Os acidentes de trânsito geralmente são resultado de uma soma de fatores, os que podem ser classificados em três tipos:
• Fator humano (comportamento dos condutores e pedestres)
• Fator veículo (condições de projeto e manutenção dos veículos)
• Fator via/meio ambiente (condições da via, engenharia de tráfego, clima, etc.).
Um acidente típico pode acontecer como consequência de fatores de um, dois ou todos estes tipos. Um exemplo de um acidente simples, de um único fator, seria um condutor cansado e com sonho que perde o controle de seu automóvel novo a baixíssima velocidade e sai da pista, viajando em um trecho reto de uma via em excelente estado durante um dia de tempo bom. O acidente foi causado por um único fator, do tipo “fator humano”: a sonolência do condutor.
Por outro lado ocorrem acidentes nos quais aparecem todos os tipos de fatores, incluso alguns deles repetidos. Pode-se citar como exemplo um acidente no qual um condutor alcoolizado e consequentemente com reações lentas (fator humano 1), dirigindo seu automóvel com pneus carecas (fator veículo 1) numa via à noite e com chuva (fator via/meio ambiente 1), derrapou e não evitou bater com um ônibus com defeito nos faróis (fator veículo 2), quando seu condutor, cansado após dirigir muitas horas sem parar (fator humano 2), tentou frear tarde demais ao adentrar na via através de um acesso sem sinalização horizontal, recentemente recapeamento (fator via/meio ambiente 2). Neste acidente percebe-se um total de 6 fatores, sendo 2 de cada tipo.
Em pesquisa feita na Inglaterra pelo Transport and Road Research Laboratory – TRRL, citada pelo INST (1999), 91,5% dos acidentes apresentaram “fator humano” ou mais
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simplesmente falhas no comportamento de um ou mais usuários. Fatores do tipo “fator via”, ou defeitos na engenharia de tráfego e/ou condições adversas do tempo, contribuíram em 32% dos acidentes e “fator veículo”, ou condições inadequadas dos freios, pneus etc. de pelo menos um dos veículos envolvidos, em 24,5%. Este resultado é resumido na Tabela 2.1 e ilustrado na Figura 2.3:
Tabela 2. 1 - Causas Multifatores de Acidentes de Trânsito
N.º de Tipos de Fatores Simultâneos Fator Humano Fator Veículo Fator Via / Meio Ambiente % dos Acidentes 1 X 50,0 1 X 3,0 1 X 0,5 2 X X 15,0 2 X X 25,0 2 X X 5,0 3 X X X 1,5 % Total 91,5 24,5 32,0 100,0
Fonte: TRRL Apud INST (1999)
Figura 2. 3 - Causas Multi-Fatores de Acidentes de Trânsito.
Fonte: INST (1999).
As causas de acidentes normalmente identificadas em boletins de ocorrência policiais ou relatórios de acidentes elaborados por diversas outras autoridades de trânsito podem ser classificadas como “causas diretas”, no sentido que denominam o que obviamente ocorreu. Por exemplo: “o condutor passou sinal vermelho” (causa direta, tipo fator humano), ou “o veículo derrapou em função de pneus carecas” (causa direta, tipo fator veículo), ou “a sinalização horizontal não era visível” (causa direta, tipo fator via/meio ambiente).
47 Embora sirvam para apontar os “culpados”, as causas diretas não têm tanta utilidade para trabalhos objetivos visando à redução e prevenção de acidentes. Para este fim, torna-se necessário analisar mais profundamente os acidentes, identificando as “causas indiretas”. Voltando aos exemplos no parágrafo anterior: “o condutor passou sinal vermelho”. Más por quê? As possíveis respostas, que representam as possíveis causas indiretas, são várias. Entre elas: passou de propósito porque estava com pressa; não viu o sinal vermelho; viu o sinal vermelho, mas tarde demais; passou mal na direção e estava desmaiado; pretendeu parar normalmente, mas derrapou devido a pneus carecas, pista lisa e água de chuva; e depois de ficar parado há muito tempo no sinal vermelho achou que estava enguiçado.
Obviamente as várias causas indiretas requerem medidas corretivas ou preventivas diferentes. Algumas requerem até mais estudo. Por exemplo, no caso de um condutor que não viu o sinal vermelho, porque o não viu? Estava encoberto? A posição do sinal não é adequada? O condutor deveria estar usando óculos e não estava? Alguma propaganda luminosa ofuscava os condutores?
Devem-se analisar em profundidade estes aspectos visando evitar dois perigos que se sucedem com frequência: o de não identificar as raízes do problema e o de desperdiçar recursos, investindo em medidas que não resultarão na redução desejada de acidentes. Por exemplo, de nada adiantaria mudar as posições dos grupos focais semafóricos visando torná- los mais visíveis, se os acidentes estão ocorrendo devido à condição derrapante da pista.
Pode-se afirmar então, que os acidentes podem ser reduzidos e prevenidos por meio da identificação e eliminação sistemáticas dos multifatores contribuintes (causas diretas) que os geram, o que por sua vez significa a busca e eliminação das causas indiretas.
A eliminação de qualquer um dos fatores contribuintes, de qualquer dos três tipos, tem o efeito de redução da probabilidade de ocorrência dos acidentes. Por exemplo, no acidente de seis fatores, apresentado anteriormente, a simples eliminação do cansaço do condutor do ônibus (fator humano 2) aumentaria muito suas chances de perceber o início da via e também o automóvel que se aproximava com antecedência suficiente para permitir uma frenagem normal, com pouco risco de acidente, mesmo mantendo-se os demais cinco fatores de risco. Pode-se perceber que, da mesma forma, a eliminação de qualquer um dos seis fatores, sem a eliminação dos demais, reduziria significativamente a probabilidade de ocorrência do acidente.
A eliminação sucessiva de mais fatores contribuintes diminui cada vez mais a probabilidade de ocorrência dos acidentes, o que obviamente resulta em menos ocorrências.
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Quando o objetivo é a elaboração de programas de redução e prevenção de acidentes de trânsito não interessa a identificação dos “culpados”. O que interessa é a identificação dos meios de se evitar os acidentes, eliminando progressivamente os multifatores contribuintes, sempre que seja possível. Não sendo possível a eliminação de determinados fatores contribuintes, pode-se ainda reduzir a probabilidade de ocorrência dos acidentes, ou suas consequências, por meio de medidas que compensam os efeitos negativos destes fatores. A utilização de defensas em curvas e de tratamento antiderrapante para minimizar as consequências de acidentes devido ao excesso de velocidade, sem eliminação do excesso de velocidade, seriam exemplos de compensação.
Normalmente os programas de redução e prevenção de acidentes de trânsito propiciam, consciente ou inconscientemente, metas de priorizar em primeiro lugar a redução de vítimas fatais, em segundo lugar a redução da frequência e gravidade dos ferimentos sofridos pelas vítimas não fatais e, por último, a redução de danos materiais. É comprovado que as características dos acidentes com vítimas fatais diferem das dos acidentes com vítimas não fatais e que as características de ambos diferem das dos acidentes sem vítimas que resultam em somente danos materiais. Pode se observar diferenças significativas nas distribuições temporais, geográficas e por tipo de acidente (colisão entre veículos, atropelamento de pedestres, choque contra objeto fixo etc.). Assim pode-se perceber a importância de dimensionamento correto dos trabalhos de acordo com as metas.
A análise dos dados sobre os acidentes tem como objetivo geral a identificação dos riscos que resultaram nos acidentes, visando possibilitar a avaliação dos prováveis efeitos gerais das rodovias sobre esses riscos e visando também identificar as medidas necessárias, físicas e operacionais, para minimizar a frequência dos acidentes de trânsito e a gravidade das suas consequências.
Esta analise dos dados se realiza de forma sistemática conforme estabelece a metodologia de gerenciamento de riscos, onde os dados se levantam diretamente dos arquivos dos boletins de ocorrência da Polícia Militar Rodoviária para um período de tempo mínimo de 1 ano e desejável de 3 anos. Forma-se um banco de dados em planilha de cálculo facilmente processável. Estes registros, contendo todas as informações disponíveis, permitem identificar e salientar as características principais dos acidentes de trânsito ocorridos no período em estudo. A análise dos dados se realiza com a ajuda de quadros e gráficos que cumprem o objetivo de apresentar os resultados de diversas formas destacando em cada caso alguma particular característica do acidente. Por exemplo, a porcentagem de participação dos veículos
49 envolvidos nos acidentes; distribuição dos acidentes por tipo, dia e horário, nº de vítimas, por período de ocorrência.
Ainda, em áreas urbanas deve-se complementar o estudo com análise de atropelamentos fatais e acidentes fatais sem envolvimento de pedestres, e suas distribuições ao longo do trecho.
Os acidentes sem vítima, embora normalmente em maior número do que os com vítimas, são de importância relativamente menor, uma vez que não resultam em danos pessoais, mas somente danos materiais. Ainda mais, é fato notório que, ao contrário dos acidentes com vítima, muitos dos acidentes sem feridos não chegam a ser registrados pelo policiamento, em face de acordos feitos no local entre as partes. Isso ocorre especialmente em relação aos acidentes com poucos danos.
A partir da analise crítica de cada um destes elementos, e seu permanente monitoramento, poderemos chegar a um diagnóstico da situação com um melhor entendimento da mecânica e motivos dos acidentes, sendo de valiosa ajuda para a definição da solução ou remédio a aplicar ao problema.
Para completar e verificar o diagnóstico das causas dos acidentes, se realiza uma série de vistorias técnicas na rodovia, enfocando-se determinados sub-trechos e locais, que se destacaram pela alta concentração de ocorrência de acidentes durante o ano de referência.
Finalmente deve-se comentar que os acidentes de trânsito apresentam um comportamento dinâmico ao longo do tempo e são influenciados por diversos fatores como características do tráfego, taxa de motorização, política econômica, características da via, condições dos condutores, nível de educação, legislação sobre o trânsito, desenvolvimento urbano das regiões que a rodovia atravessa e, principalmente pela política de segurança adotada no gerenciamento da rodovia, elementos estes que transformam a técnica de análise assunto para especialistas na matéria.
As possíveis medidas para solucionar a falta de segurança em um determinado trecho de uma rodovia guardam uma relação direta com o acidente-padrão registrado.
Existem várias propostas que sugerem medidas corretivas para os diferentes tipos de acidentes, e que podem vir a ajudar ao profissional. O INST apresenta no se trabalho uma lista de medidas aplicáveis conforme o problema a resolver. Existem outros que apresentam medidas moderadoras de velocidades comentando casos e seus resultados como ARAUJO CUPOLILLO (2006).
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