3.2 Results and impacts
3.2.2 User survey
A abordagem sócio-retórica de gêneros define-os como um evento comunicativo, alicerçado na recorrência e ação social, entre os principais representantes dessa abordagem estão: Swales, J.; Miller C.; Bazerman, C. Bathia, V.K.
A Comunidade discursiva, doravante CD, foi postulada por John Malcolm SWALES, (1990, 1992, 1998, 2004) linguista conhecido por seu trabalho na análise de gênero, particularmente no que diz respeito à sua aplicação aos campos da retórica.
Segundo Swales (1990), a CD é um espaço em que se produz um número determinado de textos/discursos que demonstra o comportamento sócio-linguístico de seus membros. Para o autor, um gênero não pode ser completamente compreendido e interpretado fora de seu contexto de uso.
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos membros compartilham um conjunto de propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos pelos membros especializados da comunidade discursiva e dessa forma passam a construir o fundamento do gênero. Esse fundamento modela a estrutura do discurso e influencia e limita a escolha de conteúdo e estilo. (SWALES, 1990, p. 58)
118 Dessa maneira, para compreender um determinado gênero, torna-se indispensável a análise e caracterização do grupo que o produz, uma vez que, o momento sócio histórico levará o grupo a produzir determinados gêneros em contextos específicos.
Segundo Swales, as CDs podem ser entendidas como “redes socioretóricas” que se formaram com o propósito de agir em prol de objetivos comuns da CD; seus membros estão familiarizados com gêneros particulares que são utilizados, com propósitos comunicativos, a fim de atingir os objetivos comuns.
As CDs atuam como criadoras de ações tipificadas, que se semiotizam em gêneros e estes propiciam a interação e veiculam a ideologia da comunidade já que ela é controlada pelos membros mais experientes que se instituem como autoridade.
O autor chegou a essa conclusão, tratando do ensino na comunidade acadêmica. Recebeu muitas críticas e por essa razão reformula o seu posicionamento, estendendo-o a outras comunidades, sendo assim propõe que uma comunidade discursiva deve ser entendia como um grupo de pessoas que trabalhem conjuntamente e, assim, adquirem uma consciência dos papéis que lhes foram designados a representar. Cada papel levará a produção de um conjunto de gêneros específicos.
Os estudos de Carolyn R. MILLER (2009) estão situados na vertente da nova retórica americana. Esta compreende um conjunto de teorias sobre o estudo do gênero, alicerçadas na recorrência e ação social. Sendo assim, afirma que sua classificação não deve ser apenas pela forma ou substância, uma vez que os estudos se referem ao gênero como uma categoria ou tipo de discurso.
Segundo a autora, deve-se tipificar a relação do gênero com a recorrência de situações e afirma que o gênero apresenta características formais e substantivas que levam a um efeito particular, em um dado momento sócio histórico, além de determinar uma ação, já que as formas retóricas estabelecedoras dos gêneros nada mais são do que respostas estilísticas e substantivas às necessidades contextuais.
119 “...as formas retóricas que estabelecem gêneros são respostas estilísticas e substantivas às demandas situacionais percebidas, um gênero se torna um complexo de traços formais e substantivos que criam um efeito particular numa dada situação” (MILLER, 2009. p. 24)
A autora afirma que na sociedade são constituídos diversos tipos textuais, contudo os gêneros não são apenas uma série de atos formais ou tipos de textos e sim diferentes formas reconhecíveis, interligadas por uma dinâmica interna em resposta a determinadas situações contextuais, em situações concretas. Assim, o gênero possui características estilísticas, formais e situacionais; o gênero é a realização linguística concreta, definida por propriedades sócio comunicativas.
A autora identifica três modos de classificar o discurso e os gêneros: o estrutural, que permite verificar as similaridades formais; o motivacional que verifica as similaridades pragmáticas e os arquetípicos que permitem verificar as similaridades substantivas. Dessa forma, propõe analisar o gênero por meio de uma hierarquia, associando-o a situações retóricas recorrentes. Estas variarão de cultura para cultura, sendo denominadas tipificações do gênero.
“O que é particularmente importante sobre as situações retóricas para uma teoria de gêneros é que elas são recorrentes (...) a existência do recorrente fornece insight à condição humana, na explicação materialista, o recorrente levaria antes a generalizações científicas. A recorrência é inferida pela nossa compreensão de situações como sendo, de alguma forma, comparáveis, similares ou análogas a outras situações” (MILLER, 2009, p. 30) A tipificação do gênero decorre de situações recorrentes: constata-se, constroem-se conhecimentos que são armazenados, observa-se em situação semelhante à situação e essa é reconhecida por se constatar similaridade com os conhecimentos construídos e armazenados na memória.
Para a autora, a compreensão do gênero implica verificar a fusão de forma, conteúdo, contexto.
120 “É por meio dessa combinação hierárquica de forma e substância que as estruturas simbólicas adquirem a força pragmática e se tornam ações interpretáveis; quando fundidos, os componentes substantivos e formais podem tornar-se significativos em contexto. Uma hierarquia complexa dessas relações é necessária para constituir significações” (MILLER, 2009, pp. 32-34) Segundo a autora, o gênero acaba por fazer um papel estruturador da ação social, uma vez que faz o papel de elo e mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.
Charles Bazerman (1994, 2009), segue na mesma direção da Carolyn Miller, ou seja, o gênero é visto como ação social, verificando as regularidades das situações recorrentes.
[...] os gêneros são tipificações dinâmicas interativas e históricas [...] podemos chegar a uma compreensão mais profunda de gêneros se os
compreendermos como fenômenos de
reconhecimento psicossocial, que são parte de processos de atividades socialmente organizadas. (BAZERMAN, 2009, p. 11)
Para Bazerman (2009), o gênero é essencialmente sócio-histórico, sendo assim, ele se encontra em constante mudança; logo, apresenta uma tipificação interativa e histórica.
[...] o gênero é uma categoria essencialmente sócio-histórica sempre em mudança [...] os gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros em qualquer momento do tempo, seja por nomeação, institucionalização ou regularização explícita, esse reconhecimento é garantido e pode levar tanto a sanções sociais como a recompensas; em suma, gêneros são tipificações dinâmicas, interativas e históricas [...] (BAZERMAN, 2009,p. 11)
O gênero passa a ser um mecanismo constitutivo na formação, manutenção e realização da sociedade, da cultura, da psicologia, da
121 imaginação, da personalidade, da consciência e do conhecimento; sendo assim é interativo com todos os outros processos que formam nossas vidas.
Os textos são produzidos e estes é que produzem a representação dos fatos sociais. Estes fatos não poderiam existir, se as pessoas não os realizassem por meio da criação de textos. Nesse ciclo de textos e atividades, veem-se sistemas organizacionais bem articulados, dentro dos quais tipos específicos de textos circulam por caminhos previsíveis, com consequências familiares e de fácil compreensão. Há gêneros altamente tipificados de documentos e estruturas sociais altamente tipificadas, nas quais esses documentos criam fatos sociais que afetam ações, direitos e deveres das pessoas.
Cada texto bem sucedido cria para seus leitores um fato social. Os fatos sociais consistem em ações sociais significativas realizadas pela linguagem, ou atos de fala. Esses atos são realizados através de formas textuais padronizadas, típicas e, portanto inteligíveis, ou gêneros, que estão relacionadas a outros textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias relacionadas. Juntos, os vários tipos de textos se acomodam em conjuntos de gêneros dentro de sistema de gêneros, os quais fazem parte dos sistemas de atividade humana. (BAZERMAN, 2009, pp. 21-22)
O texto/discurso se encontra “encaixado” em atividades sociais estruturadas, em intertextos e interdiscursos, que influenciam a atividade e a organização social. E como cada texto possibilita levar a atividades subsequentes, os textos criam realidades, através da focalização de um fato social. Este nos leva a ações sociais significativas ou a posicionamentos realizados pela linguagem.
Miller (2009), Bazerman (2006, 2009) e Bhatia (1993), sugerem abordagens para identificar e analisar os gêneros, a partir do social. Para Miller e Bazerman há uma similitude nos pontos de vista, pois eles consideram os seguintes pontos: usar variedade de conceitos analíticos linguísticos, retóricos ou organizacionais menos óbvios, estender a amostra para incluir um maior número e uma maior variedade de textos que ainda podem ser
122 considerados do mesmo gênero, colher informações não só sobre os textos, mas também, sobre como as outras pessoas entendem esses textos, pode-se fazer uma pesquisa etnográfica para coleta de dados.
Para Bhatia (1993), uma investigação que permita compreender um gênero deve procurar compreender o texto-discurso na inserção de um gênero. Para o autor, para se tratar do gênero, é necessário: encontrar o contexto situacional, para tanto deve haver o levantamento da literatura existente; buscar o refinamento quanto ao contexto situacional; realizar a seleção do corpus; estudar o contexto institucional onde ele ocorre; analisar os níveis em que os aspectos da língua mais distintivos ou significativos ocorrem; e, por fim, coletar de informações junto a especialistas que utilizam tal gênero.
Segundo Bazerman (2009), são os gêneros e suas tipificações que auxiliam a construção de sentidos diante da complexidade e da multiplicidade contextual que um texto nos apresenta. Deve-se abandonar a categorização dos gêneros como estrutura tipologizada, construída por elementos distintivos e regulares, uma vez que isso nos limita a compreender os aspectos do gênero, bem como ignora por completo como as pessoas podem compreender um mesmo texto, de forma diferente.
Bazerman postulou a configuração e categorização dos gêneros em conjunto de gêneros, sistema de gêneros e sistema de atividades. O conjunto de gêneros são os tipos de textos produzidos por uma pessoa, representando um determinado papel social; o sistema de gêneros são o conjunto de gêneros utilizados institucionalmente. Eles organizam e padronizam as relações interacionais, na produção e circulação desses documentos institucionais; assim como o sistema de atividades são as ações desenvolvidas (textos) por um conjunto de gêneros inseridos em um sistema de gêneros.
O sistema de gêneros e de atividades demonstram como os textos institucionalizados, levam as pessoas a realizar determinadas atividades. Assim, pode-se afirmar que o gênero está ligado a mudanças institucionais sócio-históricas de relações interpessoais, de papéis profissionais, de ideologias, na epistemologia e na ontologia.
Sendo assim, para Bazerman, os gêneros estruturam, organizam e regulam nossas ações sociais. São os gêneros e as tipificações que auxiliam
123 as pessoas a construir sentido diante da complexidade, da indeterminação e da multiplicidade contextual que um texto nos apresenta.
Dessa forma, tratar o gênero pela investigação retórica, histórica e interativa, na relação das pessoas com a realidade institucional, propicia uma visão mais ampla, mais dinâmica de tipificação, não trabalhando o gênero como uma tipologia textual estanque e solidificada, mas como um conjunto de gêneros, dentro de um sistema de gêneros que organiza e guia um sistema de atividades.
Como se pode verificar a visão social para a caracterização dos gêneros não dispensa a categoria analítica contexto. Este é entendido como um contexto material, institucional e social.