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Antes de iniciarmos a reflexão sobre o projeto platônico podemos afirmar que sua intenção ao construí-lo tem uma única finalidade: a justiça. Parece que Platão tem uma necessidade constante, fazer reinar a justiça na sua sociedade. Ao ensinar seus discípulos ele não os ensina do nada ou de um lugar que não se sabe, ao contrário, ele extrai os conhecimentos e saberes que estão vivos e presentes na história, e na realidade da pólis de sua época. Sobre isso, escreve Bernard Piettre: “Pode-se, igualmente, considerar as sombras da caverna como a projeção de outro espetáculo, tão familiar aos atenienses: os quadros vivos, relativos à história de Deméter e de Core, [...]”441 O projeto educativo criado por ele visa apenas formar uma classe: a dos proprietários do poder de Atenas de sua época: “Tudo indica que essa classe, naturalmente pouco numerosa, é que detém o único conhecimento digno de ser denominado sabedoria.” 442 Especificamente, na alegoria da caverna, ele descreve o sentido do processo pedagógico cuja finalidade é formar o dirigente da pólis. Esse sentido político platônico se funda na cultura e na história da pólis a partir de seu engendramento. Daí, o direcionamento teórico do segundo capítulo: investigar no plano histórico e cultural como Platão concebe seu viés político – essencialmente educativo.

No início do segundo livro, Glauco indaga decididamente a Sócrates: “[...] queres apenas deixar a impressão de que nos convencestes, ou desejas, de fato, capacitar-nos de que a justiça, de qualquer forma, é sempre superior à injustiça?” 443. Glauco rejeita as argumentações elaboradas por Trasímaco, considerando-as inadequadas de acordo com sua educação. Para Glauco, a justiça na concepção de Trasímaco não se constitui como um bem em si, é senão, uma espécie de obrigação,

441 N.T. In: PLATÃO. A república livro VII. p. 91. 442 PLATÃO. A República. 429 a.

como se fosse apenas um contrato social. Nesse caso o indivíduo só a deseja, só a pratica, tendo em vista benefícios e vantagens que essas possam proporcionar-lhe. Não sendo um bem em si, fica presa e amarrada ao compromisso, assim como um pacto social e, portanto, um bem menos amado, menos querido.

As opiniões são muitas e o debate prossegue naturalmente, Glauco expressa também a sua. “Dizem que, por natureza, praticar a injustiça é um bem e ser vitima da injustiça, um mal [...] Na qualidade de um meio termo entre ambas, não é amada a justiça, como um bem, mas apenas tolerada.” 444 Glauco, em seu exame sobre a distinção dos conceitos do indivíduo justo e injusto, envereda por caminhos e labirintos tortuosos, trilhas essas, transmitidas pelos antigos poetas da antiguidade arcaica da Grécia. Ele descreve a história do anel legendário do pastor de Giges. 445 Essa história contada e cantada pelos antigos poetas fala de certo indivíduo que para ser quisto perante os demais deveria ter atitudes como o do pastor de Giges. A história conta que, tendo o pastor se apossado de um anel mágico, arroga-se no direito de um poder ilimitado. Na lendária fábula, o pastor acredita que tudo é possível fazer: destruir, roubar, enganar e matar, tendo em vista a liberdade.

Pois, o indivíduo com semelhante poder que não decidisse a praticar nenhuma injustiça, nem tocar nos bens alheios, seria tido na conta de infelicíssimo pelos observadores, e inteiramente destituído de senso, muito embora uns para os outros o elogiassem, enganando-se mutuamente, de medo de virem a ser vítima de alguma tramoiade qualquer deles. 446

Nessa escalada investigativa e na tentativa de compreender os conceitos da justiça e da injustiça, os interlocutores cada vez mais ficam apreensivos diante dos discursos, assim eles citam muitos versos que fazem parte da formação educativa da época dos antigos poetas. Glauco e Adimanto conhecem bem essas fábulas e outras histórias, que tantas vezes escutaram e tiveram que aprender. Falam eles das de Hesíodo, ora citam as de Ésquilo, tantas vezes repetem versos de Píndaro, bem como os de Homero. Quantas vezes eles escutavam o mesmo canto, as mesmas histórias, muitos livros: reclama Adimanto: “Trazem, também, livros aos montes, de Museus e Orfeu, filhos de Selene e das Musas [...]” 447, esse modelo educativo, o discurso sobre a justiça

444 PLATÃO. A República. 359 b. 445 ibid. 369 d.

446 ibid. 360 d. 447 ibid. 365 a.

e injustiça, explica Adimanto, é uma espécie de discurso que circula nas praças e no espaço público. “Todos esses discursos, meu caro Sócrates, continuou, em tantas variações acerca da justiça e da maldade e da estima em que são tidas pelos homens e pelos deuses, que impressão imaginamos possam deixar na alma dos jovens que os escutam?” 448 Diferentemente do discurso da injustiça, o caminho da justiça é um caminho que exige e deve ser tratado com cautela e precisão. Adimanto, preocupado com a educação dos jovens da pólis, assevera: “Refiro-me aos bem-dotados e capazes, por assim dizer, de apanhar, do que ouvem, de passagem e como num vôo, a conclusão de como devem percorrer para atravessarem a vida do melhor modo possível.” 449

Nesse trecho podemos perceber claramente que Platão, pela boca de Adimanto, fala dos bem-dotados: é possível perceber a ideia de uma educação seleta e amarrada ao caráter aristocrático do filósofo. De todas as maneiras possíveis, os irmãos procuram incitar cada vez mais Sócrates, na esperança que este pudesse intervir em algum momento no diálogo. Recorramos agora ao trecho de uma interpretação que Platão dá ao personagem Adimanto que, num tom muito angustiado, expõe a problemática do sistema formativo da pólis. Adimanto se encontra derrotado, sente-se corrompido e traído pela sua própria formação e educação.

Meu admirável amigo, todos vós que vos apresentais como paladinos da justiça, desde os heróis da antiguidade, cujos escritos nos foram transmitidos até os homens de nossos dias, ninguém condenou até hoje a injustiça, ou fez o elogio à justiça a não ser por causa da reputação, das honrarias e dos benefícios dela decorrentes. Mas a maneira por que atua a justiça ou a injustiça na alma em que se encontrem, graças à virtude própria, sem que os deuses e os homens o saibam, ninguém ainda, nem em verso nem em prosa, fez a demonstração convincente de que uma é o maior mal que a alma possa ter em si mesma, e a outra, a justiça, o maior bem. Se assim nos tivésseis falado do começo e procurado desde a infância convencer- nos de semelhante verdade, não teríamos precisão de nos vigiarmos reciprocamente para não cometermos injustiça, pois cada um seria o melhor guarda para si mesmo, por medo de, com a prática de alguma maldade, agasalhar o maior mal. Tudo isso, Sócrates, e muito mais ainda, certamente Trasímaco e outros poderiam dizer a respeito da justiça e da injustiça, modificando, a meu parecer, por maneira imprópria, a natureza de ambas. 450

Adimanto, sem perder a sutileza e a habilidade no discurso, não menos sem veemência, longe do medo, com profundidade e franqueza, tendo declarado

448 PLATÃO. A República. 365 a.

449 ibid. 365 b.

anteriormente sua posição frente ao sistema educativo de sua época, reverencia a pedra de toque, convida seu mestre para que este possa tomar uma posição. A justiça entendida a partir da ideia do mais forte parece superar o conceito de justiça. A lei do mais forte que propõe Trasímaco parece ser uma coisa corriqueira na vida prática dos atenienses. Parece que a parte mais forte sempre supera a parte mais fraca. O próprio Aristóteles poucos anos depois, em Política reconhece isso quando estuda a legislação para Atenas. Ele alerta como princípio geral para toda e qualquer constituição: “[...] é essencial que a parte desejosa da perenidade da constituição seja mais forte do que a parte desejosa do contrário.” 451 O que será que os atenienses pensavam a respeito da massacrante vitoria que Tucídides narra no livro terceiro de sua obra História da

Guerra do Peloponeso, naquela ocasião mais de dez mil homens esmaga quinhentos homens de Melos. A lei do mais forte parece sempre imperar. Por isso, Adimanto cada vez mais, coloca Sócrates diante do espelho da justiça. Ele não admite o silêncio. Ele tem necessidade de ouvir do mestre, o parecer sobre a justiça; será ela verdadeiramente superior a injustiça? Ésta é uma dúvida não somente de Adimanto. Esta é uma questão crucial. O que é a justiça? Adimanto apressa em dizer a Sócrates, que fique de lado a reputação. É preciso despojar. Será que Sócrates não elogia a justiça nem censura a injustiça? Será que Sócrates está de acordo com Trasímaco em considerar a justiça um bem estranho? Será a saber, a vantagem do mais forte, vindo a ser a injustiça útil e vantajosa para si mesma, conquanto nociva para o mais fraco? São dúvidas terríveis para Adimanto. Não tendo mais necessidade de esconder nada de seu mestre, quer ver Sócrates defender a tese oposta até agora anunciada, logo, expressa com veemência:

Uma vez que admitiste ser a justiça um dos maiores bens, cuja posse é desejada tanto pelo que dela decorre como, e principalmente, por ela mesma, como a vista, o ouvido, a razão, a saúde e os demais bens que são operantes por sua própria natureza, não pela opinião que os homens fazem deles, então elogia também na justiça o que nela é de vantagem para o seu possuidor, e na injustiça, e na injustiça o que nela prejudica; deixa ao cuidado de terceiros o elogia das recompensas e da opinião. Na boca de outras pessoas, eu ainda poderia tolerar essa maneira de elogiar ou de reprovar a injustiça em que são exaltados ou condenados o prestígio ou as vantagens de uma e de outra. Porém de ti, que dedicaste a vida exclusivamente ao estudo dessa questão, espero coisa muito diferente, a menos que decidas o contrário. Não te limites, portanto, a declarar que a justiça é superior à injustiça, mas mostra-nos como cada uma atua por si mesma no seu possuidor e o

que faz de uma um bem e de outra um mal, quer seja vista ou não seja pelos deuses e pelos homens.452

Assim como as águas ferilizam, solidificam e dão vida às raízes já sem vida num solo árido, o lamento de Glauco e Adimanto, faz brotar do âmago de Sócrates uma convicção sobre um novo modelo de educação da pólis: a justiça ou a injustiça são conceitos que germinam num mesmo solo, conforme a educação do indivíduo, conforme será a situação da justiça e injustiça a ser praticadas na pólis. Sócrates não tem outra solução, senão convidar a todos os partícipes para refletirem juntos sobre a questão, com maior rigor e precisão. No entendimento de Sócrates, os dois irmãos aprofundaram e alargaram a compreensão inicial da justiça. A tarefa já era bastante árdua, ao seu parecer “[...] exigia vista penetrante.” 453

Por isso, Sócrates explica aos seus interlocutores que a questão da justiça e da injustiça não é apenas uma questão do indivíduo, mas de todos: é uma questão que deve ser teoricamente debatida a partir do contexto da cidade. Deve ser debatida no centro da vida pública. Não pode ser deliberada por grupos restritos, mercadores ou poderosos, muito menos, por alguns poucos interessados. A análise dos conceitos de justiça e de injustiça acaba por enveredar para um novo campo. Discute-se agora, entretanto, as vantagens e as desvantagens do indivíduo vivendo na cidade. Esse é um problema árduo. Por isso, quando atrelado fortemente ao campo das prerrogativas, dos privilégios, dos interesses, dos direitos, da regalia, a questão toma e ganha corpo na vida da pólis. A via, ou o desvio mais curto para atingir a finalidade do debate é a cidade. Os conceitos de justiça e de injustiça passam a ser refletidos no âmbito da comunidade. O que pode ser vantajoso para uns pode não ser para os outros, essa é a velha questão que ainda não é muito bem definida nem mesmo no nosso mundo contemporâneo. A questão é uma questão pública. A partir de então, Trasímaco, já acuado, não mais participa dos diálogos, somente ao final do debate é que Sócrates vai a ele remeter as conclusões sobre a investigação iniciada. Diz ele para os seus interlocutores.

Uma vez que não somos suficientemente idôneos, lhes disse, para levar avante uma investigação nessa base, proponho procedermos como alguém a quem mandassem ler de longe letras pequeninas e ocorresse a outra pessoa que havia algures letras iguais àquelas, porém em caracteres maiores e numa superfície mais larga; seria resolução

452 PLATÃO. A República. 367 b.

felicíssima começar a leitura destas e depois passar para as menores, para ver se eram realmente, iguais. 454

Estando todos os personagens do diálogo acordados quanto ao método e a forma de investigação, logo eles investigam a questão da justiça e injustiça na cidade para saber como ela ali se dispõe, para depois investigá-la no interior do indivíduo. Platão diz pela boca de Sócrates: “E não é maior a cidade do que o indivíduo?” 455 Poucos anos mais tarde, seu mais expressivo discípulo, Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), vai retomar esse mesmo princípio, para poder entender e compreender o sentido de civilidade dos cidadãos da pólis. Ao teorizar sobre a cidade, em seu primeiro livro,

Política, Aristóteles considera que essa também precede concretamente sobre o indivíduo e todas as suas particularidades, da mesma forma precede a família, a comunidade, esclarece ele: “Na ordem natural a cidade tem precedência sobre a família e sobre cada um de nós individualmente, pois o todo deve necessariamente ter precedência sobre as partes; [...].” 456 Tanto em Platão como em Aristóteles, há a concepção de que a cidade deve ter precedência sobre o indivíduo. Assim, Sócrates remete o debate da justiça e da injustiça para a esfera da cidade. Na compreensão de Platão, a reflexão, o debate, o diálogo que seus personagens apresentam só é justificado enquanto cidade. O conceito de justiça ou o próprio conceito de injustiça só tem sentido e é verdadeiro enquanto os indivíduos vivem juntos.

Nos diálogos de Platão e também nos escritos de Aristóteles, é possível perceber que esses dois filósofos reconhecem que a tradição educativa é a mais completa e perfeita para educar as crianças e os jovens da pólis. Em A República, diz Sócrates: “– Que educação lhes daremos? Será difícil achar outra melhor do que a que já foi encontrada no decurso do tempo, a saber: Ginástica para o corpo e Música para a alma.” 457 Partindo de Homero, apesar das críticas de Platão, ao antigo educador da

pólis, seu projeto educativo nasce dessa educação antiga. Assim, dessas raízes, ele começa a elaborar sua intenção formativa, tendo como fundamento duas disciplinas já existentes até então. Ginástica e música são duas matérias que de certa forma compunha o processo pedagógico da escola tipo grego. Em Homero, particularmente, esses dois ramos de conhecimento já visavam a formação do homem em sua omnilateralidade.

454 PLATÃO. A República. 368 d 455 ibid. 368 d.

456 ARISTÓTELES. Política. I, 1, 1253 a.

Diz Sócrates: “Segundo o meu modo de pensar, principiei, forma-se uma cidade quando nenhum de nós se basta a si mesmo e necessita de muitas coisas. Ou admites outra causa para o nascimento das cidades?” 458 Aqui, Sócrates quer mostrar aos seus interlocutores que o indivíduo não se basta, ou seja, é carente, é apetente. Assim, pela apetência e carência nascem as necessidades. O Estado, a cidade, a pólis, as classes, as instituições, as profissões e ocupações vão nascer exatamente pela carência do indivíduo, este não é autárquico, depende de outros indivíduos para viver. Em outras palavras, o indivíduo para viver cria necessidades e elas são múltiplas, variadas. Para viver e sobreviver o indivíduo necessita do auxílio do outro. A cidade-Estado brota dessa raiz. A origem do Estado está aqui. O homem necessita de paz, de defender a paz, de defender o território, daí surgem também as mais diferenciadas profissões. Logo, a cidade surge dessa carência e dessa apetência. As necessidades dos indivíduos estão na cidade por mais rudimentar que esta seja. Para suprir as necessidades e anseios que comportam uma cidade, Sócrates alude primeiramente àquelas profissões mais elementares, no entanto, essenciais na edificação de qualquer civilização, por isso é preciso das mais diversas profissões, do pedreiro, do tecelão, do lavrador, dos construtores, dos carpinteiros, dos sapateiros, dos ferreiros, dos pastores e outras, e representam a classe trabalhadora, a que produz.

Nos diálogos com seus interlocutores, Sócrates vai apresentar as classes que uma cidade deve ter, a saber: a classe dos produtores, a classe dos guardas e, por fim, a classe dos dominantes. Uma cidade precisa de indivíduos que saibam fazê-la funcionar. Precisa de indivíduos que produzam o bem material para satisfazer as necessidades de todos, depois precisa de indivíduos para defender o território dessa cidade e, por fim, necessita de indivíduos que administrem as poleis. A partir dessa prerrogativa, Platão começa a elaborar o seu programa educativo visando construir uma cidade harmoniosa. Seu programa educativo então nasce a partir dessa separação entre as classes, portanto da divisão social do trabalho. É preciso dizer que a maior parte da população e a grande massa de escravos não têm educação e nem escola. Os escravos, os agricultores, os artífices estão fora do rol da classe privilegiada. Eles não têm serventia no modelo educativo platônico. Werner Jaeger referindo-se a isso esclarece:

Platão não parte de um povo histórico existente, como Atenas ou Esparta. Ainda quando se refere conscientemente às condições

vigentes na Grécia, não se sente vinculado a um determinado torrão nem a uma cidade determinada. Na sua obra não há a mínima alusão aos fundamentos concretos do Estado. 459

Platão, assim, começa a elaborar seu projeto educativo. Ele começa pensar a política da pólis a partir da educação e esta a partir da dimensão pública. Para Platão, no centro dessa divisão de classes, a mais poderosa e mais significativa é a classe dos governantes, que comporta os filhos da elite de Atenas. “Ele pensa especialmente na sua educação, ou melhor, na educação dos cidadãos como guerreiros, a partir de uma seleção dos mais aptos.” 460 Nesse ínterim, a dimensão educativa do seu projeto contempla sabiamente a formação integral, - completa de seu pupilo, porém, sua proposta é unilateral porque ela visa uns poucos não contemplam o todo, portanto, não visa a omnilateralidade da qual enfatiza Mario Alighiero Manacorda. Como afirmamos anteriormente, ao propor a concepção educativa, Platão parte dessa divisão, e aqui já podemos dizer que existe uma profunda distinção entre as coisas que se deve fazer e as coisas que se deve dizer, proposto por Manacorda, “Ela constitui o antecessor direto de nossa escola. Mas encontramos também muito claramente o sadismo da relação pedagógica a ignóbil posição social da „não liberal‟ profissão de ensinar [...]”.461 Se a primeira classe – a dos trabalhadores produz as necessidades básicas e essenciais para a edificação da cidade, a segunda e a terceira classe deve manter-se sempre em estado de alerta, elas precisam ser irrepreensíveis por suas virtudes, a dos guardas. Estes devem proteger a cidade com honra e alegria, defender o seu território com coragem e assim, conservá-la em paz, enquanto a dos governantes deve adequadamente administrar os negócios públicos visando o bem de cada uma das classes. Fora disso, a cidade não poderá manter-se coesa e em harmonia.

Tendo investigado inicialmente as classes sociais, as profissões e suas finalidades, Sócrates responde a Glauco sobre a possibilidade de se fundar uma cidade farta, sadia e luxuosa. “Talvez não haja mal nisso; estudando uma cidade nessas condições, é possível que venhamos a surpreender a justiça e a injustiça no momento preciso em que se originam.” 462, e é exatamente com o debate da justiça e da injustiça que vai brotar a concepção platônica de uma cidade perfeita, de um Estado ideal. Será

459 JAEGER, Werner. op.cit. 2001. p. 750.

460 MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação da Antiguidade aos nossos dias. 13ª ed. Tradução Gaetano Lo Mônaco. Revisão Técnica da Tradução e revisão geral Paolo Nosella. São Paulo: Cortez, 2010. p.76.

461 MANACORDA, Mario Alighiero. op. cit. 2010. p.428. 462 PLATÃO. A República. 372 e.

preciso entender com maior amplitude a questão dos conceitos da justiça e da injustiça. Ao dar os primeiros passos em direção ao seu projeto educativo, Platão o faz situando a justiça em primeiro plano, ela é seu norte. Platão pensa na educação guerreira cuja