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Nenhuma história crítica da Antropologia poderá deixar de levar em consideração a omnipresença da situação colonial. Assumido esse pressuposto, configuram-se quatro tipos de análise que podem ser entendidas, também, como quatro etapas de construção do discurso da História da Antropologia:

a) A Antropologia encarada enquanto conjunto sequencial de autores e conceitos teóricos. Conquanto o debate de ideias seja essencial para a compreensão da evolução do pensamento antropológico, ao centrar os dados da análise apenas em torno do(s) autor(es) tende- se, no mínimo, a subvalorizar o contexto da produção88.

b) A Antropologia concebida apenas pela sua produção intelectual, ideológica e institucional, i.e., procedendo a uma crítica epistemológica e histórica. Este segundo tipo de análise conhece duas tendências. A primeira, que releva os aspectos intelectuais da

87 Cf. Gérard LECLERC (1973), Crítica da Antropologia. Ensaio acerca da história do africanismo,

Editorial Estampa, Lisboa, p. 32.

88 Como exemplo deste tipo de abordagem poderemos adiantar as obras de Marvin HARRIS

(1968), The Rise of the Anthropological Theory, Routledge and Kegan Paul, London e de Jacques LOMBARD (1972), L'Anthropologie Britannique Contemporaine, Presses Universitaires de France, Paris.

produção, é cabalmente ilustrada pela obra «clássica» de Adam Kuper89, Anthropology and Anthropologists. Tendo como objecto de

estudo o «ethos» da escola de Antropologia social britânica, a obra de Kuper consagra um dos seus capítulos às relações entre a Antropologia e o colonialismo britânicos, mas o que lhe interessa não são, propriamente, as relações entre eles, mas, sim, as repercussões que o terreiro colonial teve na teoria e no método daquela escola. A segunda tendência, mais atinente à crítica ideológica, reduz-se à denúncia da Antropologia enquanto prática intelectual do colonialismo, colocando-se ao nível da intervenção política90.

c) A Antropologia considerada enquanto prática institucional, numa espécie de análise funcional. Permite entender a Antropologia enquanto produto de um sistema político e científico, sistema esse que condiciona os objectos, os objectivos e, em última instância, as próprias teorias. Fundamenta a sua análise nos arquivos, na «descoberta» de fundos epistolares oficiais e privados, no confronto de notas, prefácios, posfácios e anexos 91.

89 Adam KUPER (1973), Anthropology and Anthropologists. The British School, 1922-1972, Allen

Lane, London.

90 Os textos de KathleenGOUGH (1968a), «Anthropology and Imperialism», in Monthly Review,

II, 19, New York e KathleenGOUGH (1968b), «New proposals for anthropologists», in Current

Anthropology, vol. IX, Chicago, bem como grande parte dos textos reunidos na antologia de Jean COPANS [ed.] (1975), Anthropologie et Impérialisme, Maspéro, Paris, nomeadamente o texto de Alfredo MARGARIDO (1975), «Le Colonialisme Portugais et l'Anthropologie», ilustram este tipo de análise que não hesita em assumir uma ruptura radical no discurso da História da Antropologia. A obra deGérard LECLERC (1973), Crítica da Antropologia. Ensaio

acerca da história do africanismo, Editorial Estampa, Lisboa, poderá, em parte, ser igualmente associada a esta tendência.

91 A antologia de textos reunidos por Talal Asad (1975) [Talal ASAD [ed.] (1975), Anthropology

and the Colonial Encounter, Ithaca Press, London], particularmente os artigos de Wendy JAMES, «The anthropologist as reluctant imperialist», e Richard BROWN, «Anthropology and Colonial Rule: Godfrey Wilson and the Rhodes-Livingstone Institute», elucidam esta abordagem. Grande parte dos nossos textos no domínio da História da Antropologia colonial portuguesa, nomeadamente «Antropologia aplicada na política colonial portuguesa do Estado Novo» (1987a) e «A questão colonial na Etnologia ultramarina» (1989b), situam-se nesta perspectiva de análise. [Rui PEREIRA (1987a), «Antropologia aplicada na política (cont.)

d) A Antropologia concebida como o resultado da síntese das diversas determinantes acima sequencialmente expostas, o que equivale a tomar em consideração, de uma forma concomitante, os autores e as suas ideias, as motivações intelectuais e as ideológicas, o enquadramento institucional, político e científico. É nesta linha de análise que pretendemos inscrever esta nossa investigação.

O passado de uma ciência social, como a Antropologia, é constituído, portanto, pela soma dos diversos obstáculos epistemológicos que se foram erguendo no tempo de evolução dessa disciplina. Grande parte desses obstáculos provém das condições sociais e políticas que rodearam a execução da produção científica, pelo que toda a ciência social arrasta consigo um «inconsciente colectivo», isto é, o conjunto de condições sociais e políticas, ocultas e (ou) esquecidas, que a proporcionou92. Esse «inconsciente colectivo»

contrapõe-se, frequentemente, a todo um conjunto de questões que Schumpeter formulou da seguinte forma:

«Mas porquê estudar a história de uma ciência, qualquer que ela seja? Poderemos pensar que as investigações em curso retêm tudo o que, dos trabalhos das gerações precedentes, nos é ainda útil. Os conceitos, os métodos e os resultados já abandonados não merecem, seguramente, que os levemos em consideração. Então, porquê retornar aos autores antigos e repetir as suas ideias ultrapassadas? Não poderemos confiar essas velharias aos

______________________________________________________ (cont.)

colonial portuguesa do Estado Novo», in Revista Internacional de Estudos Africanos, 4-5, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa; Rui PEREIRA (1989b), «A questão colonial na Etnologia Ultramarina», in Antropologia Portuguesa, nº 7, Instituto de Antropologia, Universidade de Coimbra, Coimbra].

92 Pierre BOURDIEU (1976), «Les conditions sociales de la production sociologique: sociologie

coloniale et décolonisation de la sociologie», in Henri Moniot [ed.], Le Mal de Voir. Ethnologie

et Orientalism: politique et épistémologie, critique et auto-critique, Union Générale d'Éditions, Cahiers Jussieu, (2), Université de Paris VII, Paris, p. 419.

cuidados de alguns especialistas que as tomem, apenas, enquanto tal?»93.

Aos antropólogos também se coloca, assiduamente, este conjunto de questões, de tal forma que, para alguns, a atitude face ao passado da sua disciplina constitui, por si, objecto particular de estudo, de modo a melhor compreender a evolução do seu pensamento e filiação teóricas. Com efeito, tal atitude variou no tempo conforme a Antropologia evoluía e se diversificava sendo certo que, muito frequentemente, a maior parte dos antropólogos tem feito prova de um manifesto descuido e negligência quanto ao passado da sua disciplina. Mesmo a recorrente referência aos «grandes mestres» não implica, necessariamente, que tenham lido as suas obras, contentando-se, por vezes, com informações em segunda mão, como o parecem atestar as inúmeras considerações inexactas que alguns antropólogos fazem, de geração em geração, dos seus antecessores. Assim, o antropólogo, regra geral, não tem senão um conhecimento realmente superficial da história da sua disciplina e, em muitos casos, supõe que esse conhecimento não lhe traz nada de essencial à afirmação das suas posições teóricas94. No caso da Antropologia portuguesa a

situação agrava-se pelo facto, anteriormente assinalado, de não existir, sequer, qualquer obra de referência que sistematize a evolução das suas correntes de pensamento95. Subsiste, para o caso da Antropologia portuguesa, uma espécie

de «inconsciente colectivo» que está na origem de pré-conceitos desde há muito cristalizados. Consciencializar esse «inconsciente colectivo» é tomar

93 Joseph A. SCHUMPETER (1954), History of Economic Analysis, Allen & Unwin, London, p. 4. 94 A esse propósito, distingue-se do filósofo, para quem a História da Filosofia constitui, em

geral, um importante pressuposto intelectual.

95 Vem a propósito referir que a inexistência de uma História da Antropologia portuguesa não

é caso ímpar, nem sequer o mais significativo, já que – e a título de exemplo – Regna Darnell constatou em 1974 que, para um universo académico incomparavelmente maior, a sua dissertação sobre a História da Antropologia americana era tema único de doutoramentos em Antropologia Social e Cultural nos Estados Unidos [Regna DARNELL (1974), Readings in

conhecimento, como afirma Bourdieu96, dos principais obstáculos

epistemológicos do passado da nossa disciplina e libertá-la das eventuais marcas ideológicas impressas por determinadas condições sociais de produção científica. Até porque, ademais, nem toda a produção antropológica beneficiou da franqueza que Malinowski emprestou às suas investigações:

«O antropólogo que não esteja pronto a reconhecer os trágicos erros cometidos em certas épocas com a melhor das intenções ou sobre a pressão de uma imperiosa necessidade, nada mais é do que um antiquário mascarado de académico vivendo num paraíso ilusório. (…) A investigação para ser útil deverá ser

inspirada pela objectividade e pela coragem. (…) Deveremos nós,

contudo, misturar a política com a ciência ? Num certo sentido, decididamente sim»97.

Mas o reconhecimento dessa conivência foi muito pouco consequente e, como já por diversas vezes acentuámos, a Antropologia raramente encarou a situação colonial na sua globalidade, isto é, prestou-se a uma redução epistemológica que ignorou a comparação dos sistemas sociais e económicos, a apercepção das formações sociais e a sua evolução ou transição98. Tal redução,

contudo, não se processou de igual forma em todos os contextos, uma vez que as condições políticas e sociais próprias a cada situação colonial configuraram um campo de actuação específico a cada intervenção antropológica: as

96 Pierre BOURDIEU (1976), «Les conditions sociales de la production sociologique: sociologie

coloniale et décolonisation de la sociologie», in Henri Moniot (ed.), Le Mal de Voir. Ethnologie

et Orientalism: politique et épistémologie, critique et auto-critique, Union Générale d'Éditions, Cahiers Jussieu, (2), Université de Paris VII, Paris.

97 Bronislaw MALINOWSKI (1970), Les Dynamiques de l'Evolution Culturelle. Recherches sur les

relations raciales en Afrique, Payot, Paris (1ª edição, London, 1961), p. 21.

98 Alguns antropólogos «post-malinowskianos» não hesitaram em radicalizar esse atomismo:

«… just as Malinowski himself rejected the concept of “culture contact” situation as an integrated whole, we must reject the concept of the colonial situation in the inter-war period as an integrated whole». Wendy JAMES (1973), «The anthropologist as reluctant imperialist», in Talal Asad [ed.], Anthropology and the Colonial Encounter, Ithaca Press, London, p. 69.

condições de intervenção de Malinowski e seus pares no domínio da «indirect

rule» britânica foi, necessariamente – como em devida altura o comprovaremos —, diferente da actuação da Antropologia portuguesa no seu terreiro colonial. A este conjunto de especificidades dever-se-á sobrepor, ainda, um outro, aquele que se relaciona com a origem da própria intervenção, consoante era realizada por académicos, ou se resultava do engajamento antropológico de agentes da missionação (funcionários da administração colonial, militares, missionários, agentes de saúde, etc.). Importa saber, portanto, quais eram as propriedades específicas a cada campo e as suas variações consoante as épocas.

No caso da Antropologia portuguesa o grau de autonomia do campo foi diverso ao longo do tempo a que nos reportamos nesta investigação, como também variou a posição do campo de intervenção colonial em relação ao campo intelectual metropolitano, bem como a sua relação com o quadro político-social local, variações essas com repercussões específicas na produção antropológica resultante. A importância da noção de campo que aqui utilizamos advém da possibilidade de poder pensar o espaço de produção antropológica (colonial) como um sistema em que as características de cada um dos produtores intelectuais – sejam eles académicos ou não – são determinadas pela sua posição no sistema (situação colonial). Assim, o campo é o universo no qual as características dos produtores (autores, investigadores) são definidas pela sua posição nas relações de produção – intelectual, mas também social —, pelo lugar que eles ocupam num certo espaço de relações objectivas. É este espaço que, em cada caso, se deverá analisar, de molde a poder compreender porque certos problemas foram colocados à reflexão e determinados temas foram evitados, num intento que visa a compreensão e não o julgamento99.

Resumindo, a compreensão da produção antropológica colonial levará em linha

99 «Il faut comprendre ce qui se passait, non se constituer en juge». Pierre BOURDIEU (1976), «Les

conditions sociales de la production sociologique: sociologie coloniale et décolonisation de la sociologie», in Henri MONIOT [ed.], Le Mal de Voir. Ethnologie et Orientalism: politique et

épistémologie, critique et auto-critique, Union Générale d'Éditions, Cahiers Jussieu, (2), Université de Paris VII, Paris, p. 222.

de conta, obrigatoriamente, as condições políticas e sociais inerentes a cada situação colonial, procurando determinar a forma como estas, de algum modo, agem sobre aquela. Isto dito, torna-se possível, então, começar a traçar o quadro fundamental de questões pertinentes a esta nossa investigação.

As relações entre a Antropologia e a dominação colonial não poderão deixar de ser encaradas segundo duas perspectivas diferentes, mas complementares100: ou se considera o conjunto de problemas e temas

questionados pela produção antropológica colonial como derivando das relações de força e das necessidades da própria situação colonial, mais do que de uma qualquer «ideologia colonial» (forma um pouco imprecisa de pôr o problema); ou se avaliam, um por um, os contributos, directos ou simbólicos, explícitos ou latentes, que tal produção antropológica prestou à empresa colonial. No caso da produção antropológica colonial portuguesa estes dois ângulos de abordagem são heuristicamente pertinentes. Por um lado, é possível demonstrar – como o faremos – que as necessidades coloniais ditaram a problematização científica: as medições antropométricas, por exemplo, estavam correlacionadas, manifestamente, com a necessidade de quantificação da força de trabalho indígena numa determinada fase de evolução da situação colonial portuguesa em África, da mesma forma que as problematizações em torno dos conceitos de «contacto de culturas» e «aculturação» correspondiam a uma outra fase. Por outro lado, o levantamento etnográfico de determinadas culturas, como por exemplo os Macondes de Moçambique, serviu um intento de dominação colonial101, mesmo que o possamos entender – e devemos fazê-lo

100 Ver Fanny COLONNA & Claude Haïm BRAHIMI (1976), «Du bon usage de la science

coloniale», Henri Moniot [ed.], Le Mal de Voir. Ethnologie et Orientalism: politique et

épistémologie, critique et auto-critique, Union Générale d'Éditions, Cahiers Jussieu, (2), Université de Paris VII, Paris, p. 221.

101 A este propósito e numa assunção manifestamente radical Copans defendeu que

«l’anthropologie n’a jamais délimité son object, c’est la domination coloniale qui l’a fait pour elle». JeanCOPANS (1974), Critiques et Politiques de l'Anthropologie, Maspéro, Paris, p. 113.

para o caso da monografia de Jorge Dias— como uma prestação académica e científica – teórica e metodológica – importantíssima.

A questão fundamental a toda e qualquer visão histórica da Antropologia em situação colonial é a de saber qual o tipo de relação entre elas existente e em que grau: dependência, conivência, colaboração, articulação, ou, pelo contrário, independência, autonomia, indiferença? As respostas a esta questão preenchem todo um leque de posições, a começar pela negação da própria questão – afinal, a obliteração do passado da disciplina é isso mesmo, como o é, também, a sonegação das condições políticas e sociais que rodearam a produção dessa Antropologia. Autores há que, como Burton102, defendem a

inexistência de uma «Antropologia colonial» pelo facto de o desenvolvimento do pensamento antropológico – conquanto possa ter sido, em casos pontuais, proporcionado pela situação colonial – não ter concorrido para a hegemonia do poder colonial, isto é, não ter assegurado qualquer retorno ao nível da gestão colonial. Invertendo os termos da questão, Evans-Pritchard chegou a idêntica conclusão:

«Sol Tax assinalou que apesar de ter passado cerca de dez anos a investigar a antropologia social dos Chiapas e dos índios guatemaltecos nunca lhe foi solicitado o seu parecer técnico para a resolução dos problemas sociais da região. Outros antropólogos passaram pela mesma situação. Seligman disse-me uma vez que durante todo o tempo que trabalhou no Sudão, ou sobre os problemas sudaneses, nunca foi pedido o seu parecer e a única vez que voluntariamente o deu – a propósito dos “fazedores de chuva” Nuba – não foi levado em consideração. Durante os quinze anos em que trabalhei sobre os problemas sociais da

102 John W. BURTON (1992), «Representing Africa: colonial anthropology revisited», in Journal of

mesma região nunca foi solicitada a minha opinião sobre qualquer questão»103.

Mas apesar dessa pretensa «inutilidade»104 e de algumas bem

intencionadas profissões de fé – Raymond Firth, em 1936, foi o primeiro a procurar afirmar a autonomia da Antropologia face à situação colonial105 —a

Antropologia colaborou, decididamente, de uma forma directa ou indirecta, no projecto colonial106. Porque a questão fundamental que a esse propósito deve

ser colocada não é a de saber se a Antropologia colaborou, ou não, nos objectivos da gestão colonial – esta é uma questão desde há muito ultrapassada. O que realmente importa conhecer, sistematizar e analizar são os objectivos, as técnicas e os pressupostos teóricos envolvidos107.

103 Edward E. EVANS-PRITCHARD (1946), «Applied Anthropology», in Africa, XVI, International

African Institute, London, p. 97.

104 E essa «inutilidade» ainda pode ser considerada de um outro ponto de vista. Mais

recentemente, Maxwell Owusu [Maxwell OWUSU (1978), «Ethnography of Africa: the usefulness of the useless», in American Anthropologist, vol. 80, 2, Washington, passim] defendeu a ideia de que a maior parte dos levantamentos etnográficos realizados em África, sobretudo durante o período colonial, eram muito pouco rigorosos, dado o desconhecimento das línguas nativas por parte dos antropólogos. Assim, o sistemático recurso a intérpretes e tradutores desvalidou, em grande medida, o alcance desses levantamentos. Obviamente que essa constatação não invalida o possível aproveitamento que deles possa ter feito a situação colonial, nem sequer o propósito com que, eventualmente, foram realizados.

105 Ver RaymondFIRTH (1983), We, the Tikopia. A sociological study of kinship in primitiv Polynesia,

Stanford University Press, Stanford (1ª edição, 1936), p. 487.

106 Malinowski foi mais longe ao defender que na África colonial e perante a omnipresente

situação de mudança a prática da Antropologia não deveria actuar separadamente dos pressupostos teóricos da sua disciplina, o que, podendo parecer, num primeiro momento, afirmação de autonomia da disciplina, configura, realmente, a sua actuação ao campo de interesses da situação colonial. Ver Bronislaw MALINOWSKI (1970), Les Dynamiques de

l'Evolution Culturelle. Recherches sur les relations raciales en Afrique, Payot, Paris (1ª edição, London, 1961), p. 28.

107 E essa é a via de uma verdadeira Antropologia do Colonialismo, distinta, portanto, de uma

História da Antropologia Colonial que assinale detalhada e metodicamente os passos dessa relação de conveniência e conivência. De todo o modo, e no que se refere à Antropologia e ao colonialismo portugueses, a História de ambos está por fazer.

Para o contexto e período a que reportamos esta nossa investigação – anteriormente justificados – importa responder às seguintes questões fundamentais:

— que tipo de relação particular se estabeleceu entre a situação colonial portuguesa e o conhecimento antropológico?

— qual a natureza do conhecimento antropológico envolvido nas tarefas de gestão da situação colonial portuguesa ?

— o conhecimento antropológico procurou responder a problemas levantados pela gestão colonial portuguesa ?

— a administração colonial serviu-se dos dados, das técnicas e dos pressupostos teóricos da Antropologia para conseguir ultrapassar as eventuais contradições da situação colonial portuguesa?

— o conhecimento antropológico da situação colonial portuguesa foi proporcionado, exclusivamente, por uma espécie de Antropologia «aplicada», praticada pelos diversos agentes da colonização, ou foi, também, facultado pelo chamamento da Antropologia académica? — em que sentido a prática e o conhecimento antropológicos nas

colónias portuguesas condicionaram os recortes epistemológicos da Antropologia portuguesa?

— de que forma os pressupostos teóricos da Antropologia «académica» influenciaram o campo de interesses da Antropologia «aplicada»?

Parte das respostas a este vasto leque de questões deixa-se advinhar na apresentação já aqui feita do objecto, objectivos e problematização da nossa investigação. A este conjunto dever-se-á, ainda, adiantar um outro grupo de questões, estas mais específicas:

— foi o colonialismo português substancialmente diferente das outras situações coloniais?

— consequentemente, terão existido diversos níveis de actuação antropológica consoante o «tipo» de colonialismo?

— mais ainda, a existência de diversas correntes e escolas antropológicas terá resultado da natureza específica da situação colonial em que se envolveram?

— a especificidade de cada uma das escolas antropológicas terá, de alguma forma, determinado as orientações da política colonial dos contextos em que intervieram?

— a política colonial portuguesa terá conhecido diversas assunções de acordo com as especificidades de cada território colonial?

— decorrentemente, terá existido uma actuação antropológica diferenciada em cada um deles?

— a evolução da política colonial portuguesa em Moçambique terá decorrido de causalidades internas ou de causalidades externas ? — a evolução da política colonial portuguesa em Moçambique teve

alguma correspondência no tipo de atenção antropológica solicitada ?

— os diversos momentos dessa atenção antropológica influenciaram, de algum modo, a política colonial portuguesa em Moçambique ?