• No results found

O turismo é uma atividade que envolve lazer, comércio, vendas, consumo e toda uma gama de atividades que só esse segmento pode proporcionar. Mas, quando todas essas atividades se juntam ao elemento religioso, um leque de complexidades e estruturação se abre para experiências múltiplas somando a outros elementos significativos do campo religioso como peregrinação, romarias, penitentes e pagadores de promessas. O turismo religioso é um fenômeno popular onde a religiosidade somada às festas, ao lazer e ao comércio já são partes intrínsecas desse fenômeno, como bem observa Edin Sued Abumanssur (2003, p. 65): “[...] para as chamadas „classes populares‟, a religião, o consumo e o lazer fazem parte de uma única e mesma realidade”. Ou seja, a realidade do universo religioso popular que na modernidade das tecnologias midiáticas expande-se em todas as direções e camadas sociais. Nesse processo velhas significações encontram novas roupagens significantes de realidades onde a fé é o elemento de importância. Como é bem exposto por Oliveira (2004, p.14) nesta passagem:

Com fé pode-se ir muito além das montanhas, planícies, campos e desertos. A fé nos conduz à busca do tempo-espaço ilimitado, daí a identificação desse ilimitado dentro dos limites especiais (aparentes) de uma imagem santa, de um templo, de um santuário. Não é à toa – e nem por mera curiosidade – que o turismo vai manter e recriar velhos equipamentos eclesiais em uma nova roupagem de visitação.

Os velhos equipamentos eclesiais a que Oliveira se refere, podem ser entendidos não apenas como patrimônios culturais religiosos antigos que no campo turístico se revestem das novas roupagens das práticas modernas. Podemos acrescentar a esse entendimento o fenômeno da modernidade social e antropológica das instituições religiosas.

O que podemos testemunhar notadamente no mundo atual, em relação ao turismo religioso, é que este é uma atividade moderna em que o elemento sagrado entra em um universo secular de atuação, e o religioso extrapola os seus limites de atuação além de seus templos criando redes de relações externas construídas pelas configurações do mundo moderno e suas práticas neoliberais de exploração econômica, em que a tradição religiosa atua como um elemento motivacional de atração turística servindo por sua vez à atividade

comercial. Essa sobreposição das dimensões das práticas de fé religiosa pela própria atividade turística em si que se refere Andrade (2004, p. 79):

Meca, Benarés, Jerusalém, Belém, Roma, Lourdes, Fátima, Aparecida do Norte, Juazeiro, Lujan, Assis, Pirapora do Bom Jesus, e muitos outros lugares, marcados por devoções oficiais ou populares de religiões, são núcleos receptores importantes em termos da fé e, consequentemente, em termos de turismo, cujas dimensões – pela propaganda e pelo marketing – superam as manifestações da fé e as próprias motivações religiosas.

Atualmente a religião se apresenta diante do fenômeno turístico moderno como parecendo invadida, ou, pelo menos quando o fenômeno é contemplado através do olhar peculiar das atividades comerciais de exploração e investimentos na máquina capitalista na atividade turística de receptivos religiosos. Contudo, no que diz respeito ao seu aspecto histórico e cultural, foram atividades religiosas que forneceram uma pré-organização, por assim dizer, de roteiros e estruturas para a atividade de fiéis em peregrinação em locais sagrados, como nos fala Andrade (2009, p. 79):

Nos séculos III e IV da era cristã, os fiéis começaram a cultivar o hábito de viagens de caráter religioso a eremitérios, mosteiros e conventos da Síria, do Egito e de Belém, a fim de encontrar-se com os “servos de Deus”, para pedir-lhes conselhos, orações, bênçãos e curas. [...] Há registro de um roteiro datado de ano de 333, com itinerário bem detalhado para as viagens de devotos e fiéis que partiam de Bordéus, na França, rumo a Jerusalém. Suas indicações assemelham-se às utilizadas nos modernos roteiros técnicos.

A peregrinação é um fator de considerável importância no desenrolar da sistematização de roteiros e itinerários de viagens religiosas, como a concebemos presentemente nos roteiros técnicos do turismo moderno. O interessante é que essas peregrinações não apenas tinham um teor de estrita devoção, sacrifício e contemplação religiosa, mas também de cultura e prazer. Sobre a importância das peregrinações religiosas Urry (2001, p. 19) reforça o nosso argumento:

Nos séculos XII e XIV as peregrinações se haviam tornado um amplo fenômeno, „praticável e sistematizado, servido por uma indústria crescente de redes de hospedarias para viajantes, mantidas por religiosos, e por manuais de indulgência, produzidos em massa' (FEIFER, 1985:29). Essas peregrinações incluíam frequentemente uma mescla de devoções religiosas, cultura e prazer. No século XV havia excursões organizadas, que iam de Veneza à Terra Santa.

Como podemos observar nas palavras de Urry, o turismo possui relações históricas flagrantes com a religiosidade e os comportamentos culturais de pessoas religiosas. Nesse

contexto de viagens de peregrinações, romarias, penitências ou reparações, especialmente, quando precedido da palavra “viagem”, essas designações são considerados como “especificações técnicas” ou “subtipos do turismo religioso”, para fins de calendários, trabalhos promocionais e sistematização do turismo (ANDRADE, 2004, p. 78). Assim, as atividades de peregrinações, romarias, penitências, de pagar promessas são “elementos primitivos”, por assim dizer, do turismo religioso, mesmo antes das práticas do pensamento empreendedor do capitalismo neoliberal que caracterizam o fazer turismo moderno. No que diz respeito ao Brasil, o turismo religioso possui peculiaridades culturais notáveis no âmbito de vocações culturais e regionais.

O turismo religioso do Nordeste apresenta peculiaridades bastante significativas, como no caso de Juazeiro do Norte no Ceará e Guarabira no Brejo Paraibano. A primeira, marcada por uma religiosidade devocional intensamente típica ao lugar tendo como ícone devocional a figura do Padre Cícero Romão Batista, “um santo filho da terra”. A segunda, igualmente marcada por uma religiosidade intensa com padrões religiosos idênticos aos devotos do Padre Cícero, mas que nasce de uma configuração um pouco diferente. O seu ícone de devoção, Frei Damião, não é um filho da terra, mas um estrangeiro.

É justamente nesse ponto que encontramos a característica mais marcante desse importante ícone religioso nordestino, o “ato de se fazer nordestino”, se é que isso é possível dizer, pelo menos em moldes práticos. Mas, quando digo “se fazer nordestino”, me refiro ao ato de se revestir das roupagens culturais, folclóricas e míticas de tal povo e sua região - aspectos estes que iremos analisar no capítulo que se aproxima. Revestindo-se, também, da missão iconográfica de santos precedentes do Nordeste como se fosse “uma linhagem sagrada nordestina”, que percorre três padres, ícones religiosos nordestinos.

Padre Ibiapina, Cícero Romão Batista, chegando a Frei Damião de Bozzano como o último da linhagem de padres que vestiram “a túnica da santidade popular nordestina”. Sacerdotes que viveram e atuaram em solo árido, rústico e sofrido. Mas, resistentes às intempéries e às vicissitudes do tempo, assim como os próprios filhos da terra o são. Além de herdarem as características da terra-mãe, são extremamente devocionais.

Cada um destes ícones que usaram, ou melhor, usam porque foram imortalizados pelas vestimentas sagradas da fé, “as túnicas da santidade popular nordestina”, possuem suas especificidades e missões ideológicas diferentes, mas revestidos com as roupagens da cultura e das problemáticas nordestinas, viveram e morreram em prol de suas crenças e ideologias. Toda essa tradição cultural religiosa e devocional do povo nordestino pode ser encontrada no

Santuário de Frei Damião, em que esses elementos por si mesmos são a principal vocação deste centro religioso turístico.