O comércio com centros urbanos afastados desempenhara um papel importante na economia africana anterior ao século XVI, favorecendo a produti- vidade, o desenvolvimento das civilizações urbanas e o estabelecimento de laços estreitos entre as cidades e as áreas rurais, transformado, assim, progressivamente a vida no campo. Mas entre os séculos XVI e XIX, o reino da economia de pilhagem – consequência do expansionismo espanhol e português que, a partir do século XVII, foi ao mesmo tempo violento e destruidor – acarretou o declínio dos portos e das cidades mercantis que, na Idade Média, tinham enriquecido graças ao comércio transaariano. Esse declínio foi principalmente aparente a partir de 1592, data na qual os reis cristãos da Espanha e de Portugal começa- ram a expulsar do Magreb, de Túnis e de Argel as numerosas colônias judaicas e muçulmanas ali estabelecidas.
A Espanha, que ocupara La Palma nas ilhas Canárias, tomou Tenerife em 1495, e depois Melilla, em 1496. Em 1505, instalara -se em Mers el -Kebir (Al -Marsa Al -Kabir) e, no mesmo ano, os portugueses ocupavam Agadir. No ano de 1508, foi a vez da torre de Safi e, em 1509, o cardeal Ximenes tomava Oran enquanto Argel passava para o domínio espanhol, seguido em 1510 por Bougie; Túnis, Cherchel e Argel pagaram todos seu tributo à Espanha. Em 1513, Portugal estendera seu domínio até Azemmour.
Essa situação pôs os arabo -berberes e a Sublime Porta na obrigação de resistir à agressão européia; corsários, navegando sob a bandeira otomana, con- tribuíram para erguer o equilíbrio de forças. No ano de 1514, um dos irmãos Barberousse, Abu Yusuf, retomou Djidjelli, assim como Argel, e seu irmão Khayr al -Din consolidou essa reconquista. A Tunísia e a Argélia voltaram para o domínio otomano e assim ficariam ao menos nominalmente até o século XIX, a despeito das expedições de Carlos V (que foi vencido diante de Argel, em 1541). Em 1551, Sinan Pasha ocupou Trípoli em nome da Sublime Porta, e, em 1574, foi a vez de Túnis. Em meados do século XVI, o Marrocos afirmou sua independência após ter retomado Agadir, Safi e Azemmour de Portugal, graças à jihad dos Banu Sa‘ad, fundadores da dinastia dos xerifes. Em al -Makhazen, Abu ’l -‘Abbas al -Mansur, aliado da rainha Elisabeth I da Inglaterra, derrotou um exército de vinte mil portugueses.
A despeito de seus enfrentamentos com as potências européias, os Estados da África do Norte continuaram a preservar sua liberdade, mas sua evolução ficou entravada, no século XVI, pelo desabamento da ordem econômica inter- nacional. Os portos do Magreb e do resto da África do Norte viveram então
principalmente do produto da pirataria, de tributos e de direitos, mais do que do comércio ou de novas indústrias. As principais atividades dos Estados lhes eram ditadas pela lógica da economia de pilhagem. Daí em diante eram os corsários turcos que, ao suceder a classe dos negociantes medievais, estavam encarregados de assegurar a prosperidade da elite militar otomana. Os portos de Salé (Marrocos), de Argel, de Túnis e de Trípoli desfrutavam da proteção de uma frota de corsários que, no século XVII, atingiu sua idade de ouro no Mediterrâneo. Em 1558, 35 galeras e 25 bergantins praticavam a pirataria a partir do porto de Argel, que na época contava com apenas vinte mil habi- tantes. Nem por isso a cidade deixava de estar numa situação econômica deplorável. No ano de 1580, ela foi atingida pela fome e perdeu um terço de sua população. Mesmo assim, ela continuou a atrair imigrantes e contava, no século XVIII, com cem mil habitantes, dos quais 25 mil escravos cristãos. No século XVI, Trípoli tinha uma população de 40,5 mil almas – 3500 turcos, 35 mil árabo -berberes e dois mil cristãos. Seus corsários espalhavam o terror no Mediterrâneo, cenário das operações realizadas contra a Europa e, ainda durante todo o século XVIII, a instabilidade foi contínua no Mediterrâneo ocidental. As regências otomanas de Argel e de Túnis estavam quase sempre em guerra com uma ou outra potência européia; os conflitos se alternavam com tratados e essa situação só podia prejudicar o capitalismo mercantil e a classe dos negociantes.
É nesse contexto que se inscreve a expedição marroquina contra os Songhai do Sudão Ocidental, bem como as jihad que as comunidades muçulmanas da África Negra empreenderam, sob a influência do Magreb, contra feitorias da costa atlântica. O soberano marroquino Abu ’l -‘Abbas al -Mansur, que vencera os portugueses, tentou, após a derrota dos songhai em 1591, reabrir a rota do ouro e do comércio de escravos. Em 1593, a tomada de Tombuctu permitiu -lhe encaminhar 1,2 mil escravos através do Saara. A expedição do paxá Djudar acelerou a ruína desse comércio, pondo fim ao que fora o maior, senão o mais poderoso império do Sudão Ocidental no século XVI.
A Tripolitana e o Egito foram os que menos sofreram as consequências do declínio do comércio saariano e conservaram suas rotas trans -saarianas tradi- cionais. A Sublime Porta, que se estabelecera no Egito e em Trípoli, apoiou o Kanem -Bornu assinando uma aliança com ele e fornecendo -lhe armas e pôde assim preservar o comércio norte -sul (essencial para sua própria revitalização) até o século XIX.
Mas as sociedades dessa região não escaparam do declínio geral. A civilização oriental da qual elas faziam parte estava em completa decadência e as estruturas
feudais de tal civilização não facilitavam a expansão de suas áreas de influência no Mediterrâneo, no Oceano Índico ou no interior, nem na região do Níger- -Chade e no Sudão Ocidental.
A economia de pilhagem, da qual a pirataria no Mediterrâneo fazia parte, contribuiu muito certamente à desaceleração do crescimento econômico e téc- nico da região situada ao sul do Mediterrâneo. Mas as estruturas socioeconô- micas e políticas desempenharam igualmente um papel na estagnação e no subdesenvolvimento dessa região e de seu interior. O declínio da África medi- terrânea acarretou o declínio de todo um subsistema que desempenhara um papel dominante na geografia econômica e política do mundo medieval.
Todos os países do Nilo e da África Oriental, bem como os da região do Níger -Chade e do Sudão Ocidental, foram atingidos em diferentes graus. Como indica o capítulo 28, consagrado especialmente a Madagascar, o período com- preendido entre 1680 e 1720 era conhecido, na parte ocidental do Oceano Índico, sob o nome de “época dos piratas”. Os países diretamente em contato com as novas potências européias foram fisicamente abalados pela economia de pilhagem, mas sofreram igualmente por não terem podido reanimar uma estrutura socioeconômica cada vez mais influenciada por um Oriente atrasado. Outra de suas deficiências consistia em sua incapacidade de estabelecer rapida- mente as relações de força necessárias para não serem vítimas da desigualdade do sistema de trocas da época.