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2. Hydropower impacts and recommendations for improved aquatic  biodiversity mitigation

2.3   Upstream fish migration

Antes de iniciar a apresentação do caso clínico de Paulo, que suponho ser neurótico obsessivo, gostaria de relembrar ao leitor que pretendo postular, por meio deste estudo, que a problemática identificatória é o eixo norteador para a compreensão do sentimento inconsciente de culpa e da dúvida na neurose obsessiva. Para tal, recorro às construções clínicas do caso clínico de Paulo; pois a partir da compreensão da sua história libidinal e identificatória, encontro suporte para realizar tal afirmação.

A partir das construções feitas no setting clínico foi possível elaborar a história libidinal e identificatória deste paciente, compreendendo o seu edifício identificatório. Mas o que seriam essas construções? Freud, em seu artigo Construções em Análise, diz que a tarefa do analista “é a de completar aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou, mais corretamente, construí-lo”.593 Para Freud, a ocasião e o modo como o analista transmite suas construções ao analisando, bem como as explicações com que as faz acompanhar, constituem o vínculo entre as duas partes do trabalho de análise. Assim, a partir dos fragmentos de lembranças, dos sonhos e das associações de Paulo, foi possível reconstruir o seu suposto edifício identificatório.

Aulagnier, ao retomar o postulado das construções freudianas em seu artigo Um Problema Atual: As Construções Psicanalíticas, complementa que “se todo analista se proíbe de construir a priori a história de um sujeito, se conhece o perigo que haveria em reduzir a singularidade de uma história aos elementos de uma história universal”594. Isto significa que, no registro da neurose, cabe ao analista construir com o seu paciente sua suposta história libidinal e identificatória. Assim, estas construções objetivam, então, oferecer ao paciente uma possível “verdade” da história de seus desejos e de suas identificações e que, no caso de Paulo, possibilitaram-me compreendê-la a partir de sua realidade histórica.

Segundo Aulagnier, a realidade histórica pode ser considerada “o relato, feito pelo próprio sujeito ou por um terceiro, através do qual tomamos conhecimento dos acontecimentos que, efetivamente, marcaram a infância do sujeito”.595 Esta psicanalista atribui o mesmo peso aos acontecimentos que foram vividos pelo sujeito durante a sua

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FREUD, Sigmund (1937). Construções em Análise. ESB, vol. XXIII, 1996, p. 276.

594 AULAGNIER, Piera (1970). Um Intérprete em Busca de Sentido – I. São Paulo: Escuta, 1990, p. 113. 595 AULAGNIER, Piera (1975). A Violência da Interpretação – do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979, p. 216.

infância, tal como o discurso e as injunções que lhes foram ditas ao longo da sua constituição psíquica.

Assim, para redigir sobre a realidade histórica de Paulo, realizo um recorte nos quatro primeiro anos de psicoterapia, pois encontro, neste recorte, dados abundantes para afirmar que a problemática identificatória é o eixo norteador para a compreensão do sentimento inconsciente de culpa e da dúvida nos casos de neurose obsessiva. Tal postulado respalda-se na metapsicologia e psicopatologia legada por Freud e nas sábias contribuições psicanalíticas de Aulagnier ao legado freudiano, tal como nas contribuições de Andre Green e de Silvia Bleichmar à neurose obsessiva.

Ao longo da apresentação deste caso, ressalto trechos de sua realidade histórica que permitem compreender, em um primeiro momento, dois pontos fundamentais que devem ser relevados para a compreensão da problemática a que se propõe este estudo. Estes dois pilares são: a resolução edipiana dos pais de Paulo (incluindo-se aqui o recalcado materno) e a história libidinal e identificatória deste paciente596. Esses dois pilares, tal como a identificação ao superego e a incorporação do pênis sádico paterno, que serão abordados em um segundo momento, permitem uma melhor compreensão de como a dúvida e a culpa se manifestam no contexto do setting terapêutico e como estas estão voltadas a problemática identificatória deste paciente. Assim, com base nas construções realizadas no setting terapêutico, inicio a apresentação deste caso, a partir da sua realidade histórica.

5.1-O caso clínico Paulo.

Atualmente, Paulo tem 48 anos. Em sua estrutura familiar, Paulo é o quarto filho. Sua mãe, Ângela, ainda é viva e tem 82 anos. Já seu pai, Claudio, faleceu há 07 anos, com 77 anos. Seus pais casaram-se muito cedo: seu pai tinha 23 anos e sua mãe, 21 anos, ou seja, seu pai tinha dois anos a mais que sua mãe. Ambos os pais trabalhavam e se dedicavam à criação dos filhos.

Paulo relata que tem três irmãos mais velhos do que ele: uma irmã - Ana - de 61 anos (casada), um irmão - Igor - de 58 anos (casado) e uma irmã - Beatriz - de 53 anos. Esta é casada e é seis anos mais velha do que Paulo.

596 Reservo o segundo tópico deste subcapítulo para abordar três sessões que denotam, simbolicamente, a incorporação do pênis sádico paterno e a identificação ao superego neste caso clínico.

Paulo casa-se aos 25 anos. Tem a primeira filha, Carla, aos 26 anos, um ano após o seu casamento; e o segundo filho, Rodrigo, aos 28 anos. Hoje, seus filhos têm 22 e 20 anos, respectivamente. Sua filha Carla foi casada, morou em uma cidade próxima de Mato Grosso e, devido à morte de seu marido, voltou a morar com Paulo e sua esposa. O seu filho, Rodrigo, está casado e mora em uma casa próxima ao pai.

Paulo torna-se avô em 2010: da união de seu filho nasce um neto e da sua filha, que é viúva devido à morte precoce do marido, nasce uma neta.

Em sua vida profissional, Paulo foi representante comercial de uma empresa e, tal como o seu pai, ele é, atualmente, comerciante autônomo. Além de Paulo, seu filho Rodrigo é representante comercial. Paulo nunca apresentou nenhum surto psicótico ou passagem por tratamentos psiquiátricos.

Este paciente mora em uma casa própria, ao lado da casa de sua mãe e, do outro lado, mora o seu irmão mais velho. O terreno da sua atual casa foi dado de presente por seu pai. Nesta cidade, após a consumação do casamento, é muito comum os filhos morarem próximos à casa dos pais, fortalecendo a força da família e do seu sobrenome597.

5.1.1-Início da psicoterapia.

Paulo procura psicoterapia em abril de 2005, no posto de saúde pública municipal598 de seu município. Nesta época, ele tinha 41 anos e já era casado há mais de dezessete anos. Em nosso primeiro contato, sua queixa é em relação aos pensamentos ruminantes de morte, dizendo: “quando eu vejo alguma ambulância ou funeral, vem esse pensamento de morte [...]. Quando tenho essa dor no peito, eu penso que posso morrer [...]”. Ao longo das primeiras associações, ele fala: “[...] só eu que corria com o meu pai; mas eu não imaginava que ele fosse morrer. Tinha muitos irmãos, mas ninguém queria saber de ajudar [...]. Após a morte dele, fui em vários médicos. Tinha dor aqui, dor ali. Pensava que ia enfartar [...]. Cheguei a tomar remédio para ansiedade, que um médico

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Como esta cidade surgiu com a imigração européia, o relacionamento dos descendentes de europeus com os imigrantes do norte e do nordeste não é bem aceito; já que isso, segundo os valores locais, enfraquece os valores de cada família de descendência européia. No caso clínico relatado acima, tanto Paulo como sua esposa são descendentes de europeus.

598 Paulo ficou cerca de 7 anos em psicoterapia. Esta foi interrompida devido a motivos profissionais do próprio paciente, mas os ganhos deste longo percurso serão destacados na análise do caso clínico. Além disso, ressalto que, embora os atendimentos fossem realizados em um posto de saúde pública, estes ocorriam em uma pequena sala com boas condições de infra-estrutura.

me indicou. Nada disso adiantou. Até que um clínico geral me recomendou fazer terapia [...]”.

Ao término do nosso primeiro encontro, acertamos que a psicoterapia iria ocorrer uma vez por semana, com duração de 30 minutos. Paulo aceitou o contrato, tornando-se pontual em relação ao horário estipulado.

No decorrer das sessões, qualquer assunto trágico que ocorria em seu ambiente já leva-o ao pensamento de morte, como por exemplo, sobre a morte de Bussunda (em junho de 2006), ele diz: “ontem tive um princípio de recaída. Vi o Bussunda que morreu na Alemanha. [...]. Tenho medo de enfarte. A idéia de enfarte vem na minha cabeça e depois eu paro e penso o porque que o meu pai morreu de enfarte [...]”. Ele também relata o seu medo de eventos trágicos. Acredita que, a qualquer atraso do seu segundo filho, que na época tinha 16 anos, uma tragédia poderia ter ocorrido, como atropelamentos e seqüestros.

Assim, estes pensamentos de morte foram muito frequentes, causando-lhe ansiedade, tal como disse: “doutor, veio uma leve pontada de morte. Veio na cabeça que eu tivesse morrido. Foi muito suavemente. Foram umas três vezes e depois passou. Estava assistindo Hércules e veio esse pensamento na metade do filme [...]. Assistindo este filme, eu me lembrei de homem forte, de ficção. Sei que existe homem forte de coração. Uma vez meu pai falou que não há tamanho, nem grandeza, já que qualquer homem pode ser derrubado [...]. Ele falou isso desde quando eu era pequeno até a minha adolescência [...]”.

Além da queixa citada acima, ao longo das demais sessões, eu também fui coletando os seus dados pessoais e familiares pertinentes a sua realidade histórica. Acredito que somente a partir desta coleta será possível supor a sua história libidinal e identificatória. Assim, abaixo, ressalto os principais dados familiares e pessoais deste paciente.

5.1.2-Pai de Paulo.

Seu pai, Claudio, era pedreiro. Ele pouco fazia referência ao avô paterno de Paulo, como disse: “nem sei o nome dos pais dos meus pais. Mal conheci os meus tios paternos. Raramente meu pai ia visitá-los [...]. Conheci pouco os meus tios e os meus avós paternos.” Embora pouco relatasse sobre os parentes, Claudio era muito apegado ao irmão de sua mãe – seu tio materno, Antenor. O pai de Paulo é relatado como um homem muito trabalhador e pontual no cumprimento do horário de trabalho. Nunca

perdia um dia de serviço. Ele trabalhava com construção, usando sempre um chapéu e uma camisa laranja, de acordo com suas associações. Nos últimos anos de vida, seu pai passou a executar a função de chefe de construção.

Paulo recorda-se que seu pai tinha um hábito de frequentar cemitério, indo visitar o túmulo de seu tio materno, Antenor, que ficava em uma cidade próxima. Este hábito já existia antes do nascimento deste paciente. Em uma sessão, a partir de suas associações, ele disse que acompanhava o pai neste cemitério, quando tinha 06 anos de idade.

Seu pai tinha pavor de dívida: não ficava sem dever nenhum centavo para o banco. Ele não gostava de jogos de sorte, mas adorava um baralho. Ele tinha um senso de justiça muito aguçado. Era um homem muito religioso: era católico praticante. Respeitava o dia de Todos os Santos (finados), como também o dia de Nossa Senhora. Além disso, sempre foi supersticioso: acreditava em assombrações, vultos e lobisomens, demonstrando seu pensamento anímico. Assim, o relato a respeito deste pai traz também várias crendices e superstições do micro meio familiar onde estava inserido, demonstrando como Claudio era muito supersticioso.

Ao me contar estas crendices, Paulo também traz estes valores para a contemporaneidade e relata um objeto tabu de sua casa: um violão que se encontra no quarto de seu filho. Em seu relato, ele me diz que este violão foi achado em um lixo pelo seu pai, reformado e dado para Rodrigo, seu filho, quando este era pequeno, pois o avô almejava que Rodrigo tocasse violão, tal como ele (o avô) tocava cavaquinho. Ninguém ‘tocou’ neste violão, principalmente após a morte de seu pai. Certo dia, ‘estourou’ a corda do violão e Paulo me disse que o violão ficou só com uma corda, já que as demais já haviam estourado. Mesmo com as cordas estouradas, ninguém de sua casa ousou tocar neste objeto, pois a alma do pai poderia ficar muito magoada. Sobre isto, ele complementa: “eu acredito em assombração do bem e não do mal. Se estourou a corda do violão é que o espírito do meu pai nos protegeu de algum mal olhado. Este violão está lá para trazer sorte para a família e espantar coisas ruins. Sempre ficou pendurado no quarto de meu filho [...]”.

Além disso, ele relata que o pai apresentava firmeza em suas palavras, como diz: “meu pai era de uma época que o homem tinha que cumprir com suas palavras. Ele teve sua missão cumprida. Casou todos os filhos. Para pai a gente deve obrigação e carinho. Hoje ele já se foi [...]. Ele sempre me ajudou, mesmo quando casado, ele esteve presente. O ciclo dele, ele fechou, mas acho que comecei o meu [...]. O que ele ensinou, permanece em mim. Os valores dele continuam vivos dentro de mim, mas não sonho