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O trabalho de Fireman (2006) investiga como ocorre a seleção de repertório em curso superior de violão. O autor utilizou a metodologia de estudo de caso e, como técnicas, as observações e as entrevistas com o professor e dois estudantes para investigar a questão. Fireman expressa a sua observação em relação à escassez da pesquisa sobre o ensino de violão e também ao próprio tema repertório:

[...] trabalhos sobre o ensino do violão ainda são bastante escassos necessitando que

mais pesquisadores se interessem em desenvolver mais investigações na área [grifo meu] [...] Ao tratar de repertório na aula de instrumento, é preciso ter consciência de que

a formação estará sendo delineada e preferências estabelecidas. O repertório em aula de instrumento continua sendo uma rica fonte de pesquisa e a literatura sobre o assunto ainda limitada. (FIREMAN, 2006, p.556).

O autor categoriza cinco aspectos necessários para a seleção de um repertório:

! Avaliar as condições atuais do estudante (técnicas, compreensão musical, necessidades emocionais);

! Estabelecer objetivos para o futuro (metas para o desenvolvimento do estudante);

! Determinar um conjunto de recursos conhecidos (conjunto de músicas, um compositor, um período e/ou outros de acordo como as metas estabelecidas);

! Avaliar aquela música que apresenta as características desejadas (uma peça que servirá de fundamento para atingir os objetivos e um plano de atividades para sua realização viável);

! Predizer os possíveis resultados a alcançar com o material escolhido (possíveis resultados provenientes da escolha) (FIREMAN, 2006, p.567).

Segundo Fireman, a escolha passa por um processo em um conjunto de relações que inicia desde a avaliação até a predição. O professor, ao desejar desenvolver uma habilidade técnica para um estudante, poderá escolher uma peça que tenha funcionado anteriormente. No entanto, devido a idiossincrasia de cada indivíduo, o autor alerta que não há garantia de um ensino eficaz a todos, assim como a escolha do repertório não necessita a obrigatoriedade da reflexão sobre relações causais, pois pode surgir como produto da própria trajetória e experiências pessoais passadas do educador.

Entre os resultados do trabalho de Fireman, está o aumento da motivação e maior dedicação do estudo no instrumento como fatores que dependeram de uma obra escolhida. O

autor observou estes elementos quando o professor escolheu uma peça de interesse do estudante. Em relação ao professor, aspectos reflexivos estiveram presentes e as seguintes atitudes foram primordiais para a escolha e a condução do repertório: “estava atento aos problemas dos estudantes e cuidava em resolvê-los, pontuava as dificuldades com precisão e propunha soluções reflexivas”. (FIREMAN, 2006, p.571).

A escolha do repertório pelo estudante é uma das formas do professor focar o seu ensino através do interesse do próprio estudante. No entanto, não se pode esquecer que cada repertório apresenta o seu requisito para ser executado. Vieira demonstra a estratégia de ensino que um dos professores utiliza sobre o repertório, “[o professor] trabalha basicamente com 'repertório', procurando escolher 'músicas possíveis' de serem executadas de acordo com o nível de desenvolvimento de cada um”. (2009, p.99) Contudo, o autor apresenta a concepção do repertório mediado, onde a seleção do repertório é fruto de negociações entre professor-aluno mediadas por fatores do contexto social de cada um. Outro aspecto que está representado na pesquisa de Vieira, refere-se à situação quando um dos participantes afirma que dependendo do local que será ensinado, o repertório pode mudar: “eu não posso chegar no colégio do morro e querer impor

rock and roll, né?!”. (2009, p.105).

De acordo com a revisão de literatura realizada, o ensino do violão pode estar voltado para os mais diversos tipos de público e temas - crianças, adolescentes, adultos e idosos com ênfase no repertório e ensino a distância - através de diferentes metodologias de ensino - ensino coletivo ou individual - e também nos seus mais variados contextos - educação básica, escolas técnicas ou profissionalizantes, associações, organizações não governamentais - ONGs, casa do aluno, casa do professor, oficinas, cursos, projetos, cursos superiores e ambientes informais. Diante das diversas possibilidades de pesquisa sobre tais assuntos envolvendo o violão e a escassez de estudos que tematizem os processos de ensino de violão observada nas palavras de Fireman (2006), o presente estudo esteve centrado nos processos de ensino de professores de violão em escolas específicas de música no município de Blumenau/SC.

2 METODOLOGIA

A metodologia proposta para esta investigação está inserida no caráter qualitativo com a escolha de utilização da estratégia de estudos de casos. A escolha deste desenho metodológico justifica-se pela maneira como os dados foram coletados pelo pesquisador e também o próprio objetivo desta pesquisa. Malbrán (2006) afirma que as raízes intelectuais da metodologia qualitativa surgiram através do idealismo filosófico de Kant. Segundo a autora, algumas palavras sobre o pensamento Kantiano:

Tudo o que podemos chegar a conhecer, afirmava Kant, são fenômenos. Em lugar de conhecer o mundo de forma direta, sentimos, interpretamos e nos explicamos a nós mesmos. Toda experiência está mediada pela mente, e toda inteligência humana está imbuída sua experiência e limitada à interpretação e a representação (MALBRÁN, 2006, p.61) (tradução minha)6.

John Creswell (2007, p.186) apresenta uma das ideias de Rosman e Rallis (1998) sobre características da pesquisa qualitativa.

A pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa […]. Isso também significa que o pesquisador filtra os dados através de uma lente pessoal situada em um momento sociopolítico e histórico específico. Não é possível evitar as interpretações pessoais, na análise de dados qualitativos.

Moreira e Caleffe (2006) discorrem sobre a pesquisa qualitativa e afirmam que ela está inserida em um paradigma interpretativo. Este tipo de paradigma surgiu no século XIX como uma forma crítica ao caráter positivista que procura relações causais expressas em generalizações universais. O enfoque sobre seres humanos como objetos de pesquisa juntamente com as ciências sociais passaram a considerar os pressupostos positivistas como não apropriados ao estudo do mundo social: “o enfoque das ciências sociais deveria ser nos produtos da mente humana, incluindo subjetividade, interesses, emoções e valores” (MOREIRA; CALEFFE, 2006, p.60). Um exemplo do contraste entre o paradigma quantitativo e qualitativo está nas palavras de Bortoni (2008, p.34):

6 Todo lo que podemos llegar a conocer, afirmaba Kant, son fenómenos. En lugar de conocer el mundo de forma directa, sentimos, interpretamos y nos explicamos a nosotros mismos. Toda experiencia está mediada por la mente, y toda inteligencia humana está imbuida de ella y limitada a la interpretación y la representación. (MALBRÁN, 2006, p.61).

[...] a pesquisa qualitativa não se propõe testar essas relações de causa e conseqüência entre fenômenos, nem tampouco gerar leis causais que podem ter um alto grau de generalização. A pesquisa qualitativa procura entender, interpretar fenômenos sociais inseridos em um contexto.

Bortoni (2008) demonstra o surgimento do paradigma interpretativista em 1920 através do questionamento de pensadores como Theodor Adorno e Jürgen Habermas ao positivismo de Comte na Escola de Frankfurt. Esta origem está ligada às consequências propiciadas por alguns estudos antropológicos e etnográficos desenvolvidos por Malinowsky e Mead. Esses estudos causaram um questionamento entre pensadores se poderiam reconhecê-los como científicos ou não. Assim como Creswell, que prevê o envolvimento do pesquisador nas análises dos dados, Bortoni também considera o pesquisador como um agente ativo:

Segundo o paradigma interpretativista, [...] não há como observar o mundo independentemente, a capacidade de compreensão do observador está enraizada em seus próprios significados, pois ele (ou ela) não é um relator passivo, mas um agente ativo. (BORTONI, 2008, p.32).

As características do interpretativismo descritas por Malbrán (2006, p.65) consideram o esforço do pesquisador em reconhecer os eventos relevantes para o problema. A característica de interpretação de dados também fica evidenciada na interação do sujeito com o investigador. “A investigação qualitativa se preocupa pelos diferentes significados que as ações e os eventos podem ter para distintos participantes” (tradução minha)7

. A autora faz a distinção entre o estudo transversal e o longitudinal, apontando que o primeiro representa um momento estático do fenômeno, enquanto o segundo constitui o estudo do fenômeno ao longo do tempo. Neste sentindo, esta pesquisa não procura um resultado sobre a influência do período de tempo, mas os fenômenos observados por um período determinado em que se buscam alguns resultados sobre os processos de ensino do violão.

Banks (2009, p.8) considera a pesquisa qualitativa como sendo o “explorar do mundo lá fora”, e entender, descrever e explicar os fenômenos sociais que ocorrem internamente de diversas maneiras. O autor lista três tópicos como o entendimento, a descrição e a explanação a partir da análise de experiências de indivíduos ou de grupos:

7 La investigación cualitativa se preocupa por los diferentes significados que las acciones y los eventos pueden tener para distintos participantes. (MALBRÁN, 2006, p.65).

As experiências podem estar relacionadas a histórias biográficas ou a práticas (cotidianas ou profissionais), e podem ser tratadas analisando-se conhecimento, relatos e histórias do dia a dia. Examinando interações e comunicações que estejam se desenvolvendo. Isso pode ser baseado na observação e no registro de práticas de interação e comunicação, bem como na análise desse material. Investigando documentos (textos, imagens, filmes ou música) ou traços semelhantes de experiências ou interações. (BANKS, 2009, p.8).

Desse modo, a perspectiva qualitativa está relacionada com o aspecto interpretativo no momento em que o pesquisador analisa os professores de violão ao assistirem a sua própria atuação mediante a utilização de vídeos gravados e, ao mesmo tempo, com a mediação do pesquisador, buscando interpretar o processo de ensino do instrumento. A abordagem qualitativa também possui características que se aplicam ao presente estudo, uma vez que os resultados estão delimitados ao contexto específico, no caso a aula de violão.