4 MULIGE MOTREGNINGSGRUNNLAG NÅR GJENSIDIGHET IKKE
4.1 Kan (og bør) selskaper i et konsern identifiseres i relasjon til gjensidighetsvilkåret? 13
4.1.4 Unntak fra hovedregelen?
Podemos perceber como o catolicismo é importante no contexto histórico brasileiro na formação de seu imaginário social e construção dessa mesma realidade. Falo em construção da realidade da maneira como escreveu Berger (1985, p. 36) quando diz:
O mundo da vida cotidiana não somente é tomado como uma realidade certa pelos membros ordinários da sociedade na conduta subjetivamente dotada de sentido que imprimem a suas vidas, mas é um mundo que se origina no pensamento e na ação dos homens comuns, sendo afirmado como real por eles.
O mundo configurado pelo caráter humano é aquele que podemos perceber, conceber, creditar ou se fazer crido pelas ações desse mesmo “humano real”, que constrói seu caráter social no meio em que habita e suas realidades integrantes e concatenantes. Dessa forma, como é entendido por Berger no texto supracitado, não apenas essa “realidade certa” encontrada, mas a realidade social, ou, como posso acrescentar sociocultural, não apenas é criado pelo conjunto de pensamentos e atos de seus membros, mas também impresso, uma vez aceito por eles, e sustentado socialmente como realidade conjunta. Isso é o que forma, o que pode ser entendido como civilização, sociedade e cultura.
Criado pelo humano é o conjunto de mundo com suas identidades e traços culturais que formam as suas civilizações. Luís da Câmara Cascudo (2004, p. 46) diz que “para compreender o fenômeno total da civilização é preciso atender que o todo civilizador é maior que a soma das partes culturais”. Ou seja, cultura são componentes, ou partes de uma civilização. A civilização, segundo Cascudo, é “uma força de gravidade unificando sem fundir as unidades socioculturais” (2004, p. 49). Mas para que possamos compreender melhor o nosso mundo “social sensório humano” que perfaz essa parte do todo civilizatório que se chama cultura clareamos esse entendimento de cultura com Malinowski (1970, p. 43):
Os problemas apresentados pelas necessidades nutritivas, reprodutivas e higiênicas do homem devem ser resolvidos. Eles são solucionados pela construção de um novo ambiente, secundário ou artificial. Esse ambiente, que não é mais nem menos do que a cultura propriamente dita, tem de ser permanentemente reproduzido, mantido e administrado. Isto cria o que podia ser descrito, no sentido mais amplo da expressão, como um novo padrão de vida, que depende do nível cultural da comunidade, do ambiente e da eficiência do grupo. Um padrão de vida cultural, contudo, significa que novas necessidades se impõem e novos imperativos ou determinantes são
inculcados ao comportamento humano. A tradição cultural, é claro, tem de ser transmitida de cada geração para a geração seguinte.
A cultura como diz Malinowski é o padrão de vida, que, por sua vez, é dependente do nível desse mesmo padrão e de sua eficiência como comunidade. E são agregadores, uma vez que são construtores culturais de sua identidade comportamental. Ele acrescenta ainda que a tradição cultural tem de ser transmitida de geração a geração. E que esse poder de transmissão é inerente ao processo civilizatório. Contudo, Cascudo (2004) acrescenta que, mesmo essa transmissão entre civilizações diferentes em que a civilização dominante transmite seus traços culturais, a receptora desses traços não adota por completo tal cultura, mas a transforma e a modifica com características próprias, criando outra cultura distinta ainda que mantenha traços estrangeiros. As culturas perfazem os costumes, o êthos de um povo. A cultura é o que pode ser transmitido de uma civilização a outra, sem que a civilização de onde se origine se inclua na herdada. Como explica Cascudo (2004, p. 46):
O que se transmite é a cultura. Difunde-se pela imigração, imitação, irradiação. Uma técnica agrária, um sistema administrativo, um maquinário de trabalho, uma cerimônia oficial, ritmo de dança, linha melódica, estilo escultório ou arquitetônico, pode comunicar-se de país a país, próximo ou longínquo, sem que nele se inclua a civilização originária que o produziu.
Nesse entendimento de Cascudo, as crenças e costumes rituais são transmitidos de um país a outro, mas transformados e reconfigurados com as características locais. Processo esse sofrido pelo catolicismo português, que chegou às terras brasileiras, cingido e transformado pelas dinâmicas do processo civilizador ocorrido na Europa, que por sua vez absorveu culturas locais e se transformou. As terras brasileiras nativas sofreram a mesma dinâmica de transmissão, assimilação e aculturação, investida pelo catolicismo, mas sem deixar que essa aculturação de povos estranhos subvertesse por completo o seu êthos, criando, com isso, distinções e características culturais próprias (SOUZA, 1986).
Um plano menor de observação desse fenômeno pode ser acompanhado entre o meio rural e o urbano ou a metrópole e o vilarejo rural. Há diferenças significativas entre as partes citadas, seus costumes e crenças, e sua matriz religiosa, apesar de ser a mesma, toma contornos distintivos. O catolicismo, por exemplo, da capital e o do interior, o da zona rural. Sobre isso Eliade (1992, p. 80) contribui conosco com sua abordagem sobre os cristãos da cidade e do interior da Europa:
É preciso, porém, reconhecer que a religiosidade deles não se reduz as formas do cristianismo, que conserva ainda uma estrutura cósmica quase inteiramente perdida na experiência dos cristãos das cidades. Pode-se falar de uni cristianismo primordial, a-histórico; ao se cristianizarem, os agricultores europeus integraram a sua nova fé a religião cósmica que conservavam desde a pré-história.
Esse caráter conservador da religião cósmica a que Eliade se refere é aquele em que o homem religioso concebe o mundo como uma criação dos deuses, e por ser uma criação dos deuses o mundo está impregnado de sacralidade, pode ser observado também no mundo rural na Paraíba e no Brasil.
Além desse “cristianismo histórico” do universo rural a que Eliade se refere como uma distinção importante da religiosidade da cidade, também a paisagem bucólica, campestre, a proximidade com a natureza e as matas que proporcionam momentos de encantamentos e de contemplação - “[...] a natureza apresenta ainda um „encanto‟, um „mistério‟, uma „majestade‟, onde se podem decifrar os traços dos antigos valores religiosos” (ELIADE, 1992, p. 75) -, tudo isso faz com que as vidas e as expressões culturais do povo rural sejam diferentes da população urbana, que é cheia de facilidades tecnológicas, vida turbulenta, vias congestionadas de veículos e atividades estressantes do cotidiano.
As tradições católicas sem precedentes moldaram os costumes e a própria cultura do povo brasileiro, onde a existência da igreja era imprescindível. Tanto que na geografia das cidades pode-se perceber logo, no lugar mais alto, uma igreja17. É como se o catolicismo fosse a principal marca espiritual do povo brasileiro. “Cada cidade brasileira possui uma igreja, e esta é, geralmente, o principal monumento localizado na praça central” (VITARELLI, 2001, p. 20) Essa centralização do religioso nas cidades e povoados tanto em suas construções arquitetônicas quanto em suas crenças cotidianas, influenciou significativamente a cultura popular, sobretudo no mundo sertanejo rural, fortalecendo a religiosidade popular do catolicismo.
O termo “catolicismo popular” deve ser utilizado com certa cautela, devido às riquezas culturais diversificadas e próprias de cada lugar. Devido a isso, concordamos com Paulo Guenter Suess quando diz: “Também o compósito „catolicismo popular‟ serve como rótulo para conteúdos muito diferentes, de modo que sempre se deveria falar no plural de catolicismos populares.” (SUESS, 1979, p. 30). Isso porque existe uma diversidade de práticas católicas, cujas distinções mudam tanto quanto a própria vida cultural de cada povo. Tendo em vista essa realidade, percebemos que o termo catolicismo popular não é algo
17 Sobre a importância da arquitetura das igrejas, remeto o leitor ao livro: ABUMANSSUR, Edin Sued. As Moradas de Deus: arquitetura de igrejas protestantes e pentecostais. São Paulo: Novo Século, 2004.
simples de ser apreendido. Contudo, podemos observá-lo e estudá-lo em suas várias manifestações.
Nas manifestações e configurações católicas, respaldadas nos costumes do cotidiano e do próprio pensar social, está presente uma oposição de valores oficiais e extraoficiais. O valor extraoficial gerado é o que conhecemos como catolicismo popular. Nesse tipo de catolicismo o povo fiel tem maior liberdade devocional como bem coloca Riolando Azzi (1977, p. 45):
É nesse tipo de catolicismo que o povo encontra maior liberdade de expressar sua devoção, e maiores possibilidades de participação do culto religioso. Essa fé popular, que tem seu centro nas devoções aos santos, se manifesta essencialmente nas procissões, nas romarias, nas promessas e ex-votos.
Para Leonardo Boff (1982, p. 142): “Popular é o que não é oficial nem pertence às elites que detêm a gestão do católico. Catolicismo popular é uma encarnação diversa daquela oficial romana, dentro de um universo simbólico e de uma linguagem e gramática diferentes [...]”.
Waldo Cesar (1976) seguindo o mesmo caminho de Marcel Mauss chama atenção para esse mesmo entendimento, destacado em nossos estudos, que se deve dar importância ao caráter ou ideia de oposição entre o que é oficial e o que não é. O enfoque político que envolve essa dinâmica de oposições está presente em todas as religiões. Cesar (1976, p. 12) diz:
As oposições/relações têm lugar destacado no que se refere aos níveis popular e oficial. Como um enfoque mais de ordem política, o popular e o oficial têm se manifestado no desenvolvimento praticamente de todas as religiões. A organização e o aparelho do poder da religião oficial têm uma função política que se choca e se contrasta com a natureza espontânea e simples dos grupos religiosos populares. No seio dessas relações opostas de valores ou de comportamentos sociais, elencamos o estudo do catolicismo popular rural com seus caracteres diversificados para melhor podermos entender. Camargo (1973) distingue o catolicismo rural como pertencendo a um dos dois tipos de catolicismo tradicional brasileiro, o outro tipo seria o tradicional urbano. Cada qual com suas características próprias, mas apresentando o elemento tradicional em ambos. Camargo (1973, p. 55) assim se refere ao catolicismo tradicional rural:
No tipo tradicional rural de religião, observa-se escassez de liderança formal, pois os padres, muitas vezes responsáveis por grandes paróquias, visitam apenas periodicamente as localidades mais afastadas. Na falta de membros da hierarquia
eclesiástica, a liderança religiosa local é assumida por leigos – “rezadores” e “rezadoras” – que organizam rezas, novenas, terços. A estas práticas religiosas, sobretudo sob a responsabilidade feminina, somam-se ainda as ligadas a recomendação dos mortos e aos moribundos. Tal situação facilita a emergência de liderança leiga de tipo carismático, a qual não gera, via de regra, o aparecimento de conflitos com o clero. [...] Observa-se ainda, em correlação com a irregularidade de permanência do clero nas comunidades rurais, que as práticas religiosas tendem a enfatizar aspectos não sacramentais e de menor significado litúrgico.
Diante disso, podemos perceber como o catolicismo, em especial o catolicismo popular do meio rural, é importante para a compreensão do contexto histórico do Nordeste brasileiro e a formação de seu imaginário social e religioso, e como se configura numa face distinta do catolicismo oficial.
Em Os Sertões, de Euclides da Cunha (2010, p. 143) podemos perceber como o autor descreve o caráter religioso do sertanejo nessa passagem:
O círculo estreito da atividade remorou-lhe o aperfeiçoamento psíquico. Está na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano. É o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas. Uma análise destas revelaria a fusão de estádios emocionais distintos.
Apesar da disposição explicitamente deflagrada nas palavras do escritor, de um posicionamento evolucionista cultural positivista, quando diz palavras como “aperfeiçoamento psíquico”, “misticismo extravagante”, a descrição do perfil e do éthos do sertanejo, sobretudo de sua religiosidade, é de grande importância para entendermos o que ainda resta dessa herança no mudo rural moderno. Ao falar que o sertanejo é “homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo”, podemos observar que nesta frase há uma descrição notável de um perfil, sobretudo religioso, de uma etnicidade e comportamento que ainda pode ser encontrado em alguns rincões do mundo rural do Nordeste. Quando ele fala: “A sua religião é, como ele – mestiça” (2010, p. 143), ele está falando das características híbridas de uma religiosidade popular sertaneja que também ainda pode ser verificada, mesmo que precária, no universo rural.
A seguir, abordaremos sobre essa construção da identidade religiosa sertaneja e seus perfis no mundo moderno.