Se a economia de pilhagem se generalizou nas regiões situadas à mar- gem do Mediterrâneo, do Nilo e do Oceano Índico, foi a economia de feitoria ou de entrepostos que se tornou a estrutura dominante ao longo do Oceano Atlântico. As feitorias não tinham a menor preocupação em inovar. Palcos de violência e de pilhagem, as novas feitorias marítimas consistiam em fortalezas antes de tornarem -se centros de civilização comercial.
Nas costas da Guiné e da África Equatorial, os portugueses (fundadores da economia de feitoria no século XVI) mais pilhavam do que compravam. As mercadorias por eles trocadas raramente eram produto de seu trabalho (exceto o vinho e as barras de ferro provenientes de Portugal). Eles compravam pro- dutos locais e regionais no país Akan (sal, tecidos, tangas) e trocavam -nos em seguida com ouro, escravos, couro, goma, marfim, âmbar, almíscar, caurim e outras mercadorias na costa da Nigéria, no Congo ou em Angola. Na Senegâm- bia, estabeleceram -se nos portos e tornaram -se prósperos negociantes.
Figura 2.3 Sandália em couro sudanesa, fabri- cada na região de Kano. Mercadorias desse tipo eram exportadas em grandes quantidades para a África do Norte. Fonte: H. Barth, Travels and discoveries in Northern and Central Africa, Nova Iorque, Harper and Brothers, 1857. © Royal Commonwealth Society Library, Londres.
Figura 2.4 Bolsa em couro proviniente da região de Tombuctu. Fonte: H. Barth, Travels and discove- ries in Northern and Central Africa, Nova Iorque, Harper and Brothers, 1857. © Royal Commonwe- alth Society Library, Londres.
As feitorias não contribuíram de maneira nenhuma para a prosperidade local. Antes de 1800, Alberda, Cacheu, Santiago do Cabo Verde, Elmina, Ketu, Cala- bar e São Salvador, constituíam as mais importantes e comportavam cada uma menos de cinco mil habitantes. A economia de feitoria baseava -se no comércio transatlântico de escravos. Em seu apogeu, nenhuma das feitorias servia de cen- tro para o escoamento dos produtos artesanais locais, nem criava oportunidades para as atividades comerciais ou industriais da importante população autóctone. As feitorias para a venda de escravos eram antes de tudo um instrumento de despovoamento. As estatísticas não concordam quanto ao número de escravos deportados ou quanto ao número de vítimas da venda de escravos na África: os números variam entre 25 e 200 milhões21
.
A contribuição direta e indireta da economia de feitoria à prosperidade mundial foi, contudo, considerável. Depois da descoberta das minas africanas, as feitorias forneceram uma grande parte do ouro e da prata mundiais. Além disso, foi por elas que transitou, na sua grande maioria, a mão de obra que valorizou o continente americano. De fato, as feitorias eram a alma do comércio mundial, a fonte da indústria, das finanças e do capitalismo europeu e internacional. A França, uma das grandes potências do século XVIII, é um bom exemplo disso. Seu comércio que, em 1716, representava 100 milhões de libras, passaria, em 1789, a 400 milhões de libras e, durante esse mesmo período, seu excedente comercial passaria de 36 a 57 milhões de libras. As exportações das Índias Ocidentais com destino à França representavam por si mesmo 126 milhões de libras em 1774 e 185 milhões em 1788. Durante esse período, as importações das feitorias para toda a Senegâmbia não passaram de 5 milhões de libras22.
Além disso, a economia de pilhagem era baseada numa especulação de mão única. Ao contrário do que geralmente se pensa, não houve um verdadeiro comércio triangular em bases iguais antes de meados do século XVIII. Os navegantes europeus que controlavam o comércio das feitorias (particularmente os portugueses, como já dissemos) nada investiam. Os produtos europeus não tinham a menor importância no conjunto das trocas. O ferro, o cobre, os tecidos e a quinquilharia que, nos séculos XVIII e XIX, rivalizavam com os produtos locais tiveram muito pouca importância nos séculos XVI e XVII. Os portu- gueses eram principalmente intermediários. As mercadorias de valor que eles obtinham pela troca eram exportadas para a América ou a Europa. Na verdade, eles usurparam esse comércio dos negociantes locais.
Assim, implantando -se solidamente na rede econômica, os navegantes euro- peus quebraram o curso normal das trocas interafricanas e estabeleceram seu próprio monopólio de intermediários, operando nas feitorias. Não houve mais comércio propriamente africano entre Saint -Louis e Portendick, Grand Lahou e Elmina, Angola e Congo ou Sofala e Kilwa. Os pombeiros, os lançados e os tan- gomãos (intermediários) atribuíram -se o monopólio do comércio. A maior parte das trocas dependia dos monopólios português, espanhol, holandês e francês. Os intermediários portugueses, que moravam nas feitorias ou nas proximidades, operavam em mercados e feiras que defendiam pela força.
A rede portuguesa foi usada pelas outras potências marítimas a partir do século XVI. O único obstáculo às atividades monopolistas era a oposição dos
governos africanos, quando eram capazes de resistir, bem como as dificuldades e os riscos com os quais se defrontavam os europeus para chegar às feitorias dedicadas ao comércio de escravos do interior das terras. Foi um período de enfrentamentos entre os lançados, os intermediários e os mercadores de escravos da costa da Guiné, por um lado, e as companhias, do outro, sendo que os pri- meiros mandavam petições destinadas a Santiago e a Gorée, nas quais pediam a liberdade de operação. As numerosas informações de que dispomos sobre as trocas comerciais nas feitorias -fortalezas e nos entrepostos sazonais – da época dos portugueses até a chegada dos holandeses, franceses e ingleses – mencionam violências e conflitos incessantes. As feitorias do Atlântico e do Oceano Índico foram destruídas e reconstruídas; elas mudaram várias vezes de donos no decor- rer da luta conduzida por potências marítimas européias, otomanas e omanenses contra a resistência obstinada dos dirigentes locais, que exigiam indenizações – duties ou curva23 – que, conforme o caso, lhes eram pagas ou recusadas.
Além dos inerentes riscos, a economia de feitoria tinha uma característica principal: ela não favorecia em nada a construção de uma classe de negocian- tes. Ela poderia ter suscitado, na costa, um fenômeno comparável ao comér- cio transaariano cujo sucesso fora garantido pelas relações campo -cidade, bem como pelo crescimento do artesanato e das indústrias. Exceto pelos negociantes europeus, a maioria dos moradores das feitorias era de laptos (intermediários autóctones). Em 1582, dos 15 mil moradores de Santiago e Fogo, 13,4 mil eram escravos e 1,6 mil europeus detentores de todas as alavancas da economia. Antes do século XIX24, não havia, nas feitorias do Atlântico (exceto naquelas da costa
de Loango), nenhuma classe de traficantes autóctones de escravos, comparável àquela que existira em Kilwa, em Mogadíscio, em Mombaça e nos portos do Mediterrâneo.
Enfim, as inovações técnicas que haviam revolucionado a Europa tiveram pou- quíssimas repercussões. A economia africana sofreu principalmente a concorrência do comércio e das indústrias européias. A partir do século XVIII, os comerciantes europeus arruinaram as indústrias e artesanatos locais da costa, pela destruição das redes tradicionais. Ao monopolizarem os portos, paralisaram a relação entre a costa e o interior. Assim, os Estados europeus que anexaram as áreas costeiras delimitaram suas áreas de influência (portuguesa, holandesa, francesa e inglesa) antes mesmo da conquista colonial. Determinaram, assim, o desenvolvimento e a geografia política dessas regiões no século XVIII. Do avanço do Marrocos no país Songhai até as peri- 23 Curva nas áreas sob influência portuguesa e duty nas regiões de língua inglesa.
pécias das guerras internas do Sudão Ocidental, a maioria das reviravoltas políticas africanas explicam -se pelo processo de desmembramento imposto pelas potências européias no século XVI.