Tourinho (2003) trata sobre a formação do professor para o ensino coletivo do instrumento. Segundo a autora, desde 1995 vem sendo estudada a formação de professores que possam lidar com a diversidade dos alunos em aulas de violão em grupo. O surgimento da necessidade de criar aulas coletivas para o ensino do instrumento resultou em modos diferentes de lidar com o ensino que vinha ocorrendo de forma tutorial. No entanto, apesar do crescimento
a partir da segunda metade do séc. XX do ensino coletivo nas escolas especializadas e do maior interesse nesta forma de trabalhar, Tourinho afirma que prevalece o ensino tutorial. A forma de ensino coletivo não restringe o ensino individualizado, pois este também ocorre. Na sequencia, Tourinho apresenta algumas vantagens que o coletivo pode acarretar, tais como:
[...] o aluno têm outros referenciais que não o modelo do seu professor, e aprende a aprender vendo e ouvindo os colegas. A aula em grupo incentiva a discussão de pontos de vista diferenciados e inclui música brasileira em arranjos e repertórios, música com utilização de instrumentos eletroacústicos, participações em festivais, concursos e master class como integrantes curriculares, o que atualmente é um avanço em relação aos estreitos currículos de alguns anos atrás (TOURINHO, 2003, p.2).
O problema que Tourinho procura demonstrar é a formação de professores que estejam capacitados para coordenar a ação individual da prática instrumental do aluno em um contexto de ensino coletivo. A autora ainda afirma que a crença para o aprendizado instrumental possui como pré-requisitos “talento”, “bem dotados” e “genialidade”, é uma exigência remanescente do ensino individualizado, ademais, faz uma crítica ao conservadorismo de práticas pedagógicas.
[...] o ensino não deve ser a repetição de velhas ações que muitas vezes não funcionam em novos espaços e tempos, mas nem sempre o professor desenvolve técnicas e possibilidades de fazer diferente. Na verdade, não é possível ’conservar’ a música como algo estático e imutável, mas foi dessa forma que muitos foram ensinados, a preservar as tradições de pedagogia, usar os mesmos procedimentos metodológicos, um repertório no qual se sentisse ’seguro’ e confortável. Fazer diferente é um risco e um desafio, muitas vezes sem condições físicas e materiais mínimas proporcionadas nas próprias escolas de música (TOURINHO, 2003, p.3).
Através da observação de um projeto bem sucedido desenvolvido por Alda Oliveira na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (EMUS), Tourinho criou (1989) uma oficina de violão para jovens e adultos com aulas coletivas. O objetivo do curso foi ampliar a visão restrita do ensino instrumental (piano, violão, etc), pois “ [...] são cursos de música aplicada ao violão: o aluno, além de tocar, canta, solfeja, faz arranjos, toca de ouvido, toca lendo partitura, utilizando diversos gêneros musicais” (TOURINHO, 2003, p.5). A pesquisadora enfatiza que, além de o curso estar aberto à comunidade, se trata de uma oportunidade dos estagiários de graduação exercitarem a sua prática reflexiva, qualificando-os como futuros professores do ensino coletivo de violão. Dentre alguns resultados deste projeto:
[...] alunos que começaram como alunos da Oficina de Violão, são hoje profissionais atuantes no mercado como professores e como performers. Outros, que tiveram orientação individual, mas que estagiaram na Oficina durante o curso de graduação, são profissionais competentes e críticos da sua atuação, de outros colegas e cursos (TOURINHO, 2003, p.6).
Em 2004, Tourinho publicou um relato sobre a oficina desenvolvida nos últimos três anos do curso “Oficina de Violão”, da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (EMUS- UFBA). A autora utiliza, como referências, as pesquisas de Swanwick (2003), Oliveira (2000) e Luckesi (2003) para a metodologia de seu trabalho, onde visa à educação avaliativa como um dos elementos para o ensino com qualidade e direcionamento dos educandos para a sociedade. Considerando, além disso, a oportunidade do estudante trazer a música que valoriza, assim como colocando-se como responsável pela delineação de seu repertório. A ideia do curso surgiu de uma necessidade observada por Tourinho, pela qual as aulas tutorias e a forma de ingresso para o curso de violão restringiam grande parte da comunidade interessada em aprender música. O estudante ingressante do curso tem a opção de participar de um dos quatro corais da escola, assim o canto é uma atividade que está presente também nas aulas de violão. Como o curso apresenta várias turmas de níveis diferenciados com o objetivo de atender os mais diversos perfis de estudantes, a forma de seleção consiste em entrevistar individualmente cada candidato, classificando-o de acordo com a sua habilidade instrumental, conhecimento de leitura musical, idade e turno pretendido. Segundo a autora: “[...] este nivelamento permite a construção de turmas hipoteticamente mais homogêneas para o semestre (15 aulas) do que simplesmente uma inscrição via balcão de secretaria com o preenchimento de um formulário de dados pontuais” (TOURINHO, 2004, p.4). Esta seleção é realizada por professores-estagiários, que passam a exercitar e desenvolver habilidades de percepção para uma avaliação diagnóstica.
Renovações, desistências, cancelamentos, reprovações, alunos concluintes e alunos encaminhados para a graduação são as categorias que Tourinho utiliza para a avaliação da oficina no final de cada semestre, acrescendo que este trabalho pode servir como fonte para novas pesquisas na área do ensino instrumental, possibilitando uma aproximação entre pesquisa e extensão.
Referenciados no modelo (T)EC(L)A de Swanwick, Tiago e Perdomo apresentam uma descrição de um projeto aplicado no Conservatório de Música Cora Pavan Capparelli, Uberlândia /MG, onde lecionam violão. Ao descobrirem alguns empecilhos que aulas em grupo
apresentam, tais como níveis técnicos diferentes dos alunos, faixas etárias diversas e repertórios variados, as autoras buscaram alternativas para o ensino em grupo. Uma das atitudes esteve na liberdade de escolha do repertório pelos alunos, sendo que a preferência do repertório direcionou para a música “popular” e o projeto configurou-se como sendo de música popular. Uma alternativa, encontrada pelas autoras, foi adotar também as aulas individuais dentro das aulas em grupo - uma combinação das duas metodologias - visto que as pesquisadoras perceberam que as aulas em grupo não foram suficientes para dar conta das necessidades individuais de cada estudante.
O principal objetivo do projeto consistiu em uma apresentação musical no final de cada módulo (total do curso em dois módulos). Segundo as autoras, o modelo de ensino em grupo resulta em mudanças pedagógicas significativas. Além do “tocar em conjunto”, a abordagem de ensino em grupo proporciona aos alunos o desenvolvimento da proficiência técnica no instrumento; da percepção e da consciência dos elementos básicos da linguagem musical; da audição ativa e crítica (identificando os elementos musicais básicos na própria performance e na performance dos colegas); do conhecimento de história da música e da literatura do instrumento para apreciação estética e crítica em relação às audições; de atitudes positivas em relação à música; e do fortalecimento da auto-estima e auto-imagem dos alunos para que desenvolvam a consciência social (TIAGO; PERDOMO, 2004, p.3).
As autoras, em suas ações, consideram a experiência musical trazida pelos estudantes e baseiam-se na importância da educação musical contemporânea, que preza pela “necessidade de se levar em consideração o contexto social em que o aluno está inserido, partindo-se de seu conhecimento e daquilo que tem significado para ele. Posteriormente, pensa-se em ampliar sua experiência por meio de conhecimentos que a escola dispõe” (TIAGO; PERDOMO, 2004, p.3). Sendo assim, não houve distinção de valores entre os gêneros musicais. Os resultados apresentados a partir de depoimentos e das atitudes dos estudantes, segundo as autoras, foram positivos: maior motivação nas aulas e estudo em casa, crescimento musical, fortalecimento da individualidade dentro do grupo através da competição saudável, desenvolvimento da atitude musical e social e maior envolvimento com o repertório foram percebidos.