. In: PLATÃO. Diálogos (Pensadores) p. XI.

Opunto (339 – 314 a. C.). Podemos, por assim dizer, que a academia de Platão era um local reservado para o estudo. Bernard Piettre referindo-se a ela, explica:

O que é a Academia? Uma escola mais ou menos inspirada nas seitas pitagóricas. Para entendê-la, é necessário imaginar uma espécie de universidade que comporta salas de estudo e reuniões, bibliotecas, museus, e também salas de refeição em comum, de ambulatórios semelhantes às nossas capelas, onde eram realizados certos cultos. 395

Esse local, sobretudo, está reservado para os estudos, ali se ensina a matemática, a geometria a medicina, a astronomia, a botânica, a retórica e a própria filosofia. Durante esse período entre as viagens a Siracusa e a fundação de sua escola, Platão dá início à sua obra escrita, ou mais especificamente, ele dá início aos seus ensinamentos e, justamente nesse período, escreve seus primeiros diálogos, em grande parte conhecidos como os diálogos socráticos, mesmo porque Sócrates acaba sendo o principal personagem de Platão.

Cerca de 387 a. C., Platão funda em Atenas a Academia, sua própria escola de investigação científica e filosófica. O acontecimento é da máxima importância para a história do pensamento ocidental. Platão torna-se o primeiro dirigente de uma instituição permanente, voltada para a pesquisa original e concebida como conjugação de esforços de um grupo que vê no conhecimento algo vivo e dinâmico e não um corpo de doutrinas a serem simplesmente resguardadas e transmitidas. O que se sabe das atividades da Academia, bem como a obra escrita por Platão e as notícias sobre seu ensinamento oral, testemunham sobre essa concepção da atividade intelectual: antes de tudo busca a inquietação, reformulação permanente e multiplicação das vias de abordagens dos problemas, a filosofia sendo fundamentalmente filosofar – esforço para pensar mais profunda e claramente. 396

Antes de retornar definitivamente para Atenas, Platão sofreu o último golpe em Siracusa, ao tentar uma última intervenção política para colocar em prática seu projeto, acabou por se tornar um escravo naquela região, porém com auxilio de terceiros consegue dali se evadir. Dionísio, o filho, acabou tendo Platão e Dion como adversários e o projeto não vingou.

Com efeito, em 361 a. C., Dionísio convida-o a voltar. Nada, porém, estimulava Platão a retornar à Sicília depois da experiência malfadada das duas viagens precedentes. Somente Dion, exilado, insiste para que

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N.T. In: PLATÃO. A república livro VII. p.18. 396 N.T. ibid. p. XII.

aceite sob os argumentos de que Dionísio ficaria consideravelmente lisonjeado e revelaria um gosto e disposições verdadeiras para a filosofia. Platão não deveria deixar que se apagassem essas boas disposições em um governante. Pelo sim, pelo não, o filósofo retorna, pela terceira vez à Sicília. Mas, novamente, Dionísio se revela inflexível, certamente porque Platão havia reclamado, com muita insistência, que Dion retornasse do exílio. Dionísio confisca os bens de Dion e obriga Platãoa permanecer em Siracusa, de onde, não sem dificuldade, o filósofo consegue partir ao fim de um ano, graças à intervenção de Arquitas de Tarento. 397

Mas, a intenção de Platão era verdadeiramente realizar esse projeto, tal como escreveu: “Foi tendo isso em mente que cheguei à Itália e à Sicília pela primeira vez.” 398 No ano 360 a. C. Platão volta definitivamente para sua escola, permanecendo nela até o final de sua vida. É nesse período que ele vai compor a obra Leis. Composta por doze livros, a reflexão desta vez tem a ausência do seu mais nobre e personagem e amigo: Sócrates. Os ensinamentos platônicos chegam até nós de forma completa: ao todo, são trinta e seis escritos subdivididos em nove tetralogias. 399 Sobre isso, Giovanni Reale confirma: “Os escritos de Platão chegaram-nos integralmente. A ordem que lhes foi dada (trabalho levado a termo pelo gramático Trásilo, mas iniciado antes dele) baseia-se no próprio conteúdo dos escritos.” 400

O segundo fator introdutório que precisa ser aclarado é a questão literária da obra platônica. Os diálogos que Platão redigiu são derivados da vida prática de Atenas. O que ele escreveu está voltado para as coisas humanas que é senão: os valores, as atitudes, os comportamentos que os indivíduos cultivam dentro da cidade. As atitudes e os comportamentos são questões da vida do cotidiano da pólis. Platão não tira sua filosofia do nada, ao contrário, ele afirma sua investigação nas atividades humanas. O mundo dos afazeres humanos está presente na sua concepção educativa de regeneração e conversão. A filosofia, tanto de Platão como a de seu discípulo Aristóteles, não desconhecem essas experiências de vida do cotidiano da pólis que constituem o universo humano. Já sabemos, Platão está preocupado com universo educativo da pólis. Seu interlocutor, Sócrates, na obra, Mênon, expressa: “[...] também me encontro nesse

397 N.T. In: PLATÃO. A república livro VII. p.19. 398 PLATÃO. Carta VII. 326-5.

399 Tetralogia significa trabalho artístico produzido por obras diferentes, distintas. No mundo grego, a palavra tetralogia estava ligada ao conjunto de quatro peças teatrais. O conjunto das obras de Platão constitui o Corpus Platonicum, formado por (43 obras), das quais, (07 inautênticas). “Trásilos diz que Platão publicou seus diálogos em formas de tetralogias, à semelhança dos poetas trágicos, que participavam das competições dramáticas – as Dionísias, as Lênaias, as Panatenaias e o Festival dos

Quíftroi. A última das quatro peças era um drama satírico, e as quatro peças juntas chamavam-se uma tetralogia.” In: LAÊRTIS, Diôgenes. op. cit. p.98.

estado. Sofro com meus cidadãos da mesma carência no que se refere a este assunto [...]” 401 Sócrates e Mênon estavam querendo saber como um homem poderia tornar-se virtuoso e, portanto, as ideias de conversão e regeneração estavam presentes de modo subliminar nos diálogos dos personagens platônicos

Para Cesar Nunes, a filosofia platônica adquire esse modo de conversão, “[...] de fuga e superação das coisas, sensíveis e perecíveis, dos erros e percalços do mundo material, para uma contemplação absoluta, incontestável, fundante de toda a ordem e verdade, critério de todo o saber e plenitude.” 402 De acordo com Platão, se as cidades não forem governadas pelos filósofos formados na justiça, na autenticidade, sobretudo nos valores que elevam e enobrecem o ser humano, muito pouca coisa pode mudar a realidade corrompida das poleis.

Sem dúvida, esse critério contribui bastante para que possamos entender sua concepção educativa, mesmo porque Platão não é autor dos nossos tempos. Ele fala para outro tipo de civilização mas, no entanto, suas palavras têm conotação profundamente contemporânea. É como se ele estivesse aqui, seus diálogos não são de forma alguma diálogos intemporais. As críticas que sempre recebeu e recebe não são, senão outra coisa, uma tentativa de destronar seus diálogos. O viés político educativo é inconfundível. Precisamos saber como ele escreve e como traduz sua forma de pensar. Em outras palavras, saber como ele traduz sua forma de pensar para sua obra escrita. Ao redigir, ele o faz a partir de diálogos e, ao mesmo o tempo que o faz, não transcreve objetivamente, isto é, ele não escreve sua obra, seus escritos, nem traduz seu pensamento como primeiro autor.

O modo como Platão escreve é caracterizado por perguntas e respostas em torno de alguma questão. Assim, os personagens procuram resolver o problema a partir de um diálogo, mais precisamente, a partir de uma disputa. O narrador da vida dos filósofos, o biografo e também historiador, Diôgenes Laêrtios (200 – 250 a. C.) atesta que Platão é o criador primeiro da dialética. De acordo com suas pesquisas não existe nenhuma dúvida que realmente não seja de fato Platão, o verdadeiro criador dos diálogos, é dele o pleno direito de reivindicação dessa herança literária. O estilo é inconfundível, a clareza da exposição linguística é bela; o domínio e a criação faz de

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PLATÃO. Mênon. 70 b.

402 NUNES Cesar Aparecido. As origens da articulação entre Filosofia e Educação: matrizes conceituais e notas críticas sobre a paideia antiga. In: LOMBARDI, José Claudinei. (Org.). Pesquisa em Educação: história, filosofia e temas transversais. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 1999. p. 57- 75 (Coleção HISTEDBR). p. 65.

Platão um artista e, ao mesmo tempo, poeta e filósofo. O diálogo nada mais é do que um debate composto de perguntas e respostas. É um discurso tanto filosófico como político e, o que caracteriza esse diálogo, são os personagens. São eles que dão a tonalidade e a elucubração na conversa. Sobre o diálogo - a dialética, bem como sobre a natureza e arranjo dos discursos de Platão, quem nos fala mais uma vez é Diôgenes Laêrtios:

A dialética é a arte da discussão com o objetivo de refutar ou aprovar uma tese por meio de perguntas e respostas dos interlocutores. [...] Ora, Platão, quando tem uma convicção firme, expõe seus pontos de vista e refuta os pontos de vista falsos, porém, diante de questões obscuras ou dúbias, suspende o juízo. Suas opiniões pessoais ele apresenta por meio de quatro personagens: Sócrates, Timaios, o hóspede ateniense e o hóspede eleático. 403

Portanto, ao redigir, Platão seleciona seus personagens; nunca se apresenta como o autor primeiro, quem por ele fala não é ele, mas sim, seus personagens. De acordo com as reflexões de Diôgenes Laértes, para refutar as opiniões falsas ele serve, por exemplo, dos personagens: Trasímaco, Calicles, Polos, Protágoras,