O MAC foi criado em 1963 com a doação para a USP de uma importante coleção de arte moderna - a qual incluía obras de Modigliani, Picasso, Chagall, Miró, Bracque, Leger, Morandi, De Chirico entre outras - pertencente ao Museu de Arte
Moderna de São Paulo (MAM/SP), um museu privado27.
O novo museu foi instalado no 3º andar do prédio da Bienal. Com o tempo, a coleção foi enriquecida pela aquisição de obras de arte contemporânea que recebiam o primeiro prêmio da Bienal de São Paulo e muitas outras doações, somando 8000 obras em 1999.
O Regimento do MAC (1997) apresenta suas finalidades:
“I – promover o estudo e a difusão do acervo, assim como a sua conservação, proteção, valorização e ampliação, bem como o seu conhecimento como patrimônio artístico brasileiro no Brasil e no Exterior;
II – desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão nas áreas que lhe são afetas;
III – incentivar o intercâmbio científico e cultural com instituições afins.” (Título I, art. 1º)
As ações são realizadas pelas Divisões Técnico-Científica de Acervo, Técnico- Científica de Educação e Arte e de Pesquisa em Arte – Teoria e Crítica. Assim como o MAE e o MP, os órgãos de direção são o Conselho Deliberativo e a Diretoria.
27 Matarazzo Sobrinho, que respondia pelo MAM naquela época, também doou várias obras de
As pesquisas são desenvolvidas em várias áreas: sobre as coleções, sobre conservação de obras contemporâneas e métodos de educação não formal em arte contemporânea. O MAC realiza várias exposições: exposições do acervo, exposições educativas e exposições individuais e coletivas de artistas contemporâneos.
O MAC procura ser física e intelectualmente acessível ao público. Entretanto, sua localização no campus da Cidade Universitária e seus horários de abertura restritos dificultam o acesso dos diversos tipos de público. Com relação aos programas para acessibilidade intelectual, o museu oferece diversos cursos de história da arte moderna e contemporânea; apreciação e interpretação da arte; ateliês para a comunidade e público em geral e um programa especial para treinar professores de ensino fundamental. Além disso, oferece matérias optativas de graduação sobre arte contemporânea e interpretação da arte. (Almeida, 2000)
O MAC continua com suas três sedes: uma no 3º andar do Pavilhão da Bienal no Ibirapuera; uma pequena sede (conhecida como “maquinho”) no campus da Cidade Universitária ao lado da Reitoria e quase em frente da sede principal, que deveria abrigar a maior parte das exposições, do acervo e das áreas de trabalho.
No quarto capítulo discutiremos detalhadamente a trajetória do MAC/USP dentro da USP, o perfil de seu acervo e seus principais problemas.
5. Museu de arte, de história....como definir a tipologia?
Cabe destacar aqui que, entre os quatro grandes museus, o único denominado e considerado de arte é o MAC. Já chamamos atenção para o fato do antigo MAE ter sido criado com o nome de Museu de Arte e Arqueologia, seguindo a tradição européia de pesquisa que encarava os objetos da antiguidade clássica como obras de arte. Isso é ainda visível nos grandes museus de arte europeus – Louvre, British Museum – nos quais as coleções de arqueologia clássica são apresentadas enquanto objetos de arte.28
Descrevemos rapidamente a origem e situação de três museus de ciências da USP: um de ciências biológicas – MZ ; um de história – MP e um de antropologia – MAE. Todos eles certamente contam com objetos em seus acervos que poderiam ser considerados obras de arte, principalmente o MP e o MAE.
28 Krzysztof Pomian fez um interessante artigo (Musée arquéologique: art, nature, histoire. Le
Débat, Paris, 49, 1988:57-68) tratando da diferença entre o museu “arqueológico-tecnológico” e
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No caso do MP, são inúmeras as telas, por exemplo, de Benedito Calixto, Pedro Américo, que retratam paisagens de São Paulo e eventos históricos. Essas obras foram incorporadas ao acervo como objetos históricos e não como obras de arte e assim serão lidas e expostas pelo MP. Ulpiano Meneses ao discutir a tipologia de um museu histórico critica as visões baseadas apenas na categoria dos objetos:
“Num museu de arte, uma tela, por exemplo, é documento plástico (mas sem considerar que a construção da visualidade integra a realidade histórica). Já no museu histórico, a mesma tela seria valorizada pelo tema, como documento iconográfico (mas ignorando a historicidade da matéria plástica). Foram critérios como esse que determinaram em 1904 e em momentos posteriores, a transferência de telas do Museu Paulista (hoje da USP, um museu então histórico, antropológico e biológico), para a Pinacoteca do Estado (um museu de arte).” (Meneses, 1994:16)
Do Museu Paulista foram dadas à Pinacoteca todas as telas que não apresentassem “temas históricos” (Meneses, 1991:12). Esse critério, adotado até os anos 50, não corresponde às novas linhas de pesquisa histórica que se ampliaram nas últimas décadas, ampliando também as fontes e as formas de interpretação. Ulpiano Meneses faz um interessante exercício de interpretação da temática de uma tela de Calixto (1853-1927) – Fundação de São Vicente – encomendada para as comemorações do IV Centenário do Descobrimento. Em sua análise Meneses demonstra que a tela de Calixto é um importante documento histórico sobre a época na qual foi produzido e não sobre o século XVI, abordado pela temática:
“Em suma, esta tela de Calixto é importante documento histórico, mas não relativamente ao século XVI. (...)
Em compensação, a tela nos remete aos tempos em que foi produzida e consumida. Ela é, sim, documento das necessidades simbólicas vividas por Calixto e sua sociedade, no final do século passado, procurando inventar uma história para a nação ainda jovem – e já superados os ressentimentos com a antiga metrópole.” (Meneses, U. B., 1991:13)
O MAE tem em seu acervo artefatos arqueológicos e etnográficos que também podem ser considerados obras de arte, como adornos plumários produzidos pelos grupos indígenas do Brasil, máscaras africanas, cerâmicas marajoaras, entre outros29.
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Citamos alguns exemplos de exposições de arte com objetos antropológicos: Neste ano 2000, na exposição “Brasil 500 Anos de Artes Visuais”, apresentada em pavilhões do Parque do Ibirapuera em São Paulo, podemos vivenciar a proposta de apresentar objetos arqueológicos e etnográficos a partir de questões da arte. Na XIII Bienal de São Paulo (1975) foram apresentados artefatos de grupos do Xingu pertencentes às coleções dos irmãos Villas Bôas na exposição “Xingu Dia Xingu Noite Xingu Terra”. A exposição “Tradição e Ruptura”, realizada pela Fundação Bienal de São Paulo (1984-85), propunha reunir o maior número possível de obras de arte do Brasil, do período pré-colonial à contemporaneidade, incluindo assim objetos arqueológicos e etnográficos.
Esses artefatos são documentados, pesquisados e expostos enquanto objetos etnográficos ou arqueológicos, deixando a discussão das questões estéticas em um segundo plano.
Concordamos com Ulpiano Meneses quando ele afirma que a tipologia de um museu (no caso histórico) é dada pelas questões da área de conhecimento definida para o museu e não pelo tipo de acervo:
“Segundo a tipologia museológica acima discutida, concebe-se correntemente o museu histórico como aquele que opera com objetos históricos. Se, contudo, é a dimensão do conhecimento que sobe à tona, é preciso retificar e dizer, como vimos, que o museu histórico deve operar com problemas históricos, isto é, problemas que dizem respeito à dinâmica na vida das sociedades.
Nessa ótica, o museu deveria servir-se também dos objetos históricos, e de qualquer objeto que lhe possa permitir formular e encaminhar os problemas que tiver selecionado como prioritários dentro de seu campo.” (Meneses, 1994:21)
Para tanto, os pesquisadores de cada museu precisam ter clareza das linhas de pesquisa que desenvolvem e apresentar ao público exposições e programas coerentes com suas seleções de temas de pesquisa.